{"id":554,"date":"2010-04-13T07:00:00","date_gmt":"2010-04-13T10:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.desfavor.com\/blog\/?p=554"},"modified":"2010-04-13T07:00:00","modified_gmt":"2010-04-13T10:00:00","slug":"somir-surtado-o-futuro-no-passado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/2010\/04\/somir-surtado-o-futuro-no-passado\/","title":{"rendered":"Somir Surtado: O futuro no passado."},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/i363.photobucket.com\/albums\/oo74\/desfavor\/img\/somir_surtado.jpg\" \/><\/p>\n<p><img decoding=\"async\" alt=\"Pegava...\" src=\"http:\/\/i363.photobucket.com\/albums\/oo74\/desfavor\/img\/sosur_futuropassado.jpg\" \/><\/p>\n<div style=\"background-color: red; color: white;\"><b>&nbsp;Escala de nerdice: Retr\u00f3grada.<\/b><\/div>\n<p>Da primeira vez que assisti Metropolis <span style=\"color: #666666;\">(sim, aquele de 1927)<\/span>, ainda era muito novo para reparar em algo a mais do que as atua\u00e7\u00f5es exageradas dos atores do cinema mudo e Maria, <i>\u201ca\u201d<\/i> rob\u00f4 que estampa os p\u00f4steres do filme. Recentemente tive a oportunidade de v\u00ea-lo de novo. Se voc\u00ea tem algum interesse em trabalhar com cinema, design ou alguma dessas viadagens, sugiro que veja tamb\u00e9m, porque \u00e9 uma das obras de arte do cinema. <span style=\"color: #666666;\">(Mesmo que chatinho \u00e0s vezes&#8230;)<\/span><\/p>\n<p>Desta vez, eu j\u00e1 tinha um pouco mais de capacidade de entender a cr\u00edtica social feroz que o filme j\u00e1 fazia na \u00e9poca, com a sociedade dividida fisicamente entre opressores e oprimidos num <i>\u201cfuturo distante\u201d<\/i> <span style=\"color: #666666;\">(que de acordo com algumas vers\u00f5es, seriam os dias atuais)<\/span> e toda aquela mistureba <i>\u201cmanifesto comunista encontra a b\u00edblia\u201d<\/i> que define a hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Mas eu n\u00e3o pretendo falar sobre isso hoje. Afinal, eu transformei minha coluna \u201csurtada\u201d num antro de nerdice e pretendo mant\u00ea-la assim. Sempre que eu vejo um filme antigo de fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, gosto de reparar na forma como se demonstra a suposta tecnologia futurista presente nas cenas. No caso de Metropolis, o diretor decidiu apostar na via da grandiosidade. Uma tecnologia basicamente igual \u00e0 presente na \u00e9poca em propor\u00e7\u00f5es absurdas.<\/p>\n<p>Afinal, o filme foi feito num tempo onde o desafio era tornar as m\u00e1quinas t\u00e3o gigantescas quanto poss\u00edvel. Era de se esperar que o futuro fosse imaginado de forma a conquistar esse objetivo. Vemos cenas onde engrenagens e pist\u00f5es movidos a vapor movem equipamentos t\u00e3o grandes quanto os locais que os abrigam, constantemente vigiados e regulados por trabalhadores praticamente em estado de escravid\u00e3o. Alavancas, roldanas e outros mecanismos de controle mec\u00e2nico completam a identidade visual futurista apresentada ali.<\/p>\n<p>Faltava o conhecimento que criar\u00edamos uma forma mais eficiente de lidar com a parte <i>\u201cengraxada\u201d<\/i> do trabalho. Faltava a no\u00e7\u00e3o de eletr\u00f4nica e computa\u00e7\u00e3o que causaria o fim da revolu\u00e7\u00e3o industrial algumas d\u00e9cadas mais tarde.<span style=\"color: #666666;\"> (Sim, ela acabou. Acordem para o presente e coloquem seus manifestos comunistas na se\u00e7\u00e3o de livros de hist\u00f3ria.)<\/span><\/p>\n<p>Claro que temos tantos outros elementos <i>\u201cmodernos\u201d<\/i> como rob\u00f3tica no filme, mas com a tecnologia apresentada ali, Maria <span style=\"color: #666666;\">(a rob\u00f4, seus desmemoriados)<\/span> parecia mais resultado de m\u00e1gica do que qualquer outra coisa. Para este texto, estou considerando apenas avan\u00e7os plaus\u00edveis de acordo com o cen\u00e1rio geral apresentado. No caso aqui, toda a tecnologia apresentada parecia s\u00f3 funcionar em grandes escalas. Se precisa de uma m\u00e1quina do tamanho de uma sala para n\u00e3o conseguir nem estabilizar sua pr\u00f3pria temperatura e press\u00e3o, n\u00e3o d\u00e1 pra ter um rob\u00f4 em escala humana, que precisaria de micro-manuten\u00e7\u00e3o constante.<\/p>\n<p>Metropolis acena com um futuro onde as tens\u00f5es sociais da \u00e9poca assim como a tecnologia j\u00e1 presente s\u00e3o elevadas \u00e0 \u00faltima pot\u00eancia. O mundo muda tanto, e t\u00e3o r\u00e1pido, que v\u00e1rias previs\u00f5es plaus\u00edveis do filme n\u00e3o s\u00e3o nem sombra da realidade atual. A disparidade incr\u00edvel entre classes sociais \u00e9 uma constante hist\u00f3rica, mas a forma pela qual ela ocorre muda, e muito, de acordo com o avan\u00e7o da tecnologia. Sa\u00edmos de uma previs\u00e3o pessimista sobre sub-empregos para a realidade atual da falta deles. As m\u00e1quinas de Fritz Lang <span style=\"color: #666666;\">(diretor do filme, bandigentesemcustume)<\/span> precisavam de uma <i>\u201cengrenagem humana\u201d<\/i> para funcionar. As nossas de hoje, nem sempre.<\/p>\n<p>Mas mesmo depois que os avan\u00e7os da vida real come\u00e7aram a colocar em xeque a necessidade de trabalhadores girando manivelas e puxando alavancas para manter m\u00e1quinas funcionando, a fic\u00e7\u00e3o continuou a trabalhar com a id\u00e9ia da indispensabilidade da supervis\u00e3o humana. Um dos clich\u00eas mais famosos da \u00e1rea \u00e9 o painel com um zilh\u00e3o de bot\u00f5es coloridos, piscando <span style=\"color: #666666;\">(e sem nenhuma fun\u00e7\u00e3o clara)<\/span>. N\u00e3o era s\u00f3 uma decis\u00e3o est\u00e9tica<span style=\"color: #666666;\"> (duvidosa)<\/span>, era mais uma previs\u00e3o meio furada sobre a fun\u00e7\u00e3o humana em maquin\u00e1rio avan\u00e7ado.<\/p>\n<p>Quando alavancas e manivelas come\u00e7aram a ser controladas por outros mecanismos, come\u00e7ou a era dos bot\u00f5es. O desafio era delegar o m\u00e1ximo poss\u00edvel de tarefas para eles. Fazia sentido imaginar que no futuro ter\u00edamos sucesso nisso e bot\u00f5es estariam em todos os lugares poss\u00edveis.<\/p>\n<p>J\u00e1 temos tecnologia para isso. Mas a tend\u00eancia \u00e9 justamente a oposta. Aquelas paredes cheias de peda\u00e7os de pl\u00e1stico iluminados fazem parte da fic\u00e7\u00e3o antiga. Hoje em dia o que vende \u00e9 tela touch-screen. Fun\u00e7\u00e3o e controle integrados na mesma interface. E o pr\u00f3ximo pulo tecnol\u00f3gico \u00e9 o hologr\u00e1fico \u201ct\u00e1ctil\u201d, onde at\u00e9 mesmo a superf\u00edcie de visualiza\u00e7\u00e3o se torna sup\u00e9rflua.<\/p>\n<p>E quanto aos rob\u00f4s dessa \u00e9poca brega da multiplica\u00e7\u00e3o dos bot\u00f5es? M\u00e1gica, de novo. As tecnologias apresentadas ainda n\u00e3o explicavam a exist\u00eancia de rob\u00f4s imitando o funcionamento da mente humana de forma minimamente satisfat\u00f3ria. Novamente, eles estavam num patamar completamente diferente de todo o resto. Se m\u00e1quinas precisam de bot\u00f5es para TODAS suas fun\u00e7\u00f5es, \u00e9 de se imaginar que ainda n\u00e3o seriam capazes de tomar decis\u00f5es.<\/p>\n<div style=\"color: #666666;\">(P.S.: O que n\u00e3o quer dizer que eu n\u00e3o ache o HAL um dos melhores personagens da hist\u00f3ria do cinema&#8230; Pouca gente acerta a m\u00e3o ao falar de intelig\u00eancia artificial.)<\/div>\n<p>Cheguemos ent\u00e3o ao presente. A mania dos milhares de bot\u00f5es ainda se faz presente em algumas obras de fic\u00e7\u00e3o, mas pelo menos perceberam que fazer um de cada cor era cafona. E com a era da comunica\u00e7\u00e3o <span style=\"color: #666666;\">(alimentada pelos computadores e sat\u00e9lites)<\/span>, o foco \u00e9 grande em m\u00e1quinas substituindo humanos que consideram ineficientes ou perigosos para si mesmos. Quando finalmente sacaram que o futuro n\u00e3o era <i>\u201cnosso\u201d<\/i>, trataram de demonizar a evolu\u00e7\u00e3o da esp\u00e9cie <span style=\"color: #666666;\">(pois \u00e9)<\/span> para tornar as hist\u00f3rias mais apelativas para o grande p\u00fablico.<\/p>\n<p>A intelig\u00eancia artificial \u00e9 um dos assuntos recorrentes nas nossas vis\u00f5es do futuro, mas temos mais um important\u00edssimo: A conquista do espa\u00e7o. E como nossas <i>\u201cesperan\u00e7as\u201d<\/i> enxergam o assunto? Naves tripuladas. O dia em que estivermos navegando pelo universo em busca de novos planetas e civiliza\u00e7\u00f5es sempre aparece como uma tarefa para seres humanos controlando uma m\u00e1quina. Eu sei que seria um p\u00e9 no saco fazer um filme sobre uma miss\u00e3o n\u00e3o tripulada, mas a realidade est\u00e1 a\u00ed para nos dizer que as chances de colocar seres humanos em miss\u00f5es espaciais mais longas que uma viagem \u00e0 Lua s\u00e3o m\u00ednimas.<\/p>\n<p>Quem entende um pouco do assunto j\u00e1 sabe que para colocar numa hist\u00f3ria futura uma viagem interestelar <span style=\"color: #666666;\">(pelo menos tripulada)<\/span>, a \u00fanica forma de ser razoavelmente realista \u00e9 situ\u00e1-la v\u00e1rios s\u00e9culos no futuro. E olhe l\u00e1. Atualmente \u00e9 m\u00e1gica e precisamos vencer algumas barreiras s\u00e9rias para sequer sonhar com isso.<\/p>\n<p>Assim como seria mais correto que as grandes m\u00e1quinas de Metropolis n\u00e3o dependessem de funcion\u00e1rios para funcionar, e assim como seria mais correto que as m\u00e1quinas cheias de bot\u00f5es da fic\u00e7\u00e3o comum n\u00e3o precisassem de tantas decis\u00f5es humanas para funcionar, seria mais correto imaginar o futuro da explora\u00e7\u00e3o espacial feito por intelig\u00eancia artificial.<\/p>\n<p>Mas n\u00f3s queremos as mesmas hist\u00f3rias de sempre <span style=\"color: #666666;\">(amor proibido, vingan\u00e7a, reden\u00e7\u00e3o, bl\u00e1 bl\u00e1 bl\u00e1&#8230;)<\/span> onde n\u00f3s somos os her\u00f3is. Normalmente quando eu digo que fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica me interessa tanto quanto qualquer outro tipo de hist\u00f3ria, colocam em d\u00favida minha nerdice. J\u00e1 cansei de explicar que nerd n\u00e3o combina com escapismo&#8230; Continuo na minha luta para limpar a ficha dos meus <i>\u201csemelhantes\u201d<\/i> e nunca mais ser comparado com algum f\u00e3 incondicional de Guerra nas Estrelas. <span style=\"color: #666666;\">(Que \u00e9 razoavelmente interessante pelas imagens, mas terr\u00edvel pela hist\u00f3ria e tecnologia&#8230;)<\/span><\/p>\n<p>A forma como cada gera\u00e7\u00e3o enxerga o futuro imaginado explica muito sobre a forma de pensar e o alcance do conhecimento humano naquele momento, mas na maioria absoluta dos casos n\u00e3o passa de um exerc\u00edcio de proje\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria import\u00e2ncia no universo. Por que voc\u00eas acham que grande parte das m\u00e1quinas e tecnologias mostradas em filmes futuristas nunca chegam nem perto de virar verdade? Elas nem sentido fazem.<\/p>\n<p>Como eu imagino o futuro?<\/p>\n<p>N\u00f3s seremos as m\u00e1quinas. N\u00e3o porque \u00e9 mais eficiente, mas simplesmente para ter algo o que fazer. Acabando a era da comunica\u00e7\u00e3o, come\u00e7a a da bio-engenharia. S\u00f3 quando pudermos tripular as naves espaciais que teremos vontade de sair deste planeta. Para viver as mesmas hist\u00f3rias que sempre gostamos de viver em outros ambientes.<\/p>\n<p>A tecnologia avan\u00e7a. N\u00f3s, nem tanto.<\/p>\n<p><b><span style=\"color: #666666;\">Para saber que eu atrasei porque meu cachorro comeu meu trabalho, para me chamar de traidor do movimento, ou mesmo para dizer que Metropolis \u00e9 uma merda e eu sou um pretensioso (o que \u00e9 uma meia-verdade):<\/span> <a href=\"mailto:somir@desfavor.com\">somir@desfavor.com<\/a><\/b><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp;Escala de nerdice: Retr\u00f3grada. 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