{"id":7507,"date":"2014-11-12T06:00:47","date_gmt":"2014-11-12T08:00:47","guid":{"rendered":"http:\/\/www.desfavor.com\/blog\/?p=7507"},"modified":"2014-11-12T01:30:45","modified_gmt":"2014-11-12T03:30:45","slug":"mentes-feias","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/2014\/11\/mentes-feias\/","title":{"rendered":"Mentes feias."},"content":{"rendered":"<p>Beleza \u00e9 subjetiva. Mas subjetiva at\u00e9 certo ponto: a tend\u00eancia \u00e9 que acabemos concordando muito sobre o que configura um corpo bonito ou feio, mesmo considerando in\u00fameras possibilidades de tipo de cria\u00e7\u00e3o e cultura. Conquistar a beleza f\u00edsica n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil, mas com certeza \u00e9 um objetivo f\u00e1cil de visualizar. Beleza f\u00edsica \u00e9 algo &#8216;palp\u00e1vel&#8217;, mas e a beleza intelectual?<!--more--><\/p>\n<p>Porque ela existe. Algumas pessoas s\u00e3o &#8216;lindas&#8217; quando abrem a boca. Pode ser o resultado de uma prosa rebuscada, de uma ligeireza de pensamento, de um senso de humor compat\u00edvel&#8230; eventualmente lidamos com algu\u00e9m que nos encanta pelo o que pensa e diz, mostrando beleza onde n\u00e3o se a espera. E eu nem estou falando necessariamente sobre atra\u00e7\u00e3o sexual, \u00e9 aquele tipo de beleza que transcende nossas necessidades fisiol\u00f3gicas.<\/p>\n<p>Se a subjetividade da beleza f\u00edsica encontra seus limites nos desejos instintivos, a intelectual \u00e9 um conceito muito mais fluido. Encontra brechas em nossas primeiras impress\u00f5es e permite-se moldar ao sabor das experi\u00eancias de vida. Se a beleza do corpo troca de m\u00e3os de gera\u00e7\u00e3o em gera\u00e7\u00e3o como uma tocha cerimonial, a da mente nos acompanha fielmente se houver reciprocidade.<\/p>\n<p>E n\u00e3o h\u00e1 compara\u00e7\u00f5es para sua perenidade. A beleza da mente n\u00e3o definha e n\u00e3o vira s\u00f3 mem\u00f3ria. Ela continua existindo e encantando se a chama for forte o suficiente. Essa exist\u00eancia continuada tamb\u00e9m garante que nossos padr\u00f5es continuem a se refinar com o passar das eras. Se h\u00e1 um limite de qu\u00e3o belo pode ser um rosto, n\u00e3o se pode dizer o mesmo de um poema.<\/p>\n<p>Ou mesmo de um discurso desbocado! A &#8216;beleza dessa beleza&#8217; est\u00e1 nas incont\u00e1veis possibilidades de apreci\u00e1-la. O prolixo e o sucinto evocam sensa\u00e7\u00f5es diferentes, mas ambas podem ser de fascina\u00e7\u00e3o. A piada azeda e o verso adocicado como express\u00f5es igualmente v\u00e1lidas de beleza intelectual. E cada um que se encante com o que achar melhor.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 de hoje que digo que nesse mundo falta mais vaidade intelectual. Mais pessoas preocupadas em mostrar um &#8216;rostinho bonito&#8217; com suas ideias e opini\u00f5es. Evidente que n\u00e3o estou glorificando a soberba de querer ser basti\u00e3o da verdade ou a ir\u00f4nica ignor\u00e2ncia de se acreditar inatamente superior, mas sim de um m\u00ednimo de senso do rid\u00edculo: cidad\u00e3o tem vergonha de ser visto com roupas rasgadas, mas n\u00e3o de exibir uma vis\u00e3o de mundo ainda mais furada.<\/p>\n<p>O que n\u00e3o falta por a\u00ed s\u00e3o mentes desleixadas, mais feias do que o necess\u00e1rio pela falta de cuidados b\u00e1sicos. Se existem cremes que cuidam da pele, existem livros que cuidam da mente. Se existe o exerc\u00edcio que tonificam os m\u00fasculos, existe o ouvir que tonifica as opini\u00f5es. N\u00e3o \u00e9 necessariamente um trabalho hercul\u00e9ico cuidar da beleza do pensar, ent\u00e3o por que tanta gente se deixa descuidar? (\u00e9 rima pobre, mas \u00e9 limpinha!)<\/p>\n<p>Na minha nada humilde opini\u00e3o, o problema \u00e9 a dificuldade de reconhecer os padr\u00f5es de beleza, n\u00e3o a falta de vontade de conquist\u00e1-la. Somos excelentes para criar e divulgar padr\u00f5es de beleza f\u00edsica, desde uma cor na moda at\u00e9 a quantidade de gordura aceit\u00e1vel num corpo. As pessoas conseguem perceber em linhas gerais o que se considera atraente e correm atr\u00e1s de m\u00e9todos para ficar daquele jeito. A pobre coitada diante de um prato de salada pelo menos tem a no\u00e7\u00e3o de que aquele sacrif\u00edcio pode render-lhe um corpo que v\u00e1rios achar\u00e3o bonito.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil ter o corpo bonito, mas \u00e9 f\u00e1cil saber quando o corpo ficou bonito. Quando falamos de beleza intelectual, o esfor\u00e7o parece infrut\u00edfero. Quanto mais alimentamos a mente, mais fome ela tem. Sem contar que uma das realiza\u00e7\u00f5es mais frequentes de quem coloca a mente &#8216;em forma&#8217; \u00e9 de que a ignor\u00e2ncia n\u00e3o tem fim. Quando mais bonita sua mente, mais feia ela se acha.<\/p>\n<p>E pelo seu car\u00e1ter imensamente subjetivo, ser bonito dessa forma n\u00e3o se traduz para parecer bonito para outras pessoas. O g\u00eanio realmente parece maluco para o ign\u00f3bil. Conseguimos reconhecer beleza da mente, mas desde que ela esteja numa faixa relativamente pr\u00f3xima da nossa capacidade de compreens\u00e3o. Depois disso, o encantamento vira estranhamento.<\/p>\n<p>\u00c9 como se f\u00f4ssemos m\u00edopes para a beleza intelectual alheia. Enxergamos de perto, mas de longe \u00e9 apenas um borr\u00e3o. E cada um de n\u00f3s observa a realidade de um ponto diferente. Muito dif\u00edcil definir padr\u00f5es para se seguir sem denominadores comuns. Simetria, sa\u00fade e caracter\u00edsticas sexuais secund\u00e1rias pronunciadas costumam simplificar o processo na beleza f\u00edsica, mas n\u00e3o h\u00e1 terreno comum o suficiente para a mente.<\/p>\n<p>O que n\u00e3o nos impede de tentar. Afinal, a busca da beleza faz parte de nossas vidas. Fabricamos padr\u00f5es pr\u00f3ximos dos nossos para fazer valer a m\u00e1xima de que para parecer inteligente para algu\u00e9m, basta concordar. O problema \u00f3bvio dessa t\u00e1tica \u00e9 que ela fomenta a estagna\u00e7\u00e3o e o conformismo. Na falta de um padr\u00e3o de beleza, que sejamos n\u00f3s ele!<\/p>\n<p>E aqui, mais uma vantagem para a beleza f\u00edsica: n\u00e3o importa o que o politicamente correto pregue, n\u00e3o basta se declarar bonito para ser visto assim pelos outros. Existem regras nas quais se \u00e9 julgado. Claro que acabamos trocando tapinhas nas costas e concordando em teoria que cada um \u00e9 t\u00e3o bonito quanto acredita ser, mas na pr\u00e1tica \u00e9 um misto de vaidade, esfor\u00e7o e gen\u00e9tica que decidem quem consideramos atraente.<\/p>\n<p>No campo da intelectual, declarar-se belo tem mesmo o poder de influenciar a vis\u00e3o alheia. Na falta de par\u00e2metros, \u00e9 mais f\u00e1cil aceitar a alega\u00e7\u00e3o do outro. Principalmente se o grau de intelectualidade da pessoa for parecido com o seu. N\u00e3o \u00e9 mau neg\u00f3cio receber os confetes por tabela! E guarde as pedras: n\u00e3o somos imunes a isso. Temos boas inten\u00e7\u00f5es aqui na RID, mas n\u00e3o deixa de ser mais uma itera\u00e7\u00e3o dessa t\u00e1tica. O importante \u00e9 n\u00e3o se contentar com pouco.<\/p>\n<p>Mas o que mais preocupa nessa indecis\u00e3o sobre o que \u00e9 belo s\u00e3o as formas desastradas cada vez mais comuns de &#8216;maquiar a baranga&#8217;. Achar maneiras pregui\u00e7osas de mascarar a pr\u00f3pria ignor\u00e2ncia n\u00e3o \u00e9 algo novo, mas definitivamente \u00e9 popular como nunca. Vimos muito disso durante a falsa dicotomia eleitoral&#8230; Muita gente se esfor\u00e7ando como nunca para demonstrar alguma beleza intelectual, e falhando terrivelmente no processo.<\/p>\n<p>Numa analogia fanfarrona, \u00e9 como se a menina roubasse a maquiagem da m\u00e3e e acabasse se pintando feito uma palha\u00e7a. Ela sabe que \u00e9 isso que os adultos fazem para ficarem mais bonitos, mas ainda n\u00e3o tem a experi\u00eancia necess\u00e1ria para dosar e delinear. Falta refinamento. O brasileiro m\u00e9dio sabia que opini\u00f5es fortes e posicionamento pol\u00edtico s\u00e3o caracter\u00edsticas encontradas em pessoas inteligentes; mas ainda n\u00e3o sabe o que fazer com elas, acabando com a cara toda borrada no processo.<\/p>\n<p>Assim como a crian\u00e7a ansiosa que ainda n\u00e3o aprendeu o que fazer com a maquiagem, a pessoa quer queimar etapas e vestir a opini\u00e3o da moda como se beleza intelectual funcionasse assim. Atalho simplista que \u00e9 ador\u00e1vel numa mente em forma\u00e7\u00e3o, mas \u00e9 uma derrota quando a pessoa j\u00e1 \u00e9 adulta. A beleza f\u00edsica at\u00e9 aceita atalhos, afinal, existem padr\u00f5es mais claros; a beleza intelectual depende quase que exclusivamente de esfor\u00e7o. Afinal, cada beleza \u00e9 seu pr\u00f3prio padr\u00e3o nesse cen\u00e1rio.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o tomem meu texto como uma an\u00e1lise pessimista. Em cada crise h\u00e1 uma oportunidade: num mundo cada vez mais integrado, estamos vendo uma verdadeira explos\u00e3o da vaidade intelectual. Opini\u00f5es cada vez mais acentuadas e grupos cada vez maiores de pessoas definindo os pr\u00f3prios padr\u00f5es de beleza intelectual. Com certeza parece feio agora, mas creio eu que estamos olhando para aquela menina toda borrada com a maquiagem da m\u00e3e.<\/p>\n<p>A crise \u00e9 resultado de uma sociedade cada vez mais afeita a fingir que a menina n\u00e3o est\u00e1 rid\u00edcula. Com tanta gente se expondo ao mesmo tempo, presume-se que o medo de ser ridicularizado tenha nos unido numa grande, hip\u00f3crita e raivosa irmandade da nega\u00e7\u00e3o. \u00c9 um movimento global que temos a mania de enxergar atrav\u00e9s de uma lente de aumento. Tem mais a\u00ed do que o erro, tem o aprendizado.<\/p>\n<p>A menina vai crescer. Se conseguirmos que ela ou\u00e7a a verdade de tempos em tempos, boas chances dela entender que existem formas melhores de se pintar. Agora, se deixarmos o medo de ouvir o que n\u00e3o queremos pautar nossas intera\u00e7\u00f5es, corremos o risco dessa menina continuar borrando toda a cara at\u00e9 depois de adulta.<\/p>\n<p>Percebam que n\u00e3o estou sendo otimista tamb\u00e9m. Nada garante que vamos gostar da escolha que fizermos como sociedade, mas h\u00e1 um alento na exist\u00eancia de uma escolha. As pessoas parecem ter um orgulho infundado de suas opini\u00f5es nos dias atuais, mas&#8230; n\u00e3o \u00e9 bom que tenham orgulho de algo que pensam, s\u00f3 para variar? Essa encruzilhada pode nos guiar para um mundo onde a hipocrisia vai continuar suplantando a beleza do pensamento cr\u00edtico, mas esse n\u00e3o \u00e9 o \u00fanico caminho.<\/p>\n<p>Se essa fagulha da vaidade intelectual vai acender uma chama de evolu\u00e7\u00e3o ao redor do mundo eu n\u00e3o sei, mas que \u00e9 uma bela ideia, isso \u00e9.<\/p>\n<h3>Para dizer que beleza intelectual \u00e9 papo de gente feia, para dizer que o final foi anticlim\u00e1tico, ou mesmo para dizer que esperan\u00e7a \u00e9 o caralho: <a href=\"mailto:somir@desfavor.com\">somir@desfavor.com<\/a><\/h3>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Beleza \u00e9 subjetiva. Mas subjetiva at\u00e9 certo ponto: a tend\u00eancia \u00e9 que acabemos concordando muito sobre o que configura um corpo bonito ou feio, mesmo considerando in\u00fameras possibilidades de tipo de cria\u00e7\u00e3o e cultura. 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