{"id":7401,"date":"2014-10-17T06:00:46","date_gmt":"2014-10-17T09:00:46","guid":{"rendered":"http:\/\/www.desfavor.com\/blog\/?p=7401"},"modified":"2014-10-17T01:26:30","modified_gmt":"2014-10-17T04:26:30","slug":"filhos-das-estrelas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/2014\/10\/filhos-das-estrelas\/","title":{"rendered":"Filhos das estrelas."},"content":{"rendered":"<p>O mundo parou para observar as milhares de espa\u00e7onaves que desciam rumo ao territ\u00f3rio brasileiro naquela fat\u00eddica tarde de Agosto. H\u00e1 semanas n\u00e3o se falava em nada al\u00e9m da gigantesca nave de origem desconhecida e formas alien\u00edgenas orbitando o nosso planeta. Nem mesmo os mais poderosos governos foram capazes de esconder a informa\u00e7\u00e3o do p\u00fablico.<!--more--><\/p>\n<p>Como era de esperar, um misto de fascina\u00e7\u00e3o e p\u00e2nico tomou de assalto toda a humanidade. A expectativa do primeiro contato com uma civiliza\u00e7\u00e3o alien\u00edgena quase congestionou toda a internet, bilh\u00f5es de n\u00f3s tomados pela curiosidade, especulando sobre as inten\u00e7\u00f5es dos visitantes. Do espa\u00e7o n\u00e3o vinham muitas informa\u00e7\u00f5es, na verdade, a \u00fanica comunica\u00e7\u00e3o vinda da nave alien\u00edgena fora a imagem de um mapa identificando a localiza\u00e7\u00e3o do pouso de cinco mil pequenos m\u00f3dulos de aterrissagem, todos concentrados no interior do Brasil.<\/p>\n<p>Finalmente era a hora. O governo brasileiro aceitou de bom grado um substancial refor\u00e7o militar internacional encabe\u00e7ado pela OTAN na \u00e1rea, em caso de hostilidade dos visitantes. Na \u00e1rea tamb\u00e9m se concentraram centenas de milhares de cientistas, jornalistas e curiosos dispostos a fazer a viagem rumo ao interior do Mato Grosso do Sul. Dentre as testemunhas locais, reinava a curiosidade at\u00e9 mais do que o medo do desconhecido.<\/p>\n<p>Logo ap\u00f3s a alvorada do terceiro dia de Agosto de 2015, os primeiros m\u00f3dulos come\u00e7avam a pousar. Um engenhoso sistema de micro-propulsores garantia que tocassem o solo com toda delicadeza. Os pousos aconteciam de forma ordenada, formando padr\u00f5es geom\u00e9tricos perfeitos por sobre o descampado. Em menos de uma hora transmitida ao vivo por virtualmente todos os canais de comunica\u00e7\u00e3o humanos, todos os cinco mil estavam dispostos em solo terrestre.<\/p>\n<p>Cada um deles n\u00e3o tinha mais do que um metro de altura por dois de largura. Por alguns momentos, especulou-se at\u00e9 que seriam bombas ou algo igualmente perigoso, os militares presentes com certeza se prepararam para o pior, todas suas armas prontas para disparar. Hoje em dia sabe-se at\u00e9 que quatro avi\u00f5es carregando bombas at\u00f4micas sobrevoavam o local.<\/p>\n<p>Cerca de vinte minutos depois do pouso, todas as pequenas naves come\u00e7aram a eclodir feito casulos met\u00e1licos. O que havia l\u00e1 dentro pegou de surpresa a esmagadora maioria das testemunhas: beb\u00eas. Beb\u00eas visivelmente humanos, das mais diversas etnias. Testes subsequentes estimaram todos os cinco mil infantes com a mesma idade, pouco menos de um ano de vida. Todos extremamente saud\u00e1veis e sem nenhum sinal de desconforto ou viol\u00eancia de qualquer tipo.<\/p>\n<p>Helic\u00f3pteros filmavam as crian\u00e7as de longe, todas nuas e vulner\u00e1veis. Deitadas placidamente sobre uma esp\u00e9cie de manjedoura, agora expostas ao abafado clima do local. Os presentes vacilaram por alguns momentos, os militares dando ordens expressas para que ningu\u00e9m se aproximasse. A primeira a desobedecer a ordem e a protagonizar a foto mais republicada da hist\u00f3ria humana foi uma soldado israelense.<\/p>\n<p>Ela ignorou os gritos de seus superiores para manter posi\u00e7\u00e3o e se aproximou de um dos beb\u00eas. Sem vacilar, pegou-o no colo. Era um menino de pele morena, cabelos negros e volumosos para a idade. Ele sorriu imediatamente. Poucos minutos ap\u00f3s essa cena, o campo de pouso estava completamente tomado por soldados, cada um tomando para si uma das crian\u00e7as. Logo ap\u00f3s v\u00e1rios cientistas uniram-se ao processo.<\/p>\n<p>A \u00faltima a ser tomada nos bra\u00e7os de algu\u00e9m foi uma menina loira de profundos olhos azuis. Assim que repousou sua cabe\u00e7a sobre os ombros de um soldado chin\u00eas, come\u00e7aram a chegar os relatos da grande nave em \u00f3rbita. Ela estava se movendo, depois de tr\u00eas semanas de inatividade. Sem responder nenhum dos insistentes pedidos de comunica\u00e7\u00e3o enviados pela humanidade, ela foi se afastando lentamente de nosso planeta.<\/p>\n<p>Doze horas depois, a nave finalmente desapareceu num tra\u00e7o de luz que atravessou o sistema solar em segundos. Nesse meio tempo, os cinco mil beb\u00eas j\u00e1 tinham nomes, alguns mais que um, e verdadeiras filas de interessados na ado\u00e7\u00e3o permanente. Os &#8220;filhos das estrelas&#8221; &#8211; nome rapidamente popularizado pela m\u00eddia &#8211; foram em sua imensa maioria levados para \u00e1reas de isolamento criadas por uma for\u00e7a tarefa mundial, capitaneada em teoria pelo ex\u00e9rcito brasileiro, mas na pr\u00e1tica pelo americano.<\/p>\n<p>Em sua imensa maioria porque doze dos petizes desapareceram antes mesmo de todos serem contabilizados. Atribui-se a disparidade a um erro de interpreta\u00e7\u00e3o do n\u00famero de naves enviadas, mas sabia-se que a maior probabilidade era a de terem &#8220;roubado&#8221; as crian\u00e7as no meio da confus\u00e3o que os soldados fizeram ao busc\u00e1-las em primeiro lugar. A falta dessas doze crian\u00e7as tamb\u00e9m foi minimizada pelos resultados dos exames feitos nas outras: n\u00e3o eram radioativas ou carregavam qualquer patog\u00eanico detect\u00e1vel.<\/p>\n<p>Testes de DNA comprovaram que eram sim humanas at\u00e9 a \u00faltima c\u00e9lula. O que mais chamou a aten\u00e7\u00e3o foi a perfei\u00e7\u00e3o de seus c\u00f3digos gen\u00e9ticos: nenhuma delas tinha disposi\u00e7\u00e3o para doen\u00e7a qualquer, todas contavam com muta\u00e7\u00f5es raras que at\u00e9 as protegiam de males comuns a todos n\u00f3s. E mesmo assim, eram variados o suficiente para n\u00e3o serem considerados irm\u00e3os ou mesmo parentes pr\u00f3ximos uns dos outros. A resist\u00eancia dessas crian\u00e7as \u00e0s doen\u00e7as foi comprovada com testes extremamente impopulares realizados pelos chineses com sua parcela. Gripe, dengue, mal\u00e1ria, c\u00f3lera, AIDS&#8230; at\u00e9 mesmo o Ebola era incapaz de contamin\u00e1-las.<\/p>\n<p>Uma acalorada batalha judicial na Corte dos Direitos Humanos deu \u00e0s crian\u00e7as o direito \u00e0 liberdade antes de completarem seus primeiros cinco anos de vida. O argumento que eram humanas independentemente de sua origem venceu o de que eram importantes demais para a ci\u00eancia. O p\u00fablico teve uma influ\u00eancia enorme nisso, poucas causas geraram mais defensores apaixonados na hist\u00f3ria do que a liberta\u00e7\u00e3o das 4.988 crian\u00e7as mantidas isoladas do resto da humanidade.<\/p>\n<p>Ainda mais quando seu n\u00famero caiu para 4.987 ap\u00f3s a morte de J\u00edgu\u0101ng, a garota dos olhos azuis recuperada por \u00faltimo quatro anos e alguns meses mais cedo. Um exame desastrado do funcionamento de seu sistema respirat\u00f3rio lan\u00e7ou-a num choque irrevers\u00edvel. Nem mesmo o governo chin\u00eas foi capaz de controlar a revolta de seu povo. Uma semana depois, todas as crian\u00e7as foram postas \u00e0 ado\u00e7\u00e3o, boa parte delas acabou ficando com fam\u00edlias de militares e cientistas envolvidos em seus estudos, defendido o argumento que era melhor que ficassem com gente que j\u00e1 conheciam.<\/p>\n<p>As restantes foram disputadas literalmente a tapa por fam\u00edlias e casais de todo o mundo. As sess\u00f5es de entrevista de proponentes a novos pais do filhos das estrelas eram pontuadas por brigas entre homens e mulheres desesperados por ter uma dessas crian\u00e7as em casa. Felizmente, nenhum dos mais violentos foi escolhido. Todas acabaram em casas modelo, com pais abastados e extremamente dedicados.<\/p>\n<p>Com a puberdade alcan\u00e7ando-as mais ou menos no mesmo per\u00edodo de tempo ao redor do globo, come\u00e7ou-se a se perceber os efeitos do DNA padronizado: meninos e meninas muito altos e atl\u00e9ticos, capacidade de concentra\u00e7\u00e3o e aprendizado absolutamente fora do comum, tudo isso aliado a uma apar\u00eancia muito acima da m\u00e9dia. Logo adolescentes, esperava-se que gozassem de extremo sucesso com o sexo oposto.<\/p>\n<p>O que n\u00e3o aconteceu conforme o previsto. Eram sim desejados por pessoas de todas as idades, mas pareciam n\u00e3o ter impulso sexual. N\u00e3o correspondiam os interesses rom\u00e2nticos que despertavam. Claro, n\u00e3o \u00e9 como se nenhum deles tenha se envolvido com seres humanos &#8220;comuns&#8221;, mas al\u00e9m dos terr\u00edveis casos acontecidos contra suas vontades, eram todos casos passageiros e desinteressados.<\/p>\n<p>Mas havia uma exce\u00e7\u00e3o: entre eles, tudo funcionava normalmente. Logo percebeu-se que os filhos das estrelas s\u00f3 demonstravam interesse neles mesmos. E adolescentes ser\u00e3o adolescentes, seja qual for seu DNA. Os casais formados entre eles logo come\u00e7aram a dar frutos. Estima-se que 99% deles formaram casais entre si e tiveram filhos j\u00e1 antes dos 20 anos de idade.<\/p>\n<p>O resto da humanidade j\u00e1 come\u00e7ava a enxerg\u00e1-los com certa antipatia pela falta de intera\u00e7\u00e3o, mas como o grupo era pequeno e tiveram inf\u00e2ncia sofrida, acabaram protegidos como minoria. O que, como sabemos agora, n\u00e3o \u00e9 mais o caso. Para cada filho que n\u00f3s t\u00ednhamos, eles tinham dois. Os filhos das estrelas cresceram e se multiplicaram em larga escala.<\/p>\n<p>E, francamente, a maioria dos argumentos contra eles soavam como inveja mesmo. Eram mais saud\u00e1veis, mais fortes, mais inteligentes. E como vinham em todas as cores, nem mesmo o argumento da falta de varia\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica podia ser usado contra eles. Sortudo era o esp\u00e9cime imperfeito que conseguia fazer filhos com um. T\u00ednhamos uma rela\u00e7\u00e3o de amor e \u00f3dio com eles poucas gera\u00e7\u00f5es mais tarde.<\/p>\n<p>Os avan\u00e7os cient\u00edficos e sociais deles melhoraram a vida de todos n\u00f3s. E isso ningu\u00e9m pode negar: eles dividiram o que tinham conosco. Tratavam-nos com condescend\u00eancia, mas n\u00e3o podemos culp\u00e1-los: parecemos mesmo a vers\u00e3o de testes deles. O mundo n\u00e3o est\u00e1 pior com eles, muito pelo contr\u00e1rio&#8230; mas olhar na cara de algu\u00e9m que \u00e9 tudo o que voc\u00ea n\u00e3o pode ser acaba nos consumindo por dentro.<\/p>\n<p>Entendo isso. Acredito que todos entendemos o que motiva a famosa &#8220;depress\u00e3o das estrelas&#8221;. N\u00f3s queremos ser melhores. N\u00f3s queremos ser eles. Mas n\u00e3o somos. O isolamento e o suic\u00eddio n\u00e3o s\u00e3o respostas para nossos problemas. N\u00f3s merecemos existir, seja l\u00e1 quem estiver conosco neste mundo. N\u00f3s os acolhemos quando eles estavam mais fr\u00e1geis, eles n\u00e3o s\u00e3o filhos das estrelas, elas os abandonaram em nossa porta.<\/p>\n<p>Eles s\u00e3o nossos filhos. Eles cresceram. E agora eles cuidam de n\u00f3s. N\u00e3o \u00e9 assim que as coisas deveriam ser?<\/p>\n<h3>Para dizer que n\u00e3o entendeu o ponto do texto, para confabular sobre os planos da nave, ou mesmo para dizer que prefere os das estrelas aos da puta que vemos por a\u00ed: <a href=\"mailto:somir@desfavor.com\">somir@desfavor.com<\/a><\/h3>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O mundo parou para observar as milhares de espa\u00e7onaves que desciam rumo ao territ\u00f3rio brasileiro naquela fat\u00eddica tarde de Agosto. H\u00e1 semanas n\u00e3o se falava em nada al\u00e9m da gigantesca nave de origem desconhecida e formas alien\u00edgenas orbitando o nosso planeta. 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