{"id":5792,"date":"2013-12-22T14:00:17","date_gmt":"2013-12-22T16:00:17","guid":{"rendered":"http:\/\/www.desfavor.com\/blog\/?p=5792"},"modified":"2013-12-22T06:32:32","modified_gmt":"2013-12-22T08:32:32","slug":"desfavor-convidado-vicios","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/2013\/12\/desfavor-convidado-vicios\/","title":{"rendered":"Desfavor Convidado: V\u00edcios."},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-5793\" alt=\"descon-vicios\" src=\"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2013\/12\/descon-vicios.jpg\" width=\"600\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2013\/12\/descon-vicios.jpg 600w, https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2013\/12\/descon-vicios-300x150.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/p>\n<blockquote><p><em><strong>Desfavor Convidado<\/strong> \u00e9 a coluna onde os impopulares ganham voz aqui na Rep\u00fablica Impopular. Se voc\u00ea quiser tamb\u00e9m ter seu texto publicado por aqui, basta enviar para <a href=\"mailto:desfavor@desfavor.com\">desfavor@desfavor.com<\/a>.<\/em><br \/>\n<em>O Somir se reserva ao direito de implicar com os textos e n\u00e3o public\u00e1-los. Sally promete interceder por voc\u00eas.<\/em><\/p><\/blockquote>\n<p><strong>S\u00e9rie Jornalismo Liter\u00e1rio: V\u00edcios.<\/strong><\/p>\n<h2 style=\"text-align: center;\">VIII<\/h2>\n<p>Sou um grande empres\u00e1rio aqui de Campinas e fumo maconha, que dizem ser a porta de entrada das drogas. Como viajo muito e meu trabalho \u00e9 estressante, uso ela apenas para relaxar e tentar fazer minha mente parar de trabalhar por alguns minutos. Dizem que maconha n\u00e3o vicia, que n\u00e3o faz mal por ser natural e coisa e tal. Isso \u00e9 uma mentira, pois hoje fumo maconha feito cigarro e tenho os mesmos problemas que um fumante como falta de ar, problemas arteriais, etc. Sou viciado sim e a maconha nunca me deixou relaxado por completo.<!--more--><\/p>\n<p>Quando eu tinha 15 anos eu fui numa festa de uma amiga minha, que tinha a fama de ser biscate. Eu achava que isso era apenas inveja do pessoal da escola, mas quando cheguei no local da festa, parecia realmente um puteiro. As pessoas se esfregavam seminuas nos quartos e minha maior vontade era sair dali, mas como era adolescente e de mente fraca, acabei ficando. Dois homens se aproximaram de mim e ofereceram uma bebida. Eu nunca havia bebido at\u00e9 ent\u00e3o, mas mesmo assim experimentei. A bebida era um drink bem docinho e bebi v\u00e1rias doses at\u00e9 ficar completamente b\u00eabada. No dia seguinte acordei nua, com dor de cabe\u00e7a e sangramento vaginal fruto de um estupro. Para esquecer a dor voltei a beber e bebi cada vez mais e mais. Hoje n\u00e3o sei qual meu limite de doses em uma noite, s\u00f3 sei que a bebida \u00e9 a \u00fanica coisa que mant\u00e9m viva e sem ela j\u00e1 teria me matado a muito tempo.<\/p>\n<p>Com oito anos de idade fugi de casa por causa do meu pai, que vivia me batendo. Fui morar na rua e andei na companhia de outros meninos que encontrei por a\u00ed. N\u00f3s pass\u00e1vamos o dia a procura de comida e muitas vezes nos aliment\u00e1vamos do lixo mesmo, j\u00e1 que dificilmente algu\u00e9m estendia a m\u00e3o para nos ajudar. Um dia um homem mais velho nos recrutou para um assalto. Ele nos deu armas e dinheiro, ent\u00e3o aceitamos na hora. Naquela tarde, invadimos um postinho de sa\u00fade e roubamos rem\u00e9dios, computadores e tudo o mais que v\u00edamos pela frente. Ao final da a\u00e7\u00e3o, o homem mais velho nos entregou uns papelotes e nos disse para procur\u00e1-lo sempre que precis\u00e1ssemos de um dinheirinho. Nos papelotes havia um p\u00f3 chamado coca\u00edna e cheiramos ele sem titubear. A vontade por mais nos levou de volta ao homem, que sempre nos mandava cometer crimes pela cidade em troca da droga e de um punhado de dinheiro. Como resultado j\u00e1 fui preso v\u00e1rias vezes e at\u00e9 hoje continuo cheirando aquele p\u00f3 m\u00e1gico.<\/p>\n<p>Minha vida mudou com a hero\u00edna. Hero\u00edna, nome engra\u00e7ado para se dar a uma droga. Hero\u00ednas costumam salvar a vida das pessoas, mas essa s\u00f3 trouxe desgra\u00e7a pra mim. Mesmo com um beb\u00ea em casa, eu me injetava diariamente e vivia doidona. Fiquei tanto tempo drogada que at\u00e9 o pai do meu filho me abandonou, mas a gente ia levando. At\u00e9 que uma vez, ao voltar da viagem, fui acudir meu filho que estava chorando. Eu devia ter passado muitas horas sem cuidar dele, j\u00e1 que ele estava cheio de merda e morrendo. Fiquei furiosa, mas mesmo assim troquei sua roupa e o len\u00e7ol da cama. Como n\u00e3o tinha comida em casa, preparei uma dose e injetei no meu beb\u00ea e depois em mim. Achei que aquilo seria uma boa ideia, j\u00e1 que a hero\u00edna sempre saciava a minha fome. Quando o barato terminou, percebi que meu filho havia morrido de overdose nos meus bra\u00e7os.<\/p>\n<p>O meu v\u00edcio podia ser encontrado em qualquer farm\u00e1cia e se chama anfetamina. Eu queria emagrecer, mas tinha muita dificuldade, por isso meu m\u00e9dico me indicou o uso de anfetaminas. Na \u00e9poca n\u00e3o havia muita divulga\u00e7\u00e3o que a utiliza\u00e7\u00e3o do rem\u00e9dio podia viciar, al\u00e9m do mais muitas pessoas divulgavam os benef\u00edcios da anfetamina. Para se ter uma ideia, eu pesava 130 quilos quando comecei a usar a droga, hoje peso cerca de 50. O pior \u00e9 que o efeito da depend\u00eancia \u00e9 lento, ent\u00e3o demorei para perceber que estava ficando viciado. Quando percebi eu mais parecia um cad\u00e1ver ambulante e precisei ficar internado em uma cl\u00ednica. Hoje estou limpo e coisa engra\u00e7ada, quero engordar mas n\u00e3o consigo.<\/p>\n<p>Muita gente me chama de safada, vagabunda ou sem vergonha, mas a verdade \u00e9 que sou viciada em sexo. Minha primeira experi\u00eancia sexual foi aos sete anos, quando enfiei um pepino na vagina. Tive a infelicidade de ser pega pela minha m\u00e3e, que era muita puritana e me deu uma surra de cinta que mais me deu prazer do que doeu. Al\u00e9m disso eu tinha um irm\u00e3o mais velho e vivia pedindo pra ele mostrar seu p\u00eanis, mas ele nunca deixou. Meu primo, em compensa\u00e7\u00e3o se rendeu aos meus pedidos e foi meu primeiro parceiro sexual, quando eu tinha apenas 9 anos e ele 17. Fui ficando velha e a vontade de fazer sexo foi ficando cada vez maior. Na adolesc\u00eancia eu n\u00e3o me aguentava de calor e acabei me prostituindo pois n\u00e3o conseguia ficar sem sexo. S\u00f3 consegui terminar a faculdade porque usei de artimanhas, como colocar um vibrador na calcinha para ver se aliviava a vontade. Um dia cheguei ao extremo de dar pra um cachorro, j\u00e1 que n\u00e3o havia nenhum homem por perto para me comer.<\/p>\n<p>Eu era um homem rico, tinha fam\u00edlia, tinha amigos, mas um dia perdi tudo isso. Come\u00e7ou como um joguinho de bar, onde apost\u00e1vamos moedas e trocados. O carteado era minha prefer\u00eancia e me considerava um mestre do truco e do p\u00f4quer. Ganhei muito dinheiro, mas acabava perdendo a maior parte do que ganhava. Um dia me juntei com alguns s\u00f3cios e resolvemos abrir um bingo. Eu estava t\u00e3o viciado que jogava nas minha pr\u00f3prias m\u00e1quinas, at\u00e9 que um dia surgiu um grupo de jogadores experientes. Eles me desafiaram no p\u00f4quer e eu aceitei a aposta. A aposta era o alvar\u00e1 do bingo, se eu perdesse, ia ter que passar o ponto para eles, mas se ganhasse, levaria como pr\u00eamio uma segunda casa de jogos. Eles acabaram comigo em poucas rodadas e logo perdi minha fonte de renda. Fiz novas apostas e cobri com meu carro, minha casa e chegue a apostar at\u00e9 a minha esposa. Perdi tudo, mas o outro apostador teve a consci\u00eancia de n\u00e3o levar minha mulher embora, deixando-me com a vergonha de contar para ela sobre tudo o que hav\u00edamos perdido.<\/p>\n<p>Eu era um menino exemplar, tirava boas notas na escola e era o xod\u00f3 da fam\u00edlia. Um dia um novo rapaz foi transferido para a minha sala de aula e logo fizemos amizade. Ele andava com pessoas erradas, mas tinha ideias filos\u00f3ficas interessantes. Um dia sa\u00edmos para beber e come\u00e7amos a conversar com duas meninas. Levamos elas para minha casa, pois naquele dia meus pais estavam viajando. J\u00e1 em casa, esse meu amigo tirou um cachimbo do bolso, colocou umas pedras e come\u00e7ou a fumar. As meninas aceitaram e fumaram de boa, mas eu fiquei meio de cara com aquele neg\u00f3cio. Mesmo assim acabei experimentando e n\u00e3o me lembro mais nada daquela noite. S\u00f3 sei que no dia seguinte eu queria mais daquilo e logo minha vida foi ladeira abaixo. De aluno exemplar virei um problema e s\u00f3 dava trabalho para a minha fam\u00edlia. Comecei a viver mais na rua do que em casa e s\u00f3 queria saber de fumar pedra. Um dia eu estava sem dinheiro e fui pra casa ver se arranjava alguma grana. Meu pai me pegou roubando dinheiro de sua carteira e amea\u00e7ou me colocar em uma cl\u00ednica. Fui para a cozinha e peguei uma faca. Voltei para onde estava meu pai e anunciei um assalto. Quase desisti quando vi seu olhar de desgosto, mas o v\u00edcio falou mais alto e dei uma facada nele, apenas para roubar sua carteira. Naquele dia fugi de casa e nunca mais voltei. Depois fiquei sabendo que meu pai se recuperou da facada, mas que nunca mais foi o mesmo. Naquele dia do assalto, de certa forma, ele havia morrido.<\/p>\n<p>\u00c0s vezes eu gostava de pegar minha moto e sair por a\u00ed, sem rumo, sem destino. Eu sabia que n\u00e3o devia dar ouvidos \u00e0s ideias erradas que surgiam na minha mente, mas a tenta\u00e7\u00e3o era forte demais e eu n\u00e3o conseguia resistir. Tinha vezes que eu via elas paradas no ponto de \u00f4nibus e j\u00e1 as imaginava como modelos para a minha arte. Era assim que eu conseguia convenc\u00ea-las, dizendo que eu era um famoso produtor do mundo da moda. A maioria n\u00e3o caia na conversa, mas algumas acreditavam e eu as levava para um lugar bem escondido. L\u00e1 eu colocava minha arte em pr\u00e1tica, pegando-as pelo pesco\u00e7o, for\u00e7ando-as a abrirem as pernas e serem minha modelos, minhas putas. Depois disso eu as matava e s\u00f3 quem sente o sangue escorrendo pelos dedos sabe como o prazer da morte pode viciar. Amor e \u00f3dio s\u00e3o as duas faces da vida e eu sou apenas seu agente. Por isso eu digo: renda-se, pois \u00e9 in\u00fatil resistir. Viva a vida plenamente, aceite suas fraquezas, seus v\u00edcios e apenas renda-se ao prazer da morte. Renda-se e venha at\u00e9 mim que te mostrarei a minha arte.<\/p>\n<p><em><span style=\"color: #ff0000;\"><strong>Chester Chenson<\/strong><\/span><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Desfavor Convidado \u00e9 a coluna onde os impopulares ganham voz aqui na Rep\u00fablica Impopular. Se voc\u00ea quiser tamb\u00e9m ter seu texto publicado por aqui, basta enviar para <a href=\"mailto:desfavor@desfavor.com\">desfavor@desfavor.com<\/a>. O Somir se reserva ao direito de implicar com os textos e n\u00e3o public\u00e1-los. Sally promete interceder por voc\u00eas. S\u00e9rie Jornalismo Liter\u00e1rio: V\u00edcios. 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