{"id":6484,"date":"2014-05-01T08:47:02","date_gmt":"2014-05-01T11:47:02","guid":{"rendered":"http:\/\/www.desfavor.com\/blog\/?p=6484"},"modified":"2014-05-01T08:47:20","modified_gmt":"2014-05-01T11:47:20","slug":"desfavor-explica-contando-historias","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/2014\/05\/desfavor-explica-contando-historias\/","title":{"rendered":"Desfavor Explica: Contando hist\u00f3rias."},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-6485\" src=\"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2014\/05\/dex-contarhistoria.jpg\" alt=\"dex-contarhistoria\" width=\"600\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2014\/05\/dex-contarhistoria.jpg 600w, https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2014\/05\/dex-contarhistoria-300x150.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/p>\n<p>N\u00e3o importa quem voc\u00ea seja, qual sua ocupa\u00e7\u00e3o ou qual a sua classe social, se voc\u00ea for humano, saber contar uma boa hist\u00f3ria \u00e9 fundamental: seja para convencer um juiz, seja para colocar sua filha para dormir, seja para divertir os amigos ou at\u00e9 para se promover de uma forma sutil. Saber contar uma hist\u00f3ria, saber deixa-la mais divertida, dram\u00e1tica ou palat\u00e1vel te abre muitas portas na vida. E \u00e9 sobre isso que vamos falar hoje. Desfavor Explica : contando uma boa hist\u00f3ria.<!--more--><\/p>\n<p>Desde os temos das cavernas o ser humano conta hist\u00f3rias. N\u00e3o necessariamente por divers\u00e3o, mas como forma de transmitir conhecimento. Quando n\u00e3o havia escrita, contar uma boa hist\u00f3ria era a forma mais eficiente de transmitir conhecimento. O conhecimento puro, abstrato, pode ser chato e dif\u00edcil de fixar. Mas o conhecimento inserido em uma boa hist\u00f3ria se fixa para sempre na sua cabe\u00e7a. Tem uma frase de Benjamin Franklin que eu sempre tinha em mente antes de dar qualquer aula: \u201cFale-me e eu esquecerei. Ensine-me e eu poderei lembrar. Envolva-me e eu aprenderei\u201d. N\u00e3o tem melhor forma de transmitir conhecimento do que uma boa hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Assim, nossos ancestrais contavam hist\u00f3rias com li\u00e7\u00f5es importantes que eram lembradas e contadas a seus filhos e aos filhos dos seus filhos: Fulano comeu tal fruta e morreu envenenado no meio de uma aventura muito divertida, por exemplo. Era a forma mais did\u00e1tica de mandar crian\u00e7as n\u00e3o comerem aquela fruta. Quem tem filhos sabe que muitas vezes uma historinha vale mais do que uma ordem ou proibi\u00e7\u00e3o. Gra\u00e7as a essa \u201ctradi\u00e7\u00e3o\u201d, somos criaturas com c\u00e9rebro equipado e propenso para ouvir hist\u00f3rias: s\u00f3 os que prestavam aten\u00e7\u00e3o sobreviviam.<\/p>\n<p>Todo mundo sabe o tamanho da encrenca se voc\u00ea for levar doces para a vovozinha e desobedecer as orienta\u00e7\u00f5es da sua m\u00e3e. Gra\u00e7as a Chapeuzinho Vermelho essa ideia de que desobedecer pode custar caro se fixa na mente. Todo mundo sabe que a raposa desenhou as uvas dizendo que estavam verdes porque no fundo n\u00e3o conseguia alcan\u00e7a-las (bisav\u00f4 do \u201c\u00e9 a inveja\u201d). Estas e muitas outras informa\u00e7\u00f5es entram no inconsciente coletivo atrav\u00e9s de hist\u00f3rias repetidas ao longo dos s\u00e9culos. Hoje, mesmo com escrita, com internet, o gosto por hist\u00f3rias (ainda) n\u00e3o desapareceu. H\u00e1 quem diga ser um resqu\u00edcio ancestral e h\u00e1 quem diga que estimular nossas emo\u00e7\u00f5es ativaria um centro de recompensa no c\u00e9rebro. O fato \u00e9 que todos n\u00f3s sabemos reconhecer uma boa hist\u00f3ria, mesmo sem entender exatamente porque. Da\u00ed voc\u00ea deve estar se perguntando como isso pode ser usado para te beneficiar. Vamos l\u00e1.<\/p>\n<p>Se voc\u00ea quer que algu\u00e9m acredite que voc\u00ea \u00e9 uma boa pessoa, n\u00e3o adianta se aproximar e dizer \u201cOi, eu sou uma boa pessoa\u201d. Fica artificial. O ser humano desconfia e desvaloriza tudo que lhe \u00e9 dado com facilidade. Surte muito mais efeito e \u00e9 muito mais sutil se voc\u00ea conversar e, dentro de um contexto aceit\u00e1vel, contar uma hist\u00f3ria sobre voc\u00ea, a outro pretexto, de onde se depreenda por atos seus que voc\u00ea \u00e9 uma boa pessoa. Mas n\u00e3o afirmando que voc\u00ea \u00e9 uma boa pessoa, narrando fatos ou atos de onde isso possa ser depreendido com algum esfor\u00e7o. Dica universal, que vale para convencer desde um juiz a uma namorada: n\u00e3o diga tudo, solte informa\u00e7\u00f5es aos poucos e deixe que a pessoa pense que descobriu SOZINHA.<\/p>\n<p>Qualquer ouvinte ou espectador ou leitor se sente inteligente e fica feliz quando pensa que depreendeu aquilo sozinho. O bom contador de hist\u00f3rias n\u00e3o d\u00e1 o 4, ele d\u00e1 o 2+2 e deixa sua audi\u00eancia somar sozinha. Dar o 4 deixa a hist\u00f3ria desinteressante e tira da plateia a oportunidade de exercitar a mente e se sentir inteligente e perspicaz. Tira aquela satisfa\u00e7\u00e3o de pensar \u201cAhhh! 2+2 \u00e9 4! Entendi!\u201d. Dando apenas o 2+2 e deixando eles somarem, voc\u00ea agrada e muitos nem sequer percebem por qu\u00ea. Quem soma o 2+2 se sente o m\u00e1ximo, enquanto voc\u00ea ri por dentro. Quando uma hist\u00f3ria sua faz a pessoa se sentir bem sobre ela mesma, ela tende a gostar de voc\u00ea e querer ouvir mais hist\u00f3rias suas. Mas tem que dar 2+2, n\u00e3o pode dar 87 -45 x 37 \u2013 7%, porque se a pessoa n\u00e3o conseguir equacionar o resultado final, vai se sentir burra. Spoiler: cheguei a ter essa sensa\u00e7\u00e3o em alguns Des Contos, hoje n\u00e3o tenho mais. Somir se corrigiu, consciente ou inconscientemente. Esse \u00e9 um grande desafio: achar o 2+2 de cada ouvinte. Como fazer isso? Seguindo algumas dicas.<\/p>\n<p>Quero come\u00e7ar dizendo que s\u00e3o apenas dicas. \u00c9 perfeitamente poss\u00edvel que uma pessoa consiga contar uma boa hist\u00f3ria sem estes elementos, sem seguir estes conselhos. Mas, o texto n\u00e3o \u00e9 para quem sabe contar uma boa hist\u00f3ria, \u00e9 para quem n\u00e3o sabe. Para quem n\u00e3o quer errar ou para quem n\u00e3o se acha um bom contador de hist\u00f3ria estas dicas podem ser um bom ponto de partida. Nas artes, as normas foram criadas para serem desobedecidas. Aprenda bem as regras que vou passar e quando estiver craque, subverta-as para deixar tudo ainda mais interessante. Mas lembre-se: s\u00f3 corre quem aprendeu a andar antes.<\/p>\n<p>Para contar uma boa hist\u00f3ria voc\u00ea tem que ter muito claro na sua cabe\u00e7a exatamente o que quer contar. Se voc\u00ea n\u00e3o \u00e9 uma pessoa agraciada com uma grande clareza mental e poder de s\u00edntese, \u00e9 melhor que delimite fronteiras para n\u00e3o se perder. O erro mais comum ao contar uma hist\u00f3ria, por incr\u00edvel que pare\u00e7a, \u00e9 se perder, divagar, fugir daquilo que \u00e9 importante. Pense na hist\u00f3ria que quer contar, com in\u00edcio, meio e fim e resuma-a a uma frase. Isso mesmo, uma frase. \u00c9 um \u00f3timo exerc\u00edcio para os prolixos. Qualquer hist\u00f3ria pode ser contada em uma frase.<\/p>\n<p>Quer ver? \u201cAgente do FBI investiga serial killer e pede ajuda a psicopata canibal que est\u00e1 preso\u201d. Reconheceu o Sil\u00eancio dos Inocentes? Pode me perguntar nos coment\u00e1rios, eu te desafio a achar uma hist\u00f3ria que eu n\u00e3o possa resumir em uma frase. Qualquer hist\u00f3ria tem uma ess\u00eancia, o esqueleto, a espinha dorsal, o que \u00e9 realmente importante e vai conduzir tudo. Tenha em mente qual \u00e9 o da sua. Se n\u00e3o tem, crie uma. Ainda est\u00e1 tendo dificuldade sobre a frase? Imagine que algu\u00e9m ouviu sua hist\u00f3ria e quer comentar com outra pessoa sobre o que ela \u00e9: \u00e9 a hist\u00f3ria de ____ . Exemplo: No\u00e9 \u00e9 a hist\u00f3ria de um sujeito que constr\u00f3i uma arca para salvar animais de um dil\u00favio. Essa frase \u00e9 seu embri\u00e3o. O tema da hist\u00f3ria tem que estar delimitado, e durante toda a hist\u00f3ria essa frase vai ser seu guia.<\/p>\n<p>Uma hist\u00f3ria convencional consiste em um querer de um protagonista (vulgo \u201cmocinho\u201d), resistido pelo antagonista. O protagonista tem um objetivo a ser alcan\u00e7ado e algo ou algu\u00e9m tenta impedi-lo. Pode ser qualquer querer, desde que isso fique bem claro para o p\u00fablico: salvar o mundo de um ataque alien\u00edgena ou conseguir chegar ao banheiro antes de se cagar nas cal\u00e7as, n\u00e3o importa. Importa que ele quermuito alguma coisa, e a forma como voc\u00ea vai narrar o sofrimento dele para obter esse querer \u00e9 o que vai prender o p\u00fablico e determinar a grandiosidade da hist\u00f3ria, mesmo que em um primeiro momento o querer pare\u00e7a bobo. Uma hist\u00f3ria bem contada te prende, te seduz, te faz torcer, independente da relev\u00e2ncia ou da grandiosidade do querer do protagonista.<\/p>\n<p>\u00c9 cl\u00e1ssico: tudo vai dar errado para o protagonista, capitaneado pelo antagonista. No final a hist\u00f3ria fecha com ele conseguindo (final feliz) ou n\u00e3o (final infeliz) o seu objetivo. Imagine a hist\u00f3ria como uma trilha que vai subindo, subindo, at\u00e9 se alcan\u00e7ar um topo. \u00c9 assim que ela tem que ser contada, sempre para cima, sempre aumentando de intensidade e sempre conduzindo o protagonista para esse topo onde ele quer chegar. Essa \u00e9 a t\u00edpica hist\u00f3ria que seduz nossos c\u00e9rebros. Outras tamb\u00e9m o fazem, mas s\u00e3o mais dif\u00edceis de contar. Se voc\u00ea est\u00e1 come\u00e7ando, vai nessa que n\u00e3o tem erro.<\/p>\n<p>Quanto mais forte for o querer do protagonista, mais emocionante a hist\u00f3ria. E quanto mais compreens\u00edvel for a oposi\u00e7\u00e3o do antagonista, mais complexa e humana ela fica. Esse querer do protagonista pode ser potencializado por alguns fatores que ajudam a intensificar a hist\u00f3ria, como o fator temporal (se n\u00e3o conseguir desarmar a bomba em uma hora, ela explode), pelo risco de vida de algu\u00e9m (se n\u00e3o pagar o sequestro at\u00e9 o fim do dia a v\u00edtima ser\u00e1 executada) ou por qualquer outro fator que majore os danos de n\u00e3o alcan\u00e7ar o objetivo. Isso cria uma tens\u00e3o que faz seu ouvinte \u201cse viciar\u201d na hist\u00f3ria. Abuse de recursos que potencializam as consequ\u00eancias e os temores, por\u00e9m sempre contando uma hist\u00f3ria cr\u00edvel.<\/p>\n<p>Exemplo pr\u00e1tico: n\u00e3o se conta para um juiz que um menino roubou porque queria comprar um t\u00eanis da moda, isso n\u00e3o comove. Se conta de uma forma que o juiz perceba sozinho (2+2) que ele precisava pagar uma d\u00edvida com o tr\u00e1fico at\u00e9 o final do dia, se n\u00e3o seria morto. Ou ent\u00e3o que precisava desse dinheiro por um motivo muito forte e justific\u00e1vel que faria qualquer pessoa perder a cabe\u00e7a: comprar rem\u00e9dios para uma m\u00e3e doente, comprar comida para seu filho, etc. Vejam que assim como o querer do protagonista, o motivo que o leva a querer tamb\u00e9m \u00e9 muito importante. E ambos tem que ficar claros para quem ouve a hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>\u00c9 fundamental fazer com que gostem do seu protagonista. Para isso, at\u00e9 hoje eu n\u00e3o descobri nada mais eficiente do que a identifica\u00e7\u00e3o. Pessoas que gostam de animais torcer\u00e3o com mais afinco por um protagonista que goste de animais. Ent\u00e3o, foca no teu p\u00fablico: juiz, namorada, m\u00e3e, amigo, professor&#8230; d\u00e1 uma estudada no perfil de quem voc\u00ea quer convencer e faz do protagonista da tua hist\u00f3ria algu\u00e9m com muitos pontos em comum com essa pessoa. Mas novamente, olha o 2+2, n\u00e3o diga abertamente, MOSTRE. Uma fala, um olhar, uma camiseta, um gesto. Algo que cause um estalo de identifica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>E voc\u00ea tem que fazer com que as pessoas gostem do protagonista logo no come\u00e7o da sua hist\u00f3ria, porque ser humano quando pega birra \u00e9 teimoso. Abra sua hist\u00f3ria, seja ela para distrair, enganar, convencer ou brincar, sempre tentando dar um 2+2 que fa\u00e7a com que o espectador se identifique com o protagonista, o admire. S\u00f3 assim v\u00e3o torcer por ele. E sempre saiba qual vai ser o final que voc\u00ea vai dar para esse grande querer do seu protagonista. Contar uma hist\u00f3ria deixando para decidir o desfecho s\u00f3 no final \u00e9 coisa para gente muito profissional. Sabendo qual vai ser o seu final, voc\u00ea pode espalhar pequenas informa\u00e7\u00f5es, pequenos easter eggs ao longo da hist\u00f3ria que ser\u00e3o compreendidos no desfecho. Isso faz o c\u00e9rebro humano soltar fogos de artif\u00edcio. Nos tranquiliza, nos desperta uma sensa\u00e7\u00e3o de recompensa ligar os pontos e tudo se encaixar. Ordem no caos \u00e9 o orgasmo cerebral.<\/p>\n<p>Uma hist\u00f3ria fica mais palat\u00e1vel para o grande p\u00fablico se existir apenas um protagonista (mocinho) e um antagonista (vil\u00e3o). E fica mais rica se o mocinho n\u00e3o \u00e9 apenas o bonzinho e o vil\u00e3o apenas o malvado. Ambos devem ter lados bons e ruins e fortes motivos para se portarem assim. N\u00e3o \u00e9 a bondade que vai determinar quem \u00e9 o seu mocinho, e sim a forma como voc\u00ea vai contar a hist\u00f3ria, de quem voc\u00ea vai querer que o ouvinte goste. O mocinho \u00e9 aquele para o qual todo mundo torce. Dexter, por exemplo, era um psicopata assassino e torturador, mas era um protagonista e todo mundo torcia por ele. Isso porque a forma como foi contada a hist\u00f3ria nos fez gostar dele. Uma exata mesma hist\u00f3ria pode ser contada sem mudar um \u00fanico fato, onde somente pela narrativa voc\u00ea inverte protagonista e antagonista. Por sinal, o primeiro texto que Somir e eu escrevemos consistia justamente em brincar com isso: uma mesma hist\u00f3ria onde se invertiam protagonista e antagonista segundo quem contava. Estava no Orkut, nem sei se ainda existe.<\/p>\n<p>Um mocinho perfeitinho e um bandido malvad\u00e3o comp\u00f5e basicamente uma hist\u00f3ria ruim. Hoje se considera inclusive um erro de escrita quando \u00e9 feito por profissionais. Observem que em muitas novelas globais os vil\u00f5es acabaram sendo mais populares do que os mocinhos: Nazar\u00e9, Carminha, F\u00e9lix e tantos outros. Erro grave cometido por quem insiste na f\u00f3rmula mocinho bom, vil\u00e3o malvado. Nunca fa\u00e7am do mocinho de voc\u00eas um bonzinho, quanto mais camadas, quanto mais complexo, quanto mais humano, melhor. Ainda assim, pode acontecer de um vil\u00e3o roubar a cena. Aconteceu comigo: muitas pessoas torcem pelo Alicate no meu \u201cSiago Tomir\u201d, saiu do meu controle. \u00c9 preciso ter cuidado, o vil\u00e3o pode se tornar muito atraente, porque ele pode tudo, n\u00e3o tem limites.<\/p>\n<p>Regra geral: o protagonista tem que ter in\u00fameras dificuldades, tem que passar por muito perrengue, at\u00e9 o desfecho da hist\u00f3ria. Se ele consegue o que quer de forma f\u00e1cil, a hist\u00f3ria n\u00e3o nos ensina nada. Lembram da quest\u00e3o evolutiva? O grande barato que uma hist\u00f3ria causa no nosso c\u00e9rebro \u00e9 que a gente pode aprender valiosas li\u00e7\u00f5es sem precisar passar por aquele estresse todo que o protagonista est\u00e1 passando (acidente de avi\u00e3o, pr\u00e9dio em chamas, sequestro, etc), aprendemos apenas observando-o, sem precisar colocar nossas vidas em risco. Ent\u00e3o, maltrate sem d\u00f3 seu protagonista, tudo tem que dar muito errado para ele, e ele tem que aprender com os erros, pois se ele aprende, quem o assiste tamb\u00e9m aprende e o c\u00e9rebro envia um sinal de recompensa e bate palminhas.<\/p>\n<p>Em determinado momento a hist\u00f3ria tem que se resolver. Finais abertos como o do filme \u201cOrigens\u201d podem ser geniais, mas o que o c\u00e9rebro basic\u00e3o gosta mesmo \u00e9 de um bom esclarecimento. Ent\u00e3o, a menos que voc\u00ea esteja lidando com uma pessoa muito sofisticada, deixe claro o final \u2013 o que n\u00e3o quer dizer que ele precise ser feliz. No final expl\u00edcito, h\u00e1 apenas dois caminhos poss\u00edveis: o protagonista consegue aquele seu objetivo (final feliz) ou n\u00e3o consegue (final infeliz). E quando o consegue, tem que ser por m\u00e9rito pr\u00f3prio. Imagina qu\u00e3o frustrante seria se naquela luta entre Luke Skywalker e Darth Vader o Darth Vader morresse do cora\u00e7\u00e3o sem a necessidade do Luke lutar com ele e derrota-lo! N\u00e3o pode. O protagonista, quando vence, vence \u00e0s custas de muito esfor\u00e7o. N\u00e3o porque gostemos de sofrer, mas porque aprendemos li\u00e7\u00f5es sobre como superar alguns obst\u00e1culos que podem nunca acontecer, mas que agradam a um c\u00e9rebro que veio moldado em uma \u00e9poca onde quanto mais se sabia, mais se sobrevivia.<\/p>\n<p>Depois que o mocinho consegue ou n\u00e3o aquele seu querer que \u00e9 a base da hist\u00f3ria, a hist\u00f3ria acaba. N\u00e3o invente, n\u00e3o enrole. Pode at\u00e9 dar uma arrematada, mas coisa muito r\u00e1pida, para n\u00e3o tirar o impacto do final. Se n\u00e3o o c\u00e9rebro sente que come\u00e7ou uma nova hist\u00f3ria e se decepciona por ela n\u00e3o ter continuidade. Receitinha de bolo para iniciantes: Protagonista quer alguma coisa (e porque o quer) + antagonista tenta impedir (e porque o faz) + protagonista passa muito sufoco para conseguir seu objetivo e tudo d\u00e1 errado + grande embate final entre protagonista e antagonista + desfecho claro especificando se protagonista conseguiu ou n\u00e3o seu querer. E toda e qualquer informa\u00e7\u00e3o, di\u00e1logo ou descri\u00e7\u00e3o tem que ser fundamental para a hist\u00f3ria. Muita gente erra ao rechear a hist\u00f3ria de coisas desnecess\u00e1rias. N\u00e3o concorre para o objetivo do protagonista? N\u00e3o serve para \u201cempurrar a trama\u201d para frente? Corta. Nada mais chato do que gente que n\u00e3o sabe contar uma hist\u00f3ria por excesso de informa\u00e7\u00e3o e que se perde no meio dela.<\/p>\n<p>Depois que voc\u00ea fizer isso muito bem feito, pode come\u00e7ar a brincar, a subverter. Mas, para come\u00e7ar, fa\u00e7a o b\u00e1sico.<\/p>\n<p>N\u00e3o deu? Ainda est\u00e1 confuso? Aqui vai uma dica ainda mais b\u00e1sica. Decida sobre o que quer falar e traduza isso em uma frase. Exemplo: Alicate \u00e9 um babaca. Beleza. Agora voc\u00ea vai sentar e escrever quatro par\u00e1grafos: O primeiro abre apresentando a ideia inicial, sem qualquer argumenta\u00e7\u00e3o, dizendo apenas que o Alicate \u00e9 um babaca. O segundo come\u00e7a a explicar porque ele \u00e9 um babaca (narra as imbecilidades que ele faz, por exemplo). O terceiro acompanha o segundo, mas em um tom crescente (conta hist\u00f3rias piores, questiona seu car\u00e1ter, fala que cometeu crimes). O quarto faz uma jun\u00e7\u00e3o de tudo que foi dito e fecha com a mesma premissa do primeiro: \u201cDiante de tanta falta de car\u00e1ter, crimes, desconsidera\u00e7\u00e3o, ego\u00edsmo e burrice, fica \u00f3bvio que o Alicate \u00e9 um babaca\u201d. N\u00e3o tem erro, segue isso que voc\u00ea n\u00e3o vai se perder e vai proporcionar uma leitura agrad\u00e1vel. N\u00e3o enrole, nenhuma informa\u00e7\u00e3o que n\u00e3o sirva para convencer de que o ALICATE \u00c9 UM BABACA deve ser inserida pois distrai o leitor e faz voc\u00ea de perder.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em>&#8211; PLUS &#8211;<\/em><\/p>\n<p>Um exemplo pr\u00e1tico de tudo que foi falado at\u00e9 aqui. Peguei um Siago Tomir, que, para quem \u00e9 leitor, \u00e9 uma hist\u00f3ria conhecida. Vamos trabalhar com este epis\u00f3dio cl\u00e1ssico que quem acompanha o Desfavor certamente conhece: <a href=\"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/2011\/05\/siago-tomir-o-espancador-de-caes\/\" target=\"_blank\">Siago Tomir: O espancador de c\u00e3es<\/a>.<\/p>\n<p>Descrevendo o epis\u00f3dio em uma frase: \u201cTomir adquire um cachorro de temperamento dif\u00edcil e, por n\u00e3o conseguir educa-lo e ele se transforma em um problema\u201d. Contou a ess\u00eancia da hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>A vers\u00e3o detalhada: \u201cPor uma quest\u00e3o de seguran\u00e7a, Tomir decide comprar um cachorro, mas escolhe uma ra\u00e7a dif\u00edcil de lidar. Inexperiente, ele n\u00e3o consegue disciplinar o cachorro e o animal sai do controle, chegando a colocar em risco sua vida. Sua namorada, preocupada com a situa\u00e7\u00e3o, acaba matando o animal\u201d. Pegou um esqueleto e recheou, j\u00e1 sabendo o final, o que permite fazer aquele afago mental que a gente conversou, de plantar dicas que ser\u00e3o compreendidas ao final.<\/p>\n<p>E quem \u00e9 o protagonista: Siago Tomir. Vamos descobrindo aos poucos quem ele \u00e9 por seus atos. Ele escolhe um filhote que claramente \u00e9 problem\u00e1tico, ele se recusa a ouvir conselhos, ele vai dando ind\u00edcios atrav\u00e9s de atos, ningu\u00e9m narra dizendo que ele \u00e9 assim, assim assado e por isso o cachorro \u00e9 um mal educado. Mostrar \u00e9 melhor do que descrever. As atitudes de Siago Tomir mostram seu perfil. A gente gosta dele logo de cara, pois quem de n\u00f3s nunca tomou uma decis\u00e3o errada, n\u00e3o agiu por impulso? Siago Tomir n\u00e3o estava mal intencionado, ele apenas desconhecia e teimava. Ele se colocou em uma situa\u00e7\u00e3o de se apegar a um cachorro que acabou se tornando um perigo para ele. O antagonista, Satan\u00e1s, tamb\u00e9m tem seus motivos. Ele n\u00e3o \u00e9 um cachorro escroto qualquer, que sai mordendo. Houve um forte motivo para ele chegar a esse ponto, que foram os erros de Siago Tomir.<\/p>\n<p>O querer: O querer de Siago Tomir \u00e9 ter um cachorro bacana sem precisar ter o trabalho de educa-lo. O querer de Satan\u00e1s \u00e9 matar Siago Tomir. Spoiler: quase sempre os quereres de Siago Tomir s\u00e3o irracionais, imposs\u00edveis ou nocivos para ele mesmo. Isso permite que se fa\u00e7a uma pequena jogada, um bug mental, jogando um final infeliz que na verdade \u00e9 feliz. Eu n\u00e3o escrevo para brasileiro m\u00e9dio, posso fazer uma gracinha dessas. Ainda assim, ainda com um querer pouco razo\u00e1vel, muita gente sempre torce para ele. Tudo \u00e9 a forma como se apresenta o personagem. Somos todos manipul\u00e1veis. Teve quem tor\u00e7a para que todo mundo consiga fugir do dono da Julieta, teve quem tor\u00e7a para que o Somir consiga fugir da resson\u00e2ncia magn\u00e9tica&#8230; enfim, quereres que s\u00e3o irracionais, mas quando voc\u00ea se afei\u00e7oa ao personagem, \u00e9 manipulado a torcer por ele.<\/p>\n<p>A trama: N\u00e3o se falou se ele tinha que cortar as unhas ou n\u00e3o. N\u00e3o se falou se ele estava com problemas no trabalho. Tudo que \u00e9 colocado ali empurra a trama para frente, que \u00e9 a situa\u00e7\u00e3o insustent\u00e1vel com Satan\u00e1s, que culmina na sua morte. A hist\u00f3ria est\u00e1 sequinha, enxuta: fala s\u00f3 sobre fatos relacionados \u00e0 rela\u00e7\u00e3o entreSiagoTomir e Satan\u00e1s e mostra, de forma crescente, os problemas aumentando em intensidade, at\u00e9 que a hist\u00f3ria se resolve. O protagonista passa por maus momentos e ao final aprende algo.<\/p>\n<p>O final: O final \u00e9 infeliz, n\u00e3o porque o cachorro morre (em \u201cCujo\u201d o cachorro morre e \u00e9 um final feliz!), mas sim porque o protagonista n\u00e3o conseguiu seu grande querer. Mas observem que muitos sentir\u00e3o al\u00edvio neste final, pois apesar de ser infeliz para o protagonista, quem tem c\u00e9rebro sabe que foi melhor para ele. Isso acontece porque o protagonista \u00e9 meio sem no\u00e7\u00e3o e vive se metendo em encrenca, logo, o seu querer \u00e9 sempre meio truncado. \u00c9 uma assinatura minha que geralmente est\u00e1 presente nos SiagoTomir, uma ironia para que as pessoas desapeguem da ideia de final feliz (essa porra de \u201ce viveram felizes para sempre\u201d \u00e9 um veneno) e percebam, de alguma forma, mesmo que sem querer, que um final infeliz pode, olhando de forma mais ampla, ser melhor e at\u00e9 implicar em um final maior e feliz.<\/p>\n<p>A transforma\u00e7\u00e3o: O protagonista se transforma depois de passar por muito sufoco, ele aprende algo, e a gente aprende junto com ele: c\u00e3es precisam ser educados, e n\u00e3o na base da viol\u00eancia. C\u00e3es d\u00e3o trabalho. C\u00e3es podem se voltar contra seus donos. N\u00e3o se briga com um c\u00e3o por algo que ele fez horas atr\u00e1s porque ele n\u00e3o vai entender,etc, etc. Siago Tomir muda, passa a criar apenas gatos.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">&#8212;<\/p>\n<p>Para fechar o texto de hoje, quero dizer que tudo que eu disse aqui se aplica \u00e0 vida profissional, pessoal e a entretenimento. Seja em uma reuni\u00e3o de neg\u00f3cios onde voc\u00ea quer vender um produto, seja em um julgamento, seja na hora de botar seu filho para dormir: o c\u00e9rebro humano gosta de colocar ordem no caos. Apresente algo confuso, fora de ordem, prolixo e seu interlocutor vai perder o interesse. Apresente algo redondinho, crescente e nesses moldes e veja as pessoas serem seduzidas. Fa\u00e7am o teste em qualquer \u00e1rea e eu lhes garanto que voc\u00eas v\u00e3o sentir a diferen\u00e7a. Voc\u00eas ser\u00e3o melhor ouvidos e passar\u00e3o melhor uma mensagem se contarem bem uma hist\u00f3ria. O mundo mudou muito nos \u00faltimos s\u00e9culos, mas essa \u00e9 uma coisa que n\u00e3o muda: o ser humano adora uma boa hist\u00f3ria e se rende a ela.<\/p>\n<h3>Para dizer que eu quebrei seu brinquedo e que agora vai ficar analisando friamente tudo quanto \u00e9 hist\u00f3ria, para dizer que eu sou burra de n\u00e3o escrever um livro de autoajuda sobre \u201cO poder de contar uma hist\u00f3ria\u201d em vez de jogar isso de gra\u00e7a aqui ou ainda para imaginar que espet\u00e1culo devo ser eu contando uma hist\u00f3ria para uma crian\u00e7a dormir: <a href=\"mailto:sally@desfavor.com\">sally@desfavor.com<\/a><\/h3>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o importa quem voc\u00ea seja, qual sua ocupa\u00e7\u00e3o ou qual a sua classe social, se voc\u00ea for humano, saber contar uma boa hist\u00f3ria \u00e9 fundamental: seja para convencer um juiz, seja para colocar sua filha para dormir, seja para divertir os amigos ou at\u00e9 para se promover de uma forma sutil. 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