{"id":7128,"date":"2014-08-20T06:00:14","date_gmt":"2014-08-20T09:00:14","guid":{"rendered":"http:\/\/www.desfavor.com\/blog\/?p=7128"},"modified":"2014-08-20T04:26:31","modified_gmt":"2014-08-20T07:26:31","slug":"falso-vacuo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/2014\/08\/falso-vacuo\/","title":{"rendered":"Falso v\u00e1cuo."},"content":{"rendered":"<p>Quando falamos de v\u00e1cuo, provavelmente voc\u00ea deve pensar numa daquelas embalagens seladas. Os mais inclinados a pensar &#8220;fora da esfera&#8221; v\u00e3o imaginar os arredores de nosso planeta, onde n\u00e3o h\u00e1 ar nenhum para se respirar. Na vida cotidiana v\u00e1cuo \u00e9 sin\u00f4nimo de aus\u00eancia de ar&#8230; Mas quanto mais de perto a ci\u00eancia observa o vazio, mais coisas parece encontrar. Algumas delas&#8230; assustadoras.<!--more--><\/p>\n<h2>VAZIO?<\/h2>\n<p>Vamos situar melhor as coisas para n\u00e3o te deixar no v\u00e1cuo&#8230; (pronto, j\u00e1 fiz o trocadilho!) V\u00e1cuo vem do latim vazio (ou vago). Apesar da ideia de v\u00e1cuo como aus\u00eancia ter l\u00e1 seus m\u00e9ritos, o buraco \u00e9 um pouco mais embaixo, ali\u00e1s, bem l\u00e1 embaixo: l\u00e1 na escala qu\u00e2ntica das coisas.<\/p>\n<p>Como a hist\u00f3ria nos prova, essa coisa de relacionar o que vemos com o que realmente est\u00e1 l\u00e1 tende a nos pegar de cal\u00e7as curtas. A f\u00edsica qu\u00e2ntica est\u00e1 a\u00ed para nos mostrar que &#8220;esvaziar&#8221; qualquer coisa \u00e9 bem mais um exerc\u00edcio de imagina\u00e7\u00e3o do que qualquer outra coisa. N\u00e3o bastassem part\u00edculas como o neutrino, que n\u00e3o interagem eficientemente com nada que conhecemos, ainda temos toda a ideia de part\u00edculas virtuais energizadas &#8220;aparecendo e desaparecendo&#8221; da nossa realidade, aniquilando-se no processo.<\/p>\n<p>O nome disso \u00e9 flutua\u00e7\u00e3o qu\u00e2ntica. Do &#8220;nada&#8221; surge um par de part\u00edcula e antipart\u00edcula (com cargas opostas), eles se encontram e desaparecem. N\u00e3o, s\u00e9rio&#8230; elas aparecem e desaparecem, sabe-se l\u00e1 de onde. Mas n\u00e3o deve ser uma falha na nossa Matrix: segundo o princ\u00edpio da incerteza de Heisenberg (n\u00e3o o que vende drogas), quando se chega nessa escala da mat\u00e9ria\/energia, fica imposs\u00edvel medir coisas como velocidade e carga de uma part\u00edcula ao mesmo tempo. Ou se sabe uma coisa, ou outra. Essas part\u00edculas &#8220;m\u00e1gicas&#8221; que aparecem e desaparecem na verdade n\u00e3o precisam vir de uma cartola universal: se est\u00e3o se aniquilando, podemos medir, se n\u00e3o est\u00e3o, n\u00e3o daria mesmo para v\u00ea-las para come\u00e7o de conversa.<\/p>\n<h2>EFEITO CASIMIR<\/h2>\n<p>Ah \u00e9, se elas se aniquilam e n\u00e3o podem ser vistas em outras situa\u00e7\u00f5es, como ent\u00e3o sabem que elas est\u00e3o l\u00e1? Oras, como \u00e9 de costume na ci\u00eancia, alguma outra coisa denuncia: neste caso, placas de metal.<\/p>\n<p>Cientistas se amarram em criar um v\u00e1cuo perfeito. Razo\u00e1vel, afinal, quanto menos coisas interagindo num experimento, mais f\u00e1cil identificar os resultados dele. Num deles, tiraram tudo o que dava do sistema (ar e correntes el\u00e9tricas) e colocaram duas placas de metal MUITO pr\u00f3ximas uma da outra. Mas bota MUITO nisso: nan\u00f4metros de dist\u00e2ncia (um nan\u00f4metro = um bilion\u00e9simo de metro). Em tese, n\u00e3o tinha nada para interagir entre as duas placas.<\/p>\n<p>Na pr\u00e1tica, surgia uma forma de atra\u00e7\u00e3o ou repuls\u00e3o (varia de acordo com a configura\u00e7\u00e3o das placas) entre elas, como se fossem im\u00e3s, e sem nenhuma outra explica\u00e7\u00e3o l\u00f3gica. A n\u00e3o ser, \u00e9 claro, que tiv\u00e9ssemos mais coisas acontecendo naquele &#8220;vazio&#8221; entre elas. As part\u00edculas virtuais estavam \u00e0 toda naquele micro espa\u00e7o, aniquilando-se alegremente para confundir os pesquisadores. A intera\u00e7\u00e3o delas com as placas gerava a rea\u00e7\u00e3o medida. Movimentar as placas, mesmo que s\u00f3 mais alguns nan\u00f4metros, arru\u00edna o efeito.<\/p>\n<p>Mesmo quando conseguiram tirar tudo o que imaginaram de um lugar, descobriram que tinha mais coisas. Ou seja: o v\u00e1cuo como aus\u00eancia de tudo n\u00e3o \u00e9 um conceito muito pr\u00e1tico. Alguma coisa vai estar l\u00e1. Mesmo que &#8220;virtualmente&#8221;.<\/p>\n<h2>EQUIL\u00cdBRIO<\/h2>\n<p>Ok. Vazio VAZIO mesmo n\u00e3o \u00e9 muito realista. Mas mesmo assim o v\u00e1cuo (o melhor que conseguimos produzir) \u00e9 importante para criar um lugar-comum para a ci\u00eancia. A velocidade da luz \u00e9 contada no v\u00e1cuo. N\u00e3o no vazio, mas no v\u00e1cuo.<\/p>\n<p>Ficou mais l\u00f3gico considerar v\u00e1cuo &#8220;pr\u00e1tico&#8221; um sistema onde as coisas est\u00e3o bem calmas. V\u00e1cuo \u00e9 uma estrada tranquila, o resto \u00e9 a Marginal na hora do rush. Mesmo que na estrada ainda existam coisas que possam interagir com seu carro, \u00e9 bem mais f\u00e1cil planejar o hor\u00e1rio de chegada ao passar por ela.<\/p>\n<p>O bom do v\u00e1cuo \u00e9 que ele \u00e9 mais previs\u00edvel. Chegar no ponto de n\u00e3o ter nenhuma perturba\u00e7\u00e3o nele significaria um (at\u00e9 agora) imposs\u00edvel estado de energia zerada. Imposs\u00edvel pelo princ\u00edpio de Walt&#8230; Heisenberg! Se tem energia zero, saber\u00edamos onde est\u00e1 e sua velocidade. E isso \u00e9 crime. Ou uma coisa, ou outra, sem exce\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>N\u00e3o pode zerar, mas pode chegar bem perto. Quando uma part\u00edcula chega no seu limite m\u00ednimo de energia, dizemos que ela est\u00e1 em seu estado fundamental. Sossegou. N\u00e3o tem como ficar com menos energia. Tipo um baiano dormindo. Se um sistema chegar no estado fundamental, temos o v\u00e1cuo mais perfeito poss\u00edvel. Na pr\u00e1tica nos contentamos com bem menos do que perfei\u00e7\u00e3o, mas esta explica\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 enche\u00e7\u00e3o de lingui\u00e7a.<\/p>\n<p>Voc\u00ea tem que entender que o v\u00e1cuo \u00e9 um sistema est\u00e1vel com o m\u00ednimo poss\u00edvel de energia para perder para poder entender como isso pode destruir o Universo.<\/p>\n<p>H\u00e3?<\/p>\n<h2>MEU UNIVERSO, MINHA VIDA<\/h2>\n<p>Tirando alguns pontos muito excitados (como n\u00f3s), o Universo \u00e9 um lugar muito calmo. Trilh\u00f5es de quil\u00f4metros de sil\u00eancio g\u00e9lido pontilhados por mat\u00e9ria e energia identific\u00e1vel. E essa calma toda \u00e9 uma das bases das nossas leis da f\u00edsica. As coisas funcionam como funcionam baseadas nesse limite m\u00ednimo do v\u00e1cuo.<\/p>\n<p>Em mais um exemplo fanfarr\u00e3o e simplista: o v\u00e1cuo \u00e9 mais ou menos como a funda\u00e7\u00e3o de uma casa. Um terreno liso e est\u00e1vel que vai conseguir segurar voc\u00ea e as paredes. Voc\u00ea s\u00f3 constr\u00f3i a casa ali porque ela n\u00e3o vai afundar no solo, certo? (claro, a n\u00e3o ser que voc\u00ea seja um arquiteto em Veneza) A casa e tudo o que est\u00e1 nela depende dessa funda\u00e7\u00e3o, todo o projeto se baseia nela para continuar de p\u00e9.<\/p>\n<p>Considerando que o v\u00e1cuo \u00e9 essa funda\u00e7\u00e3o, o Universo foi se construindo com a &#8220;certeza&#8221; que dali n\u00e3o desceria mais. O limite m\u00ednimo de energia \u00e9 aquele e disso n\u00e3o passa. Nossas leis da f\u00edsica s\u00e3o o projeto da casa. E at\u00e9 agora o projeto vem se mostrando bem confi\u00e1vel&#8230; conseguimos prever relativamente bem como as coisas v\u00e3o acontecer no futuro.<\/p>\n<h2>O BURACO \u00c9 MAIS EMBAIXO?<\/h2>\n<p>O problema disso tudo \u00e9 que n\u00e3o temos certeza se o ch\u00e3o \u00e9 de rocha ou de areia&#8230; O v\u00e1cuo \u00e9 muito est\u00e1vel e pode mesmo ser o limite m\u00ednimo no qual basear as leis da f\u00edsica, mas como a matem\u00e1tica nos ensina, existem infinitas casas decimais entre 99,999% de certeza e 100% de certeza.<\/p>\n<p>O v\u00e1cuo pode ser real do jeito que o conhecemos, sim. Mas ele tamb\u00e9m pode ser um pouquinho menos energ\u00e9tico ainda. E o que esse pouquinho pode fazer vai te pegar de surpresa. Consideremos que ao inv\u00e9s de estar no fundo do po\u00e7o, o v\u00e1cuo esteja na verdade sentado numa pedrinha no fundo do po\u00e7o. Est\u00e1 est\u00e1vel, mas um pouco mais alto do que seu limite m\u00ednimo real.<\/p>\n<p>Pode ser que ele nunca saia de cima dessa pedrinha, mas nada impede que saia. O v\u00e1cuo fica mais v\u00e1cuo? Grandes coisas! \u00c9&#8230; grandes coisas mesmo. Se estivermos vivendo num Universo com um falso v\u00e1cuo e por algum motivo qualquer um desses incont\u00e1veis pontos onde ele predomina descer da pedrinha e sentar o traseiro no fundo do po\u00e7o de verdade&#8230; game over.<\/p>\n<p>Aquele pedacinho do espa\u00e7o que finalmente chegou ao pr\u00f3ximo est\u00e1gio de estabilidade do v\u00e1cuo come\u00e7a a expandir. A energia &#8220;a mais&#8221; que ele estava carregando \u00e9 expulsa, e \u00e9 como se ele virasse um buraco na f\u00e1brica do espa\u00e7o. O v\u00e1cuo falso pr\u00f3ximo dele vai escorregar, aumentando o buraco. E assim sucessivamente, sem NADA no Universo para parar a rea\u00e7\u00e3o em cadeia.<\/p>\n<p>O v\u00e1cuo verdadeiro se expande numa bolha, pr\u00f3ximo \u00e0 velocidade da luz. Repetindo: NADA vai parar essa bolha de crescer. E dentro dessa bolha, as leis da f\u00edsica mudaram&#8230; o m\u00ednimo \u00e9 outro. Mat\u00e9ria e energia dependem de um equil\u00edbrio pra l\u00e1 de t\u00eanue para existirem da forma como conhecemos. Mude um bilion\u00e9simo na f\u00f3rmula e o Universo vira uma funda\u00e7\u00e3o de areia.<\/p>\n<p>O v\u00e1cuo como conhecemos est\u00e1 num estado chamado de &#8220;metaest\u00e1vel&#8221;. N\u00e3o podemos saber se ele pode ter valores ainda mais est\u00e1veis, por enquanto serve. O v\u00e1cuo que conhecemos \u00e9 verdadeiro at\u00e9 a natureza provar o contr\u00e1rio.<\/p>\n<h2>CI\u00caNCIA!<\/h2>\n<p>Esse evento te\u00f3rico de destrui\u00e7\u00e3o de tudo o que conhecemos pode acontecer a qualquer momento, em basicamente qualquer lugar deste Universo absurdamente &#8220;vazio&#8221;. Ali\u00e1s, j\u00e1 pode ter acontecido: quando olhamos para nossos arredores no Universo, vemos o passado. Como essa bolha aumentaria na velocidade da luz, provavelmente nos matar\u00edamos por mil outros motivos antes de sermos tocados pelo v\u00e1cuo verdadeiro.<\/p>\n<p>E nada de clima de vel\u00f3rio! Na natureza tudo se transforma: ser\u00edamos transformados em algo muito diferente (sem dor, n\u00e3o daria tempo) e talvez at\u00e9 numa cagada c\u00f3smica as novas leis da f\u00edsica permitam um arranjo parecido com o que temos. A probabilidade maior \u00e9 de virarmos uma bagun\u00e7a de mat\u00e9ria e energia, mas ei, n\u00e3o custa imaginar!<\/p>\n<p>Um epis\u00f3dio de falso v\u00e1cuo seria provavelmente o evento mais grandioso do Universo desde o Big Bang. E seria fruto do &#8220;nada&#8221; virando &#8220;menos ainda&#8221;. Ah sim, talvez n\u00f3s mesmos fa\u00e7amos isso num experimento azarado. N\u00e3o daria tempo de perceber a cagada, mas \u00e9 uma possibilidade. Toma essa, deus!<\/p>\n<p>E se voc\u00ea \u00e9 muito impression\u00e1vel: azar. Eu deveria ter avisado antes de escrever&#8230; eu sei. Mas s\u00f3 para te acalmar: pode ser que nosso v\u00e1cuo n\u00e3o seja falso, pode ser que ele dure trilh\u00f5es e trilh\u00f5es de anos&#8230; E se acontecer, voc\u00ea nem perc<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando falamos de v\u00e1cuo, provavelmente voc\u00ea deve pensar numa daquelas embalagens seladas. 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