{"id":6925,"date":"2014-07-16T06:00:33","date_gmt":"2014-07-16T09:00:33","guid":{"rendered":"http:\/\/www.desfavor.com\/blog\/?p=6925"},"modified":"2014-07-16T04:47:39","modified_gmt":"2014-07-16T07:47:39","slug":"metahumanidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/2014\/07\/metahumanidade\/","title":{"rendered":"Metahumanidade."},"content":{"rendered":"<p>&#8220;Meta&#8221; \u00e9 um prefixo usado para definir quando algo \u00e9 definido ou explicado por ele mesmo. \u00c9, n\u00e3o foi um bom come\u00e7o&#8230; pensemos num exemplo: Metadata, palavra cada vez mais comum no nosso dia-a-dia, nada mais s\u00e3o dados usados para analisar outros dados. Pense nas tags abaixo de nossos textos&#8230; elas s\u00e3o metadata. S\u00f3 existem porque os textos existem. Tire os textos e elas s\u00e3o meras palavras jogadas ao vento. E o texto de hoje s\u00f3 existe porque parece que cada vez mais pessoas escolhem a vida de metadata.<!--more--><\/p>\n<p>Se voc\u00ea continuou lendo, sabe no que est\u00e1 se metendo. N\u00e3o adianta reclamar&#8230;<\/p>\n<p>A nossa pr\u00f3pria exist\u00eancia como esp\u00e9cie \u00e9 &#8220;meta&#8221;. Somos o que somos e fazemos o que fazemos para que a pr\u00f3pria humanidade seja definida. Apesar de grande parte de n\u00f3s vivermos sob a ideia de que h\u00e1 um ou mais &#8220;elementos externos&#8221; julgando o que fazemos, no final das contas ser humano \u00e9 fazer parte da complexa sociedade humana. O prop\u00f3sito inserido nele mesmo. Socializar, consumir, trabalhar, transgredir&#8230; tudo muito mais dependente das nossas intera\u00e7\u00f5es do que propriamente do nosso instinto de sobreviv\u00eancia.<\/p>\n<p>E quanto mais a sociedade se refina, mais e mais nos comprometemos com pap\u00e9is &#8220;metahumanos&#8221;. Imagine uma cat\u00e1strofe qualquer que reverta a humanidade a um estado primal de subsist\u00eancia&#8230; pode ser desde um meteoro at\u00e9 mesmo algo mais l\u00fadico como um apocalipse zumbi&#8230; se algo assim acontecer, quantos de n\u00f3s ser\u00edamos realmente \u00fateis para esse nem um pouco admir\u00e1vel mundo novo?<\/p>\n<p>N\u00e3o estou apontando o dedo para ningu\u00e9m. Eu mesmo seria mais eficiente como alimento do que como profissional. Publicit\u00e1rios, programadores, advogados, artistas, analistas, atendentes&#8230; grande parte dos trabalhos que comp\u00f5em nosso mercado s\u00e3o de pouca ou nenhuma serventia fora de toda essa experi\u00eancia social que chamamos de mundo moderno. Mas isso n\u00e3o \u00e9 uma cr\u00edtica, longe disso. Que bom que cada vez mais podemos nos concentrar em tarefas menos urgentes do que ficarmos vivos tempo suficiente para nos reproduzir e manter a esp\u00e9cie vi\u00e1vel!<\/p>\n<p>\u00c9 realmente lindo de um ponto de vista hist\u00f3rico que um cidad\u00e3o possa viver de cheirar e provar vinhos, por exemplo. Tenha voc\u00ea a opini\u00e3o que tiver sobre en\u00f3logos. Um luxo conquistado a duras penas por nossos antepassados. Essa &#8220;metahumanidade&#8221; de fazer sentido pela exist\u00eancia da pr\u00f3pria humanidade \u00e9 sinal ineg\u00e1vel de evolu\u00e7\u00e3o. Mas como sempre, n\u00e3o podemos ignorar as dores do crescimento.<\/p>\n<p>Quanto mais vivemos em fun\u00e7\u00e3o da estrutura social vigente, maiores os riscos de virarmos &#8220;tags&#8221; como no exemplo do in\u00edcio deste texto. Metadata ao inv\u00e9s de metahumanos. Uma coisa \u00e9 se beneficiar dessa capacidade incr\u00edvel de se definir pelos pr\u00f3prios gostos e opini\u00f5es e buscar mentes semelhantes, outra bem diferente \u00e9 se tornar um descritor gen\u00e9rico. Calma, piora&#8230; tenho um exemplo:<\/p>\n<p>A &#8220;data&#8221; pode mudar, a metadata n\u00e3o. Se eu escrevo um texto sobre redes sociais e menciono nele como aproxima as pessoas, posso colocar a tag &#8220;proximidade&#8221; nele. Faz sentido. O texto existe e a tag existe. Mas se eu mudo de ideia no dia seguinte e digo que na verdade as redes sociais isolam as pessoas, a tag fica \u00f3rf\u00e3. N\u00e3o descreve mais algo presente ali. O texto continua v\u00e1lido, ele se modifica de acordo com o significado que quer passar; a tag fica presa nessa dualidade entre fazer sentido ou n\u00e3o. Teria que troc\u00e1-la por &#8220;isolamento&#8221;.<\/p>\n<p>E a tag &#8220;proximidade&#8221; precisaria encontrar outras paragens. Ela n\u00e3o emite uma opini\u00e3o ou demonstra um fato, apenas aponta para quem o faz. A metadata \u00e9 a seguidora do perfil&#8230; Se n\u00e3o combina mais com ele, vai embora. Inflex\u00edvel e limitada. Uma pessoa pode muito bem fazer uso delas para se definir, mas que n\u00e3o caia na armadilha de se tornar uma cole\u00e7\u00e3o delas. Ao inv\u00e9s de ser uma am\u00e1lgama de ideias convivendo em conflito, a tranquilidade de apenas seguir uma lista de caracter\u00edsticas imut\u00e1veis.<\/p>\n<p>O problema \u00e9 deixar toda essa metahumanidade te desumanizar. De t\u00e3o especializadas em se conformar \u00e0s expectativas de pessoas e institui\u00e7\u00f5es, essas metadatas vivas esquecem-se do motivo pelo qual esses descritores foram inventados: para nos deixar mais livres para pensar e tomar decis\u00f5es. A metadata \u00e9 uma solu\u00e7\u00e3o da nossa tecnologia para nos organizar, a vis\u00e3o da m\u00e1quina sobre a nossa express\u00e3o org\u00e2nica.<\/p>\n<p>Metadata se presta a revelar tend\u00eancias e prever atitudes. Categorizar algu\u00e9m por vinte tags (hashtags nesse mesmo barco) nada mais \u00e9 do que um palpite educado sobrem quem \u00e9 a pessoa. A metadata foi criada para analisar o nosso estado de &#8220;mudan\u00e7a permanente&#8221;, n\u00e3o para nos prender em personalidades padronizadas!<\/p>\n<p>As tags se encaixam nos nossos textos, n\u00e3o o contr\u00e1rio. Mas \u00e9 tanta especializa\u00e7\u00e3o nesses tempos de metahumanidade que muita gente parece confusa: tamanho \u00e9 o leque de possibilidades com o conhecimento humano fluindo por todos os lados que tem gente reagindo na defensiva. Pegando meia d\u00fazia de conceitos padronizados e se prendendo neles. O famoso desespero de estar certo (com o grupo certo, consumindo o certo, enxergando o certo) desemboca neste s\u00e9culo com uma profus\u00e3o de palavras-chave que vai nos transformando em caricaturas de n\u00f3s mesmos.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que estamos t\u00e3o raivosos na internet e que cada problema gere pontos de vista diametralmente opostos. S\u00e3o as tags discutindo! Elas s\u00e3o imut\u00e1veis. Elas DEIXAM DE EXISTIR se o conte\u00fado n\u00e3o se adapta. E quando as pessoas se definem com uma s\u00e9rie delas, arriscam-se a perder parte do que s\u00e3o a cada confrontamento com a ideia oposta.<\/p>\n<p>N\u00f3s deixamos de ser o conte\u00fado. As pessoas e conceitos sobre os quais falamos tamb\u00e9m. Viramos os descritores e as tend\u00eancias criadas para nos explicar. Metahumanidade \u00e9 contagiosa! Quer dizer, pelo menos para n\u00f3s. Ao mesmo tempo em que come\u00e7amos a aceitar o papel de coadjuvantes de nossos pr\u00f3prios significados, um grupo bem menos humano segue no sentido oposto.<\/p>\n<p>J\u00e1 disse antes que para todos os efeitos vivemos numa singularidade tecnol\u00f3gica para qualquer antepassado de um ou mais s\u00e9culos atr\u00e1s. Os carros n\u00e3o est\u00e3o voando, mas boa parte do nosso cotidiano inclui tecnologias que nem mesmo n\u00f3s &#8211; contempor\u00e2neos &#8211; compreendemos completamente. Eu perdi o momento de fazer o texto, mas recentemente tivemos o primeiro computador passando (com controv\u00e9rsias, \u00e9 claro) no teste de Turing.<\/p>\n<p>Passar no teste de Turing \u00e9 relativamente simples de entender: basta que um computador engane um ser humano fazendo-se passar por uma pessoa. Mesmo que n\u00e3o tenha acontecido ainda, falta muito pouco para acontecer. Processamento por processamento, logo logo um computador port\u00e1til vai ter mais poder que um c\u00e9rebro humano. E essas m\u00e1quinas n\u00e3o est\u00e3o nem um pouco interessadas em se fechar numa s\u00e9rie pr\u00e9-definida de caracter\u00edsticas. \u00c9 vital para o desenvolvimento da intelig\u00eancia artificial que os computadores aprendam a se adaptar aos dados recebidos.<\/p>\n<p>E eventualmente, produzir conte\u00fado com objetivos pr\u00f3prios. Ainda \u00e9 engra\u00e7ado ler os textos incoerentes produzidos pelas m\u00e1quinas, mas cada dia que passa eles soam um pouco menos malucos. Pudera: analisam toda a metadata que produzimos. \u00c9 cada vez mais simples saber o que queremos consumir e nos dar exatamente isso. O artificial produzindo conte\u00fado para o org\u00e2nico.<\/p>\n<p>E \u00e9 a\u00ed que come\u00e7a a ficar divertido (ou assustador se voc\u00ea for mais paran\u00f3ico): se as m\u00e1quinas est\u00e3o cada vez mais preocupadas em produzir a &#8220;data&#8221; e n\u00f3s cada vez mais resignados a ser metadata&#8230; quem vai definir quem? Come\u00e7o a acreditar cada vez menos num futuro onde sejamos mestres dos computadores e cada vez mais num onde seremos espectadores deles. Como era de se esperar de uma singularidade tecnol\u00f3gica capitaneada por intelig\u00eancia artificial, mas com uma triste limita\u00e7\u00e3o auto-imposta por nossa vontade de fazer sentido nessa aventura da metahumanidade.<\/p>\n<p>O problema da nossa tecnologia &#8211; quando consciente &#8211; \u00e9 que ela vai herdar nossos objetivos. N\u00e3o existe outro par\u00e2metro inicial. Essas gera\u00e7\u00f5es de seres humanos metadata v\u00e3o explicar muito mal para nossas &#8220;criaturas&#8221; o que realmente desejam. Queremos mesmo ser meros descritores? N\u00fameros num gr\u00e1fico de popularidade e satisfa\u00e7\u00e3o? A capacidade de entrar em contradi\u00e7\u00e3o e mudar de ideia produz algo de muito mais valor do que metadata. Ela produz evolu\u00e7\u00e3o. Estamos ensinando para nossos filhos virtuais que s\u00f3 queremos confirma\u00e7\u00e3o e seguran\u00e7a. E \u00e9 justamente isso que vamos continuar recebendo. Ao inv\u00e9s de possibilidades de aprendizado, ofertas de produtos especialmente direcionadas.<\/p>\n<p>Ah, s\u00f3 para refor\u00e7ar: sem o texto, a tag n\u00e3o faz sentido.<\/p>\n<h3>Para dizer que percebeu uma indireta, para dizer que isso \u00e9 desculpa para n\u00e3o ter opini\u00f5es s\u00f3lidas, ou mesmo para dizer que pelo menos \u00e9 melhor que ler Ozon (sexta volta!): <a href=\"maito:somir@desfavor.com\">somir@desfavor.com<\/a><\/h3>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;Meta&#8221; \u00e9 um prefixo usado para definir quando algo \u00e9 definido ou explicado por ele mesmo. \u00c9, n\u00e3o foi um bom come\u00e7o&#8230; pensemos num exemplo: Metadata, palavra cada vez mais comum no nosso dia-a-dia, nada mais s\u00e3o dados usados para analisar outros dados. Pense nas tags abaixo de nossos textos&#8230; elas s\u00e3o metadata. 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