{"id":6740,"date":"2014-06-27T06:00:13","date_gmt":"2014-06-27T09:00:13","guid":{"rendered":"http:\/\/www.desfavor.com\/blog\/?p=6740"},"modified":"2014-06-27T22:21:37","modified_gmt":"2014-06-28T01:21:37","slug":"des-contos-ozon-parte-9","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/2014\/06\/des-contos-ozon-parte-9\/","title":{"rendered":"Des Contos: Ozon &#8211; Parte 9"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-6741\" src=\"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/desc-ozonc09.jpg\" alt=\"desc-ozonc09\" width=\"600\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/desc-ozonc09.jpg 600w, https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/desc-ozonc09-300x150.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/p>\n<p>Sob a sombra matinal do maior edif\u00edcio do planeta Eeva, Heitor apequena-se. N\u00e3o s\u00f3 pela constru\u00e7\u00e3o superlativa, mas pelo prospecto de enfrentar uma enormidade de candidatos na disputa pela rara oportunidade de gerenciar a j\u00e1 m\u00edtica Mina Ozon-C Alfa. Uma fila de centenas de pessoas serpenteia pelos jardins \u00e0 frente da sede da Hyacintho, megacorpora\u00e7\u00e3o do setor de explora\u00e7\u00e3o espacial cujas filiais espalham-se por todo o universo conhecido.<!--more--><\/p>\n<p>Mas pouco h\u00e1 de ambiente corporativo na como\u00e7\u00e3o causada por esta vaga de emprego. A esmagadora maioria dos candidatos presentes ali estaria mais \u00e0 vontade numa conven\u00e7\u00e3o cosmot\u00e9rica. Alguns cantam m\u00fasicas sobre exist\u00eancias paralelas e povos esquecidos, alguns d\u00e3o as m\u00e3os e dan\u00e7am alegremente, outros ainda parecem mais entretidos com doses de expansores sensoriais do que com o andamento da fila.<\/p>\n<p>Logo a frente de Heitor, um deles. Cabelos longos, bata colorida e adere\u00e7os r\u00fasticos chacoalhando por seus bra\u00e7os vaguejantes. O v\u00e3o livre na fila \u00e0 sua frente aumenta, sem gerar rea\u00e7\u00e3o por parte do homem. Heitor faz men\u00e7\u00e3o de tocar o ombro do distra\u00eddo concorrente, mas vacila. Mais alguns segundos, maior o espa\u00e7o desocupado. Heitor balbucia alguma coisa, inintelig\u00edvel.<\/p>\n<p><b>VOZ FEMININA:<\/b> Irm\u00e3o! Irm\u00e3o! Siga seu caminho!<\/p>\n<p>O homem volta-se para Heitor. Heitor trava por alguns segundos, como se estivesse pensando em algo para dizer. Sente ent\u00e3o um toque sobre seu ombro direito. Ao olhar para aquela dire\u00e7\u00e3o, v\u00ea surgir por detr\u00e1s de si uma jovem de cabelos vermelhos e olhos verdes, complei\u00e7\u00e3o delicada e sorriso f\u00e1cil. Vestida de forma semelhante a tantas outras que dan\u00e7am despreocupadas pelos arredores, ela se diferencia pela sobriedade de seu olhar.<\/p>\n<p><b>MULHER:<\/b> Nossos sonhos dependem dos seus passos, irm\u00e3o.<\/p>\n<p>A voz dela \u00e9 suave, adocicada. O homem sorri, faz uma rever\u00eancia e finalmente se move, religando a fila. Heitor arregala os olhos em dire\u00e7\u00e3o a ela, num daqueles momentos de confid\u00eancia n\u00e3o-verbal que s\u00f3 companheiros de fila entendem. Ela ilumina-se instantaneamente com um largo sorriso. Heitor pensa em dizer alguma coisa, mas ela interrompe o momento apontando para o novo v\u00e3o criado, agora por culpa de Heitor. Ele se apressa.<\/p>\n<p><b>MULHER:<\/b> Lua!<br \/>\n<b>HEITOR:<\/b> Pois n\u00e3o?<br \/>\n<b>MULHER:<\/b> Meu nome \u00e9 Lua.<br \/>\n<b>HEITOR:<\/b> Heitor&#8230; Lua?<br \/>\n<b>LUA:<\/b> Eu sei, eu sei&#8230; se voc\u00ea acha que eu tenho cara de cosmot\u00e9rica, precisa conhecer os meus pais!<br \/>\n<b>HEITOR:<\/b> O nome \u00e9 muito bonito.<br \/>\n<b>LUA:<\/b> Obrigada! Me diz uma coisa, Heitor&#8230; voc\u00ea parece um candidato mais&#8230; s\u00e9rio&#8230; do que a maioria dos&#8230; de n\u00f3s. Por que voc\u00ea quer ir para Ozon?<br \/>\n<b>HEITOR:<\/b> O pagamento \u00e9 bom, vai ter uma cabine de manuten\u00e7\u00e3o fisiol\u00f3gica&#8230; Parece um bom neg\u00f3cio.<br \/>\n<b>LUA:<\/b> Vinte anos?<br \/>\n<b>HEITOR:<\/b> Vinte anos aqui, vinte anos l\u00e1&#8230; aposto que daria no mesmo.<br \/>\n<b>LUA:<\/b> E namorada, amigos, fam\u00edlia?<br \/>\n<b>HEITOR:<\/b> N\u00e3o tenho namorada&#8230;<br \/>\n<b>LUA:<\/b> Isso foi uma indireta?<br \/>\n<b>HEITOR:<\/b> N\u00e3o&#8230; n\u00e3o&#8230;<br \/>\n<b>LUA:<\/b> Hahaha&#8230; estou brincando. Mas e fam\u00edlia e amigos?<br \/>\n<b>HEITOR:<\/b> Tenho certeza que eles podem viver sem mim. N\u00e3o seria novidade para eles mesmo.<br \/>\n<b>LUA:<\/b> Voc\u00ea \u00e9 um desafio para o meu bom-humor, Heitor.<br \/>\n<b>HEITOR:<\/b> E o time s\u00f3 aumenta&#8230;<br \/>\n<b>LUA:<\/b> Hahaha! Eu quero descobrir os segredos de Ozon. Saber o que a Tempestade guarda!<br \/>\n<b>HEITOR:<\/b> Uma estrela moribunda, gelo e plut\u00f4nio?<br \/>\n<b>LUA:<\/b> N\u00e3o! A Tempestade est\u00e1 l\u00e1 por um motivo&#8230; meus pais acreditavam nisso. Cresci ouvindo falar de Ozon. De como tudo aquilo j\u00e1 esteve cheio de vida. Dizem que s\u00e3o lendas&#8230; mas quem n\u00e3o ama lendas? Eu sei que n\u00e3o tenho muita chance de conseguir, mas&#8230;<br \/>\n<b>HEITOR:<\/b> Todo mundo tem chance. Por isso est\u00e3o entrevistando os candidatos.<br \/>\n<b>LUA:<\/b> Eu sou um pouco mais esperta do que isso&#8230; mas agrade\u00e7o o voto de confian\u00e7a.<br \/>\n<b>HEITOR:<\/b> N\u00e3o acho que eu v\u00e1 ser escolhido, para ser honesto.<br \/>\n<b>LUA:<\/b> N\u00e3o vejo porque n\u00e3o. Pouca gente quer ir para l\u00e1 de verdade.<br \/>\n<b>HEITOR:<\/b> Pajear m\u00e1quinas por duas d\u00e9cadas n\u00e3o parece mesmo o tipo de trabalho que atrairia tantos candidatos&#8230;<br \/>\n<b>LUA:<\/b> Mas nos atraiu. Essas m\u00e1quinas todas s\u00f3 existem porque n\u00f3s existimos. Somos o que d\u00e1 prop\u00f3sito para elas. N\u00e3o importa o que elas nos digam&#8230;<br \/>\n<b>HEITOR:<\/b> Como assim?<br \/>\n<b>LUA:<\/b> Olha&#8230;<\/p>\n<p>Lua aponta para cima, chamando a aten\u00e7\u00e3o de Heitor. Um modern\u00edssimo sentinela anti-gravitacional vem rasgando os c\u00e9us por sobre a multid\u00e3o. Recebido com gritos e assovios por uma plateia entusiasmada, o compacto aut\u00f4mato em forma de disco desacelera repentinamente sobre Heitor e Lua.<\/p>\n<p><b>LUA:<\/b> Acharam voc\u00ea.<br \/>\n<b>HEITOR:<\/b> O qu\u00ea?<br \/>\n<b>SENTINELA:<\/b> Zordo, Heitor. Zordo, Heitor. Favor me seguir.<br \/>\n<b>HEITOR:<\/b> Mas&#8230;<br \/>\n<b>LUA:<\/b> Vai logo! Os candidatos com chance de verdade n\u00e3o ficam nessa fila. Essa coisa voadora j\u00e1 veio buscar outros antes.<br \/>\n<b>HEITOR:<\/b> E voc\u00ea?<br \/>\n<b>LUA:<\/b> Eu j\u00e1 fiz o que tinha que fazer aqui. Boa sorte!<\/p>\n<p>Lua d\u00e1 um demorado beijo na bochecha de Heitor, enxotando-o com as m\u00e3os logo a seguir. Heitor olha para ela por alguns segundos, e segue lentamente at\u00e9 o sentinela. A m\u00e1quina come\u00e7a a se mover, Heitor em seu encal\u00e7o. Antes de adentrar o enorme sagu\u00e3o do edif\u00edcio, Heitor volta-se para onde estava Lua. Nem sinal dela.<\/p>\n<p>As horas seguintes s\u00e3o recheadas de checagens, an\u00e1lises psicol\u00f3gicas, f\u00edsicas e provas de conhecimento mnem\u00f4nico org\u00e2nico. As cores em profus\u00e3o na multid\u00e3o l\u00e1 foram condensam-se em tons de cinza dentro das in\u00fameras salas de espera, consult\u00f3rios e escrit\u00f3rios pontuando os interiores da sede da Hyacintho. Heitor segue at\u00e9 tarde da noite, avan\u00e7ando com sobras pelo processo seletivo. Com diversos cursos espec\u00edficos e conhecimentos relacionados com o trabalho no curr\u00edculo, Heitor parecia ter sido feito para o trabalho. A inseguran\u00e7a inicial parecia infundada agora.<\/p>\n<p>A confirma\u00e7\u00e3o de sua sele\u00e7\u00e3o vem com um aperto de m\u00e3o de uma executiva cujo nome mal se lembraria mais tarde, fruto misto de empolga\u00e7\u00e3o e ansiedade com o que viria pela frente. Ele seguiria o processo de treinamento pelo pr\u00f3ximo ano, e logo ap\u00f3s, juntar-se-ia a um seleto grupo de gerentes da mais in\u00f3spita opera\u00e7\u00e3o humana no universo conhecido.<\/p>\n<p>Enviado para casa para uma merecida noite de sono, Heitor gasta v\u00e1rias dessas horas de descanso arrumando seus parcos pertences numa modesta cabine habitacional que provavelmente nunca mais veria. Cora\u00e7\u00e3o palpitante, rolava pela cama, sonhando ainda acordado com tudo o que faria nos pr\u00f3ximos meses de treinamento e anos de miss\u00e3o.<\/p>\n<p>Antes do corpo finalmente sucumbir ao cansa\u00e7o, Lua toma de assalto seus pensamentos. Os expressivos olhos verdes, o sorriso contagiante&#8230; Heitor n\u00e3o tinha mais espa\u00e7o em sua vida para arroubos de romantismo; mas mesmo desconsiderada sua beleza, ainda sim havia algo nela que parecia n\u00e3o o deixar.<\/p>\n<p><b>LUA:<\/b> Heitor?<\/p>\n<p>Heitor abre os olhos assustado e se encolhe na cama. As luzes do c\u00f4modo acendem-se automaticamente com o movimento brusco. Heitor continuava sozinho ali, apesar da voz de Lua ter soado extremamente real. Enquanto ainda tenta fazer algum senso do acontecido, a mesma voz suave de outrora parece sussurrar em seus ouvidos.<\/p>\n<p><b>LUA:<\/b> Eu vou esperar por voc\u00ea do outro lado.<\/p>\n<p>Sem ter um corpo presente para atribuir a voz, Heitor paralisa-se. Fecha os olhos com for\u00e7a e come\u00e7a a repetir para si mesmo que estava apenas tendo uma crise de estresse. O sil\u00eancio ao seu redor parece corroborar com a ideia. Juntando coragem para retomar a vis\u00e3o, percebe os primeiros raios da alvorada atravessando a janela de sua cabine. V\u00e1rias horas deveriam ter se passado, atribuindo credibilidade \u00e0 possibilidade de ter sido apenas um sonho estranho. Mesmo cansado, Heitor levanta-se e come\u00e7a a se preparar para sair, seu primeiro compromisso na jornada at\u00e9 Ozon seria em poucas horas, o come\u00e7o do treinamento j\u00e1 na esta\u00e7\u00e3o espacial Eeva Primer.<\/p>\n<p>Depois de um pregui\u00e7oso banho e um improvisado caf\u00e9-da-manh\u00e3, Heitor finalmente se vestira. A vantagem de ter t\u00e3o poucas possess\u00f5es era a facilidade de carregar tudo em uma pequena mala, a qual segura firmemente enquanto encara a porta. Estava na hora. Um suspiro antecede a libera\u00e7\u00e3o da trava.<\/p>\n<p>Um flash de luz branca sucede. Alguns segundos depois, o estrondo. O rugido abafado transforma-se em trepidar. A janela explode em milh\u00f5es de peda\u00e7os, fruto de uma onda de choque que faz o ch\u00e3o sob seus p\u00e9s estremecer. Arremessado contra uma das paredes que j\u00e1 come\u00e7a a trincar, Heitor perde a consci\u00eancia antes mesmo do p\u00e2nico se instaurar.<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>As pernas mandam sinais para o c\u00e9rebro. Dor. O ar polui seus pulm\u00f5es com detritos em suspens\u00e3o, a pele quente e sens\u00edvel como se tivesse acabado de passar tempo demais sob o Hel. Heitor tosse violentamente, toda sua exist\u00eancia ressurgindo num espasmo dolorido. O cheiro de queimado instaura-se em sua mente antes mesmo do c\u00e9u acinzentado chamar a aten\u00e7\u00e3o de seus olhos. A audi\u00e7\u00e3o comprometida por um zumbido intermitente. Ao redor, escombros. Escombros at\u00e9 onde a vista alcan\u00e7a.<\/p>\n<p>A dor exige aten\u00e7\u00e3o iminente. Por sobre suas pernas, um pesado bloco de concreto refor\u00e7ado. Instintivamente, berra por socorro. Seguidas e seguidas vezes, tentando em v\u00e3o mover o pedregulho que o prende. Quando finalmente come\u00e7a a escutar a pr\u00f3pria voz, percebe que n\u00e3o \u00e9 a \u00fanica. Outras vozes em desespero e lamento preenchem o ar. Vultos no limite de sua vis\u00e3o o faz notar sentinelas cruzando os c\u00e9us.<\/p>\n<p>Acenando para uma delas, percebe que se trata de um modelo antiquado, parecido com os que vira em museus militares. A pe\u00e7a hist\u00f3rica parece fazer seu papel, estabilizando seu v\u00f4o por sobre a cabe\u00e7a de Heitor, como se marcasse a posi\u00e7\u00e3o. Suas pernas j\u00e1 come\u00e7avam a ficar dormentes quando finalmente ouve algo reconfortante.<\/p>\n<p><b>VOZ MASCULINA:<\/b> SOBREVIVENTE!<br \/>\n<b>HEITOR:<\/b> AQUI! SOCORRO! SOCORRO!<\/p>\n<p>Impossibilitado de se movimentar, Heitor tem de esperar at\u00e9 o dono da voz entrar em seu campo de vis\u00e3o. Vestindo um uniforme claramente militar adornado por uma cruz vermelha no peito, o homem est\u00e1 segurando um rifle. Rifle que logo deixa de lado para atender Heitor.<\/p>\n<p><b>HOMEM:<\/b> Calma, amigo. A ajuda chegou! EEEI! CICATRIZ! DOZE! VENHAM ME AJUDAR!<\/p>\n<p><span style=\"color: #808080;\"><em>Continua na parte 10<\/em><\/span><\/p>\n<h3>Para dizer que \u00e9 muita coisa para ningu\u00e9m ler, para dizer que a hist\u00f3ria n\u00e3o avan\u00e7a, ou mesmo para dizer que isso est\u00e1 com cara de ter final cagado: <a href=\"mailto:somir@desfavor.com\">somir@desfavor.com<\/a><\/h3>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sob a sombra matinal do maior edif\u00edcio do planeta Eeva, Heitor apequena-se. N\u00e3o s\u00f3 pela constru\u00e7\u00e3o superlativa, mas pelo prospecto de enfrentar uma enormidade de candidatos na disputa pela rara oportunidade de gerenciar a j\u00e1 m\u00edtica Mina Ozon-C Alfa. 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