{"id":7383,"date":"2014-10-12T14:00:47","date_gmt":"2014-10-12T17:00:47","guid":{"rendered":"http:\/\/www.desfavor.com\/blog\/?p=7383"},"modified":"2014-10-12T05:50:54","modified_gmt":"2014-10-12T08:50:54","slug":"a-saga-do-morcego","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/2014\/10\/a-saga-do-morcego\/","title":{"rendered":"A Saga do Morcego."},"content":{"rendered":"<h3><em><strong>Desfavor Convidado<\/strong> \u00e9 a coluna onde os impopulares ganham voz aqui na Rep\u00fablica Impopular. Se voc\u00ea quiser tamb\u00e9m ter seu texto publicado por aqui, basta enviar para <a href=\"mailto:desfavor@desfavor.com\">desfavor@desfavor.com<\/a>.<\/em><br \/>\n<em>O Somir se reserva ao direito de implicar com os textos e n\u00e3o public\u00e1-los. Sally promete interceder por voc\u00eas.<\/em><\/h3>\n<h2>Noite Fat\u00eddica<\/h2>\n<p>Era noite, finalmente eu me recolhia ao meu reduto para o merecido descanso. As trevas do meu quarto me abra\u00e7avam confortavelmente enquanto que o clima frio trazia uma doce agonia carregada pelo vento invernal.<!--more--><\/p>\n<p>Deitado em minha alcova, meus pensamentos j\u00e1 ecoavam atrav\u00e9s dos mais profundos covis da minha mente e o subconsciente urrava sua necessidade latente de vir \u00e0 tona para dar vaz\u00e3o a coisas que n\u00e3o fazem sentido neste mundo, coisas que s\u00f3 \u00e0 deuses e dem\u00f4nios cabem a revela\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Do lado de fora minha fiel guardi\u00e3 Penny Lane auscultava a noite, em sua eterna e m\u00f3rbida tarefa de proteger meu sono daqueles que eram e j\u00e1 n\u00e3o s\u00e3o.<\/p>\n<p>Segundos antes de seu ladrido intermitente, o eri\u00e7amento dos p\u00ealos em minha nuca j\u00e1 me despertara do est\u00e1gio m\u00e1gico que existe no universo paralelo situado exatamente no interm\u00e9dio do sono e da vig\u00edlia. <\/p>\n<p>Uma aura maligna pairava no ar e a escurid\u00e3o quase que instantaneamente se tornara palp\u00e1vel. O mal estava presente.<\/p>\n<p>Entre os sons de rosnados e latidos de Penny Lane, tentei em v\u00e3o constatar a presen\u00e7a do invasor, atrav\u00e9s de algum ru\u00eddo que pudesse denunciar sua natureza. Procurei pela minha arma, apenas para me lembrar, logo em seguida, que havia deixado-a em meu escrit\u00f3rio.<\/p>\n<p>Ainda no escuro, instintivamente alcancei a velha Rossi na parede, por\u00e9m, sem muni\u00e7\u00e3o, ela n\u00e3o teria muita valia. A tens\u00e3o ao lado de fora multiplicava-se geometricamente, quase dava para ver atrav\u00e9s dos rosnados de minha guardi\u00e3 a cena que se passava: Penny e o Invasor, frente \u00e0 frente, ambos sem respirar, esperando o primeiro momento de hesita\u00e7\u00e3o um do outro para atacar.<\/p>\n<p>Eu precisava fazer algo. Foi ent\u00e3o que, munido da mais antiga das armas, um porrete, sa\u00ed na escurid\u00e3o da casa, agradecendo aos c\u00e9us pela d\u00e1diva de poder enxergar no escuro. Na sala encontrei meu pai e ambos iniciamos uma patrulha nos jardins da propriedade.<\/p>\n<p>Um homem que n\u00e3o defende seu territ\u00f3rio, seu lar, n\u00e3o merece viver.<\/p>\n<p>O sangue pulsava em nossas t\u00eamporas quando abrimos a porta que dava para os fundos da casa. Penny veio ao nosso encontro, sem sinais de luta, mas na \u00e2nsia de nos guiar \u00e0 presen\u00e7a do invasor que, mesmo de posse de um prosaico lampi\u00e3o de querosene, n\u00e3o consegu\u00edamos encontrar.<\/p>\n<p>Naquele momento, um sibilo alto que mais p\u00f4de ser sentido no cr\u00e2nio que ouvido propriamente, ocupou o local. Era o Invasor impondo sua presen\u00e7a, se anunciando, conotando sua periculosidade a fim de nos afastar.<\/p>\n<p>Penny Lane, numa atitude r\u00e1pida e sem hesita\u00e7\u00e3o, correu ao seu encontro, foi quando pudemos v\u00ea-lo: um morcego, um pobre morcego que em v\u00e3o tentava escalar a parede rumo \u00e0 janela do meu reduto noturno.<\/p>\n<p>A vis\u00e3o da criatura me encheu de compaix\u00e3o, pois tentava em v\u00e3o escapar da armadilha na qual se colocara. N\u00e3o conseguia mais voar, pudemos constatar pelas suas d\u00e9beis tentativas. Fosse por ter se chocado aos ofend\u00edculos do muro, fosse por ter sido ferido pela incans\u00e1vel guardi\u00e3 do quintal, ou por qualquer outro motivo, a criatura ali estava, encurralada, assustada, \u00e0 merc\u00ea de nossas vontades.<\/p>\n<p>Instintivamente tranquei Penny Lane em sua jaula para proteger a ambos, ela e o morcego. Este \u00faltimo da morte certa nas presas de Penny, esta de um eventual cont\u00e1gio por raiva animal.<br \/>\nO morcego exalava medo e via-se o pavor refletido pelo lampi\u00e3o em seus pequeninos olhos vermelhos. <\/p>\n<p>Tentei por diversas vezes capturar a criatura para devolv\u00ea-la ao seu habitat. Minha primeira tentativa resultou em uma mordida no polegar direito, que s\u00f3 n\u00e3o rendeu piores consequ\u00eancias gra\u00e7as ao pano de ch\u00e3o com o qual envolvi meu pequeno ref\u00e9m.<\/p>\n<p>Obstinadamente, tentei, sem sucesso, no entanto, diversos outros m\u00e9todos de captura, mas o medo emprestava ao morcego uma agilidade que j\u00e1 n\u00e3o tinha, fazendo com que ele valentemente n\u00e3o se deixasse capturar, tornando-se tal ato invi\u00e1vel sem molest\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Eis que um dilema se instalou: se eu deixasse o pequeno vampiro ali, ele certamente seria morto pela valente Penny Lane, que n\u00e3o poderia passar a noite enclausurada, pois certamente ladraria at\u00e9 o amanhecer. Caso a feroz ca\u00e7adora fosse solta, corria s\u00e9rios riscos de ser contaminada pelo v\u00edrus da raiva.<\/p>\n<p>Foi ent\u00e3o que meu pai, do alto de sua sabedoria revelou friamente o que desde o come\u00e7o eu inconscientemente esperava: ter\u00edamos que matar o pobre e assustado morcego.<\/p>\n<p>Coube a mim a tarefa, mas n\u00e3o era uma morte comum, um simples assass\u00ednio, o ato era para poupar o pequeno invasor de futuros sofrimentos nas presas de Penny, portanto deveria ser feito de forma r\u00e1pida, cir\u00fargica, se poss\u00edvel indolor.<\/p>\n<p>Ante tais requisitos para a execu\u00e7\u00e3o do imaculado condenado, o m\u00e9todo da paulada estava descartado, instalando-se a\u00ed uma nova d\u00favida: qual m\u00e9todo poderia ser empregado com mais efic\u00e1cia?<\/p>\n<p>Carentes de uma arma funcional e de muni\u00e7\u00e3o para a \u00fanica arma de que disp\u00fanhamos me coloquei a pensar. Meu pai, antigo matador das ratazanas que outrora invadiram nosso territ\u00f3rio prop\u00f4s primeiramente uma arma qu\u00edmica, feita \u00e0 base de \u00e1gua e produtos de limpeza, mas sua letalidade era question\u00e1vel, podendo proporcionar \u00e0 v\u00edtima sofrimentos desnecess\u00e1rios.<\/p>\n<p>Exclu\u00eddo tal m\u00e9todo, ele prop\u00f4s \u00e1gua fervente, o que por motivos \u00f3bvios n\u00e3o foi feito.<\/p>\n<p>Foi quando me lembrei daquela antiga arma, h\u00e1 muito deixada no ostracismo da parede do quarto: um velho estilingue, feito com borracha cir\u00fargica e forquilha de goiabeira, vinte libras de press\u00e3o no momento do impacto a uma dist\u00e2ncia de trinta metros. N\u00e3o era uma arma potente, mas faria o servi\u00e7o de forma r\u00e1pida.<\/p>\n<p>No entanto, como nada neste mundo \u00e9 f\u00e1cil e durante a noite aqueles que eram e j\u00e1 n\u00e3o s\u00e3o caminham junto \u00e0s trevas para emprestar revezes \u00e0 alma humana, novo problema se instalou: n\u00e3o havia uma muni\u00e7\u00e3o apropriada para usar na medieval arma escolhida para a execu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas a necessidade pariu todas as inven\u00e7\u00f5es e prontamente encontrei na bomboni\u00e9re da sala duas balas, duas velhas e duras balas de menta que h\u00e1 muito tempo ali jaziam.<\/p>\n<p>Com o cora\u00e7\u00e3o em prantos fui cumprir meu destino de algoz, buscando dar ao infeliz morcego um pouco de dignidade na hora de sua morte. Os momentos que se seguiram incorporaram um horror Lovecraftiniano.<\/p>\n<p>Eu estava ali em posi\u00e7\u00e3o, a borracha tensionada, o pobre animal me encarava, j\u00e1 imaginando o porvir. Junto com a minha respira\u00e7\u00e3o, soltei tamb\u00e9m o reposit\u00f3rio da arma e a bala de menta voou. O animal soltou um sibilo alto e agudo que penetrou mais minha alma que meus ouvidos.<\/p>\n<p>Ao me aproximar para constatar o cumprimento da funesta tarefa, tive no\u00e7\u00e3o do infeliz resultado: a asa direita do morcego se fora e ele tremia agonizante em dor.<\/p>\n<p>Meu cora\u00e7\u00e3o sangrava juntamente com as art\u00e9rias do animal e dei meu segundo tiro. Uma nova bala de menta voava em dire\u00e7\u00e3o ao alvo, desta vez decepando parte da asa esquerda da criatura.<\/p>\n<p>Eu estava em choque, a dor e a compaix\u00e3o penetravam em meu cora\u00e7\u00e3o como se fossem a lan\u00e7a do destino perfurando fundo o cora\u00e7\u00e3o do Salvador de um povo que n\u00e3o queria ser salvo.<\/p>\n<p>N\u00e3o havia mais muni\u00e7\u00e3o. O morcego sibilava cada vez mais alto em dor. Eu precisava terminar seu sofrimento.<\/p>\n<p>Foi quando a Provid\u00eancia colocou em minha frente um pequeno cadeado sem al\u00e7as, apenas uma pequena e pesada massa de a\u00e7o fundido e dourado.<\/p>\n<p>O peso letal do metal, a cor dourada, o Universo que parara de girar naquele momento, tudo garantia ao morcego uma dignidade na morte que outros de sua esp\u00e9cie jamais sonhar\u00e3o encontrar.<\/p>\n<p>Nesse momento atemporal, onde todas as energias prendem sua respira\u00e7\u00e3o e os portais do universo se abrem para receber a ess\u00eancia do ser que em breve deixaria este mundo, o morcego moribundo se levantou sobre as patas traseiras, apoiando-se no que restava de suas asas e ofereceu-me sua cabe\u00e7a ao sacrif\u00edcio.<\/p>\n<p>Ele parecia pedir-me que fosse r\u00e1pido, que fosse preciso. E eu fui.<\/p>\n<p>A borracha tensionada ao m\u00e1ximo zuniu quando soltei o reposit\u00f3rio do estilingue. O cadeado voou, tra\u00e7ando um risco dourado no ar, iluminado pela parca luz do ambiente. A cabe\u00e7a do morcego explodiu, seu sangue banhou minha face.<\/p>\n<p>Dentro de seu c\u00e1rcere, Penny Lane fez de seu uivo a trilha sonora que embalou a despedida da criatura. O c\u00e9u, antes nublado, se abriu em estrelas. As energias saudavam a ess\u00eancia do ser que agora recolhiam.<\/p>\n<p>Um ser puro, sem culpas, cujo destino o fez cair em um local que tra\u00e7aria para sempre sua caminhada neste planeta.<\/p>\n<p>Fui dormir me sentindo o mais miser\u00e1vel dos homens que habitam neste mundo. N\u00e3o encontrei o costumeiro conforto das trevas. Sonhei com o morcego, voando livre, durante o dia, com asas enormes. Ele olhou-me e sorriu, como se estivesse a dizer que entendia minhas a\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Como se me tranq\u00fcilizasse, dizendo que sou tamb\u00e9m um morcego e que, como ele, um dia tamb\u00e9m terei que entender a decis\u00e3o daquele n\u00e3o ter\u00e1 outra escolha, sen\u00e3o encaminhar minha alma aos portais do universo.<\/p>\n<h6>FIM<\/h6>\n<h2> <\/h2>\n<h4>Breno B. Moore | <a href=\"mailto:Breno.b.moore@hotmail.com\"><i class=\"fa fa-envelope-o\">+<\/i><\/a><\/h4>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Desfavor Convidado \u00e9 a coluna onde os impopulares ganham voz aqui na Rep\u00fablica Impopular. Se voc\u00ea quiser tamb\u00e9m ter seu texto publicado por aqui, basta enviar para <a href=\"mailto:desfavor@desfavor.com\">desfavor@desfavor.com<\/a>. O Somir se reserva ao direito de implicar com os textos e n\u00e3o public\u00e1-los. Sally promete interceder por voc\u00eas. 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