{"id":6684,"date":"2014-06-15T14:00:21","date_gmt":"2014-06-15T17:00:21","guid":{"rendered":"http:\/\/www.desfavor.com\/blog\/?p=6684"},"modified":"2014-06-15T06:57:02","modified_gmt":"2014-06-15T09:57:02","slug":"desfavor-convidado-um-mago-sem-destino-7","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/2014\/06\/desfavor-convidado-um-mago-sem-destino-7\/","title":{"rendered":"Desfavor Convidado: Um mago sem destino. (7)"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-6361\" src=\"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2014\/04\/descon-magosem01.jpg\" alt=\"descon-magosem01\" width=\"600\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2014\/04\/descon-magosem01.jpg 600w, https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2014\/04\/descon-magosem01-300x150.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/p>\n<blockquote><p><em><strong>Desfavor Convidado<\/strong> \u00e9 a coluna onde os impopulares ganham voz aqui na Rep\u00fablica Impopular. Se voc\u00ea quiser tamb\u00e9m ter seu texto publicado por aqui, basta enviar para <a href=\"mailto:desfavor@desfavor.com\">desfavor@desfavor.com<\/a>.<\/em><br \/>\n<em>O Somir se reserva ao direito de implicar com os textos e n\u00e3o public\u00e1-los. Sally promete interceder por voc\u00eas.<\/em><\/p><\/blockquote>\n<p><strong>Desfavor Convidado: Um mago sem destino<\/strong><\/p>\n<h2>Cap\u00edtulo 3 &#8211; Flecha do tempo Parte 2<\/h2>\n<p>Em uma cabana no interior da R\u00fassia, Ivo preparava tranquilamente o caf\u00e9 da manh\u00e3 enquanto admirava atrav\u00e9s da janela suas duas filhas correndo pelos campos de trigo de sua pequena propriedade. Mesmo antes do desjejum ele j\u00e1 bebericava um copo de vodca, pensando em como seria bom se Yelena voltasse logo do turno noturno que ela fazia no hospital local.<!--more--><br \/>\n Enquanto pensava nisso ele ouviu baterem na porta da frente, mas n\u00e3o foi atender de imediato, achando que poderia ser uma visita indesejada. Bateram na porta novamente e ele soltou tr\u00eas palavr\u00f5es antes de finalmente abrir a porta. Quem batia era Mary, assistente pessoal do patr\u00e3o que o havia contratado por causa de seus antecedentes na KGB:<\/p>\n<p>_Mister Crowley necessita de seus servi\u00e7os. &#8211; disse Mary em russo.<\/p>\n<p>Ivo voltou ao fundo da casa e chamou pelas suas filhas, que vieram imediatamente:<\/p>\n<p>_Peguem o caf\u00e9 da manh\u00e3 e esperem a mam\u00e3e na casa do tio Igor. Papai volta logo. &#8211; disse Ivo, abra\u00e7ando demoradamente cada uma de suas filhas. Depois ele entrou em uma dep\u00f3sito e saiu vestindo um avental branco de a\u00e7ougueiro, acompanhando Mary para o lado de fora da casa. Em um momento ele observava o conhecido interior de sua casa, mas ap\u00f3s ela fechar e abrir a porta novamente, um longo corredor havia aparecido no lugar.<\/p>\n<p>_Nunca irei me acostumar com essa porra! &#8211; exclamou Ivo, entrando no corredor. Ele esperou Mary fechar a porta e seguiram o corredor, que possu\u00eda diversas outras portas de cada lado. Ele pensava que se algum desavisado ca\u00edsse ali poderia correr o risco de se perder, j\u00e1 que o corredor era aparentemente sem come\u00e7o e sem fim. Finalmente pararam na frente de outra porta:<\/p>\n<p>_\u00c9 aqui. &#8211; disse Mary.<\/p>\n<p>_Como voc\u00ea sabe? Pra mim essas portas s\u00e3o todas iguais. &#8211; perguntou Ivo.<\/p>\n<p>_Ap\u00f3s todo esse tempo trabalhando com a gente, achei que voc\u00ea tivesse aprendido a n\u00e3o fazer perguntas.<\/p>\n<p>_Sim, senhorita.<\/p>\n<p>Mary abriu a porta e eles entraram. Do outro lado estava o clube Caverna e tr\u00eas pessoas os esperavam, dois seguran\u00e7as e um terceiro homem que Ivo desconhecia.<\/p>\n<p>_Esse \u00e9 Raul, Mister Crowley pediu que voc\u00ea apresentasse as sombras para ele. &#8211; disse Mary para o russo, que apenas concordou com a cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>Ivo se aproximou de Raul e disse em um portugu\u00eas truncado:<\/p>\n<p>_Por favor, me acompanhe.<\/p>\n<p>Sem muitas op\u00e7\u00f5es, Raul seguiu-o at\u00e9 o local onde as pessoas olhavam embasbacadas para um monte de sombras indefinidas.<\/p>\n<p>_Normalmente o tempo \u00e9 como uma flecha, que ap\u00f3s lan\u00e7ada segue apenas um caminho reto. &#8211; disse Ivo olhando para as sombras. _Por\u00e9m, se retirarmos o flecheiro da cena, aquela flecha lan\u00e7ada pode seguir em qualquer dire\u00e7\u00e3o, pois sem uma perspectiva definida racionalmente, o tempo e o espa\u00e7o se perdem no infinito.<\/p>\n<p>_Eu n\u00e3o entendo&#8230;<\/p>\n<p>_Nosso planeta \u00e9 um ponto perdido no espa\u00e7o-tempo, nada mais que isso. No infinito do cosmos n\u00e3o existe dire\u00e7\u00e3o pra cima, pra baixo, come\u00e7o ou fim. Por isso, \u00e9 poss\u00edvel ir para o futuro ou voltar para o passado. Ir para o futuro \u00e9 simples, basta uma velocidade como a da luz que o tempo correr\u00e1 conforme essa velocidade. Por\u00e9m, ir para o passado \u00e9 mais complicado, pois precisamos de falhas temporais conhecidas como buracos de minhoca.<\/p>\n<p>_Buracos de minhoca?<\/p>\n<p>_Sim. No exemplo de se ir para o futuro, esse buraco \u00e9 criado automaticamente pela pr\u00f3pria m\u00e1quina pertencente ao passado. Por\u00e9m, para voltar ao passado, precisamos encontrar brechas. Essas brechas normalmente s\u00e3o objetos, pessoas, lembran\u00e7as ou locais no presente, mas que pertencem ao passado. Normalmente s\u00e3o chamados de d\u00e9j\u00e0 v\u00fa, que nada mais s\u00e3o do que essas brechas do tempo.<\/p>\n<p>_Mas o que isso tem a ver com essas sombras?<\/p>\n<p>_Essas sombras s\u00e3o um d\u00e9j\u00e0 v\u00fa de todas as pessoas que entram aqui nesse clube e elas sempre revelam nossas lembran\u00e7as mais amargas, nosso lado mais negro. Quando voc\u00ea olhar para essas sombras, quero que imagine um local, uma lembran\u00e7a, uma pessoa ou um objeto atual que seja id\u00eantico a essa mesma coisa no passado.<\/p>\n<p>_Como assim?<\/p>\n<p>_Pode ser qualquer coisa que n\u00e3o tenha mudado com o tempo, pode ser desde uma ideia da sua cabe\u00e7a at\u00e9 a alguma coisa real. Normalmente casas n\u00e3o mudam com o tempo e \u00e9 a maneira mais f\u00e1cil de encontrar um buraco de minhoca para o passado. Por isso, sugiro que quando olhar para as sombras, imagine a casa em que morou quando era crian\u00e7a com o maior n\u00famero de detalhes poss\u00edvel. Quero que voc\u00ea pegue objetos da casa, sinta as texturas, cheiros e assim essa lembran\u00e7a ir\u00e1 se tornar cada vez mais real.<\/p>\n<p>_E o que eu fa\u00e7o depois?<\/p>\n<p>_Voc\u00ea far\u00e1 o que Mister Crowley pediu e se tornar\u00e1 parte da Fraternidade ou&#8230;<\/p>\n<p>_Ou?<\/p>\n<p>_Bem, digamos apenas que n\u00e3o estou com esse avental de a\u00e7ougueiro \u00e0 toa.<\/p>\n<p>Desanimado, Raul se aproximou das sombras e finalmente percebeu que uma das pessoas que olhavam hipnotizados para elas era Eduardo, seu colega de trabalho. Olhando atentamente para as sombras, Raul come\u00e7ou a se lembrar da casa aonde morava quando sua irm\u00e3 sumiu. Aos poucos as sombras foram tomando forma, virando paredes e objetos conforme a lembran\u00e7a de Raul ia se fortalecendo. Raul sentiu que seu corpo se modificava, suas m\u00e3os ficavam com rugas e ele suava em bicas. Ele olhou para os lados e viu que aquilo era mais que uma lembran\u00e7a, ele estava realmente na antiga casa em que morava. Raul andou pela casa e tocou em tudo o que p\u00f4de, seguindo a orienta\u00e7\u00e3o de Ivo. Parou na frente da porta de seu antigo quarto e ouviu duas vozes vindo do outro lado. Tocou a ma\u00e7aneta e percebeu que as duas vozes pararam de conversar no mesmo instante em que ele abria a porta. Do outro lado, viu sua irm\u00e3 sentada diante de um Raul de 10 anos de idade:<\/p>\n<p>_Ol\u00e1, papai. &#8211; disseram os dois jovens.<\/p>\n<p>_Samantha&#8230; &#8211; Raul olhou ao redor e compreendeu que havia voltado no tempo, mas no corpo de seu pr\u00f3prio pai. Adiantou-se numa tentativa de abra\u00e7ar os dois, mas o telefone tocou e ele foi atender:<\/p>\n<p>_Al\u00f4? &#8211; perguntou<\/p>\n<p>_Ol\u00e1 Raul. &#8211; era a voz de Mister Crowley do outro lado.<\/p>\n<p>_Ol\u00e1&#8230;<\/p>\n<p>_Como pode notar, a flecha do tempo tem suas, digamos&#8230; Ironias.<\/p>\n<p>_Sim.<\/p>\n<p>_Por isso, siga o fluxo das lembran\u00e7as livremente e no final da jornada voc\u00ea ter\u00e1 que enfrentar uma dif\u00edcil decis\u00e3o.<\/p>\n<p>_J\u00e1 estou ciente disso.<\/p>\n<p>_Bem, espero voc\u00ea do outro lado. &#8211; disse Mister Crowley, desligando o telefone.<\/p>\n<p>Raul colocou o telefone no gancho e come\u00e7ou a seguir seu instinto para tentar sair daquela situa\u00e7\u00e3o. Sentindo a necessidade de finalmente descobrir em que projeto secreto seu pai trabalhava, Raul procurou pela maleta que ele usava para trabalhar. Encontrou-a no fundo de um arm\u00e1rio, abriu-a, mas todos os pap\u00e9is estavam ileg\u00edveis.<\/p>\n<p>_Eu nunca li esses pap\u00e9is, n\u00e3o fazem parte da minha lembran\u00e7a. &#8211; disse para si mesmo, deduzindo o que estava acontecendo. <\/p>\n<p>Raul fechou a pasta, mas continuou segurando-a e tentou sair da casa. Por\u00e9m, n\u00e3o havia nada do lado de fora, apenas um imenso vazio aonde flutuava sua antiga casa. Ent\u00e3o Raul for\u00e7ou a sua mente para se lembrar como era o jardim que cercava a casa e aos poucos foi preenchendo aquele vazio, como um quebra-cabe\u00e7as. Lembrou-se do port\u00e3o de madeira que separava a casa da rua, dos muros da casa e da vizinhan\u00e7a ao redor. Conforme ia se lembrando, maior ia ficando o quebra-cabe\u00e7as, afastando o espa\u00e7o vazio. Quando se sentiu satisfeito com a quantidade de lembran\u00e7as que possu\u00eda daquelas redondezas, Raul come\u00e7ou a andar pela rua, se lembrando do caminho que tinha percorrido at\u00e9 chegar ao local do sumi\u00e7o de sua irm\u00e3. Come\u00e7ou tamb\u00e9m a se lembrar de pessoas como Frederico, o velho dono da Quitanda do Bairro e dona Isaura, a vizinha fofoqueira que vivia dando belisc\u00f5es nele quando era crian\u00e7a. A lembran\u00e7a dessas pessoas eram bem limitadas e elas ficavam sempre repetindo os mesmos gestos, como discos riscados:<\/p>\n<p>_Hoje as mangas est\u00e3o docinhas&#8230; Hoje as mangas est\u00e3o docinhas&#8230;. Hoje as mangas est\u00e3o docinhas&#8230; &#8211; falava Frederico.<\/p>\n<p>_Seu menino malcriado, sua m\u00e3e deve ter morrido de desgosto&#8230; Seu menino malcriado&#8230;.. &#8211; falava Dona Isaura.<\/p>\n<p>Raul descobriu que tamb\u00e9m podia inventar detalhes naquela lembran\u00e7a, como o cachorro cor de rosa que acabava de atravessar a rua e os pirulitos gigantes que flutuavam como bal\u00f5es no balc\u00e3o da quitanda de Frederico. Entre lembran\u00e7as e inven\u00e7\u00f5es, ele finalmente chegou ao local do desaparecimento de sua irm\u00e3 e ficou aguardando ali, achando que em algum momento sua mem\u00f3ria chegaria ao ponto crucial desse trauma de inf\u00e2ncia. Esperou por horas a fio e nada aconteceu, de repente ele teve um pressentimento:<\/p>\n<p>_Precisa de um gatilho para a lembran\u00e7a come\u00e7ar&#8230;<\/p>\n<p>Ent\u00e3o ele fez o caminho de volta para sua antiga casa e viu diversos carros e furg\u00f5es pretos estacionados na rua. Conforme foi se aproximando, homens vestindo ternos pretos sa\u00edram dos autom\u00f3veis. Um deles se aproximou e perguntou:<\/p>\n<p>_Quais s\u00e3o as ordens senhor? Quais s\u00e3o as ordens senhor?<\/p>\n<p>Raul deu a \u00fanica resposta que acionaria o resto da lembran\u00e7a:<\/p>\n<p>_N\u00f3s vamos entrar.<\/p>\n<p>Continua&#8230;.<\/p>\n<p><em><span style=\"color: #ff0000;\"><strong>Chester Chenson<\/strong><\/span><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Desfavor Convidado \u00e9 a coluna onde os impopulares ganham voz aqui na Rep\u00fablica Impopular. Se voc\u00ea quiser tamb\u00e9m ter seu texto publicado por aqui, basta enviar para <a href=\"mailto:desfavor@desfavor.com\">desfavor@desfavor.com<\/a>. O Somir se reserva ao direito de implicar com os textos e n\u00e3o public\u00e1-los. Sally promete interceder por voc\u00eas. 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