{"id":5461,"date":"2013-10-13T14:00:38","date_gmt":"2013-10-13T17:00:38","guid":{"rendered":"http:\/\/www.desfavor.com\/blog\/?p=5461"},"modified":"2013-10-13T06:11:06","modified_gmt":"2013-10-13T09:11:06","slug":"desfavor-convidado-kitsune-chenson","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/2013\/10\/desfavor-convidado-kitsune-chenson\/","title":{"rendered":"Desfavor Convidado: Kitsune Chenson."},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-5462\" alt=\"desc-desven003\" src=\"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2013\/10\/desc-desven003.jpg\" width=\"599\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2013\/10\/desc-desven003.jpg 599w, https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2013\/10\/desc-desven003-300x150.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 599px) 100vw, 599px\" \/><\/p>\n<blockquote><p><em><strong>Desfavor Convidado<\/strong> \u00e9 a coluna onde os impopulares ganham voz aqui na Rep\u00fablica Impopular. Se voc\u00ea quiser tamb\u00e9m ter seu texto publicado por aqui, basta enviar para <a href=\"mailto:desfavor@desfavor.com\">desfavor@desfavor.com<\/a>.<\/em><br \/>\n<em>O Somir se reserva ao direito de implicar com os textos e n\u00e3o public\u00e1-los. Sally promete interceder por voc\u00eas.<\/em><\/p><\/blockquote>\n<p><strong>S\u00e9rie Jornalismo Liter\u00e1rio: Kitsune Chenson.<\/strong><\/p>\n<p>Esque\u00e7am o glamour ou o romantismo que h\u00e1 sobre o jornalismo, pois ao contr\u00e1rio do que se mostra nos filmes, normalmente o jornalista ganha mal, trabalha muito e nem sempre possui aux\u00edlio t\u00e9cnico do jornal onde trabalha. Trabalhar na \u00e1rea jornal\u00edstica nos dias de hoje \u00e9 complicado, ainda mais com a internet falindo grandes meios de comunica\u00e7\u00e3o. Por isso, muitos profissionais acabaram debandando para trabalhos menos bem vistos pelos colegas de comunica\u00e7\u00e3o. Um desses trabalhos ingl\u00f3rios \u00e9 o de Ghost-Writer, onde o escritor oferece seu dom liter\u00e1rio para pessoas que n\u00e3o possuem tanta habilidade com a escrita.<!--more--><\/p>\n<p>Apesar de ser bem remunerado, o &#8220;escritor fantasma&#8221; (tradu\u00e7\u00e3o do nome em ingl\u00eas) normalmente abre m\u00e3o de seus direitos autorais e ou de ter seu nome publicado na capa do livro. Como jornalista \u00e9 um ser narcisista, esses simples fatos transformam o trabalho de Ghost-Writer motivo de chacota aqui no Brasil (mas \u00e9 muito respeitado em outros pa\u00edses). Com as dificuldades financeiras atuais esse pensamento est\u00e1 mudando, j\u00e1 que cada vez mais jornalistas s\u00e3o obrigados a sambar conforme a m\u00fasica, mas \u00e9 muito triste ter que escrever a biografia de subcelebridades e ver o nome delas na capa e n\u00e3o o do verdadeiro escritor.<\/p>\n<p>No Brasil, Francisco Gomes da Silva, o Chala\u00e7a, foi Ghost-Writer de D. Pedro I, e a ex-prostituta Bruna Surfistinha serviu-se da escrita de Jorge Tarquino para a formata\u00e7\u00e3o do best-seller &#8220;O Doce Veneno do Escorpi\u00e3o &#8211; O Di\u00e1rio de uma Garota de Programa&#8221;. J\u00e1 eu servirei de Ghost-Writer da minha esposa Kitsune Chenson, que possui uma linda hist\u00f3ria de supera\u00e7\u00e3o e f\u00e9 em Deus. Tenho muito orgulho dela ter me escolhido como seu companheiro na vida e agora como seu escritor fantasma. Espero que gostem.<\/p>\n<h2 style=\"text-align: center;\">III<\/h2>\n<p>Foi num s\u00e1bado que o nosso fusca novo chegou, mas logo reparamos na cor amarronzada que ele possu\u00eda. &#8220;Parece cor de bosta&#8221;, comentei, mas mesmo assim eu estava muito feliz com a nova aquisi\u00e7\u00e3o. Na \u00e9poca mor\u00e1vamos em Sousas, um distrito de Campinas e o carro ajudaria bastante no nosso dia a dia.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, outro fator fez com que meu pai comprasse aquele carro: era o plano Collor. Com medo de que o banco pegasse suas economias, ele tratou de comprar o autom\u00f3vel, um luxo que poucas pessoas podiam ter naquela \u00e9poca.<\/p>\n<p>Naquele dia minha tia passou em casa e pegamos um \u00f4nibus para a casa da minha av\u00f3, que naquela \u00e9poca morava em Hortol\u00e2ndia. Durante a ida, pedi para passar embaixo da roleta: \u201cPode passar, com o carro novo que voc\u00eas compraram, pode ser que essa seja a \u00faltima vez que voc\u00ea anda de \u00f4nibus mesmo\u201d. Mal sabia ela o poder que aquelas palavras tinham sobre o meu destino.<\/p>\n<p>Chegando na casa da vov\u00f3, os mais velhos ficaram conversando na sala, j\u00e1 eu aproveitei para brincar com minha irm\u00e3, mas ela ainda era muito novinha para me acompanhar nas brincadeiras. Ent\u00e3o fiquei correndo no quintal e ca\u00ed, ralando o meu joelho. Parei de correr e fiquei amuada em um cantinho, mas sem chorar. Fiquei assim at\u00e9 irmos embora.<\/p>\n<p>Voltamos para casa e eu j\u00e1 tinha me esquecido do pequeno acidente quando meu pai quis dar uma volta com o carro e l\u00e1 vamos n\u00f3s novamente. Naquele dia havia muito tr\u00e2nsito na pista que liga Sousas at\u00e9 Campinas, o que for\u00e7ou meu pai seguir por um longo caminho antes que pudesse fazer um retorno.<\/p>\n<p>Quando volt\u00e1vamos, algo aconteceu. Meu pai descia com o carro na banguela e um movimento em falso, uma distra\u00e7\u00e3o, n\u00e3o sei, fez ele perder o controle do carro e acabamos capotando. Nada aconteceu com minha fam\u00edlia, mas eu fui arremessada do carro e bati com a cabe\u00e7a no meio da pista. A partir deste momento fiquei inconsciente, mas me falaram depois que minha irm\u00e3 ficava gritando &#8220;Tata! Tata!&#8221; enquanto as pessoas tentavam me socorrer.<\/p>\n<p>Fui encaminhada para o M\u00e1rio Gatti, um hospital especializado em traumas e atendimento de emerg\u00eancia, mas eles n\u00e3o puderam me ajudar. Ent\u00e3o me reencaminharam para a Casa de Sa\u00fade para tirar Raio X, mas comecei a ter uma parada respirat\u00f3ria e eles acharam melhor esperar antes de fazer novos exames, pois naquele momento os m\u00e9dicos achavam que eu ia morrer.<\/p>\n<p>Fiquei em coma por cinco dias e nesse per\u00edodo os m\u00e9dicos detectaram uma les\u00e3o na minha coluna. Para amenizar a les\u00e3o, eles retiraram uma parte do osso da minha perna e fizeram um enxerto na minha coluna, colocaram tamb\u00e9m uma haste para segur\u00e1-la reta e engessaram todo o meu tronco. Um erro que resultaria na minha primeira escara, uma ferida que afeta a parte interna da pele e pode atingir m\u00fasculos, articula\u00e7\u00f5es e ossos, causando necrose. Se n\u00e3o for tratada adequadamente, a escara pode matar por infec\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Quando voltei do coma, me senti perdida no meio daquele monte de equipamentos de UTI. Eu n\u00e3o sabia onde estava e nem o que tinha acontecido. Para piorar, ningu\u00e9m da minha fam\u00edlia estava ali para me ajudar. Comecei a observar ao meu redor e tinha um mo\u00e7o do meu lado que estava tendo um piripaque. As enfermeiras tentaram reanim\u00e1-lo, mas ele acabou morrendo.<\/p>\n<p>O tempo l\u00e1 parecia que n\u00e3o passava, as noites eram longas e s\u00f3 de vez em quando aparecia algu\u00e9m para medir meus sinais vitais. Quando tentavam falar comigo, eu n\u00e3o conseguia responder, pois estava ainda muito fraca. Com o tempo comecei a tentar mexer minha m\u00e3o, meu p\u00e9, mas ainda n\u00e3o tinha no\u00e7\u00e3o do que tinha acontecido. Na minha cabe\u00e7a eu estava ali por causa de uma crise de bronquite.<\/p>\n<p>No dia seguinte meus pais foram me visitar, mas eles n\u00e3o podiam entrar na UTI, ent\u00e3o s\u00f3 pude v\u00ea-los atrav\u00e9s de uma porta. Meu pai acenou para mim e tentei corresponder, mas mal consegui levantar meu bra\u00e7o. Eles foram embora e depois de um tempo chegou uma m\u00e9dica. Ela se apresentou e era muito bonita, bem arrumada e cheirosa. Ela me disse que logo sairia dali e iria para um leito.<\/p>\n<p>Os dias foram passando e eu continuava tocando meu corpo. Foi quando percebi que meu tronco estava engessado e que eu n\u00e3o podia sentir minhas pernas. Perguntei para a Dra o que tinha acontecido e ela me respondeu que eu havia sofrido um acidente e que estava ali em observa\u00e7\u00e3o para me recuperar.<\/p>\n<p>Minha irm\u00e3 tamb\u00e9m estava internada e ela n\u00e3o parava de me chamar, chamou tanto que os m\u00e9dicos tiveram que levar ela at\u00e9 mim. Ela tamb\u00e9m tinha batido a cabe\u00e7a e feito um machucado no rosto, mas nada de grave havia acontecido com ela. Quando ela me viu, ficou mais aliviada por saber que eu estava viva.<\/p>\n<p>Depois de nove dias na UTI fui encaminhada para o quarto e tive que fazer v\u00e1rios exames, transfus\u00f5es de sangue e finalmente comecei a receber visitas das pessoas que queriam me ver. Descobri que no meu bairro haviam feito uma corrente de ora\u00e7\u00e3o e todo mundo que me visitava acabava levando algum presente para passar o tempo.<\/p>\n<p>Eu ficava dizendo que ia sair daquele hospital dan\u00e7ando alegre e contente, mas a minha tia, aquela mesma que havia me levado de \u00f4nibus para a casa da minha av\u00f3, me falou: \u201cVoc\u00ea sofreu um grave acidente e ainda est\u00e1 em observa\u00e7\u00e3o, por isso pode ser ainda que demore um pouco para voc\u00ea voltar a andar\u201d. Naquela hora dei de ombros, afinal de contas estava viva e conversando com as pessoas que eu gostava.<\/p>\n<p>Depois de duas semanas no hospital, finalmente voltei para casa e continuei recebendo v\u00e1rias visitas. As opini\u00f5es dos visitantes sobre minha condi\u00e7\u00e3o se dividiam em duas principais linhas de racioc\u00ednio: &#8220;For\u00e7a, voc\u00ea vai superar isso&#8221; ou &#8220;Voc\u00ea nunca mais ser\u00e1 uma pessoa normal novamente&#8221;.<\/p>\n<p>Essas duas formas de pensar me fizeram refletir: Ou eu aceitava aquele acidente como um golpe do destino e simplesmente baixava a cabe\u00e7a para a vida ou me adaptava aquela nova condi\u00e7\u00e3o f\u00edsica e mostrava para as pessoas que eu n\u00e3o havia me tornado uma inv\u00e1lida.<\/p>\n<p>Se estou aqui, firme e forte at\u00e9 os dias de hoje, \u00e9 por que preferi me adaptar e evoluir. Continuei estudando, consegui um bom emprego e hoje tenho minha fam\u00edlia gra\u00e7as a minha for\u00e7a de vontade. \u00c9 engra\u00e7ado lembrar quantas pessoas me olharam nesse meio tempo e pensaram que eu sou um vaso fr\u00e1gil por ser cadeirante, mas quem passa pelo que eu passei sabe que vaso ruim n\u00e3o quebra.<\/p>\n<p>A maior li\u00e7\u00e3o que eu tirei do acidente foi que grande parte das pessoas n\u00e3o querem ser tratadas como coitadas, mas sim com respeito, independente de sua condi\u00e7\u00e3o f\u00edsica, financeira, religiosa, amorosa, etc. Digo isso porque hoje em dia as pessoas possuem consci\u00eancia das dificuldades que um deficiente possui, mas mesmo assim elas simplesmente n\u00e3o se importam com isso.<\/p>\n<p>Perdi a conta de quantas vezes vi pessoas estacionarem em vaga de cadeirante sem necessidade ou por pura pregui\u00e7a de andar alguns metros a mais. Quando vejo cenas assim, me lembro de um texto que li onde o autor falava que o dif\u00edcil \u00e9 ser normal, j\u00e1 que todo mundo \u00e9 um deficiente em potencial.<\/p>\n<p>Concordo plenamente com essa ideia, mas a maioria das pessoas acham que est\u00e3o acima de Deus e que coisas assim nunca ir\u00e3o acontecer com elas. Eu posso afirmar que elas est\u00e3o erradas! Uma simples falha no organismo ou um acidente inesperado podem mudar suas vidas para sempre. Por isso, sempre respeitem o pr\u00f3ximo e curtam cada segundo precioso de suas vidas.<\/p>\n<p>Enfim, sempre que tiver vontade, passe embaixo da roleta, pois essa pode ser a \u00faltima vez que voc\u00ea fa\u00e7a isso.<\/p>\n<p><strong>Nota do autor:<\/strong> <em>Conheci a Kitsune pela internet com a ajuda de um amigo meu e aos poucos nossas afinidades foi virando amor. Na verdade, meu maior trunfo durante a conquista foi fazer cantadas sem gra\u00e7a e cantar m\u00fasicas do Wando pra ela.<\/em><\/p>\n<p><em>Nosso primeiro encontro foi no cinema e confesso que eu n\u00e3o sabia absolutamente nada sobre cadeirantes. Fiquei na d\u00favida se devia ajudar a empurrar a cadeira, segur\u00e1-la no colo durante a passagem para a poltrona do cinema e outros pequenos detalhes.<\/em><\/p>\n<p><em>No final das contas, quem conduziu o encontro foi ela e agrade\u00e7o at\u00e9 hoje por isso. Se tudo tivesse ficado sob o meu controle, a ida ao cinema seria um desastre total j\u00e1 que eu sou um estabanado por natureza.<\/em><\/p>\n<p><em><span style=\"color: #ff0000;\"><strong>Chester Chenson<\/strong><\/span><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Desfavor Convidado \u00e9 a coluna onde os impopulares ganham voz aqui na Rep\u00fablica Impopular. 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