{"id":7394,"date":"2014-10-15T06:00:32","date_gmt":"2014-10-15T09:00:32","guid":{"rendered":"http:\/\/www.desfavor.com\/blog\/?p=7394"},"modified":"2014-10-15T02:29:00","modified_gmt":"2014-10-15T05:29:00","slug":"tecnocomunismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/2014\/10\/tecnocomunismo\/","title":{"rendered":"Tecnocomunismo."},"content":{"rendered":"<p>Quase metade da riqueza mundial (48%) est\u00e1 nas m\u00e3os de 1% da popula\u00e7\u00e3o. Essa informa\u00e7\u00e3o \u00e9 do banco Credit Suisse, e apesar de nossa j\u00e1 folcl\u00f3rica desconfian\u00e7a dos su\u00ed\u00e7os aqui na RID, os dados assustam. N\u00e3o s\u00f3 pela injusti\u00e7a com 99% dos restantes, mas pela sa\u00fade do &#8216;organismo humanidade&#8217; como um todo: isso n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 desequil\u00edbrio hormonal, \u00e9 um c\u00e2ncer absolutamente fora de controle.<!--more--><\/p>\n<p>Sim, acordei comunista hoje. Mas perdoem-me se n\u00e3o vou me render ao manique\u00edsmo de pobres oper\u00e1rios e maligna burguesia: j\u00e1 passou do ponto de ser a vontade das pessoas. Voltando a analogia do organismo, se cada um de n\u00f3s \u00e9 uma c\u00e9lula de um s\u00f3 ser vivo, um por cento delas respondem por metade do corpo. Duvido que qualquer ser consiga sobreviver com um c\u00e2ncer dessas propor\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Mas mesmo assim, seguimos em frente. Vantagens de um organismo especializado em lidar com crescimentos t\u00e3o absurdos assim. Se uma das c\u00e9lulas aumenta, outras se espremem para acomod\u00e1-la. A teoria de que riqueza &#8216;escorre&#8217; para camadas mais carentes da popula\u00e7\u00e3o est\u00e1 sendo provada errada bilion\u00e1rio atr\u00e1s de bilion\u00e1rio. Nossos mega-ricos atuais s\u00e3o mais eficientes para concentrar renda do que os de outrora.<\/p>\n<p>E a disparidade aumenta. Tamanhas concentra\u00e7\u00f5es de riquezas ocorrem num mundo come\u00e7ando a lidar com escassez de recursos. Sem consider\u00e1veis avan\u00e7os tecnol\u00f3gicos a tend\u00eancia \u00e9 que cada vez mais de n\u00f3s concorramos por cada vez menos. Se havia uma certa margem de respiro no ac\u00famulo de fortunas no passado, atualmente estamos perto demais do limite de quanto se pode ter sem retirar de outros.<\/p>\n<p>N\u00e3o que n\u00e3o tenhamos tentado criar riquezas virtuais suficientes para permitir uma expans\u00e3o mais segura das divisas dos mais ricos: a pujante ind\u00fastria dos bens virtuais est\u00e1 a\u00ed para n\u00e3o me deixar mentir. J\u00e1 se pode ficar milion\u00e1rio ou bilion\u00e1rio escrevendo linhas de c\u00f3digo. Uma consider\u00e1vel parcela do dinheiro em circula\u00e7\u00e3o do mundo j\u00e1 est\u00e1 atrelada \u00e0 d\u00edvidas ao inv\u00e9s de riquezas &#8216;f\u00edsicas&#8217; como o ouro.<\/p>\n<p>Como qualquer organismo, o que compreende a humanidade tem seus mecanismos de controle e prote\u00e7\u00e3o. A quest\u00e3o \u00e9 que eles funcionam por um tempo limitado se a causa da doen\u00e7a n\u00e3o estiver sendo enfrentada. Criamos dinheiro e bens virtuais para dar espa\u00e7o para as c\u00e9lulas cancer\u00edgenas crescerem, mas essa solu\u00e7\u00e3o n\u00e3o deixa de ser paliativa. O problema n\u00e3o \u00e9 falta de recursos para crescer, \u00e9 a falta de espa\u00e7o para crescer.<\/p>\n<p>Num mundo ideal, dados como os revelados pela Credit Suisse deveriam fazer todo mundo parar e repensar nosso modelo de desenvolvimento. Alguma coisa claramente est\u00e1 errada e precisa ser tratada imediatamente (se \u00e9 que ainda d\u00e1 tempo). Um organismo com tanta concentra\u00e7\u00e3o de recursos em t\u00e3o poucos lugares est\u00e1 obviamente doente.<\/p>\n<p>Talvez falte a percep\u00e7\u00e3o de como estamos todos juntos nessa. Mas eu apostaria principalmente na percep\u00e7\u00e3o de que ser uma c\u00e9lula cancer\u00edgena \u00e9 uma boa coisa na nossa sociedade. As pessoas aspiram por crescer sem controle. Gastam fortunas para descobrir as melhores formas de viver em desequil\u00edbrio com duas c\u00e9lulas irm\u00e3s. E aqui eu n\u00e3o vou ser idealista: n\u00e3o se pode culp\u00e1-las demais por isso. Ali\u00e1s, n\u00e3o posso me culpar por isso. A ideia de se tornar obscenamente rico \u00e9 tentadora.<\/p>\n<p>E essa aspira\u00e7\u00e3o ao desequil\u00edbrio provavelmente est\u00e1 nos genes. De modo simplificado, qualquer organismo vivo complexo \u00e9 uma zona de guerra entre elementos desesperados para vencer. N\u00e3o existe &#8216;justi\u00e7a social&#8217; ou algo que o valha entre c\u00e9lulas: falta at\u00e9 mesmo consci\u00eancia para tal. O t\u00e3o celebrado equil\u00edbrio da natureza \u00e9 resultado direto de empates entre partes querendo se dar bem sozinhas custe o que custar.<\/p>\n<p>Provavelmente alguns de n\u00f3s enrique\u00e7am sem parar pelo mesmo motivo que cachorros v\u00e3o comer at\u00e9 passar mal em praticamente todas as chances que tiverem: n\u00e3o existe nenhuma trava natural para parar de levar vantagem. Oras, n\u00f3s engordamos at\u00e9 os limites da forma humana pelo mesmo motivo&#8230; as c\u00e9lulas de gordura aumentam para acomodar mais energia potencial at\u00e9 explodirem. N\u00e3o existe &#8216;j\u00e1 est\u00e1 bom&#8217; na natureza. Nunca est\u00e1 bom.<\/p>\n<p>&#8216;Suficiente&#8217; \u00e9 um conceito racional. Uma aposta contra tudo o que nos permitiu evoluir at\u00e9 aqui. Definir o suficiente \u00e9 assumir o risco de fazer um c\u00e1lculo errado. Nossa hist\u00f3ria de ac\u00famulo de riquezas \u00e9 regida pela ideia de que \u00e9 melhor sobrar do que faltar. Novamente, n\u00e3o podemos recriminar demais essa mentalidade. \u00c9 mesmo melhor sobrar do que faltar.<\/p>\n<p>Todo esse papo est\u00e1 aqui por um motivo, e eu aposto que a grande maioria de voc\u00eas vai discordar da minha conclus\u00e3o. Confesso que a ideia me assusta, que enxergo a quantidade enorme de problemas que podem surgir dela, mas pe\u00e7o apenas que voc\u00ea a analise de mente aberta, mesmo que s\u00f3 entretendo um pensamento estranho por alguns momentos: o org\u00e2nico j\u00e1 deu o que tinha que dar. Est\u00e1 na hora de m\u00e1quinas e computadores decidirem mais coisas por n\u00f3s.<\/p>\n<p>Inclusive o quanto \u00e9 o suficiente. N\u00f3s somos terr\u00edveis nisso. Depois de alguns mil\u00eanios de extremo interesse nessa quest\u00e3o, tudo o que temos para mostrar de resultados \u00e9 um sistema onde metade de tudo est\u00e1 nas m\u00e3os de um cent\u00e9simo de todos. Foi um erro catastr\u00f3fico. Humanidade, eu sei que voc\u00ea n\u00e3o quer ouvir isso, mas&#8230; falhamos. Tivemos v\u00e1rias ideias interessantes nesse caminho todo, mas n\u00e3o deu certo.<\/p>\n<p>Como podemos basear um sistema todo num c\u00e1lculo que nenhum de n\u00f3s consegue fazer com seguran\u00e7a? Como garantir que esse c\u00e1lculo seja feito por algu\u00e9m que n\u00e3o pade\u00e7a do mesmo medo de falhar? Oras, troquemos o algu\u00e9m por &#8216;algo&#8217;. A m\u00e1quina n\u00e3o tem medo de errar. Ali\u00e1s, a m\u00e1quina nem sabe errar.<\/p>\n<p>Se um computador decidir por n\u00f3s o quanto \u00e9 suficiente, poderemos nos concentrar mais em aproveitar o que desejamos e em definir metas para alcan\u00e7\u00e1-las. N\u00e3o estou advogando distribui\u00e7\u00e3o for\u00e7ada de renda como solu\u00e7\u00e3o eterna, for\u00e7ando os mais aptos a trabalhar para vagabundos, estou dizendo que se a pessoa souber o quanto vai precisar acumular para conseguir as coisas que quer e n\u00e3o puder acumular mais enquanto n\u00e3o tiver outro objetivo, garantimos que as pessoas s\u00f3 v\u00e3o trabalhar o quanto quiserem conquistar na vida.<\/p>\n<p>N\u00e3o estar\u00edamos mais recompensando gan\u00e2ncia cega. Se o dono da empresa decidiu que quer ter quatro mans\u00f5es, cem carr\u00f5es e sustentar toda essa riqueza, ele vai receber s\u00f3 o suficiente para isso. Quem define \u00e9 a m\u00e1quina. E ele s\u00f3 poderia receber mais se desse objetivos para ela (e, \u00e9 claro, pudesse produzir essa riqueza). O dinheiro restante seria dividido igualmente entre todos.<\/p>\n<p>Existe muita riqueza nesse mundo, e boa parte fica entrevada em fundos de investimento que s\u00f3 pensam em continuar o crescimento descontrolado. De uma certa forma, o dinheiro &#8216;parado&#8217; desse um por cento da popula\u00e7\u00e3o seria emprestado para o resto do mundo, sem necessariamente reduzir os padr\u00f5es de vida exagerados que tantos de n\u00f3s aspiramos ter um dia.<\/p>\n<p>Claro, a m\u00e1quina deste exemplo deveria funcionar sem interven\u00e7\u00e3o humana direta. Os computadores deveriam assumir o controle da humanidade e tomar decis\u00f5es por n\u00f3s. Decis\u00f5es que n\u00e3o estejam contaminadas por irracionalidade e mentalidade de escassez. Os computadores saberiam quanta energia, \u00e1gua e alimentos temos \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o. Basta definir o m\u00ednimo para subsist\u00eancia e n\u00e3o deixar faltar para ningu\u00e9m.<\/p>\n<p>Porque j\u00e1 temos como alimentar e dar condi\u00e7\u00f5es m\u00ednimas de vida para todo mundo, o que falta \u00e9 distribui\u00e7\u00e3o. E como o ser humano, at\u00e9 com raz\u00e3o, desconfia muito um do outro, \u00e9 dif\u00edcil convencer o 1% a dividir sua riqueza. E n\u00e3o posso ser inocente: o valor do dinheiro desabaria, com certeza. Sem especula\u00e7\u00e3o os mais ricos continuariam com todas suas vantagens, mas os bilh\u00f5es minguariam para milh\u00f5es, numa esp\u00e9cie de defla\u00e7\u00e3o global at\u00e9 voltarmos a ter valor &#8216;real&#8217; de troca nas moedas.<\/p>\n<p>Isso assusta muita gente. Isso tem toda a cara de trag\u00e9dia&#8230; desde que, \u00e9 claro, n\u00e3o seja um computador sem interesses pr\u00f3prios fa\u00e7a essa transi\u00e7\u00e3o do virtual para o real. Por sorte \u00e9 justamente isso que prego! A manuten\u00e7\u00e3o da liberdade pessoal e da possibilidade de vida de imensas vantagens sem abrir m\u00e3o da justi\u00e7a social. E com o passar do tempo \u00e9 de se esperar que a propor\u00e7\u00e3o entre muito ricos e muito pobres desabe. S\u00f3 vai se dar bem mesmo quem tiver objetivos ousados e capacidade de realiz\u00e1-los.<\/p>\n<p>O erro dos outros sistemas de distribui\u00e7\u00e3o de renda \u00e9 n\u00e3o considerar o computador, nossa mais importante cria\u00e7\u00e3o! Ele nasceu para estender a capacidade org\u00e2nica, e n\u00e3o estamos deixando que ele fa\u00e7a seu trabalho. E melhor, ele j\u00e1 nasceu sem o defeito de n\u00e3o saber o quanto \u00e9 o suficiente! O computador \u00e9 a NOSSA evolu\u00e7\u00e3o. Enquanto n\u00e3o pudermos nos tornar um com nossa cria\u00e7\u00e3o, que pelo menos deixemos ele resolver nossos problemas.<\/p>\n<p>Come\u00e7o a ver cada vez mais com olhos diferentes todas aquelas hist\u00f3rias de m\u00e1quinas dominando o mundo. Oras, \u00e9 justamente para isso que elas foram criadas. Resta a n\u00f3s descobrir quando a capacidade delas ser\u00e1 suficiente para nos liderar. Infelizmente, justamente o suficiente que n\u00e3o sabemos mensurar. Eu aposto que j\u00e1 chegamos nesse ponto. Mas aposto que voc\u00ea ainda n\u00e3o.<\/p>\n<p>Vamos crescer descontroladamente o quanto ainda? Quando vai ser o suficiente? Uma hora ou outra teremos que pular de cabe\u00e7a nessa quest\u00e3o.<\/p>\n<h3>Para dizer que eu estou sendo pago pela Skynet, para dizer que curtiu o tecnocomunismo, ou mesmo para dizer que minha solu\u00e7\u00e3o m\u00e1gica para tudo tem alguns problemas: <a href=\"mailto:somir@desfavor.com\">somir@desfavor.com<\/a><\/h3>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quase metade da riqueza mundial (48%) est\u00e1 nas m\u00e3os de 1% da popula\u00e7\u00e3o. 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