{"id":7622,"date":"2014-12-12T06:00:23","date_gmt":"2014-12-12T08:00:23","guid":{"rendered":"http:\/\/www.desfavor.com\/blog\/?p=7622"},"modified":"2014-12-12T02:32:34","modified_gmt":"2014-12-12T04:32:34","slug":"superbacterias","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/2014\/12\/superbacterias\/","title":{"rendered":"Superbact\u00e9rias."},"content":{"rendered":"<p>Acabo de ler uma not\u00edcia sobre um estudo brit\u00e2nico (sempre eles) que diz que at\u00e9 2050 as superbact\u00e9rias (bact\u00e9rias resistentes aos medicamentos) v\u00e3o matar mais que o c\u00e2ncer. Se vai realmente acontecer eu n\u00e3o sei, mas que o risco \u00e9 grande, \u00e9. A natureza \u00e9 uma guerra e as bact\u00e9rias n\u00e3o param de acumular vit\u00f3rias.<!--more--><\/p>\n<p>Como conhecimento b\u00e1sico sobre bact\u00e9rias \u00e9 coisa que voc\u00ea deveria ter aprendido na escola, vou me furtar de explicar o b\u00e1sico e me concentrar apenas em fanfarronices opinativas.<\/p>\n<h2>VIVAS!<\/h2>\n<p>Nenhum ser vivo neste planeta teve mais sucesso que as bact\u00e9rias. Existem registros delas h\u00e1 mais de 3,8 bilh\u00f5es de anos atr\u00e1s e seus n\u00fameros impressionam: h\u00e1 mais bact\u00e9rias no seu sistema digestivo do que c\u00e9lulas no seu corpo. E considerando que elas habitam praticamente todo o planeta e ser vivo contido nele, faltariam zeros para descrever o n\u00famero desses seres no nosso mundo.<\/p>\n<p>Existem bact\u00e9rias flutuando a 32 quil\u00f4metros de altura na atmosfera, existem bact\u00e9rias vivendo no fundo das mais fundas fendas no oceano. Algumas delas n\u00e3o seguem essa conven\u00e7\u00e3o social de usar oxig\u00eanio para produzir energia. Ambientes in\u00f3spitos para qualquer outro ser vivo s\u00e3o moradia de bact\u00e9rias. Elas se adaptam a praticamente tudo o que a natureza coloca em seu caminho.<\/p>\n<p>Acredito que j\u00e1 seja senso comum, mas n\u00e3o custa refor\u00e7ar que bact\u00e9rias n\u00e3o s\u00e3o necessariamente daninhas ao mundo. Na verdade, elas s\u00e3o necess\u00e1rias para a exist\u00eancia da vida na Terra. \u00c9 que como qualquer ser vivo, sua prioridade \u00e9 se manter viva. Elas se adaptam ao nosso organismo para digerir nossa comida, mas se precisar, devoram nosso corpo.<\/p>\n<p>Como elas s\u00e3o a maioria e n\u00e3o podem ser controladas como um todo, ficam livres para se diversificar e preencher os mais diversos nichos evolutivos. Se pararmos para pensar, foi at\u00e9 bacana da parte delas permitir a exist\u00eancia de seres mais complexos. Caso voc\u00ea ainda n\u00e3o tenha percebido, somos um dos mais avan\u00e7ados experimentos delas. Do ponto de vista da natureza, o corpo humano \u00e9 um excelente local de moradia para bact\u00e9rias.<\/p>\n<p>Elas vieram primeiro. Os seres mais bem adaptados a elas evolu\u00edram. Se um animal \u00e9 \u00fatil para as bact\u00e9rias, ele sobrevive. Se n\u00e3o, acaba extinto. Sei que fere um pouco nosso orgulho de animal racional, mas quem manda nessa porra toda s\u00e3o elas. Mais sobre isso depois.<\/p>\n<h2>GUERRA!<\/h2>\n<p>Nenhuma de nossas guerras \u00e9 t\u00e3o sanguin\u00e1ria quanto a guerra de Evolu\u00e7\u00e3o. Nela, n\u00e3o h\u00e1 sequer um segundo de tr\u00e9gua. Bilh\u00f5es de esp\u00e9cies j\u00e1 pereceram nesse mundo por n\u00e3o entender que adaptabilidade \u00e9 a \u00fanica arma eficiente nessa briga toda. N\u00e3o s\u00e3o m\u00fasculos, garras ou chifres que te fazem sobreviver \u00e0 barragem de desafios jogados pelo ambiente, \u00e9 a capacidade de se moldar a eles.<\/p>\n<p>As bact\u00e9rias s\u00e3o as melhores lutadoras nessa batalha. Em poucas gera\u00e7\u00f5es elas s\u00e3o capazes de anular uma amea\u00e7a e fazer dela uma nova parte de sua vida. Est\u00e3o fazendo isso h\u00e1 bilh\u00f5es de anos e h\u00e1 pouco o que elas ainda n\u00e3o tenham visto nesse caminho todo. S\u00f3 um ser parece ser capaz de enfrent\u00e1-las: o ser humano. E mesmo assim, demorou mais de cem mil anos nesse planeta para COME\u00c7AR a fazer c\u00f3cegas nelas.<\/p>\n<p>O ser humano foi capaz de pegar para si a valiosa caracter\u00edstica da adapta\u00e7\u00e3o: temos capacidade de reagir r\u00e1pido \u00e0s intemp\u00e9ries da vida, e em poucas gera\u00e7\u00f5es tamb\u00e9m conseguimos nos moldar ao redor do que antes era uma amea\u00e7a \u00e0 nossa exist\u00eancia. As bact\u00e9rias eram uma senten\u00e7a de morte h\u00e1 pouco menos de um s\u00e9culo atr\u00e1s, hoje s\u00e3o um problema mais ou menos contorn\u00e1vel.<\/p>\n<p>Mas em nossa defesa, foi complicado descobrir que elas estavam l\u00e1. H\u00e1 vantagens no reino dos microorganismos: podem se esconder \u00e0 plena vista. Mas assim que as achamos, n\u00e3o demorou muito para darmos nosso tiro nessa grande guerra pela sobreviv\u00eancia. Os antibi\u00f3ticos s\u00e3o parte de uma revolu\u00e7\u00e3o na sa\u00fade humana que estendeu muito nossa expectativa de vida.<\/p>\n<p>Foi um tiro t\u00e3o certeiro que cometemos o erro de achar que ele bastaria. O advers\u00e1rio n\u00e3o \u00e9 o l\u00edder no placar da vida \u00e0 toa: em algumas gera\u00e7\u00f5es elas j\u00e1 estavam dando a volta na gente. A cada arma que descobrimos, elas aprendem rapidamente como escapar.<\/p>\n<h2>SUPERBACT\u00c9RIAS?<\/h2>\n<p>\u00c9 um nome midi\u00e1tico, mas n\u00e3o representa bem a realidade. S\u00e3o as mesmas bact\u00e9rias de sempre, fazendo o que fazem melhor: sobreviver. Muito cuidado com a impress\u00e3o que essas s\u00e3o bact\u00e9rias especiais e \u00fanicas, todas as outras tem mais ou menos o mesmo potencial de se adaptar \u00e0s nossas armas e sobreviverem aos nossos ataques.<\/p>\n<p>Toda bact\u00e9ria \u00e9 uma superbact\u00e9ria, dado o devido tempo e est\u00edmulo. Isso \u00e9 uma guerra, mas n\u00e3o somos exatamente advers\u00e1rios. Estamos todos brigando contra a morte e nesse meio tempo, disputando o melhor lugar sob o Sol. O que acontece \u00e9 que incentivamos demais algumas delas com o uso exagerado de antibi\u00f3ticos. Que elas iam se adaptar era CERTEZA.<\/p>\n<p>E \u00e9 isso que muita gente n\u00e3o entende: brigar com as bact\u00e9rias \u00e9 na melhor das hip\u00f3teses adiar a derrota. Elas V\u00c3O vencer. Elas mandam nesse mundo, n\u00f3s somos col\u00f4nias delas. \u00c9 de extrema import\u00e2ncia que todo mundo aprenda a ordem das coisas! Conseguimos uma arma poderosa, mas com efetividade limitada pelo tempo. Precisamos fazer ela durar at\u00e9 termos outra ideia brilhante para conviver com elas.<\/p>\n<p>E percebam que eu disse conviver.<\/p>\n<h2>SE N\u00c3O PODE VENC\u00ca-LOS&#8230;<\/h2>\n<p>O objetivo de eliminar as bact\u00e9rias nocivas para o ser humano \u00e9 na melhor das hip\u00f3teses fantasioso. A for\u00e7a dos n\u00fameros n\u00e3o pode ser ignorada. A quantidade assombrosa delas garante que alguma vai encontrar por pura sorte a muta\u00e7\u00e3o para se manter viva e a sele\u00e7\u00e3o natural cuida do resto. As superbact\u00e9rias existem por causa disso.<\/p>\n<p>Como somos um de seus melhores alunos, n\u00f3s os humanos temos que entender que o segredo n\u00e3o \u00e9 continuar tentando mat\u00e1-las, e sim achar alguma forma delas conviverem conosco. Adapta\u00e7\u00e3o. A era dos antibi\u00f3ticos foi essencial para termos esse estouro populacional, mas ela funciona at\u00e9 certo ponto. Assim que nossos rem\u00e9dios conseguirem matar a maioria delas, elas mudam de novo e nos colocam na estaca zero.<\/p>\n<p>Os bi\u00f3logos que me corrijam, mas quem est\u00e1 perdendo que precisa se adaptar. O ser humano precisa ser corrigido para lidar melhor com elas, e n\u00e3o o contr\u00e1rio. Ou os nossos corpos aprendem a tornar as perigosas em inofensivas, ou deixamos de ter corpos. N\u00e3o existe vit\u00f3ria nessa guerra se continuarmos focando nossos esfor\u00e7os em ataques.<\/p>\n<p>Ou ainda podemos seguir o caminho de infiltrar nos ranques delas soldados menos agressivos, mas mais propensos a se perpetuar. Seria deixar a sele\u00e7\u00e3o natural seguir seu curso. Elas querem continuar vivas, n\u00f3s podemos ajudar e ainda tirar vantagem com isso.<\/p>\n<p>Se as bact\u00e9rias &#8211; super ou n\u00e3o &#8211; puderem continuar seu plano de ficarem vivas ao mesmo tempo que n\u00f3s, criamos uma tr\u00e9gua que pode ser justamente o necess\u00e1rio para n\u00e3o sofrermos a consequ\u00eancia de enfrentar a batalha contra a natureza de peito aberto. Nossas garras contam muito pouco numa guerra de adapta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<h2>PARE DE ATIRAR!<\/h2>\n<p>Muita gente fala isso, mas \u00e9 importante demais repetir: usar antibi\u00f3tico sem necessidade real \u00e9 mais do que um desperd\u00edcio de recursos, \u00e9 como estar na linha de frente da luta pela sobreviv\u00eancia da humanidade torrando toda a muni\u00e7\u00e3o atirando em alvos inexistentes. Nossos recursos para lidar com as bact\u00e9rias s\u00e3o limitados e tem que durar por muito tempo ainda.<\/p>\n<p>Estamos enfrentando os seres mais poderosos que se tem conhecimento. Eu j\u00e1 disse quem manda nessa porra toda? Se continuarmos com a ilus\u00e3o de que essa batalha se ganha na porrada ao inv\u00e9s de no jeito, as superbact\u00e9rias v\u00e3o sim nos mostrar com quantos paus se faz uma evolu\u00e7\u00e3o. Ainda precisamos inventar as nossas pr\u00f3ximas armas, ent\u00e3o n\u00e3o custa fazer um esfor\u00e7o para n\u00e3o desperdi\u00e7ar as nossas.<\/p>\n<p>Para quem est\u00e1 aqui h\u00e1 bilh\u00f5es de anos, os seres humanos s\u00e3o s\u00f3 um contratempo. Elas v\u00e3o ganhar. Elas V\u00c3O ganhar. S\u00f3 nos resta saber se vamos ganhar junto ou n\u00e3o.<\/p>\n<h3>Para dizer que eu n\u00e3o expliquei muito, para dizer que voc\u00ea \u00e9 mais forte que uma bact\u00e9ria, ou mesmo para dizer que a humanidade nunca fez nada por voc\u00ea: <a href=\"mailto:somir@desfavor.com\">somir@desfavor.com<\/a><\/h3>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Acabo de ler uma not\u00edcia sobre um estudo brit\u00e2nico (sempre eles) que diz que at\u00e9 2050 as superbact\u00e9rias (bact\u00e9rias resistentes aos medicamentos) v\u00e3o matar mais que o c\u00e2ncer. Se vai realmente acontecer eu n\u00e3o sei, mas que o risco \u00e9 grande, \u00e9. 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