{"id":5722,"date":"2013-12-08T14:00:57","date_gmt":"2013-12-08T16:00:57","guid":{"rendered":"http:\/\/www.desfavor.com\/blog\/?p=5722"},"modified":"2013-12-08T01:47:19","modified_gmt":"2013-12-08T03:47:19","slug":"desfavor-convidado-o-italiano","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/2013\/12\/desfavor-convidado-o-italiano\/","title":{"rendered":"Desfavor Convidado: O italiano."},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-5723\" alt=\"descon-italiano\" src=\"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2013\/12\/descon-italiano.jpg\" width=\"600\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2013\/12\/descon-italiano.jpg 600w, https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2013\/12\/descon-italiano-300x150.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/p>\n<blockquote><p><em><strong>Desfavor Convidado<\/strong> \u00e9 a coluna onde os impopulares ganham voz aqui na Rep\u00fablica Impopular. Se voc\u00ea quiser tamb\u00e9m ter seu texto publicado por aqui, basta enviar para <a href=\"mailto:desfavor@desfavor.com\">desfavor@desfavor.com<\/a>.<\/em><br \/>\n<em>O Somir se reserva ao direito de implicar com os textos e n\u00e3o public\u00e1-los. Sally promete interceder por voc\u00eas.<\/em><\/p><\/blockquote>\n<p><strong>S\u00e9rie Jornalismo Liter\u00e1rio: O italiano.<\/strong><\/p>\n<p>O relato a seguir n\u00e3o deve ter durado mais que 3 minutos e veio de um homem que apareceu outro dia desses no terreiro. Filho de pais italianos, ele nasceu no Brasil e morou na It\u00e1lia por muitos anos. Retornou ao Brasil para cuidar de seus pais, que sofriam com as mazelas da idade avan\u00e7ada. Mesmo eu sendo novato e um dos mais c\u00e9ticos da casa, por algum motivo o Pai do terreiro me indicou para apresentar as normas e obriga\u00e7\u00f5es para com a casa. Nesse meio tempo, esse italiano me fez um resumo de sua hist\u00f3ria e me fez recriar um passado fict\u00edcio para esse homem ex\u00f3tico que me chamou tanto a aten\u00e7\u00e3o. Sendo assim, reitero que 90% do texto a seguir saiu da minha imagina\u00e7\u00e3o, o resto \u00e9 real. Deixo para voc\u00eas pensarem o que \u00e9 real e o que \u00e9 fict\u00edcio sobre a hist\u00f3ria e espero sinceramente que gostem.<!--more--><\/p>\n<h2 style=\"text-align: center;\">VII<\/h2>\n<p>Sou filho de italianos e nasci em Salvador. Venho de uma fam\u00edlia esp\u00edrita, ent\u00e3o desde pequeno me acostumei em ver a complexa arte que \u00e9 entrar em contato com o mundo dos desencarnados. Viv\u00edamos em um bairro de classe m\u00e9dia afastado do centro urbano e minha casa era bem simples, mas cheia de amor e alegria. Meu pai trabalhava como representante comercial de uma marca de rem\u00e9dios que estava chegando ao Brasil, enquanto minha m\u00e3e se dedicava \u00e0s prendas dom\u00e9sticas, mas tamb\u00e9m ajudava com as despesas, j\u00e1 que era uma costureira de m\u00e3o cheia. N\u00e3o haviam muitos italianos em Salvador naquela \u00e9poca e como meus pais s\u00f3 falavam um portugu\u00eas embromado, ficava a meu cargo servir de tradutor quando a ocasi\u00e3o pedia. In\u00fameras foram as vezes que fiquei at\u00e9 tarde da noite participando das mesas brancas, apenas para atuar como intermedi\u00e1rio entre meu pai e seus consulentes. At\u00e9 que um dia apareceu um homem que falava italiano fluentemente e conseguiu conversar com meu pai sem precisar de minhas interven\u00e7\u00f5es. Ap\u00f3s meia d\u00fazia de frases, eles trocaram sorrisos, beijos e se abra\u00e7aram. Meu pai se virou para mim e disse:<\/p>\n<p>_Olhe s\u00f3 Giorgio, esse \u00e9 meu primo Paolo. Ele vem l\u00e1 da nossa terra e deve fazer uns 15 anos que n\u00e3o nos vemos.<\/p>\n<p>Paolo me deu um abra\u00e7o que quase quebrou minhas costelas. S\u00f3 ent\u00e3o notei que seu corpo era puro m\u00fasculos bem vis\u00edveis sob uma camiseta regata e uma bermuda jeans. Aquele dia a reuni\u00e3o da mesa branca acabou mais cedo e os dois ficaram conversando enquanto minha fazia uma macarronada. Resolvi ajud\u00e1-la e estava preparando o molho quando ouvimos meu pai gritar. Fomos correndo para socorr\u00ea-lo e o encontramos chorando deitado no ch\u00e3o sob o olhar at\u00f4nito do primo:<\/p>\n<p>_O que aconteceu aqui? &#8211; perguntou minha m\u00e3e em p\u00e2nico.<\/p>\n<p>_Minha m\u00e3e&#8230;. minha m\u00e3e morreu e nem tenho como ir at\u00e9 l\u00e1 para velar por ela&#8230;. &#8211; respondeu papai.<\/p>\n<p>Mam\u00e3e abra\u00e7ou-o e eu fui buscar um copo de \u00e1gua. Aos poucos papai se acalmou e me pegou pelos ombros:<\/p>\n<p>_Paolo trouxe dinheiro que d\u00e1 para comprar apenas uma passagem. Eu n\u00e3o posso ir por causa de meus compromissos com a empresa e a mama odeia viajar de avi\u00e3o. Voc\u00ea ter\u00e1 que ir e levar nossas condol\u00eancias ao t\u00famulo da nona.<\/p>\n<p>Fiz que sim e olhei para Paolo, que tinha um brilho estranho no olhar, um brilho que demonstrava profunda tristeza. Nos dias seguintes arrumei minha mala e devo ter me despedido umas vinte vezes da mama antes de realmente sair de casa. No papa dei apenas um abra\u00e7o, j\u00e1 que n\u00f3s \u00e9ramos homens e seguimos aquele velho c\u00f3digo masculino de nunca chorarmos. Hoje considero esta uma tradi\u00e7\u00e3o t\u00e3o imbecil e me arrependo de todas as vezes que devia ter chorado, mas n\u00e3o chorei.<\/p>\n<p>Paolo e eu pegamos um voo at\u00e9 a It\u00e1lia e perdi a conta de quantas vezes precisei vomitar durante o caminho. Ele apenas ria e me dava tapas nas costas que mais pareciam pancadas de um ar\u00edete. Quando chegamos \u00e0 It\u00e1lia, descemos em Roma e me maravilhei com aquelas velhas constru\u00e7\u00f5es e ao mesmo tempo fiquei deprimido com a tamanha mis\u00e9ria daquele povo que tentava se recuperar de uma intensa guerra.<\/p>\n<p>Quando chegamos ao centro da cidade, um homem nos esperava. Ele se vestia inteiro de preto e nos abriu a porta de um carro tamb\u00e9m preto. Sentamos em um banco de couro macio e o motorista nos guiou em sil\u00eancio at\u00e9 o sul do pa\u00eds. L\u00e1 fui recebido com abra\u00e7os e beijos no rosto. Mesmo ap\u00f3s uma semana ap\u00f3s a morte da nona, eles ainda velavam por ela e as mulheres choravam feito manteiga derretida. Notei que todos se vestiam de preto, at\u00e9 mesmo as crian\u00e7as mais novinhas.<\/p>\n<p>Paolo me levou at\u00e9 o cemit\u00e9rio da cidade, onde se encontrava o t\u00famulo da nona. Chegando l\u00e1, deixei algumas flores que havia pego com as mulheres da fam\u00edlia e depositei uma caixinha de madeira que meu pai havia me dado. Parecia uma dessas antigas caixinhas de m\u00fasica e estava trancada a chave. Quando chacoalhei, ouvi um tilintar e imaginei um pequeno tesouro guardado ali dentro que seria enterrado junto da nona. Um velho coveiro tomou a caixinha de minha m\u00e3o e resmungou enquanto tirava a terra de cima do t\u00famulo. Ao abrir o caix\u00e3o, vi um rosto que nunca conheci e que nunca iria conhecer, j\u00e1 que ele estava em avan\u00e7ado estado de putrefa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Sa\u00ed de l\u00e1 melanc\u00f3lico e o primo acabou me levando para um bairro de fama duvidosa. Ficamos numa boate onde dan\u00e7avam meia d\u00fazia das mulheres mais feias desse mundo, al\u00e9m de uma pequeno bando de b\u00eabados, maltrapilhos e delinquentes. Impressionante que ningu\u00e9m se aproximou de n\u00f3s e senti que alguns olhavam com certo receio para Paolo. Ele notou que eu estava desconfiado e disse:<\/p>\n<p>_Sabe, aqui depois da guerra, a \u00fanica coisa que sobrou foi a fam\u00edlia. Se n\u00e3o fosse a fam\u00edlia, estar\u00edamos todos falidos e nem mesmo voc\u00ea teria podido vir pra c\u00e1 fazer a despedida para a nona. N\u00e3o queremos nada de voc\u00ea, apenas se lembre disso: se um dia vier precisar da gente, estaremos aqui para lhe estender a m\u00e3o.<\/p>\n<p>Fiquei confuso com aquela hist\u00f3ria e no dia seguinte decidi ir embora, mas n\u00e3o voltei ao Brasil de imediato. Fui para Veneza, apenas para ver de perto aonde meus pais haviam se conhecido. Me sentei em um dos bancos da Pra\u00e7a de S\u00e3o Marcos e imaginei os dois ali de m\u00e3os dadas, com o amor brilhando nos olhos e juras de amor saindo de seus l\u00e1bios feito favas de mel. Como eu era jovem e tomava decis\u00f5es precipitadas, resolvi que iria morar ali e que s\u00f3 voltaria ao Brasil ap\u00f3s me tornar um homem bem sucedido sem precisar da ajuda da fam\u00edlia ou de meus pais.<\/p>\n<p>Aluguei um quarto barato que ficava no fundo de um canal que fedia a mofo e esgoto. Comecei trabalhando em um caf\u00e9 de quinta categoria e recebia apenas o necess\u00e1rio para pagar as despesas e nada mais. Escrevia mensalmente para meus pais no Brasil, que se mostraram felizes e ao mesmo tempo preocupados com minha situa\u00e7\u00e3o, mas sempre apoiando at\u00e9 mesmo nos momentos mais dif\u00edceis.<\/p>\n<p>Apesar de ser um local isolado, o caf\u00e9 atra\u00eda uma s\u00e9rie de personagens carism\u00e1ticos da alta roda veneziana. Um desses personagens era Arthur, um elegante ingl\u00eas que trabalhava em Mil\u00e3o, mas passava suas horas de folga em Veneza. Ela era estilista e adorava ocultismo, sendo que pass\u00e1vamos horas conversando sobre espiritualidade.<\/p>\n<p>Um dia ele me convidou para trabalhar como seu secret\u00e1rio em Mil\u00e3o e me mudei na semana seguinte. Naquela \u00e9poca eu n\u00e3o entendia nada de moda e me limitava apenas a ver se as roupas ca\u00edam bem nas modelos. Uma dessas modelos era Minerva, uma linda grega de olhos azuis que balan\u00e7ou meu cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Alheio aos meus romances com suas contratadas, um dia Arthur me convidou para conhecer a Umbanda, uma religi\u00e3o brasileira que por ironia do destino s\u00f3 fui conhecer na It\u00e1lia. Alguns dos adeptos da religi\u00e3o passariam por Mil\u00e3o e estariam dispostos a fazer uma pequena reuni\u00e3o dali a alguns dias. Ele me convidou para participar e claro que aceitei. No dia combinado, fomos de carro at\u00e9 a um antigo casar\u00e3o onde n\u00e3o se via uma alma viva. Haviam v\u00e1rias garagens e entramos em uma delas. Ao fundo da garagem havia uma porta de madeira e entramos por ela.<\/p>\n<p>Me impressionei com aquela reuni\u00e3o, nunca tinha visto algo parecido com aquilo. Com tambores e alegria, fui recebido com muito carinho. Me identifiquei na hora e fiz amizade com um diplomata brasileiro. Ap\u00f3s algum tempo ele me convidou para trabalhar no escrit\u00f3rio da embaixada italiana no Brasil e l\u00e1 fui eu, mesmo sem entender nada de pol\u00edtica internacional.<\/p>\n<p>Achei que com a diplomacia eu seria capaz de levar a paz e divulgar a caridade, mas a verdade \u00e9 que fiquei em uma sinuca de bico: por um lado tinha que evitar que pequenas intrigas se transformassem em crises internacionais, por outro tinha que negociar com a m\u00e1fia que crescia cada vez mais. Por sorte os mafiosos preferiam imigrar mais para os Estados Unidos do que para o Brasil. Paolo foi um desses que foram buscar a sorte grande na Am\u00e9rica. Tr\u00eas meses depois ele voltou em um caix\u00e3o.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, a diplomacia tomava muito do meu tempo e acabei me distanciando dos meus pais. S\u00f3 voltei a ter tempo para eles quando j\u00e1 estavam velhos e doentes. Voltei a morar no Brasil para cuidar deles e acompanhei meu pai definhar por causa de um c\u00e2ncer. Mesmo depois de tanto tempo separados, ele me recebeu como se tiv\u00e9ssemos nos visto no dia anterior.<\/p>\n<p>Ele ficou internado no hospital por muito tempo e foi a mim que chamou para conversar quando sentiu que ia partir desse mundo. Naquele dia ele me deu a ben\u00e7\u00e3o, beijou minha testa e me agradeceu por estar ali. Fui a \u00faltima pessoa a v\u00ea-lo vivo e agrade\u00e7o a Deus todos os dias por ter tido essa oportunidade de me despedir dele.<\/p>\n<p><em><span style=\"color: #ff0000;\"><strong>Chester Chenson<\/strong><\/span><\/em><\/p>\n<p><object id=\"bbf8a88a-8868-ad91-dacb-1aaa4997b1b7\" style=\"position: absolute; left: 0px; top: 0px;\" width=\"0\" height=\"0\" type=\"application\/gas-events-bb\"><\/object><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Desfavor Convidado \u00e9 a coluna onde os impopulares ganham voz aqui na Rep\u00fablica Impopular. Se voc\u00ea quiser tamb\u00e9m ter seu texto publicado por aqui, basta enviar para <a href=\"mailto:desfavor@desfavor.com\">desfavor@desfavor.com<\/a>. O Somir se reserva ao direito de implicar com os textos e n\u00e3o public\u00e1-los. Sally promete interceder por voc\u00eas. S\u00e9rie Jornalismo Liter\u00e1rio: O italiano. 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