{"id":7340,"date":"2014-10-03T06:00:15","date_gmt":"2014-10-03T09:00:15","guid":{"rendered":"http:\/\/www.desfavor.com\/blog\/?p=7340"},"modified":"2014-10-03T02:22:53","modified_gmt":"2014-10-03T05:22:53","slug":"um-dia-comum","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/2014\/10\/um-dia-comum\/","title":{"rendered":"Um dia comum."},"content":{"rendered":"<p>Landrof tamborilava os dedos de uma m\u00e3o sobre o volante, a outra vacilante sobre pressionar ou n\u00e3o a buzina. Os conquistadores mong\u00f3is estavam h\u00e1 quase vinte minutos ininterruptos atravessando a pista. Pensava seriamente sobre a proposta do candidato do Partido Canibal sugerindo faixas exclusivas para invasores estrangeiros.<!--more--><\/p>\n<p>No carro ao lado, olhares c\u00famplices de outro homem receoso de chamar aten\u00e7\u00e3o de Khan e sua gangue montada. O congestionamento que se formara atr\u00e1s de seu carro parecia pactuar com o sil\u00eancio respeitoso. Dezenas de metros de carros, cavalos e dinossauros de montaria esperando pacientemente pela sua chance de cruzar as ruas de S\u00e3o Pedro.<\/p>\n<p>Landrof estava atrasado para o futebol com os amigos. N\u00e3o que eles fossem se ressentir por meia hora sem sua companhia, mas o \u00faltimo a chegar dificilmente encontraria cervejas das marcas boas no isopor. Ao ver o grupo de guerreiros finalmente reduzir-se a uma an\u00eamica fila de retardat\u00e1rios, ele religa o motor e atravessa o mar de estrume ao qual reduzia-se agora a larga avenida.<\/p>\n<p>Isso agora era problema dos ciborgues do Minist\u00e9rio de Limpeza de Avenidas. Landrof segue por mais alguns minutos at\u00e9 chegar ao estacionamento da quadra de futebol, no octog\u00e9simo andar do Edif\u00edcio Esportivo. D\u00e1 um trocado para um dos enormes ratos da m\u00e1fia dos flanelinhas verticais e segue apressado para o elevador.<\/p>\n<p>J\u00e1 l\u00e1 dentro, escolhe o 36\u00ba andar. Um leve salto inicia o movimento do elevador. Landrof suspira ao se lembrar que deixara sua sacola com o uniforme no carro. Aperta o bot\u00e3o do andar mais pr\u00f3ximo seguidas vezes, at\u00e9 que subitamente as luzes se apagam e o movimento \u00e9 interrompido.<\/p>\n<p>Logo a escurid\u00e3o \u00e9 vencida por uma luz cegante. Os seus olhos tem imensa dificuldade de se adaptar, mas atravessando o inc\u00f4modo em suas c\u00f3rneas surge a imagem borrada de um ser human\u00f3ide, pele esverdeada, fei\u00e7\u00f5es pouco distingu\u00edveis. Landrof n\u00e3o consegue se mexer, seus movimentos impossibilitados por algo parecido com uma espessa gel\u00e9ia transparente recobrindo todo o corpo.<\/p>\n<p>O ser que enxerga parece estar do outro lado de um vidro. Veste o que se pode entender por um jaleco branco e definitivamente anota algo em uma prancheta. De forma muito abafada, consegue ouvir os sons vindos dele: uma mistura de grunhidos e cliques vindos de tr\u00e1s de seus brancos e cerrados dentes expostos.<\/p>\n<p>Sentindo o desespero da impot\u00eancia, for\u00e7a todos seus m\u00fasculos na tentativa de se desvencilhar do que quer que estivesse prendendo-lhe. Seus gritos n\u00e3o v\u00e3o muito longe. Ainda prestando aten\u00e7\u00e3o no ser que tomava notas de seu esfor\u00e7o, percebe a chegada de um segundo, visualmente parecido at\u00e9 nas vestimentas. Ambos parecem discutir algo em sua l\u00edngua estranha.<\/p>\n<p>Tudo volta a ficar escuro. Landrof se v\u00ea novamente no elevador, portas abertas no 53\u00b0 andar, prestes a se fechar novamente. Ele estica o bra\u00e7o, impedindo o fechamento. Depois de pensar por alguns segundos, recolhe o membro e decide continuar a viagem at\u00e9 o andar desejado. Perguntava-se se tinha sido tudo apenas uma alucina\u00e7\u00e3o, op\u00e7\u00e3o que acaba aceitando quando finalmente encontra-se com seus amigos na quadra de futebol.<\/p>\n<p>Tarzan, chimpanz\u00e9 que conhecia desde seus quinze anos de idade, \u00e9 o primeiro a notar sua chegada. Ele dependura-se sobre o alambrado, acenando a \u00faltima ta\u00e7a de cerveja de qualidade da noite. O Bar\u00e3o tamb\u00e9m acabara de chegar, seu avi\u00e3o estacionado h\u00e1 poucos metros de dist\u00e2ncia do grupo. Landrof resigna-se e pega uma das cervejas vagabundas, oferecendo uma para o piloto germ\u00e2nico e come\u00e7ando um t\u00edmido aquecimento para a pr\u00f3xima partida.<\/p>\n<p>Para piorar, o \u00faltimo a chegar tamb\u00e9m era obrigado a jogar no gol. Apesar das in\u00fameras reclama\u00e7\u00f5es do grupo, Goro, o \u00fanico ser com quatro bra\u00e7os do grupo, preferia mesmo era jogar no ataque. Landrof veste as luvas e posiciona-se debaixo das traves. Os jogadores de ambos os times se espalham pela quadra, o cavalo falante d\u00e1 o pontap\u00e9 inicial.<\/p>\n<p>Depois de alguns minutos de p\u00e9ssimo espet\u00e1culo esportivo, a bola finalmente se aproxima da meta defendida por Landrof. Tarzan corria com aux\u00edlio dos longos bra\u00e7os, segurando a bola com seus h\u00e1beis p\u00e9s. Totalmente livre, o chimpanz\u00e9 dispara um chute, ou melhor, um arremesso de dif\u00edcil defesa mesmo que o goleiro n\u00e3o fosse um pregui\u00e7oso e desmotivado humano esperando sua chance de jogar na linha.<\/p>\n<p>Prevendo a futilidade da tentativa de defesa, Landrof desiste do movimento e desvia sua aten\u00e7\u00e3o da bola para uma teatral reclama\u00e7\u00e3o com sua defesa. A distra\u00e7\u00e3o n\u00e3o o faz perceber a curva da bola e sua perigosa nova dire\u00e7\u00e3o. A pancada em cheio, bem no meio de sua cara, n\u00e3o deixa o erro passar impune. Landrof cai desacordado imediatamente.<\/p>\n<p>A escurid\u00e3o cede lentamente. A luz que invade seus olhos continua inc\u00f4moda, seu corpo continua limitado pela gosma, os dois seres esverdeados continuam observando-o. Agora, com os rostos colados no vidro que separa Landrof dos estranhos.<\/p>\n<p>O desespero recome\u00e7a. Mas a cada espasmo muscular, as coisas v\u00e3o ficando mais f\u00e1ceis: a subst\u00e2ncia ao seu redor vai liquefazendo-se lentamente. Os sons da fala alien\u00edgena que escuta v\u00e3o ficando cada vez mais fortes. Os poucos minutos feitos de eternidade pelo esfor\u00e7o terminam com o l\u00edquido escorrendo por ralos no que agora percebe ser um tubo.<\/p>\n<p>O corpo sofre para se acostumar com o ar novamente, mas cada tragada de ar traz al\u00edvio para seus pulm\u00f5es. A frente do tubo se abre, deixando o ar gelado do exterior entrar em contato com seu corpo nu.<\/p>\n<p><b>LANDROF:<\/b> GASP! COFF! &#8230;\u00e9isso?<\/p>\n<p><b>SER DE PELE VERDE:<\/b> *inintelig\u00edvel*<\/p>\n<p><b>LANDROF:<\/b> Coff&#8230; onde&#8230; estou?<\/p>\n<p>O estranho human\u00f3ide \u00e9 alto e esguio. Parece ter a pele recoberta de pequenas escamas esverdeadas, os olhos esbugalhados chamam aten\u00e7\u00e3o num rosto quase sem outras caracter\u00edsticas. Outro logo se aproxima, ambos trocando sons incompreens\u00edveis. Landrof recolhe-se a uma posi\u00e7\u00e3o fetal no ch\u00e3o, misto de fadiga muscular e frio. Um dos seres acocora-se ao seu lado e coloca alguma coisa em seu ouvido.<\/p>\n<p><b>SER DE PELE VERDE:<\/b> U\u00ed u u\u00e1?<\/p>\n<p><b>LANDROF:<\/b> H\u00e3?<\/p>\n<p><b>SER DE PELE VERDE:<\/b> u\u00e1 i\u00e1&#8230; human dialect? The device is not recognizing yours&#8230; wait&#8230;.<\/p>\n<p><b>SER DE PELE VERDE:<\/b> Acho que agora foi! Foi?<\/p>\n<p><b>LANDROF:<\/b> Estou com&#8230; com frio&#8230;<\/p>\n<p><b>SER DE PELE VERDE:<\/b> Ah, que cabe\u00e7a a minha! Veste isso.<\/p>\n<p>Os dois se juntam para vestir Landrof, que n\u00e3o esbo\u00e7a muita rea\u00e7\u00e3o. Colocado numa cadeira, come\u00e7a a perceber seus arredores: algo parecido com um laborat\u00f3rio abandonado. Paredes rachadas, uma enorme quantidade de vidro e pap\u00e9is jogados no ch\u00e3o, prateleiras e mesas met\u00e1licas carcomidas pela ferrugem. O que mais chama aten\u00e7\u00e3o s\u00e3o os grandes tubos num dos cantos, amontoados. Todos abertos e vazios.<\/p>\n<p><b>SER DE PELE VERDE:<\/b> Eu sou Loc Fwizz, ele \u00e9 Clac Cez. Voc\u00ea \u00e9 Leandro, certo?<\/p>\n<p><b>LANDROF:<\/b> Landrof&#8230; o que est\u00e1 acontecendo aqui? Eu estava jogando bola&#8230;<\/p>\n<p><b>LOC:<\/b> Aonde?<\/p>\n<p><b>CLAC:<\/b> N\u00e3o, \u00e9 uma express\u00e3o. Acredito que ele esteja falando da simula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><b>LANDROF:<\/b> Eu desmaiei com aquela bolada?<\/p>\n<p><b>LOC:<\/b> Est\u00e1 ficando tarde, nosso hor\u00e1rio j\u00e1 deu aqui. Boa sorte, viu?<\/p>\n<p><b>CLAC:<\/b> Onde voc\u00ea pensa que vai?<\/p>\n<p><b>LOC:<\/b> Para casa. Terminamos o trabalho!<\/p>\n<p><b>CLAC:<\/b> Tem um vivo!<\/p>\n<p><b>LOC:<\/b> Clac, minha mulher est\u00e1 botando ovos. Ela vai me comer vivo se eu chegar tarde.<\/p>\n<p><b>CLAC:<\/b> Ela vai fazer isso de qualquer jeito em alguns ciclos!<\/p>\n<p><b>LOC:<\/b> Ei! A fam\u00edlia dela parou com isso h\u00e1 muito tempo.<\/p>\n<p><b>CLAC:<\/b> Bah&#8230; vai logo. Acabamos de descobrir uma esp\u00e9cie nova e voc\u00ea quer ir para casa, voc\u00ea n\u00e3o merece mesmo ficar aqui.<\/p>\n<p><b>LANDROF:<\/b> Oi?<\/p>\n<p><b>CLAC:<\/b> Voc\u00ea deve ter muitas d\u00favidas. Por onde eu come\u00e7o?<\/p>\n<p><b>LOC:<\/b> Tchau!<\/p>\n<p><b>CLAC:<\/b> Loc!<\/p>\n<p><b>LOC:<\/b> Tchaaau!<\/p>\n<p><b>CLAC:<\/b> Voc\u00ea acredita nisso? Ele n\u00e3o era assim antes de acasalar&#8230;<\/p>\n<p><b>LANDROF:<\/b> Minhas mem\u00f3rias&#8230; elas est\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p><b>CLAC:<\/b> Ficando confusas, n\u00e9? Antes de te desligar do suporte eu recuperei as primeiras simula\u00e7\u00f5es antes de come\u00e7ar a dar defeito. Seu c\u00e9rebro deve estar reorganizando tudo agora.<\/p>\n<p><b>LEANDRO:<\/b> Meu nome&#8230; Leandro.<\/p>\n<p><b>CLAC:<\/b> Isso \u00e9 o que diz na ficha. Ok&#8230; bem vindo ao&#8230; futuro. Voc\u00ea passou&#8230; deixa eu ver&#8230; sete milh\u00f5es de anos em suspens\u00e3o. Uau&#8230;<\/p>\n<p><b>LEANDRO:<\/b> Argh! O que est\u00e1 acontecendo? Voc\u00ea \u00e9&#8230; verde!<\/p>\n<p><b>CLAC:<\/b> Efeito colateral. Sua toler\u00e2ncia ao estranho est\u00e1 diminuindo rapidamente agora que suas mem\u00f3rias n\u00e3o s\u00e3o mais um monte de bugs do computador que te mantinha vivo. Imagino as loucuras que um sistema desses rodando por tanto tempo deve ter criado.<\/p>\n<p><b>LEANDRO:<\/b> Voc\u00ea&#8230; voc\u00ea \u00e9 um m\u00e9dico?<\/p>\n<p><b>CLAC:<\/b> Na verdade&#8230; eu trabalho limpando esta\u00e7\u00f5es abandonadas.<\/p>\n<p><b>LEANDRO:<\/b> O jaleco?<\/p>\n<p><b>CLAC:<\/b> Ah, n\u00f3s encontramos perto da entrada. Faz frio aqui.<\/p>\n<p><b>LEANDRO:<\/b> A prancheta?<\/p>\n<p><b>CLAC:<\/b> Anotando os itens encontrados.<\/p>\n<p><b>LEANDRO:<\/b> Onde eu estou?<\/p>\n<p><b>CLAC:<\/b> Numa esta\u00e7\u00e3o abandonada dos cinzas orbitando a quarta lua de Posilion Sete. Voc\u00ea deve ter sido capturado por eles no passado e trazido para c\u00e1. Afinal, os safados faziam isso com todas as esp\u00e9cies que encontravam&#8230; ainda bem que eles n\u00e3o v\u00e3o incomodar mais ningu\u00e9m&#8230; Ah, o seu tubo estava escondido atr\u00e1s de uma parede desabada, milagrosamente ainda ligada no reator central.<\/p>\n<p><b>LEANDRO:<\/b> Eu lembro de estar numa estrada&#8230; na Terra.<\/p>\n<p><b>CLAC:<\/b> Cuidado, tenta n\u00e3o ficar lembrando de muita coisa agora, pode sobrecarregar seu c\u00e9rebro.<\/p>\n<p><b>LEANDRO:<\/b> Eu lembro de uma luz&#8230; ARGH!<\/p>\n<p>Com uma forte pontada na cabe\u00e7a, a consci\u00eancia de Landrof cede mais uma vez. Passados alguns segundos, seus olhos se abrem lentamente.<\/p>\n<p><b>TARZAN:<\/b> Voc\u00ea est\u00e1 bem, cara?<\/p>\n<p><strong>FIM<\/strong><\/p>\n<h3>Para dizer que nem drogas explicam mais essas coisas que eu escrevo, para dizer que detesta esperar mongol atravessar rua, ou mesmo para dizer que n\u00e3o duvida que eu fiz tudo s\u00f3 pela piada anterior: <a href=\"mailto:somir@desfavor.com\">somir@desfavor.com<\/a><\/h3>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Landrof tamborilava os dedos de uma m\u00e3o sobre o volante, a outra vacilante sobre pressionar ou n\u00e3o a buzina. Os conquistadores mong\u00f3is estavam h\u00e1 quase vinte minutos ininterruptos atravessando a pista. 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