{"id":7324,"date":"2014-09-28T14:00:07","date_gmt":"2014-09-28T17:00:07","guid":{"rendered":"http:\/\/www.desfavor.com\/blog\/?p=7324"},"modified":"2014-09-28T05:57:29","modified_gmt":"2014-09-28T08:57:29","slug":"a-cidade-dos-mortos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/2014\/09\/a-cidade-dos-mortos\/","title":{"rendered":"A cidade dos mortos."},"content":{"rendered":"<h3><em><strong>Desfavor Convidado<\/strong> \u00e9 a coluna onde os impopulares ganham voz aqui na Rep\u00fablica Impopular. Se voc\u00ea quiser tamb\u00e9m ter seu texto publicado por aqui, basta enviar para <a href=\"mailto:desfavor@desfavor.com\">desfavor@desfavor.com<\/a>.<\/em><br \/>\n<em>O Somir se reserva ao direito de implicar com os textos e n\u00e3o public\u00e1-los. Sally promete interceder por voc\u00eas.<\/em><\/h3>\n<h2>Desfavor Convidado: A cidade dos mortos<\/h2>\n<p>Quando soube de um vilarejo aonde n\u00e3o havia crian\u00e7as e que o n\u00famero de mortos era maior que o n\u00famero de vivos, n\u00e3o tive d\u00favidas de que deveria conhecer o lugar de qualquer maneira. Por\u00e9m, chegar a La Ci\u00e9nega n\u00e3o foi t\u00e3o f\u00e1cil quanto imaginei. Localizado na prov\u00edncia de Santa Elena, o vilarejo fica escondido no meio das montanhas e poucas pessoas sabem como chegar at\u00e9 l\u00e1. Al\u00e9m disso, a cidade \u00e9 habitada por cerca de dez pessoas, o que dificulta ainda mais sua localiza\u00e7\u00e3o. Por sorte, as hist\u00f3rias macabras que rondam La Ci\u00e9nega refrescam a mem\u00f3ria de pessoas que moram na prov\u00edncia, o que me ajudou a encontrar um parente de um morador da cidade fantasma.<!--more--><\/p>\n<p>Raul Monterrey \u00e9 filho de Gomes e Rosa, que at\u00e9 hoje ainda moram no vilarejo e se disp\u00f4s a me ajudar a localizar a pequena cidade. Foram alguns quil\u00f4metros de estrada de terra, al\u00e9m de horas e horas caminhando em trilhas estreitas, mas finalmente chegamos a La Ci\u00e9nega. Minha primeira impress\u00e3o sobre aquele lugar foi p\u00e9ssima, pois v\u00e1rios objetos estavam nas ruas, como se as pessoas ali tivessem fugido de uma hora para outra. Munido apenas de c\u00e2mera fotogr\u00e1fica, gravador de voz e mochila com alguns mantimentos, atravessei sozinho uma estranha cerca que serve de fronteira do local. Raul n\u00e3o me acompanhou, dizendo que tinha permiss\u00e3o de entrar na cidade apenas no &#8220;Dia de los Muertos&#8221;, data que aproveitava para visitar a fam\u00edlia.<\/p>\n<p>Desbravei uma pequena colina, tirando fotos de tudo o que via. A maior parte das coisas deixadas para tr\u00e1s eram vers\u00f5es r\u00fasticas de objetos pessoas, como tesouras, roupas e at\u00e9 mesmo um triciclo de crian\u00e7a,  enferrujado pelo tempo. Alguns postes com lampi\u00f5es mostravam que em alguma \u00e9poca, aqueles eram pontos de grande movimenta\u00e7\u00e3o, mas que agora estavam vazios, apenas com a presen\u00e7a do barulho do vento. Ao final da colina, finalmente pude ver a cidade, que na verdade era um amontoado de casebres que mal conseguiam ficar em p\u00e9. Com tanto tempo abandonada, a cidade n\u00e3o estava resistindo \u00e0s intemp\u00e9ries da natureza, o que completava o ar melanc\u00f3lico da hist\u00f3ria local.<\/p>\n<p>No caminho, Raul havia me explicado que o expurgo da cidade ocorreu por causa de uma grande seca que durou sete anos. Mesmo assim, alguns residentes mais antigos se recusaram a sair da cidade, sendo que seus pais estavam entre esses teimosos anci\u00f5es. Uma de minhas miss\u00f5es ali era encontr\u00e1-los para ter uma palestra e quem sabe entender como aquelas pessoas viviam em local t\u00e3o in\u00f3spito.<\/p>\n<p>Caminhei at\u00e9 a primeira casa e bati na porta. A casa inteira chacoalhou, ficando em p\u00e9 apenas por milagre. Mais cuidadoso com a fr\u00e1gil estrutura, dei outra batida, mas ningu\u00e9m atendeu. Dei a volta na casa e uma cortina esvoa\u00e7ante acusou uma janela aberta, da qual me aproximei. Do lado de dentro se via um quarto, j\u00e1 tomado pelo p\u00f3 e por teias de aranha, mas visivelmente de uma menina, j\u00e1 que sua antiga dona havia abandonado ali algumas bonecas feitas de pano. Tirei uma foto de mais aquela mem\u00f3ria de uma cidade morta e voltei para a rua central.<\/p>\n<p>Mais \u00e0 frente, havia um homem parado na varanda de outra casa, talvez curioso em ver o que estava causando tanto estardalha\u00e7o na vizinhan\u00e7a. Ap\u00f3s alguns momentos me olhando com desconfian\u00e7a, ele acenou. Respondi a sauda\u00e7\u00e3o e atravessei a rua, indo em sua dire\u00e7\u00e3o. Com um sorriso no rosto, ele me recebeu com a m\u00e3o estendida, indicando o interior da casa. Entrei e aguardei o anfitri\u00e3o em uma pequena sala, enquanto do outro lado uma velha senhora balan\u00e7ava em uma cadeira de balan\u00e7o enquanto fazia croch\u00ea. Ao lado dela, havia um pequeno r\u00e1dio de pilhas, que tocava as m\u00fasicas populares da regi\u00e3o. Deduzindo o \u00f3bvio, assim que o homem entrou na casa, perguntei:<\/p>\n<p>_Voc\u00eas s\u00e3o Gomes e Rosa Monterrey?<\/p>\n<p>Tive dois sorrisos radiantes como resposta e me sentei em uma cadeira trazida por Gomes.<\/p>\n<p>_Quer beber alguma coisa? &#8211; perguntou ele em espanhol.<\/p>\n<p>_\u00c1gua, por favor.<\/p>\n<p>Ele seguiu para outro c\u00f4modo e aguardei. A senhora continuava seu croch\u00ea, aparentemente um cachecol para crian\u00e7a. Interessado naquele trabalho manual, j\u00e1 que n\u00e3o havia visto nenhum pequenino na cidade, perguntei:<\/p>\n<p>_Para quem \u00e9 esse cachecol?<\/p>\n<p>Calmamente, ela parou o ponto e me respondeu:<\/p>\n<p>_\u00c9 para meu netinho Ramirez, voc\u00ea o viu por a\u00ed?<\/p>\n<p>_Infelizmente n\u00e3o, minha senhora, mas conheci seu filho Raul.<\/p>\n<p>_\u00c9 mesmo? H\u00e1 quanto tempo n\u00e3o o vejo.<\/p>\n<p>_Sim, foi ele quem me guiou at\u00e9 aqui. Pena n\u00e3o ter entrado na cidade comigo, dizendo que viria para a festa do Dia dos Mortos.<\/p>\n<p>_\u00c9 mesmo uma pena, o Dia dos Mortos ainda est\u00e1 t\u00e3o longe. \u00c9 o \u00fanico dia permitido que as pessoas andem por aqui sem ter medo do ceifador.<\/p>\n<p>_Ceifador?<\/p>\n<p>Nesse momento o homem retornou com tr\u00eas copos de \u00e1gua, deu um para a senhora, pegou um para ele e deu o \u00faltimo para mim. Eles n\u00e3o beberam da \u00e1gua, mas eu tomei um gole e ela estava com gosto de velha. Mesmo assim, me esforcei para tomar tudo e devolvi o copo para Gomes:<\/p>\n<p>_Obrigado pela \u00e1gua. &#8211; agradeci.<\/p>\n<p>Ele fitou o copo, interessado nas marcas que meus l\u00e1bios haviam feito na borda. Depois pegou o copo dele e o da senhora, que continuavam cheios.<\/p>\n<p>_Qual o motivo de sua visita? &#8211; perguntou Gomes, enquanto colocava os copos em cima de uma mesinha.<\/p>\n<p>_Me interessei pela hist\u00f3ria dessa cidade e vim ver com meus pr\u00f3prios olhos as hist\u00f3rias que contam sobre esse lugar. Apesar de muitas pessoas terem fugido, voc\u00eas continuaram aqui, porqu\u00ea?<\/p>\n<p>Gomes pegou outra cadeira e se sentou ao lado da senhora, olhando suas m\u00e3os que haviam voltado a fazer o croch\u00ea:<\/p>\n<p>_N\u00f3s constru\u00edmos essa casa com nossas pr\u00f3prias m\u00e3os, tivemos nossos filhos aqui e vimos eles crescerem nesse lugar. N\u00f3s velhos somos como \u00e1rvores, fincamos nossas ra\u00edzes em nossas hist\u00f3rias. Acho que por isso decidimos ficar, al\u00e9m do mais, nosso tempo est\u00e1 se passando e o mundo l\u00e1 fora n\u00e3o tem mais lugar para pessoas como n\u00f3s. <\/p>\n<p>Seus olhos ficaram marejados, acompanhando o vai e vem das m\u00e3os da senhora. Fiquei calado, respeitando aquele momento \u00fanico, em que dois idoso se perdiam em suas pr\u00f3prias mem\u00f3rias, cada um \u00e0 sua maneira. Discretamente, retirei minha c\u00e2mera fotogr\u00e1fica e fiz um registro daquele momento. Ao ver como o retrato havia ficado, notei que a vista da janela atr\u00e1s da senhora dava para um antigo cemit\u00e9rio. Me levantei e pedi licen\u00e7a para ir conhecer o campo santo:<\/p>\n<p>_S\u00f3 n\u00e3o fique l\u00e1 por muito tempo, pois ainda hoje nossos mortos sofrem com as dores do passado. &#8211; recomendou Gomes.<\/p>\n<p>Alheio a todo aquele misticismo, sai da casa. Minha presen\u00e7a ali havia chamado mais a aten\u00e7\u00e3o do que eu imaginava e eu senti diversos pares de olhos me acompanhando durante minha caminhada at\u00e9 os t\u00famulos. Por\u00e9m, os \u00fanicos que se aproximaram de mim foram alguns c\u00e3es vira-latas, que me cheiraram e foram embora sem grande interesse na minha pessoa. O campo santo era separado apenas por uma pequena porteira, que rangeu ao ser aberta por mim. Os t\u00famulos eram tantos, que se tornava praticamente imposs\u00edvel n\u00e3o pisar em cima dos enterrados. Envergonhado com aquela falta de decoro que estava cometendo com os mortos, segui cemit\u00e9rio adentro, evitando danificar os t\u00famulos o m\u00e1ximo poss\u00edvel.<\/p>\n<p>Todas as cruzes eram iguais, com tinta branca e uma m\u00e3o de cal por cima. Grande parte dos t\u00famulos eram de pequeno tamanho, compat\u00edveis para crian\u00e7as. Me agachei diante de um dos t\u00famulos e li uma breve inscri\u00e7\u00e3o: &#8220;Anita Gutierrez, sorriso radiante que nunca ser\u00e1 esquecido &#8211; 2009 &#8211; 2012&#8221;. De repente, senti uma presen\u00e7a atr\u00e1s de mim e me virei. Um homem alto, todo vestido de preto, me olhava com penetrantes olhos pretos:<\/p>\n<p>_Posso ajud\u00e1-lo? perguntou.<\/p>\n<p>Me levantei, limpei a poeira dos joelhos e abanei a cabe\u00e7a:<\/p>\n<p>_Me desculpe, estava apenas olhando. Muitas crian\u00e7as morreram aqui, n\u00e3o \u00e9 mesmo?<\/p>\n<p>O Homem de preto olhou para a cruz que eu estava vendo e respondeu:<\/p>\n<p>_Sim, a grande seca foi implac\u00e1vel para os pequeninos.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o o homem n\u00e3o disse mais nada e ficou olhando para o horizonte, perdido em pensamentos e ap\u00f3s alguns instantes, falou:<\/p>\n<p>_Essa \u00e9 uma cidade morta, rapaz. Em 10 anos, no m\u00e1ximo, n\u00e3o haver\u00e1 mais ningu\u00e9m vivo por aqui. Se eu fosse voc\u00ea, n\u00e3o ficaria perdendo meu tempo com este lugar.<\/p>\n<p>O homem de preto se virou e andou at\u00e9 a porteira, dizendo sem olhar para tr\u00e1s:<\/p>\n<p>_A vida corre muito depressa para ficar se preocupando com a morte, por isso, v\u00e1 aproveit\u00e1-la e esque\u00e7a essas pessoas que moram aqui.<\/p>\n<p>Ele passou a porteira e se distanciou, entrando em uma casa toda pintada de preta, com uma pequena placa indicando que ali era a funer\u00e1ria local. Tirei uma foto da fachada e ajeitei as coisas na mochila, pensando em acatar o conselho do homem, mas alguma coisa me chamou a aten\u00e7\u00e3o. O sol estava se pondo e poderia ser uma ilus\u00e3o de \u00f3tica, mas eu tinha certeza que uma m\u00e3o estava se colocando para fora de um dos t\u00famulos. Preocupado, pensando que algu\u00e9m poderia ter sido enterrado vivo, corri na dire\u00e7\u00e3o da m\u00e3o e chegando mais perto, percebi que ela era transl\u00facida. Meu cora\u00e7\u00e3o disparou, mas mesmo assim fiquei ali, observando atrav\u00e9s daquela m\u00e3o que tentava se libertar de sua pris\u00e3o de terra. Conforme a ilumina\u00e7\u00e3o do dia ia diminuindo, outras m\u00e3os foram aparecendo, s\u00f3 ent\u00e3o corri para fora do cemit\u00e9rio, mas ainda olhando em sua dire\u00e7\u00e3o. Algumas das m\u00e3os estavam conseguindo encontrar apoio e for\u00e7avam-se para fora, deixando alguns bustos \u00e0 vista. Assustado com a situa\u00e7\u00e3o, corri para a casa mais pr\u00f3xima, mas a porta estava fechada e por mais que eu tentasse arromb\u00e1-la, parecia feita de a\u00e7o, bem diferente de sua apar\u00eancia p\u00fatrida. Tentei outras casa e o mesmo aconteceu, ent\u00e3o corri at\u00e9 a casa de Rosa e Gomes.<\/p>\n<p>Ao chegar l\u00e1, a porta tamb\u00e9m estava fechada e comecei a gritar, pedindo ajuda, mas ningu\u00e9m respondeu. Al\u00e9m da noite, um nevoeiro se aproximava da cidade e a vis\u00e3o do horizonte j\u00e1 come\u00e7ava a ficar dif\u00edcil. Ent\u00e3o segui at\u00e9 a colina, na esperan\u00e7a de tentar sair da cidade antes que o nevoeiro se adensasse, mas incrivelmente acabei me perdendo. Mesmo que a cidade possu\u00edsse poucas ruas, parecia que eu estava dando voltas, vendo sempre as mesmas casa, por mais que andasse em linha reta. Olhei ao meu redor e o nevoeiro havia baixado, era imposs\u00edvel ver mais que alguns metros ao meu redor. Nesse momento comecei a ouvir barulhos, como se fossem passos, que quebravam galhos e vinham de diversas dire\u00e7\u00f5es imposs\u00edveis de serem identificadas. Sem ter para onde ir, fui tateando at\u00e9 encontrar as paredes de uma casa e a contornei, chegando na porta da frente, aonde me sentei com a inten\u00e7\u00e3o de esperar a noite passar sem ser incomodado por aquele evento sobrenatural.<\/p>\n<p>Os barulhos foram se intensificando conforme a madrugada ia passando e cheguei a ver alguns vultos passando pelas brumas. Eu tentava ficar o mais im\u00f3vel poss\u00edvel, para assim n\u00e3o ser notado pelas entidades, mesmo parecendo que elas n\u00e3o se importavam com a minha presen\u00e7a ali. At\u00e9 que em determinado momento uma bola de pl\u00e1stico veio rolando em minha dire\u00e7\u00e3o e atr\u00e1s dela veio correndo um garotinho. Ele estancou no meio do caminho quando me viu e gesticulou com a m\u00e3o, como se pedisse que eu chutasse a bola para ele. Permaneci im\u00f3vel, mas ele insistia e subitamente me veio uma vontade imensa de chutar a bola. Tentei resistir, mas a vontade foi mais forte e acabei chutando-a para o garoto, que parou-a com o p\u00e9 e depois pegou-a com as m\u00e3os e saiu correndo.<\/p>\n<p>Voltei a me sentar e ap\u00f3s alguns instantes o garotinho voltou, trazendo com ele uma mulher, que aparentou ter gritado ao me ver, mas nenhum som saia de sua boca. Ent\u00e3o, do meio da n\u00e9voa, outras pessoas come\u00e7aram a aparecer, interessadas em me ver ali, sentado na frente daquela porta. Elas pareciam nervosas e gesticulavam, talvez tentando me dizer alguma coisa, mas nenhuma voz vinha de suas bocas. At\u00e9 quando a porta atr\u00e1s de mim se abriu de supet\u00e3o e eu quase ca\u00ed para tr\u00e1s. Por quest\u00f5es de cent\u00edmetros um machado passou pelo meu pesco\u00e7o, fazendo um fino corte. Tive segundos para ver que o autor da tentativa era o homem de preto, que agora mais parecia um dem\u00f4nio em vestes humanas.<\/p>\n<p>Me levantei e sa\u00ed correndo, passando no meio das apari\u00e7\u00f5es e sentia o homem de preto no meu encal\u00e7o. O denso nevoeiro deixava o clima frio e um arrepio na espinha me incomodava sempre que atravessa algum dos &#8220;fantasmas&#8221;, que tentavam me ajudar barrando o agressor ou me incentivando com as m\u00e3os a correr mais. Sem querer, acabei chegando ao cemit\u00e9rio e vi que l\u00e1 havia uma grande concentra\u00e7\u00e3o das almas penadas. Me escondi atr\u00e1s de uma das l\u00e1pides, sob os olhares curiosos das almas que pairavam ali. Ao longe, ouvi pegadas pesadas pisando na lama daquele solo sagrado e os rostos apavorados das entidades acusavam que o homem de preto se aproximava.<\/p>\n<p>Rastejando, tentei me locomover entre os t\u00famulos, mas senti que uma m\u00e3o havia agarrado minha canela. Era o homem de preto, que havia me encontrado mesmo com toda aquela n\u00e9voa. Com o p\u00e9 livre, dei um chute na cara dele, mas ele n\u00e3o me soltou e levantou o machado no ar, logo ap\u00f3s descendo em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 canela que agarrava. O golpe foi certeiro e arrancou meu p\u00e9 em um \u00fanico golpe, gritei de dor e pavor, quase desmaiando, mas sabia que se isso acontecesse seria o meu fim. Livre da m\u00e3o do homem, tentei me levantar com a perna boa, mas me desequilibrei e senti o machado passando sobre minha cabe\u00e7a, arrancando a ponta de alguns fios de cabelo.<\/p>\n<p>As almas se amontoavam ao redor do homem, na tentativa de par\u00e1-lo, por\u00e9m n\u00e3o conseguiam e ele seguia em frente como se nada estivesse acontecendo. Ele me olhava, com brilhantes olhos vermelhos quando levantou o machado mais uma vez. Dessa vez percebi que ele n\u00e3o tinha como errar e fechei os olhos, aguardando minha senten\u00e7a final, quando senti que alguma coisa havia acontecido. Uma bola havia acertado o rosto do homem, distraindo-o momentaneamente. Nesse meio tempo, os esp\u00edritos estavam se tornando mais vis\u00edveis e come\u00e7avam a atrapalhar o homem de preto, que desferia golpes a esmo.<\/p>\n<p>Voltei a me levantar e segui mais ao fundo do cemit\u00e9rio. O homem ainda me seguia, mas os esp\u00edritos estavam conseguindo par\u00e1-lo, por mais que ele tentasse se desvencilhar. Continuei fugindo at\u00e9 chegar num beco sem sa\u00edda, de um lado estava o homem ainda caminhando na minha dire\u00e7\u00e3o, do outro um precip\u00edcio que delimitava o final do cemit\u00e9rio. Vinte almas tentavam segurar o homem, mesmo assim ele conseguiu levantar o machado e veio em minha dire\u00e7\u00e3o. Vi o machado descendo rapidamente e senti um tranco empurrando meu corpo. Cai no ch\u00e3o achando que eu havia me tornado mais uma das almas condenadas a morar ali no cemit\u00e9rio, mas quando me virei, vi que no meu lugar estava o menino que havia me jogado a bola. Desequilibrado, o homem de preto desceu o machado, que passou o esp\u00edrito do menino e fez com que o agressor ficasse a poucos cent\u00edmetros do penhasco. Uma multid\u00e3o de almas pulou sobre o homem, fazendo-o cair ao longo de muitos metros. Nesse momento, acabei desmaiando.<\/p>\n<p>Acordei com os raios do sol batendo no meu rosto. Eu estava deitado em uma cama e uma atadura improvisada estava enrolada na minha perna. Senti um vulto ao meu lado e vi que era Rosa em sua cadeira de balan\u00e7o, ainda fazendo seu croch\u00ea:<\/p>\n<p>_Tem sorte de ainda estar vivo, filho. &#8211; disse ela com um am\u00e1vel sorriso no rosto. _\u00c9 a primeira vez que vejo as almas t\u00e3o fortes, t\u00e3o cheias de \u00f3dio contra aquele que foi o grande ceifador desta vilarejo.<\/p>\n<p>_Por que elas me ajudaram? &#8211; perguntei.<\/p>\n<p>_N\u00e3o sei filho. Algumas daquelas almas foram levadas pelo tempo, outras pela seca, mas algumas foram mortas pelo ceifador. Ele chegou aqui enviado pela cidade, para enterrar os mortos pela seca, mas acabou se tornando um mal pior do que ela. Quando a cidade ficou quase vazia, ele nos deixou em paz e permitia que nossos parentes viessem no Dia dos Mortos contanto que n\u00e3o cont\u00e1ssemos sobre ele. Desde ent\u00e3o ele n\u00e3o havia atacado ningu\u00e9m, bom, pelo menos at\u00e9 esta \u00faltima madrugada.<\/p>\n<p>Minha perna do\u00eda e eu sentia que minha cabe\u00e7a ardia em febre, mesmo assim consegui me sentar na cama:<\/p>\n<p>_Ent\u00e3o os que me ajudaram foram v\u00edtimas dele?<\/p>\n<p>_Acho que sim, principalmente os que se tornaram fortes o suficiente para agarr\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Tentei me levantar e n\u00e3o consegui. Apesar de saber que eu n\u00e3o deveria estar fazendo aquele esfor\u00e7o, Rosa me deu uma bengala que estava encostada ao seu lado. Com dificuldade, voltei ao cemit\u00e9rio e l\u00e1 encontrei Gomes, ajoelhado do lado de um t\u00famulo. Me aproximei o mais silencioso poss\u00edvel e esperei ele se levantar. Sentindo minha presen\u00e7a, ele disse sem tirar os olhos do t\u00famulo:<\/p>\n<p>_Ele foi a \u00faltima crian\u00e7a da cidade e passava os dias a jogar bola sozinho. Esperava que algum dia tivesse algum amigo para jogar a bola de volta, mas isso nunca aconteceu. Estava jogando na frente da funer\u00e1ria quando o homem o pegou. &#8211; Gomes se calou, passou por mim sem falar mais nada e saiu do cemit\u00e9rio, indo na dire\u00e7\u00e3o de sua casa.<\/p>\n<p>Me aproximei do mesmo t\u00famulo que ele e li em pequenas letras &#8220;Ramirez Sosa Monterrey, o menino que jogava bola &#8211; 2000 &#8211; 2013&#8221;.<\/p>\n<p>Fim<\/p>\n<p>Essa fic\u00e7\u00e3o foi inspirada a partir de uma <a href=\"https:\/\/br.noticias.yahoo.com\/video\/hist%C3%B3ria-por-tr%C3%A1s-da-foto-110806463.html\" target=\"_blank\">hist\u00f3ria real<\/a>.<\/p>\n<h4>CHESTER CHENSON<\/h4>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Desfavor Convidado \u00e9 a coluna onde os impopulares ganham voz aqui na Rep\u00fablica Impopular. 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