{"id":7489,"date":"2014-11-07T06:00:30","date_gmt":"2014-11-07T08:00:30","guid":{"rendered":"http:\/\/www.desfavor.com\/blog\/?p=7489"},"modified":"2014-11-07T02:31:50","modified_gmt":"2014-11-07T04:31:50","slug":"mae-da-terra-parte-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/2014\/11\/mae-da-terra-parte-2\/","title":{"rendered":"M\u00e3e da Terra \u2013 Parte 2"},"content":{"rendered":"<p>A enorme clareira em meio \u00e0 Floresta dos Primeiros raramente tem tantos visitantes. Diante dos restos da Carruagem dos Deuses, uma pequena multid\u00e3o come\u00e7a a se formar ao redor de uma mulher durante as luzes finais do dia.<!--more--><\/p>\n<p>J\u00e1 \u00e9 noite. A M\u00e3e da Terra observa placidamente seus descendentes. Iluminados por uma grande fogueira, centenas de jovens maltrapilhos acotovelam-se pela melhor vis\u00e3o da mulher, n\u00e3o sem trocar ofensas e improp\u00e9rios no processo. O emaranhado de vozes agressivas continua sua escalada at\u00e9 ela limpar sua garganta.<\/p>\n<p>Sil\u00eancio. A mulher, vestindo uma escura pele animal adornada por in\u00fameras flores silvestres, ergue ambos os bra\u00e7os e sinaliza com as m\u00e3os para os presentes se acomodarem. Em quest\u00e3o de segundos, os at\u00e9 ent\u00e3o irrequietos jovens resignam-se em suas posi\u00e7\u00f5es, sentando-se praticamente ao mesmo tempo.<\/p>\n<p><b>M\u00c3E DA TERRA:<\/b> O dia da gl\u00f3ria se aproxima. Meus filhos, meus amados filhos&#8230; A M\u00e3e da Terra aben\u00e7oa todos voc\u00eas com a coragem dos ancestrais, com a sabedoria dos primeiros e com o sangue dos m\u00e1rtires. Aqueles que vieram antes de n\u00f3s nos deram a vida, e n\u00f3s daremos a vida por eles. Posso ver nos olhos de voc\u00eas que alguns est\u00e3o com medo. N\u00e3o tenham medo, crian\u00e7as. Pois o medo \u00e9 veneno.<\/p>\n<p>A mulher aproxima-se lentamente de um jovem franzino de cabelos escuros. Com alguma dificuldade, abaixa-se diante dele. Todos os olhos nela.<\/p>\n<p><b>M\u00c3E DA TERRA:<\/b> Qual o seu nome, meu querido?<\/p>\n<p><b>RAPAZ:<\/b> Circuito, m\u00e3e.<\/p>\n<p>Ela sorri.<\/p>\n<p><b>M\u00c3E DA TERRA:<\/b> Um dos artefatos dos deuses? Que belo nome. Quantos anos voc\u00ea tem?<\/p>\n<p><b>CIRCUITO:<\/b> Nove, m\u00e3e.<\/p>\n<p>O rapaz come\u00e7a a lacrimejar, visivelmente emocionado pela aten\u00e7\u00e3o recebida. A express\u00e3o dela muda rapidamente, agora r\u00edspida nas palavras e nos gestos.<\/p>\n<p><b>M\u00c3E DA TERRA:<\/b> N\u00e3o chore! Voc\u00ea j\u00e1 \u00e9 homem feito! Voc\u00ea \u00e9 um dos meus guerreiros!<\/p>\n<p>Circuito rapidamente enxuga as l\u00e1grimas, fechando a cara numa f\u00fatil demonstra\u00e7\u00e3o de for\u00e7a.<\/p>\n<p><b>M\u00c3E DA TERRA:<\/b> Voc\u00ea tem medo da batalha, meu filho?<\/p>\n<p><b>CIRCUITO:<\/b> N\u00e3o, m\u00e3e! Quando o dia de enfrentar a Traidora chegar, eu vou lutar at\u00e9 a morte! Pela M\u00e3e da Terra que nos deu a vida!<\/p>\n<p><b>TODOS:<\/b> Que nos deu a vida!<\/p>\n<p>Express\u00e3o satisfeita, ela se levanta, olhando para as v\u00e1rias faces debilmente iluminadas pela luz da fogueira. Centro indiscut\u00edvel das aten\u00e7\u00f5es, ela se aproxima do fogo.<\/p>\n<p><b>M\u00c3E DA TERRA:<\/b> Tragam a filha da Traidora!<\/p>\n<p>Do meio do grupo, saltam dois rapazes segurando uma jovem nua. Seus cabelos dourados a destacam da multid\u00e3o. Ela tem a boca amorda\u00e7ada por uma fita de couro, mas seus gritos come\u00e7am a escapar na medida que \u00e9 trazida mais para perto da M\u00e3e da Terra e da fogueira.<\/p>\n<p><b>M\u00c3E DA TERRA:<\/b> C\u00e9us, que voc\u00eas purifiquem a carne podre de nossos inimigos.<\/p>\n<p>Ela apenas acena com a cabe\u00e7a e os dois rapazes come\u00e7am a empurr\u00e1-la em dire\u00e7\u00e3o \u00e0s grandiosas chamas que iluminam a noite.<\/p>\n<p><b>VOZ:<\/b> CHEGA DE BARB\u00c1RIE!<\/p>\n<p>Todos os rostos se viram para os arredores da grande clareira. Um homem coberto por um pesado manto de pele ap\u00f3ia-se por sobre uma bengala improvisada. Seu rosto parcialmente coberto por um capuz \u00e9 revelado com um demorado movimento de m\u00e3os. A M\u00e3e da Terra exibe fei\u00e7\u00f5es furiosas.<\/p>\n<p><b>ESTRANHO:<\/b> Matar essa crian\u00e7a n\u00e3o vai traz\u00ea-lo de volta. Essa tola disputa tem que terminar!<\/p>\n<p><b>M\u00c3E DA TERRA:<\/b> N\u00e3o OUSE falar comigo assim na frente dos meus filhos, Eremita.<\/p>\n<p>O grupo de jovens come\u00e7a a cochichar entre si, escondendo suas bocas com as m\u00e3os, olhando alternadamente para as duas figuras.<\/p>\n<p><b>EREMITA:<\/b> O tempo te envenenou.<\/p>\n<p><b>M\u00c3E DA TERRA:<\/b> O tempo \u00e9 de quem constr\u00f3i algo com ele, n\u00e3o \u00e9 seu papel interferir. Voc\u00ea fez essa escolha em tempos imemoriais, e agora deve conviver com ela. Nos meus filhos mando eu! Garoto!<\/p>\n<p>A mulher aponta para o jovem Circuito. Ele se levanta imediatamente, lan\u00e7a em punhos.<\/p>\n<p><b>M\u00c3E DA TERRA:<\/b> Leve o covarde de volta para de onde quer que ele tenha vindo. E se ele n\u00e3o quiser sair da minha floresta, voc\u00ea tem a permiss\u00e3o para tirar-lhe a vida.<\/p>\n<p><b>CIRCUITO:<\/b> Sim, m\u00e3e.<\/p>\n<p><b>M\u00c3E DA TERRA:<\/b> \u00c9 sua escolha, Eremita. Ou nos deixa, ou se junta \u00e0 filha da Traidora.<\/p>\n<p>Outros garotos e garotas, nenhum aparentando ser muito mais velho que Circuito, levantam-se tamb\u00e9m. Lan\u00e7as em m\u00e3os. O Eremita baixa a cabe\u00e7a, frustrado. Circuito aproxima-se rapidamente, percorrendo a dist\u00e2ncia em meros segundos. Com a lan\u00e7a apontada, sinaliza para o homem dar meia-volta. O Eremita considera por alguns momentos, trocando olhares com a pobre garota sendo levada para a fogueira. Ele suspira antes de virar as costas, n\u00e3o sem antes ver o terror nos olhos da garota.<\/p>\n<p><b>CIRCUITO:<\/b> V\u00e1, velho! Siga seu caminho!<\/p>\n<p>Os dois adentram a floresta fechada, a lan\u00e7a de Circuito sempre muito pr\u00f3xima das costas do Eremita. S\u00e3o mais algumas dezenas de metros at\u00e9 os gritos desesperados de uma jovem ecoarem pela densa floresta. O Eremita desacelera o passo, vira o rosto para Circuito. Ele com o olhar carregado de pesar, sua escolta ainda focada na tarefa.<\/p>\n<p><b>EREMITA:<\/b> Voc\u00ea n\u00e3o sente nada por ela, jovem?<\/p>\n<p><b>CIRCUITO:<\/b> Por uma filha da Traidora? Apenas \u00f3dio, velho.<\/p>\n<p><b>EREMITA:<\/b> E o que ela fez para merecer seu \u00f3dio?<\/p>\n<p><b>CIRCUITO:<\/b> Ela existe. Isso n\u00e3o \u00e9 o suficiente?<\/p>\n<p><b>EREMITA:<\/b> Apesar de saber que \u00e9 uma pergunta ret\u00f3rica, devo responder&#8230; n\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 o suficiente.<\/p>\n<p><b>CIRCUITO:<\/b> O que \u00e9 re&#8230; ret\u00f3rica?<\/p>\n<p><b>EREMITA:<\/b> Uma pergunta que j\u00e1 nasce com resposta. Ela os ensina a matar, mas n\u00e3o a argumentar?<\/p>\n<p><b>CIRCUITO:<\/b> A M\u00e3e da Terra nos deu a vida!<\/p>\n<p><b>EREMITA:<\/b> Mas n\u00e3o os permite viv\u00ea-la.<\/p>\n<p><b>CIRCUITO:<\/b> Cale-se! E n\u00e3o se desvie do caminho, eu sei para onde temos que ir.<\/p>\n<p><b>EREMITA:<\/b> Voc\u00ea quer seguir o rio? Oras, o rio n\u00e3o existe para ser o caminho mais curto entre dois pontos. O rio toma seu tempo para fazer suas curvas, para talhar no ch\u00e3o seu leito. Eu n\u00e3o sigo o rio. Ele n\u00e3o sabe o que faz.<\/p>\n<p><b>CIRCUITO:<\/b> Chega dessa conversa estranha. Voc\u00ea vai sair desta floresta com ou sem seu corpo. O que voc\u00ea escolhe?<\/p>\n<p><b>EREMITA:<\/b> Eu escolho a vida. E voc\u00ea?<\/p>\n<p>O Eremita sorri. Circuito fica pensativo por alguns segundos.<\/p>\n<p><b>EREMITA:<\/b> Diga, garoto, qual a sua idade?<\/p>\n<p><b>CIRCUITO:<\/b> Nove.<\/p>\n<p><b>EREMITA:<\/b> Ah, quase dezoito em anos da Terra. Eu adoraria me lembrar dos meus. Voc\u00ea tem uma mulher, garoto?<\/p>\n<p><b>CIRCUITO:<\/b> N\u00e3o \u00e9 da sua conta!<\/p>\n<p><b>EREMITA:<\/b> Vou entender isso como um n\u00e3o. Sua&#8230; m\u00e3e&#8230; faz voc\u00eas se casarem aos dez, n\u00e3o \u00e9 mesmo? Faz tanto tempo que eu n\u00e3o convivo com voc\u00eas, Filhos da Terra.<\/p>\n<p>Circuito aponta a lan\u00e7a na dire\u00e7\u00e3o do Eremita, acelerando-o. Passa-se quase uma hora antes que o sil\u00eancio de ambos seja interrompido por um estrondo vindo dos c\u00e9us. Pelas frestas das copas das \u00e1rvores, eles observam alguma coisa atravessando o firmamento em alta velocidade, emitindo um brilho poderoso.<\/p>\n<p><b>CIRCUITO:<\/b> Martelo dos deuses!<\/p>\n<p><b>EREMITA:<\/b> Meteoros n\u00e3o mudam de trajet\u00f3ria em pleno ar&#8230; Eu.. me lembro&#8230; Eu me lembro!<\/p>\n<p>O Eremita acelera o passo sofregamente pela floresta, em busca de uma clareira nas copas. Sua bengala enrosca num arbusto e \u00e9 deixada para tr\u00e1s. Nem mesmo o protesto de Circuito \u00e9 capaz de fre\u00e1-lo. Pouco tempo depois o homem encontra uma eleva\u00e7\u00e3o entre as \u00e1rvores da qual consegue observar o horizonte. Circuito logo se aproxima, ainda com a lan\u00e7a em posi\u00e7\u00e3o amea\u00e7adora.<\/p>\n<p><b>CIRCUITO:<\/b> Eu posso te matar se voc\u00ea fu&#8230;<\/p>\n<p>Outro estrondo. O Eremita olha para o jovem e aponta para o horizonte. Na dire\u00e7\u00e3o, uma imensa nuvem de poeira formando um rastro.<\/p>\n<p><b>EREMITA:<\/b> Seja o que for, n\u00e3o explodiu! Pode estar inteiro! Voc\u00ea entende isso, menino? N\u00e3o explodiu!<\/p>\n<p><b>CIRCUITO:<\/b> Do que voc\u00ea est\u00e1 falando?<\/p>\n<p><b>EREMITA:<\/b> Eles nos encontraram! Eles vieram nos buscar!<\/p>\n<p><b>CIRCUITO:<\/b> Quem? Quem veio nos buscar?<\/p>\n<p><b>EREMITA:<\/b> Eles vieram da Terra. Agora eu lembro&#8230; foi assim que n\u00f3s chegamos!<\/p>\n<h6>Continua na parte 3.<\/h6>\n<h3>Para dizer que sacou no primeiro par\u00e1grafo, para dizer que ainda n\u00e3o sacou nada, ou mesmo para dizer que ainda bem que nem leu: <a href=\"mailto:somir@desfavor.com\">somir@desfavor.com<\/a><\/h3>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A enorme clareira em meio \u00e0 Floresta dos Primeiros raramente tem tantos visitantes. Diante dos restos da Carruagem dos Deuses, uma pequena multid\u00e3o come\u00e7a a se formar ao redor de uma mulher durante as luzes finais do dia.<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":7490,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[39],"tags":[],"class_list":["post-7489","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-des-contos"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7489","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7489"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7489\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media\/7490"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7489"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7489"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7489"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}