{"id":7819,"date":"2015-01-13T06:00:06","date_gmt":"2015-01-13T08:00:06","guid":{"rendered":"http:\/\/www.desfavor.com\/blog\/?p=7819"},"modified":"2025-12-15T14:13:50","modified_gmt":"2025-12-15T17:13:50","slug":"220v","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/2015\/01\/220v\/","title":{"rendered":"220v"},"content":{"rendered":"<p>Quero come\u00e7ar dizendo que eu n\u00e3o gostava de Paulo Gustavo. Na contram\u00e3o de tudo e todos, eu achava seu humor for\u00e7ado, zorratotalizado, uma caricatura de si mesmo. Em tempos remotos, quando ele ainda n\u00e3o era t\u00e3o conhecido, assisti \u201cMinha M\u00e3e \u00e9 uma Pe\u00e7a\u201d e s\u00f3 n\u00e3o levantei e fui embora no meio por quest\u00e3o de educa\u00e7\u00e3o. Talvez pela identifica\u00e7\u00e3o cultural zero de uma estrangeira vendo as mazelas de uma m\u00e3e da Zona Norte pormenorizadas, n\u00e3o sei. Detestei.<!--more--><\/p>\n<p>O mundo deu voltas e eu acabei parando na sua nova pe\u00e7a, \u201c220 volts\u201d. Confesso, s\u00f3 fui porque ganhei o ingresso. E fui cheia de preconceito. Fui descrente, preparada para mais uma dessas pe\u00e7as onde todo mundo gargalha e eu fico quieta e constrangida me perguntando qual \u00e9 o meu problema por n\u00e3o achar gra\u00e7a naquilo que \u00e9 t\u00e3o engra\u00e7ado para o resto do mundo. Mas, como dizem, s\u00f3 muda de ideia quem as tem. E eu mudei.<\/p>\n<p>Grata surpresa. N\u00e3o apenas ri, me diverti, como ainda me surpreendi com a superprodu\u00e7\u00e3o que \u00e9 \u201c220 volts\u201d. Um show com tudo na medida certa: desde o tempo de dura\u00e7\u00e3o at\u00e9 o figurino. Tudo redondinho. Paulo Gustavo sem as amarras da TV mostrou um humor que faz tempo eu n\u00e3o presenciava. Vale a pena, mas n\u00e3o leve sua av\u00f3. \u00c9 um humor adulto e moderno demais para certos grupos.<\/p>\n<p>O espet\u00e1culo \u00e9 dividido em sketches, onde ele d\u00e1 vida a seis personagens femininos diferentes com um humor ferino, que pode ser considerado ofensivo por muitos. Em diversos momentos ele ri dele mesmo, um m\u00e9rito nos dias de hoje. O que mais me encantou, entretanto, foi a forma como ele conjugou humor com superprodu\u00e7\u00e3o, uma ideia que, at\u00e9 ent\u00e3o, nem passava pela minha cabe\u00e7a. O humor nesse estilo, politicamente incorreto, geralmente vem na forma daquele standup cl\u00e1ssico, com um comediante, um microfone e um banquinho. Pois com Paulo Gustavo vem com cara de musical da Broadway e a mistura deu certo!<\/p>\n<p>Na contram\u00e3o da TV, onde mulher sarada semi-nua abunda (com trocadilho, por favor), a pe\u00e7a conta com dan\u00e7arinos que fazem Khal Drogo parecer raqu\u00edtico. E s\u00e3o dan\u00e7arinos MESMO. O que pode ser um deleite para alguns, pode ser um constrangimento para outros, se o seu namorado for ciumento, v\u00e1 preparada(o) para pegar leve nos olhares. Eles dan\u00e7am em diversos momentos da pe\u00e7a, sempre com pouca roupa.<\/p>\n<p>Vamos \u00e0s personagens. A pe\u00e7a come\u00e7a com Paulo Gustavo vestido de Beyonce. Isso mesmo. Parado, em sil\u00eancio, j\u00e1 desperta risos. Ele encarna uma cantora deslumbrada que destrata tudo e todos. Bacana, mas achei o menos divertido. \u00c9 uma esp\u00e9cie de aquecimento para o que est\u00e1 por vir, os bailarinos se destacam mais do que a personagem.<\/p>\n<p>Depois vem a mulher feia, que fala sobre beleza e feiura em um grau de sinceridade engra\u00e7ado de t\u00e3o cruel que \u00e9. Eu ri, eu ri de verdade. Um humor \u201cdedo na ferida\u201d que n\u00e3o encontra lugar na televis\u00e3o. Pequenos detalhes que talvez escapassem a um hetero s\u00e3o dissecados de forma \u00e1cida. Uma percep\u00e7\u00e3o cruel mas verdadeira dos padr\u00f5es est\u00e9ticos dita com todas as letras, sem rodeios.<\/p>\n<p>A terceira personagem \u00e9 tamb\u00e9m a mais conhecida: a Senhora dos Absurdos. Uma socialite preconceituosa que reclama de negros, gays, pobre e outros grupos de forma escancarada. Fosse qualquer outro humorista dizendo as mesmas coisas em um standup, j\u00e1 estaria respondendo a um processo, mas Paulo Gustavo tem o dom de fazer as piores barbaridades sa\u00edrem com uma leveza \u00fanica da sua boca. Faz tempo que n\u00e3o rio tanto, n\u00e3o por concordar, mas pelo espanto que esses absurdos causam. Superou minhas expectativas.<\/p>\n<p>A personagem seguinte \u00e9 uma apresentadora de televis\u00e3o nos moldes da Ana Maria Braga: falsa, estelionat\u00e1ria e mercen\u00e1ria. Uma cr\u00edtica a esse tipo de programa e a quem os assiste. Provavelmente mais da metade da plateia, mas ningu\u00e9m pareceu se importar (ou sequer perceber). Verdades impl\u00edcitas ditas de forma expl\u00edcita arrancam risos da plateia e, em algumas mentes privilegiadas, deixam mais do que um rastro de humor: induzem \u00e0 reflex\u00e3o.<\/p>\n<p>Depois veio a maior surpresa: uma personagem baladeira que flerta com todo mundo mesmo tendo namorado. Essa postura \u00e9 mostrada como rid\u00edcula, apontando o rid\u00edculo da periguetagem. Na contram\u00e3o desse feminismo mal entendido, onde mulher para ser moderna e independente tem que ser prom\u00edscua, um humor f\u00e1cil e f\u00edsico exp\u00f5e indiretamente uma postura vergonhosa adotada pela mulherada hoje em dia.<\/p>\n<p>Sem medo de ser tachado de machista ou qualquer outro \u201cista\u201d, o quadro ridiculariza sem d\u00f3 essa coisa feia que \u00e9 a promiscuidade usada como escada. Novamente, se metade das frases sa\u00edssem da boca de humoristas comuns, teria gritaria, acusa\u00e7\u00e3o e processo. Mas Paulo Gustavo tem o dom de fazer o humor prevalecer. J\u00e1 ganhou status e simpatia que lhe conferem carta branca para dizer o que quiser.<\/p>\n<p>A \u00faltima personagem \u00e9 uma favelada que almeja a fama atrav\u00e9s de um concurso para se tornar madrinha de bateria de escola de samba. Novamente, flertando com o desastre, pois o grau de ofendibilidade \u00e9 enorme. E, novamente, o humor fala mais alto. Ele faz piada com pobre sem amarras e n\u00e3o ofende. Admiro gente que n\u00e3o ofende. Eu ofendo mesmo quando n\u00e3o quero ofender.<\/p>\n<p>Talvez pela vertente f\u00edsica do seu humor o povo consiga entender que de fato \u00e9 humor, \u00e9 piada, n\u00e3o deve ser levado a s\u00e9rio. A capacidade de abstra\u00e7\u00e3o das pessoas costuma ser similar \u00e0 de um peixinho dourado. Ao ver um homem com um mai\u00f4 cheio de cristais, peruca e batom fica claro, fisicamente, que se trata de humor e nada ali deve ser levado a s\u00e9rio.<\/p>\n<p>J\u00e1 quando um comediante de standup aparece de cara limpa fazendo piada, a tend\u00eancia \u00e9 levar a s\u00e9rio e confundir o que foi dito com suas opini\u00f5es pessoais. Talvez o carisma e o jeito naturalmente engra\u00e7ado, que eu chamo de jeito Luiz Fernando Guimar\u00e3es de ser, autorizem Paulo Gustavo a falar o que n\u00f3s, reles mortais, n\u00e3o podemos.<\/p>\n<p>Todos os quadros s\u00e3o de uma agilidade impressionante. Tamb\u00e9m s\u00e3o permeados por in\u00fameras refer\u00eancias, algo que muito me atrai. Piadas internas, eastereggs e uma pitada de improviso d\u00e3o o toque final. Um detalhe que me surpreendeu: como ele dan\u00e7a. Quando dan\u00e7a funk, no quadro da periguete, dan\u00e7a como uma mulher da comunidade. Quando dan\u00e7a hip-hop no da cantora, parece a Beyonce. Quando samba, parece uma passista. Ele dan\u00e7a tudo e dan\u00e7a bem. O filho da puta deve ser t\u00edmido, pois nas ocasi\u00f5es que o vi em festas ficava de mansinho no dois pra c\u00e1, dois pra l\u00e1, balan\u00e7ando a perninha de leve. Paulo Gustavo quebra tudo, parece invertebrado.<\/p>\n<p>Muito se criticou a \u201cfalta de dramaturgia\u201d da pe\u00e7a. Ora, francamente, o que n\u00e3o pode faltar \u00e9 humor, e isso tem de sobra. O espet\u00e1culo n\u00e3o exige dramaturgia, pois pende mais para um standup do que para o modelo cl\u00e1ssico de teatro. Na verdade, esse \u00e9 o maior m\u00e9rito do espet\u00e1culo: uma jun\u00e7\u00e3o de v\u00e1rios formatos, criando um formato novo.<\/p>\n<p>O novo nem sempre tem que ser algo que nunca foi feito, o novo pode ser a jun\u00e7\u00e3o de duas coisas que existem separadas criando uma terceira coisa mais bacana e mais completa. E foi isso que ele fez. Ent\u00e3o, vai se catar quem disse que essa pe\u00e7a \u00e9 mais do mesmo, faltou sensibilidade e intelig\u00eancia para ver que n\u00e3o \u00e9.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m se critica que Paulo Gustavo sempre se veste de mulher, que s\u00f3 sabe fazer personagens femininos. Curioso, n\u00e3o me lembro de ningu\u00e9m criticando os Beatles por s\u00f3 tocar rock. Algu\u00e9m pediria que os Beatles tocassem sertanejo? N\u00e3o, n\u00e9? Porque quando algu\u00e9m \u00e9 muito bom no que faz, QUEREMOS ver mais do que a pessoa faz, porque por mais que seja o mesmo, \u00e9 bom pra caralho. Deixa o Paulo Gustavo se vestir de mulher, porque ele \u00e9 bom no que faz. Sabe o que \u00e9 isso? \u00c9 vontade de ser do contra somada \u00e0 falta de argumento para falar mal!<\/p>\n<p>Marcus Majella tamb\u00e9m me surpreendeu. Ele abre o espet\u00e1culo e participa em v\u00e1rios momentos com desenvoltura e dom\u00ednio de p\u00fablico. Faz aquele humor sem esfor\u00e7o, sabe? Natural. A impress\u00e3o que passa (correta ou n\u00e3o) \u00e9 que ele \u00e9 assim no dia a dia tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>J\u00e1 fui ao teatro ver musicais muito bons, com uma produ\u00e7\u00e3o impec\u00e1vel. J\u00e1 fui ao teatro ver com\u00e9dias engra\u00e7adas que me fizeram rir muito. Mas ambos ao mesmo tempo, s\u00f3 Paulo Gustavo. Me conquistou.<\/p>\n<p>Em tempo: ganhei o convite por outras raz\u00f5es que n\u00e3o o Desfavor, n\u00e3o trabalhamos com permuta aqui porque n\u00e3o prostitu\u00edmos nosso intelecto. Estou falando bem de cora\u00e7\u00e3o, e n\u00e3o porque fui paga para isso.<\/p>\n<h3>Para reagir mal ao me ver mudando de opini\u00e3o e encarar isso como uma trai\u00e7\u00e3o, para reclamar do pre\u00e7o do ingresso ou ainda para pedir mais detalhes sobre os dan\u00e7arinos: <a href=\"mailto:sally@desfavor.com\">sally@desfavor.com<\/a><\/h3>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quero come\u00e7ar dizendo que eu n\u00e3o gostava de Paulo Gustavo. 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