{"id":6342,"date":"2014-04-02T05:49:02","date_gmt":"2014-04-02T08:49:02","guid":{"rendered":"http:\/\/www.desfavor.com\/blog\/?p=6342"},"modified":"2014-04-02T05:49:02","modified_gmt":"2014-04-02T08:49:02","slug":"desfavor-bonus-eu","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/2014\/04\/desfavor-bonus-eu\/","title":{"rendered":"Desfavor B\u00f4nus: Eu?"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-6343\" alt=\"bonus-eu\" src=\"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2014\/04\/bonus-eu.jpg\" width=\"600\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2014\/04\/bonus-eu.jpg 600w, https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2014\/04\/bonus-eu-300x150.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/p>\n<p>Eu?<\/p>\n<p>Para te dizer a verdade eu nunca pensei sobre isso tudo. Tenho medo do que eu descobriria se cavasse fundo o suficiente. Sim, eu sei&#8230; como eu posso saber, n\u00e9? Mas \u00e9 como se eu soubesse. Como se a minha pr\u00f3pria cabe\u00e7a disfar\u00e7asse que fica mesmo maquinando sobre esses assuntos l\u00e1 no fundo: longe do meu dia-a-dia, mas perto o suficiente para que eu saiba que \u00e9 melhor deixar quieto.<!--more--><\/p>\n<p>Sabe quando voc\u00ea acha que est\u00e1 vendo algu\u00e9m fazer uma coisa horr\u00edvel, mas n\u00e3o tem certeza? Se voc\u00ea n\u00e3o se mexer, pode se perdoar depois dizendo que n\u00e3o sabia. Mas se voc\u00ea resolver dar um passo a mais&#8230; ou mesmo mexer a cabe\u00e7a para enxergar direito&#8230; voc\u00ea pode ver aquela coisa horr\u00edvel; e essa coisa horr\u00edvel torna-se parte de voc\u00ea. N\u00e3o tem mais perd\u00e3o que d\u00ea conta. Voc\u00ea sabia! Se voc\u00ea agir, assume um risco. Se voc\u00ea n\u00e3o fizer nada, vem a culpa.<\/p>\n<p>Nunca tinha entendido aquela frase &#8220;Quando se olha muito tempo para um abismo, o abismo olha para voc\u00ea.&#8221; at\u00e9 agora. \u00c9 isso, n\u00e9? Nem sei quem disse isso&#8230; ali\u00e1s, nem sei como ela ficou guardada na minha cabe\u00e7a. Juro que at\u00e9 hoje eu nunca tinha tido um motivo para tirar ela da gaveta. Estou me sentindo bem, acho que n\u00e3o vai ser t\u00e3o ruim assim no final das contas. Abismo, a\u00ed vou eu!<\/p>\n<p>Bom, para que voc\u00ea entenda por que eu fa\u00e7o o que fa\u00e7o, tem que entender por que eu sou o que sou. Quem me fez foi a vida em si, \u00e0s vezes eu acho que fui plantado em algum canto e s\u00f3 a chuva mesmo que me regou. E pelo amor de Deus, n\u00e3o estou falando mal dos meus pais. Bom, pelo menos n\u00e3o da minha m\u00e3e&#8230; Eu sei o trabalho que deu, eu sei que ela passou fome para que eu n\u00e3o passasse. Mas eu tamb\u00e9m sei que por melhores que fossem suas inten\u00e7\u00f5es, o servi\u00e7o saiu pela metade. Estou vivo, sim. Estou vivo e j\u00e1 at\u00e9 dei meus frutos nessa vida. Mas eu n\u00e3o acho mesmo que deu para fazer algo al\u00e9m disso.<\/p>\n<p>Meu pai eu quase n\u00e3o via. N\u00e3o sei at\u00e9 hoje se ele era uma pessoa ruim. \u00c0s vezes parecia, \u00e0s vezes n\u00e3o. Minha m\u00e3e tamb\u00e9m parecida dividida. Quanto mais eu crescia, mais eu me sentia um inc\u00f4modo para ele. Acho que ele sempre disfar\u00e7ou mal, eu que fui percebendo melhor com o tempo. Depois que ele apareceu morto numa viela do bairro vizinho, descobrimos que ele tinha outra fam\u00edlia. Acho que minha m\u00e3e sabia, mas n\u00e3o \u00e9 como se eu tivesse muito contato com ela tamb\u00e9m. Muito por causa de ter tantos irm\u00e3os e irm\u00e3s, e mesmo com eles a rela\u00e7\u00e3o n\u00e3o foi t\u00e3o pr\u00f3xima assim, principalmente depois de adultos. Afei\u00e7oei-me mais \u00e0 irm\u00e3 mais velha que fazia as vezes de m\u00e3e posti\u00e7a durante as longas jornadas de trabalho da original.<\/p>\n<p>Eu sobrevivi. Diante das possibilidades, n\u00e3o \u00e9 pouca coisa. Mas viver mesmo&#8230; isso foi muito raro. Quando se \u00e9 crian\u00e7a \u00e9 mais f\u00e1cil, voc\u00ea n\u00e3o espera quase nada mesmo. Correr \u00e0 esmo numa rua de terra, vento no seu rosto e um mundo que n\u00e3o \u00e9 problema seu. Eles que s\u00e3o grandes que resolvam tudo isso. Pior, voc\u00ea acredita que eles v\u00e3o mesmo&#8230; Pobreza e um machucado na perna parecem ter a mesma propor\u00e7\u00e3o. Algu\u00e9m vai passar um rem\u00e9dio ardido e soprar, pronto. Mas o tempo passa. Os machucados n\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>Engra\u00e7ado falar disso. Acho que \u00e9 essa \u00e9 uma das poucas conversas que tive durante a vida. Lembro de t\u00e3o poucas. Falar todo mundo fala, mas&#8230; isso? Isso eu conto nos dedos. Juntei-me com uma das poucas mulheres com as quais troquei mais de meia d\u00fazia de palavras na vida. Nem sei se eu a amo, acho que sim. Chega uma hora que voc\u00ea s\u00f3 quer saber de ter alguma pessoa viva de verdade do seu lado. Mas nenhum de n\u00f3s fez a sua parte para manter esse diferencial: vieram dois filhos em muito pouco tempo e tudo parecia um sacrif\u00edcio. Olhar para a cara dela me lembrava de como eu estava amarrado nisso. Conversar, ent\u00e3o!<\/p>\n<p>Se me perguntassem em qualquer outra situa\u00e7\u00e3o se eu a amava e amava meus filhos, eu diria que sim. Agora, nesse momento&#8230; eu me acuso dos mesmos crimes que acusei meu pai. Fa\u00e7o o que acho que tenho que fazer e de m\u00e1 vontade, muito embora jamais v\u00e1 admitir. Estar cercado de pessoas \u00e9 a minha vida e nada disso foi a minha escolha. Usei as mesmas v\u00e1lvulas de escape que aprendi em casa, a verdade \u00e9 que voc\u00ea n\u00e3o quer voltar. Voc\u00ea sabe que precisa, mas n\u00e3o quer voltar para casa e lidar com tudo o que ela representa.<\/p>\n<p>Retiro o que disse&#8230; isso vai ser t\u00e3o ruim quanto eu imaginava. Se eu colocar a fam\u00edlia em d\u00favida tudo desmorona. Ser\u00e1 que \u00e9 assim que fazem com que n\u00f3s fiquemos quietos? Eu falo tanto de fam\u00edlia porque \u00e9 um conceito t\u00e3o estranho para mim que s\u00f3 funciona de forma idealizada. Quando eu critico algu\u00e9m por fazer mal para a fam\u00edlia n\u00e3o estou falando da minha, n\u00e9? A minha j\u00e1 est\u00e1 estragada e eu fiz parte disso. Acho que quero mesmo \u00e9 proteger a fam\u00edlia de comercial de margarina, a que eu queria ter mesmo sem saber muito bem como ela funcionaria na pr\u00e1tica.<\/p>\n<p>Olhar para o abismo me faz perceber que eu sou um hip\u00f3crita. Palavra da qual eu finalmente extraio um significado! Defender uma coisa e fazer o oposto. Que moral eu tenho para defender fam\u00edlia, meu Deus? Mas tamb\u00e9m, em minha defesa, eu n\u00e3o tenho nada al\u00e9m de alguns cacos na mem\u00f3ria para restaurar esse vaso. Adorei essa coisa de analogia&#8230; por que eu nunca uso? Mas \u00e9 o que eu disse: eu sobrevivi at\u00e9 aqui. Quando eu teria a chance de fazer algo diferente? Entre a preocupa\u00e7\u00e3o para conseguir almo\u00e7o e a de conseguir o jantar? \u00c9 uma tremenda sacanagem. Eu comecei esse jogo devendo e parece que o m\u00e1ximo que consigo \u00e9 empatar.<\/p>\n<p>J\u00e1 cansei de esperar at\u00e9 o ponto onde eu come\u00e7o a viver. Existem outras formas de lidar com isso. Ajoelhado num bar ou numa igreja, s\u00e3o os pequenos momentos de dorm\u00eancia e catarse que me fazem sentir alguma coisa. Voc\u00ea sabe como o mundo \u00e9 hostil para algu\u00e9m como eu? Voc\u00ea sabe como \u00e9 ficar com pensamentos desses te esperando numa esquina escura da mente? E pior, pensamentos que sequer sabem como se apresentar. Todos vem gritando, de surpresa, vestindo suas fantasias mais assustadoras!<\/p>\n<p>E quando esses monstros berram \u00e0 plenos pulm\u00f5es, n\u00e3o h\u00e1 nada que abafe. Voc\u00ea com seus pensamentos domesticados n\u00e3o tem a menor ideia de como as coisas s\u00e3o aqui na selva. Queria ter mais tempo e capacidade de dom\u00e1-los, mas a minha agenda de prioridades n\u00e3o tem nenhum espa\u00e7o livre. Voc\u00ea n\u00e3o sabe como \u00e9 o amargo fervente do \u00f3dio sobrecarregando seus sentidos e exigindo sangue como sacrif\u00edcio, tal qual um deus t\u00e3o insano como invenc\u00edvel.<\/p>\n<p>Uau, ficou po\u00e9tico, n\u00e3o? Conhecia todas essas palavras, mas quase nunca as usava. Ainda mais nessa ordem. Ah sim, esses monstros vem e v\u00e3o sem deixar explica\u00e7\u00e3o. N\u00e3o sei muito bem por que exijo morte e sofrimento para marginais e depois quero clem\u00eancia para mim ou para um dos meus. N\u00e3o faz sentido, n\u00e9? \u00c9 que a vida em geral parece algo t\u00e3o descart\u00e1vel. J\u00e1 perdi amigos, namoradas, parentes&#8230; j\u00e1 vi seus corpos estendidos no mesmo ch\u00e3o de terra no qual corria quando era crian\u00e7a. N\u00e3o \u00e9 assim que \u00e9 a vida de todo mundo? Que seja, a minha \u00e9. E eu vou fazer o qu\u00ea? Viver a sua vida? Adoraria, \u00e9 claro.<\/p>\n<p>A gente acaba vivendo o que pode. Escuto a m\u00fasica do r\u00e1dio e vejo o programa da TV. \u00c9 isso o que tem pra mim. J\u00e1 pensou no trabalho que d\u00e1 para come\u00e7ar a gostar de outras coisas? O que eu aprendi nos meus poucos anos de escola resume-se agora a uma compreens\u00e3o p\u00edfia de algumas poucas palavras. Prefiro quando me falam as coisas. N\u00e3o que eu compreenda de forma cristalina, mas \u00e9 o que tem pra mim. E quem est\u00e1 ao meu redor n\u00e3o fala de outra coisa mesmo. Vai ver eu sou burro demais mesmo para apreciar o que voc\u00ea aprecia, mas n\u00e3o \u00e9 como se eu me importasse. N\u00e3o vale a pena se importar. Est\u00e1 achando que eu tenho sequer vontade de escalar essa montanha? O come\u00e7o \u00e9 a parte mais dif\u00edcil, eu n\u00e3o nasci onde j\u00e1 tem escada e elevador!<\/p>\n<p>E outra: quem est\u00e1 aqui n\u00e3o pode distrair. Seja l\u00e1 o que fizeram com a gente deu muito certo. Passamos o tempo todo brigando entre n\u00f3s e deixando o povo l\u00e1 de cima seguir seu caminho numa boa. S\u00e9rio, o que nos adianta quando um traficante mata o outro? Ou mesmo quando um policial mata um de n\u00f3s? Ningu\u00e9m aprende nada. At\u00e9 mesmo os agentes dos nossos donos s\u00e3o pobres como n\u00f3s. Botaram a pol\u00edcia aqui em baixo para que a briga nunca termine! Estamos em guerra e eu n\u00e3o estou em nenhum dos ex\u00e9rcitos. Cada vez mais acho que ningu\u00e9m est\u00e1.<\/p>\n<p>J\u00e1 estou parecendo paran\u00f3ico? Porque isso \u00e9 tudo o que eu menos quero que aconte\u00e7a. Come\u00e7ar a enxergar al\u00e9m do que a TV te diz \u00e9 ruim, \u00e9 muito ruim. \u00c9 um sofrimento fazer tudo o que fa\u00e7o achando que \u00e9 normal, imagine s\u00f3 percebendo que n\u00e3o deveria ser? Eu sei que muita gente que conseguiu escapar desse fosso joga cordas para nos ajudar a sair, mas e se eu n\u00e3o pegar uma delas? Imagina ficar preso aqui sabendo que tem como sair, imagina. Imagina descobrir que tem mais l\u00e1 fora do que vers\u00f5es mais caras do que j\u00e1 fazemos? Pelo menos de consumir eu j\u00e1 entendo um pouco.<\/p>\n<p>Eu acho que eu sempre vi isso, mas algo me dizia para n\u00e3o prestar aten\u00e7\u00e3o demais. A gente defende o que nos oprime e acha que tem que comprar a passagem de sa\u00edda. N\u00e3o nascemos livres? N\u00e3o somos iguais?<\/p>\n<p>Mas eu j\u00e1 estou me perdendo na pergunta. Por que eu me ofendi com a sua piada, certo? Ficou f\u00e1cil agora: porque eu n\u00e3o quero olhar para o abismo.<\/p>\n<h3>Para dizer que detesta texto amb\u00edguo, para reclamar que eu estou monotem\u00e1tico, ou mesmo para dizer que s\u00f3 comenta depois que algu\u00e9m tomar partido: <a href=\"mailto:somir@desfavor.com\">somir@desfavor.com<\/a><\/h3>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Eu? Para te dizer a verdade eu nunca pensei sobre isso tudo. Tenho medo do que eu descobriria se cavasse fundo o suficiente. Sim, eu sei&#8230; como eu posso saber, n\u00e9? Mas \u00e9 como se eu soubesse. 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