{"id":7414,"date":"2014-10-19T14:00:57","date_gmt":"2014-10-19T16:00:57","guid":{"rendered":"http:\/\/www.desfavor.com\/blog\/?p=7414"},"modified":"2014-10-19T04:42:32","modified_gmt":"2014-10-19T06:42:32","slug":"um-mago-sem-destino-interludio-2a-temporada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/2014\/10\/um-mago-sem-destino-interludio-2a-temporada\/","title":{"rendered":"Um Mago Sem Destino &#8211; Interl\u00fadio 2\u00aa Temporada"},"content":{"rendered":"<h3><em><strong>Desfavor Convidado<\/strong> \u00e9 a coluna onde os impopulares ganham voz aqui na Rep\u00fablica Impopular. Se voc\u00ea quiser tamb\u00e9m ter seu texto publicado por aqui, basta enviar para <a href=\"mailto:desfavor@desfavor.com\">desfavor@desfavor.com<\/a>.<\/em><br \/>\n<em>O Somir se reserva ao direito de implicar com os textos e n\u00e3o public\u00e1-los. Sally promete interceder por voc\u00eas.<\/em><\/h3>\n<h2>Desfavor Convidado: Um Mago Sem Destino<\/h2>\n<h6>Interl\u00fadio 2\u00aa temporada: Mil maneiras de se morrer no oeste<\/h6>\n<p>Naquela primavera, Papaco teve que enterrar seu mentor, morto por causa de um resfriado que ele havia pego durante o \u00faltimo inverno. Aquelas haviam sido noites geladas dormidas ao relento, o que acabou minando a sa\u00fade do velho homem que um dia Papaco havia chamado de tio, apesar dele n\u00e3o ter sido seu verdadeiro tio.<!--more--> Papaco n\u00e3o conhecia sua fam\u00edlia biol\u00f3gica, j\u00e1 que seu progenitor havia morrido durante um confronto com os ind\u00edgenas e sua m\u00e3e era uma famosa prostituta vinda de Nu York que o havia abandonado ainda beb\u00ea na porta de uma fazenda. \u00d3rf\u00e3o, ele foi adotado por um casal de fazendeiros, que certo dia foram saqueados e mortos por um bando de malfeitores. Desde ent\u00e3o, Papaco andava de cidade em cidade \u00e0 procura de pistas e em busca de vingan\u00e7a. No meio do caminho encontrou o velho, que o ensinou a atirar, a desconfiar dos \u00edndios e dos mexicanos, a jogar p\u00f4quer e a gostar de ser sodomizado por outros homens.<\/p>\n<p>Pouco antes de morrer, o velho havia falado de um homem que vestia preto e que desconfiava ser do bando que havia matado os fazendeiros. Era esse homem que eles estavam perseguindo desde Denver at\u00e9 Kansas City, aonde tiveram que parar por causa da sa\u00fade fragilizada do velho. Um m\u00e9dico da cidade chegou a visit\u00e1-lo, mas o velho acabou morrendo mesmo assim e o enterro foi feito pelo pr\u00f3prio Papaco, com uma p\u00e1 alugada a 10 centavos por hora. Por isso tudo precisou ser feito t\u00e3o rapidamente, j\u00e1 que o dinheiro estava escasso. O velho tinha poucos pertences, dentre eles uma pistola, algumas moedas, um coldre com 8 balas e um chap\u00e9u pu\u00eddo. Papaco pegou tudo, pagou o dono da p\u00e1 e seguiu adiante, antes que perdesse o rastro do homem de preto.<\/p>\n<p>Esse rastro levava a Topeka, mais precisamente a um pequeno saloon abarrotado de pistoleiros andantes \u00e0 procura de emprego. Aqueles eram tempos dif\u00edceis e encontrar algum fazendeiro precisando de m\u00e3o-de-obra era uma das \u00fanicas maneiras de se ganhar dinheiro honestamente. Caminho que cada vez menos homens estavam dispostos a seguir, tornando o oeste um local perigoso e propenso a crimes. Papaco era um desses que ainda se mantinham honestos e apenas observava uma rodada de p\u00f4quer que ocorria cinco mesas \u00e0 sua frente. O homem de preto era um dos jogadores e j\u00e1 havia notado sua presen\u00e7a ali. Para demonstrar isso, havia lhe enviado tr\u00eas canecos de cerveja. Papaco observava o suor escorrer do terceiro copo, mais gelado que os outros dois que ainda estavam cheios, quando foi interrompido:<\/p>\n<p>_Ei chapa, n\u00e3o vai beber isso? &#8211; perguntou um caub\u00f3i de cal\u00e7as pretas e camisa xadrez que se debru\u00e7ava no balc\u00e3o. Papaco apenas acenou com a cabe\u00e7a e o caub\u00f3i se levantou. Pegou os tr\u00eas copos e voltou para o balc\u00e3o, acenando para o homem de preto, que apenas o olhou com desprezo.<\/p>\n<p>Papaco estava pensando em como n\u00e3o havia percebido o quanto as pessoas haviam se transformado em idiotas, quando uma confus\u00e3o na mesa de p\u00f4quer come\u00e7ou. Quatro disparos acabaram com a algazarra e no final das contas apenas o homem de preto continuava vivo entre os participantes do jogo. Em suas m\u00e3os estavam duas pistolas, ainda fumegantes:<\/p>\n<p>_Acabei de matar esses imbecis por tentarem me roubar e dentre eles estava o xerife, se algum de voc\u00eas n\u00e3o tiver obje\u00e7\u00f5es, \u00e9 do meu direito me tornar xerife agora.<\/p>\n<p>Todos no saloon estavam calados, menos o caub\u00f3i que havia pego as tr\u00eas cervejas, que batia calorosas palmas para o homem de preto. Quando Papaco se levantou, o barulho que fez foi estrondoso e fez com que todos se virassem na sua dire\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p>_Eu tenho uma obje\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Papaco olhou para o homem de preto, que retribui o olhar com a mesma intensidade e respondeu:<\/p>\n<p>_Finalmente voc\u00ea se manifestou, j\u00e1 estava achando que n\u00e3o passava de um cagalh\u00e3o.<\/p>\n<p>_Cagalh\u00e3o \u00e9 a puta da sua m\u00e3e.<\/p>\n<p>_N\u00e3o ofenda as putas e acabem logo com essa palha\u00e7ada. &#8211; ouviu Papaco, percebendo que meia d\u00fazia de prostitutas se amontoavam no segundo andar do saloon. <\/p>\n<p>Quem lhe dirigia a palavra era uma mulher de seios fartos e cabelo vermelho penteado em longas tran\u00e7as. Papaco voltou sua aten\u00e7\u00e3o apara o home de preto e os dois se encararam por longos minutos. Em quest\u00e3o de segundos Papaco estava com a arma engatilhada em uma das m\u00e3os, o que deixou o homem de preto impressionado:<\/p>\n<p>_Bem, agora sou um homem da lei e devemos fazer isso da maneira certa. Nos encontraremos ao p\u00f4r do sol de amanh\u00e3 para um duelo, portanto n\u00e3o suma feito um frangote.<\/p>\n<p>Depois disso o homem de preto guardou as armas, colocou o chap\u00e9u e saiu da saloon. Fez tudo isso sem tirar os olhos de Papaco, que ainda apontava sua arma para ele. Ap\u00f3s sair, um suspiro aliviado ecoou pelo lugar e cinco homens come\u00e7aram a retirar os mortos com dificuldade. Papaco guardou a arma e seguiu at\u00e9 o balc\u00e3o, onde foi recebido com uma caneca de cerveja gelada:<\/p>\n<p>_Essa \u00e9 por conta da casa &#8211; disse o atendente.<\/p>\n<p>Ele bebeu do caneco apenas porque estava com muita sede e no meio do copo sentiu uma m\u00e3o em seu ombro, ao se virar viu que era a prostituta ruiva, que se insinuava para ele dizendo:<\/p>\n<p>_Talvez essa seja sua \u00faltima noite vivo, ent\u00e3o venha comigo para o meu quarto.<\/p>\n<p>Papaco bebeu o resto da cerveja em um \u00fanico gole e acompanhou a mulher at\u00e9 o quarto dela, que era pequeno e tinha apenas uma cama de solteiro com um colch\u00e3o afundado no meio devido ao uso constante. Ap\u00f3s fechar a porta, a mulher apalpou a virilha de Papaco, que segurou seu pulso e disse:<\/p>\n<p>_Meu bem, da fruta que voc\u00ea gosta, chupo at\u00e9 o caro\u00e7o. Aceito dormir aqui com voc\u00ea, mas duvido que alguma coisa v\u00e1 acontecer entre n\u00f3s.<\/p>\n<p>Visivelmente decepcionada, ela tirou a m\u00e3o da virilha e se sentou na cama, que rangeu um pouco:<\/p>\n<p>_Puta que pariu, tanto homem querendo me comer e escolho justo um que prefere a pistola do que o coldre.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o ela come\u00e7ou a retirar o espartilho, o que fazia seus avantajados seios balan\u00e7arem. Para surpresa de Papaco, ele teve uma ere\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p>_Acho que a situa\u00e7\u00e3o acabou de mudar, venha c\u00e1.<\/p>\n<p>Os gemidos e gritos daquela noite serviram de fofoca por muito tempo nas conversas daquele saloon em Topeka.<\/p>\n<p>No dia seguinte Papaco acordou vestindo apenas a roupa de baixo e com a respira\u00e7\u00e3o quente de Michelle (essa era o nome dela) ao seu lado. Ele olhou para ela e finalmente entendeu seu interesse naquela mulher, a primeira de sua vida. Os raios de sol lambiam o cabelo vermelho, o que dava a impress\u00e3o de estar pegando fogo. Sua pele branca ficava levemente rosada com o calor e seus seios subiam e desciam lentamente conforme respirava. Ele tirou uma foto mental daquele momento, mesmo tendo a certeza que nunca mais se interessaria por outra mulher. Ele se levantou sem acord\u00e1-la e colocou sua roupa, depois disso desceu para o saloon.<\/p>\n<p>No andar de baixo parecia que o tempo havia parado, com as mesmas pessoas estando praticamente nos mesmos lugares da noite anterior. Apenas o caub\u00f3i das tr\u00eas cervejas ainda dormia, mas estava branco feito papel, o que fez com que Papaco se aproximasse dele e o cutucasse. Sem resist\u00eancia, o homem caiu no ch\u00e3o, com sangue saindo de sua boca. Papaco se agachou e verificou que o homem estava morto, provavelmente por causa do que havia bebido em seu lugar:<\/p>\n<p>_Maldito filha da puta! &#8211; exclamou Papaco, j\u00e1 que aquele veneno estava destinado a ele.<\/p>\n<p>Por cima da bancada, o atendente olhava a cena enquanto limpava uma caneca de cerveja. Sem se importar com os olhares que o seguiam, Papaco pegou sua arma, engatilhou, saiu do saloon e foi at\u00e9 a cadeia. Com um chute abriu a porta e deu um tiro certeiro no meio da testa da primeira pessoa que encontrou l\u00e1 dentro. Infelizmente n\u00e3o era o homem de preto, mas apenas um dos presos que havia sido amarrado na cadeira do xerife. Ao perceber o engano, Papaco sentiu algo zunindo em seu ouvido e uma forte ard\u00eancia no l\u00f3bulo da orelha, por onde uma bala havia passado e deixado um buraco perfeito:<\/p>\n<p>_Agora vai poder usar brincos, sua bichona. &#8211; gritou uma voz do lado de fora.<\/p>\n<p>Papaco rolou pelo ch\u00e3o e ficou agachado atr\u00e1s da janela. Ao tentar olhar para fora, outro tiro foi dado e acertou o fundo da cadeia, aonde ficava uma pequena cela. Apenas neste momento ele percebeu que havia algu\u00e9m dentro da cela, um menino que tentava se esconder entre as sombras. Rastejando at\u00e9 o local, Papaco tentou abrir a porta da cela, mas estava trancada:<\/p>\n<p>_As chaves est\u00e3o com ele e posso te dizer como venc\u00ea-lo se fizer um acordo comigo. &#8211; disse o garoto.<\/p>\n<p>_Fale logo ou te deixo mofando aqui. &#8211; respondeu o homem.<\/p>\n<p>O menino saiu das sombras e era mais branco que a maior parte das pessoas que Papaco j\u00e1 havia conhecido. Al\u00e9m disso, era careca e seus olhos eram violetas, que demonstravam uma certa sabedoria ancestral:<\/p>\n<p>_Aquele mo\u00e7o l\u00e1 fora \u00e9 meu primo e \u00e0s vezes sofre com intensas dores de cabe\u00e7a. Houve tempos que ele curava essas dores com asmina, mas hoje em dia ele n\u00e3o as consegue mais. &#8211; disse o garoto.<\/p>\n<p>_O que \u00e9 asmina? &#8211; perguntou Papaco.<\/p>\n<p>_N\u00e3o importa, o que importa \u00e9 que barulhos estridentes costumam deix\u00e1-lo com dor de cabe\u00e7a. Ao fim da rua h\u00e1 uma Igreja, mire no sino at\u00e9 que o barulho fa\u00e7a seu papel.<\/p>\n<p>Seguindo o conselho do menino, Papaco rastejou de volta para a janela e discretamente olhou para fora, procurando pela Igreja. Encontrou-a e viu um sino, mirando nele. Quando atirou, o barulho da badalada ecoou pela cidade e de repente o homem de preto saiu de dentro de um im\u00f3vel que ficava na frente da cadeia. Visivelmente trastornado, ele tentava mirar na dire\u00e7\u00e3o de Papaco, mas este foi mais r\u00e1pido e deu um tiro certeiro na barriga do homem de preto, que caiu no ch\u00e3o tentando estancar o sangue que jorrava. Papaco saiu da cadeia e foi na dire\u00e7\u00e3o do homem ca\u00eddo, que n\u00e3o tentou pegar as armas que agora estavam no ch\u00e3o:<\/p>\n<p>_Finalmente minha maldi\u00e7\u00e3o acabou e a sua come\u00e7ou. &#8211; disse o homem de preto enquanto Papaco pegava as armas. <\/p>\n<p>_Voc\u00ea \u00e9 mesmo um filho da m\u00e3e desgra\u00e7ado. &#8211; respondeu Papaco, limpando a poeira das armas em suas cal\u00e7as. Elas pesavam mais do que aparentavam e  possu\u00edam cabo feito de s\u00e2ndalo. Com a ponta dos dedos, Papaco sentiu que havia algo escrito na base dos rev\u00f3lveres. Ao vir\u00e1-los de ponta cabe\u00e7a, leu claramente &#8220;Roland Deschain, de Gilead&#8221;. _Voc\u00ea \u00e9 Roland? &#8211; perguntou.<\/p>\n<p>_Primeiro e \u00fanico. Agora preciso te passar uma miss\u00e3o que era minha, mas que n\u00e3o pude resolver por causa de meus erros no passado&#8230; &#8211; Roland fez uma careta de dor, apertando com ambas as m\u00e3os o ferimento na barriga. _Eu precisava encontrar um jovem mago chamado Raul, mas n\u00e3o fui capaz. Eu precisava alert\u00e1-lo que matar o inimigo n\u00e3o \u00e9 a solu\u00e7\u00e3o. Se ele fizer isso, ter\u00e1 o mesmo destino que eu&#8230; <\/p>\n<p>Roland agonizou novamente, fechou os olhos e parecia que ia desmaiar, mas antes que isso acontecesse, ele respirou profundamente e continuou a falar:<\/p>\n<p>_Voc\u00ea precisa encontrar Raul e avis\u00e1-lo, sen\u00e3o as linhas da realidade e da fic\u00e7\u00e3o ir\u00e3o se quebrar e nada ser\u00e1 como antes. Nosso mundo seguiu adiante, mas talvez ele ainda tenha tempo para consertar o dele&#8230; &#8211; ele parou mais uma vez para respirar e continuou. _Mas primeiro preciso ser enterrado ao lado de meus antepassados, sen\u00e3o nunca terei paz e assim n\u00e3o estarei morto de verdade. Me coloque em um caix\u00e3o e me leve para Gilead, caso n\u00e3o saiba qual caminho seguir, meu primo poder\u00e1 te guiar, j\u00e1 que habitantes de Gilead nunca se perdem. Tome, pegue as chaves e liberte-o, mas tome cuidado com esse pequeno dem\u00f4nio. &#8211; Roland entregou as chaves para Papaco e logo depois caiu no ch\u00e3o, com seu sangue fazendo uma po\u00e7a ao redor de seu corpo. <\/p>\n<p>Papaco se levantou com as chaves e as pendurou junto com as armas de Roland no cinto. Ap\u00f3s isso olhou para a cadeia e pensou na \u00faltima frase que o velho havia dito antes de morrer:<\/p>\n<p>_Existem mil maneiras de se morrer no oeste, rapaz. Um resfriado \u00e9 apenas uma delas, n\u00e3o \u00e9 a melhor, mas tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 a pior. Contanto que n\u00e3o seja por causa de uma grande besteira, todo tipo de morte \u00e9 v\u00e1lida.<\/p>\n<p>Com a ligeira impress\u00e3o de que estava fazendo uma grande besteira, Papaco come\u00e7ou a andar na dire\u00e7\u00e3o da cadeia. A cada passo as chaves balan\u00e7avam e batiam na arma. Eram o \u00fanico barulho em toda a cidade e pareciam anunciar a iminente epopeia que Papaco estava prestes a protagonizar.<\/p>\n<p>Continua&#8230;<\/p>\n<h4>Chester Chenson<\/h4>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Desfavor Convidado \u00e9 a coluna onde os impopulares ganham voz aqui na Rep\u00fablica Impopular. Se voc\u00ea quiser tamb\u00e9m ter seu texto publicado por aqui, basta enviar para <a href=\"mailto:desfavor@desfavor.com\">desfavor@desfavor.com<\/a>. O Somir se reserva ao direito de implicar com os textos e n\u00e3o public\u00e1-los. 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