{"id":6251,"date":"2014-03-12T05:56:22","date_gmt":"2014-03-12T08:56:22","guid":{"rendered":"http:\/\/www.desfavor.com\/blog\/?p=6251"},"modified":"2014-03-12T05:56:22","modified_gmt":"2014-03-12T08:56:22","slug":"somir-surtado-idas-e-vindas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/2014\/03\/somir-surtado-idas-e-vindas\/","title":{"rendered":"Somir Surtado: Idas e vindas."},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-6252\" alt=\"fd-ovelhas\" src=\"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2014\/03\/fd-ovelhas.jpg\" width=\"600\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2014\/03\/fd-ovelhas.jpg 600w, https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2014\/03\/fd-ovelhas-300x150.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/p>\n<p>A tira que ilustra a coluna de hoje &#8211; do excelente <a href=\"https:\/\/xkcd.com\/\" target=\"_blank\">xkcd<\/a> &#8211; eu j\u00e1 tinha visto h\u00e1 alguns anos. Quando o tema se formando na minha cabe\u00e7a pareceu se encaixar com ela, foi muito f\u00e1cil lembrar os termos exatos para fazer a pesquisa de imagem. Foi algo que ficou na minha cabe\u00e7a at\u00e9 hoje, e por um bom motivo: Doeu. Quando eu a vi pela primeira vez, pegou num nervo exposto. Ainda bem!<!--more--><\/p>\n<p>Por mais que eu goste das tiras do site em quest\u00e3o, n\u00e3o estou aqui tentando encontrar genialidade demais nessa. Seria um truque barato para valorizar o meu pr\u00f3prio passe&#8230; na verdade, apontar a bobagem de achar que tem um olho e vive numa terra de cegos \u00e9 terrivelmente \u00f3bvio. A tira fez uma observa\u00e7\u00e3o bacana, o resto \u00e9 a rea\u00e7\u00e3o de quem n\u00e3o gosta de encarar essa realidade.<\/p>\n<p>Talvez aqui no desfavor tenhamos um p\u00fablico mais sens\u00edvel \u00e0s implica\u00e7\u00f5es da ideia de que provavelmente h\u00e1 menos diferen\u00e7a entre &#8220;n\u00f3s&#8221; e &#8220;eles&#8221; do que gostamos de imaginar, mas pelo visto para a maioria das pessoas o conceito n\u00e3o abre muitas portas na mente. Pudera: n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o complicado assim. Na verdade, boa parte das pessoas que costumamos criticar aqui vivem pela regra que outras pessoas pensam quase que exatamente como elas.<\/p>\n<p>&#8220;Se eu n\u00e3o gosto, ningu\u00e9m deve gostar.&#8221; ou &#8220;Se eu acho certo, deveria ser lei!&#8221;. Ideias perigosas que frequentemente causam abusos e absurdos em nossa sociedade e prov\u00e9m de uma mesma fonte de sabedoria: a de que outras pessoas provavelmente n\u00e3o s\u00e3o t\u00e3o diferentes assim; empatia e tirania como dois caudalosos rios provenientes da mesma nascente.<\/p>\n<p>Mas h\u00e1 uma diferen\u00e7a fundamental: se quem aceita tranquilamente a ideia o faz apenas com uma &#8220;rodada&#8221; de pensamento, quem se d\u00f3i pela perda do auto-imposto status de iluminado adiciona mais uma etapa no processo. Etapa fundamental para limar as farpas da generaliza\u00e7\u00e3o pregui\u00e7osa. Quem reconhece que \u00e9 menos \u00fanico do que imaginava na verdade est\u00e1 se distanciando ainda mais da massa. Est\u00e1 conhecendo o inimigo e aprendendo a usar as ferramentas necess\u00e1rias para derrot\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Cada um chama o inimigo do que bem entender, mas eu o chamo de ignor\u00e2ncia. No fundo quase todos n\u00f3s temos alguma forma de renomear o medo primordial do desconhecido para melhor nos servir, s\u00f3 que na base \u00e9 quase sempre a mesma coisa. Tem quem combata o &#8220;escuro&#8221; evitando chamar aten\u00e7\u00e3o, tem quem o fa\u00e7a acendendo uma luz, tem at\u00e9 uma grande maioria que imagina que a luz est\u00e1 acesa e contenta-se com isso! O que importa \u00e9 que o inimigo tem toda a vantagem territorial, f\u00edsica e metaforicamente. Resta-nos apenas escolher nosso papel nessa batalha e torcer pelo melhor.<\/p>\n<p>O caminho de quem se distancia do bando (mesmo que por pura arrog\u00e2ncia) s\u00f3 para perceber que precisa voltar e procurar um melhor \u00e9 mais penoso e exige lidar com desilus\u00f5es sobre as pr\u00f3prias capacidades, mas com certeza permite algo essencial para n\u00e3o cair mais nas armadilhas do conformismo: a vis\u00e3o \u00fanica que o distanciamento proporciona. \u00c9 de uma inoc\u00eancia quase infantil achar que \u00e9 a \u00fanica pessoa com a cabe\u00e7a levantada numa multid\u00e3o de pessoas olhando para os pr\u00f3prios p\u00e9s (essa foi minha analogia preferida para me explicar por muitos anos), mas \u00e9 essa etapa do processo que te faz entender a perspectiva.<\/p>\n<p>N\u00e3o se enganem: estou defendendo a arrog\u00e2ncia de se sentir melhor do que os outros; mas n\u00e3o sua perman\u00eancia. \u00c9 sobre o caminho, n\u00e3o o destino. A humildade que &#8220;vem de f\u00e1brica&#8221; com as pessoas \u00e9 uma merda mal explicada e dif\u00edcil de se exercer de forma consistente na vida real. J\u00e1 escrevi um texto inteiro falando muito mal dessa pretensa qualidade de quem n\u00e3o tem outras qualidades; e aqui estou argumentando que existe sim uma humildade melhor, melhor por ser mais simples.<\/p>\n<p>A humildade que vem ap\u00f3s um golpe em sua arrog\u00e2ncia \u00e9 muito mais palp\u00e1vel. Voc\u00ea sabe o que ela significa e pode escolher exerc\u00ea-la baseado em no\u00e7\u00f5es concretas sobre a realidade. N\u00e3o \u00e9 mais sobre sufocar o seu desejo de superioridade, \u00e9 sobre merec\u00ea-lo. \u00c9 entender o que voc\u00ea valoriza na vida e categorizar as outras pessoas com um m\u00ednimo de l\u00f3gica e justi\u00e7a.<\/p>\n<p>E ter essa no\u00e7\u00e3o \u00e9 muito dif\u00edcil sem ter passado pela ilus\u00e3o de import\u00e2ncia da mentalidade &#8220;todos os outros s\u00e3o ovelhas&#8221;. Se voc\u00ea nem isso conseguiu, vai acabar achando que todo mundo \u00e9 igual nivelando por baixo; se voc\u00ea ficar preso nessa parte, provavelmente vai ter dificuldades de conciliar o que pensa em teoria sobre a maioria das pessoas e os exemplos pr\u00e1ticos paradoxais que muitas delas proporcionam.<\/p>\n<p>Ir e voltar. Acredito que precisamos passar por isso para realmente entender as li\u00e7\u00f5es que a vida proporciona. \u00c9 a ilus\u00e3o que d\u00e1 a perspectiva, e \u00e9 a arrog\u00e2ncia de achar que j\u00e1 resolveu tudo sobre o mundo e as pessoas ao seu redor que vai te deixar girando em falso no caminho para a evolu\u00e7\u00e3o pessoal. Tudo isso para cair de volta no chav\u00e3o &#8220;s\u00f3 sei que nada sei&#8221;, mas do ponto de vista de quem j\u00e1 conseguiu fazer seu senso da frase.<\/p>\n<p>De uma certa forma, \u00e9 at\u00e9 um al\u00edvio perceber que seu processo mental estava envenenado pela arrog\u00e2ncia e que na verdade as coisas s\u00e3o bem mais complexas. Depois de algum tempo, \u00e9 claro. Na hora \u00e9 uma merda perceber qu\u00e3o merda voc\u00ea \u00e9, mas se tem mais o que fazer no caminho da evolu\u00e7\u00e3o pessoal, aquela sensa\u00e7\u00e3o chata de impot\u00eancia diante do fim dos trilhos vira luz no fim do t\u00fanel. Que bom que a resposta n\u00e3o era s\u00f3 &#8220;eu sou melhor que os outros&#8221;. Seria um t\u00e9dio viver depois disso.<\/p>\n<p>O capacidade que temos de fazer essa jornada estendida rumo \u00e0 compreens\u00e3o do que nossos sentidos captam \u00e9 essencial para &#8220;dar um jeito&#8221; nesse mundo. \u00c9 entender as regras (escritas ou n\u00e3o) e ter a chance de se posicionar! Como se fosse um jogo que voc\u00ea acabou de aprender e agora sim est\u00e1 come\u00e7ando a apreciar. Sei que estou indo muito longe agora, mas \u00e9 como se o Universo estivesse te confidenciando que acaso e destino s\u00e3o meras percep\u00e7\u00f5es e que voc\u00ea \u00e9 muito maior do que imagina.<\/p>\n<p>Nesse contexto maluco, eu come\u00e7o a finalmente entender o apelo da mentalidade religiosa como algo maior do que gan\u00e2ncia e acomoda\u00e7\u00e3o. \u00c9 ser parte de algo maior e ser de alguma consequ\u00eancia na escala geral das coisas. Perdoem o ateu aqui por demorar tanto tempo para sacar essa parte, mas isso \u00e9 quase imposs\u00edvel de depreender debaixo de tanta bobagem soterrando o conceito. Mas tem diferen\u00e7a: talvez pela minha aben\u00e7oada arrog\u00e2ncia, talvez pela liberdade que sempre tive para pensar; mas eu j\u00e1 estou virtualmente imune a qualquer tentativa de enrola\u00e7\u00e3o e controle exercido pelo pensamento supersticioso\/religioso. Eu n\u00e3o sei porque deuses n\u00e3o existem, mas sei porque eu n\u00e3o acredito neles.<\/p>\n<p>Seja como for, essa liberdade vem diretamente do processo mais chato e perigoso de ir e voltar. Vai-se ao ponto onde todos os religiosos n\u00e3o parecem diferentes de pessoas com defeitos s\u00e9rios no funcionamento do c\u00e9rebro e volta-se \u00e0 realidade que o buraco \u00e9 bem mais em baixo. O afastamento gera a capacidade de apontar o que te diferencia, a reaproxima\u00e7\u00e3o te mostra o que te faz igual. Pule uma etapa e a conta n\u00e3o fecha.<\/p>\n<p>Ainda nesse contexto, podemos pensar em coisas como os mandamentos das religi\u00f5es crist\u00e3s. N\u00e3o os meta-mandamentos que servem como cobran\u00e7a de cren\u00e7a e demonstra\u00e7\u00e3o arbitr\u00e1ria de poder, mas os que lidam com problemas humanos bem mais reais como o famoso &#8220;n\u00e3o matar\u00e1s&#8221;. Quando eu escuto religiosos m\u00e9dios dando suas opini\u00f5es sobre ateus, \u00e9 comum que nos comparem com animais vivendo sem regras e consequ\u00eancias pelos seus atos. Se a pessoa n\u00e3o acredita no deus dela, n\u00e3o tem motivo para &#8220;n\u00e3o matar&#8221;.<\/p>\n<p>Essa \u00e9 a mentalidade de quem est\u00e1 parado. N\u00e3o perde tempo para pensar de onde saiu a regra que se vangloria de seguir e n\u00e3o consegue suport\u00e1-la com argumentos. Tanto que defesa da pena de morte costuma andar de m\u00e3os dadas com conservadorismo de fundo religioso! \u00c9 uma regra, mas n\u00e3o chega a fazer sentido de verdade na cabe\u00e7a dessas pessoas. Ela n\u00e3o tem peso por si s\u00f3 e precisa ser suportada pelo ser mais poderoso existente. \u00c9 \u00f3bvio que matar \u00e9 pecado. Pronto!<\/p>\n<p>Quem pensa sobre o assunto &#8211; quem vai e volta &#8211; consegue se distanciar o suficiente para ignorar o &#8220;porque sim&#8221; e pensar sobre as implica\u00e7\u00f5es de agir contra essa regra. N\u00e3o precisa queimar neur\u00f4nios para aceitar o valor da vida humana, mas d\u00e1 muito mais trabalho entender isso como direito. Se a pessoa que n\u00e3o pensa sobre o assunto se v\u00ea diante da relatividade do valor da vida, \u00e9 bem capaz de achar que matar pode ser perdoado se o dono da regra quiser assim. Se voc\u00ea entende que n\u00e3o matar \u00e9 uma das funda\u00e7\u00f5es de uma sociedade evolu\u00edda e uma seguran\u00e7a para cada um de n\u00f3s, n\u00e3o vai conseguir se enganar t\u00e3o f\u00e1cil assim. Tem que viver com isso depois.<\/p>\n<p>\u00c9 como se a pessoa &#8220;parada&#8221; finalmente encontrasse um caminho e aceitasse qualquer ideia oriunda dele. \u00c9 o ir sem o voltar. Perceber que o \u00f3bvio \u00e9 bem menos \u00f3bvio que se imagina \u00e9 um momento complexo na vida de uma pessoa. Sentir o poder de tomar o controle do que pensa sem uma boa percep\u00e7\u00e3o de relatividade e capacidade m\u00ednima de empatia com outros seres humanos desencadeou todos os grandes massacres de nossa hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>De inquisidores a comunistas, todos somos alvos f\u00e1ceis para ilus\u00e3o de distanciamento e grandeza sem m\u00e9rito; ou mesmo do t\u00e3o mais comum des\u00e2nimo causado pela sensa\u00e7\u00e3o de isolamento. Se voc\u00eas querem saber de onde vem o otimismo que tendo a imprimir nas minhas opini\u00f5es sobre o futuro, \u00e9 muito por ter come\u00e7ado o caminho de volta. De come\u00e7ar a emprestar aos outros um pouco da arrog\u00e2ncia &#8220;saud\u00e1vel&#8221; que s\u00f3 permitia a mim mesmo ou \u00e0s pessoas mais queridas. Se essa ovelha aqui pode&#8230; Ficar parado te torna mais um, sair do grupo te isola&#8230; defendo simplesmente o melhor dos dois mundos.<\/p>\n<p>Pensar n\u00e3o enlouquece, parar enlouquece.<\/p>\n<h3>Para dizer que entre indas e vindas achou o texto meio parado, para dizer que n\u00e3o quer saber de conselho de ovelha, ou mesmo para dizer que tudo isso \u00e9 s\u00f3 papo (e \u00e9!): <a href=\"mailto:somir@desfavor.com\">somir@desfavor.com<\/a><\/h3>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A tira que ilustra a coluna de hoje &#8211; do excelente xkcd &#8211; eu j\u00e1 tinha visto h\u00e1 alguns anos. 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