{"id":7822,"date":"2015-01-14T06:00:14","date_gmt":"2015-01-14T08:00:14","guid":{"rendered":"http:\/\/www.desfavor.com\/blog\/?p=7822"},"modified":"2015-01-14T01:45:44","modified_gmt":"2015-01-14T03:45:44","slug":"liberdade-de-ofensa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/2015\/01\/liberdade-de-ofensa\/","title":{"rendered":"Liberdade de ofensa."},"content":{"rendered":"<p>N\u00e3o, eu ainda n\u00e3o enjoei do assunto. Logo ap\u00f3s a explos\u00e3o do &#8220;Eu sou Charlie&#8221;, vimos a ascens\u00e3o do &#8220;Eu n\u00e3o sou Charlie&#8221;: gente que n\u00e3o pactua com os assassinatos, mas tamb\u00e9m n\u00e3o aceita os excessos do seman\u00e1rio franc\u00eas em suas caricaturas. Dizem que o esc\u00e1rnio ofensivo alimenta a viol\u00eancia, colocando limites na liberdade de express\u00e3o. Oras, se \u00e9 para evitar casos como os recentes na Fran\u00e7a, n\u00e3o vale a pena se controlar um pouco? Bom, se \u00e9 para controlar viol\u00eancia, na verdade n\u00e3o.<!--more--><\/p>\n<p>\u00c0 primeira vista, parece \u00f3bvio que n\u00e3o se deve provocar malucos que acreditam que a morte lhes trar\u00e1 virgens no c\u00e9u. N\u00e3o nego que soe racional. N\u00e3o provoque, n\u00e3o sofra as consequ\u00eancias! Como as pessoas n\u00e3o percebem isso? Oras, elas percebem. Sabemos desde crian\u00e7as que a viol\u00eancia (f\u00edsica ou emocional) \u00e9 um resultado poss\u00edvel do confrontamento. Ningu\u00e9m esquece isso.<\/p>\n<p>Mas pense bem: voc\u00ea sempre evita esse risco? Voc\u00ea segue sua vida engolindo todos os sapos que passam pelo seu caminho? Voc\u00ea n\u00e3o se arrisca a deixar outras pessoas chateadas ou mesmo raivosas com grande frequ\u00eancia? Se n\u00e3o, parab\u00e9ns por ser t\u00e3o dedicado ao pacifismo ou lamento por voc\u00ea ser t\u00e3o bunda-mole. Mas na m\u00e9dia, molhamos os p\u00e9s nas \u00e1guas turbulentas das disputas humanas in\u00fameras vezes durante a vida. \u00c0s vezes, at\u00e9 submergimos!<\/p>\n<p>Disputas. Pelos mais diferentes motivos, encontramos conflitos de interesses ao lidar com outras pessoas. Os seres humanos brigam entre si desde&#8230; bom, desde que dois se encontraram. Harmonia plena \u00e9 uma utopia. Os conflitos humanos s\u00e3o uma constante, mas o m\u00e9todo de resolu\u00e7\u00e3o deles&#8230; evoluiu.<\/p>\n<p>N\u00e3o precisamos nem voltar muito tempo no passado para encontrar uma sociedade onde a viol\u00eancia resolvia basicamente tudo. Invadiram sua terra? Mate! Ofenderam sua fam\u00edlia? Mate! Rezaram para um deus diferente? MATE! Durante mil\u00eanios nosso principal m\u00e9todo de resolver problemas complicados foi baseado no derramamento de sangue.<\/p>\n<p>E nem \u00e9 que esse povo do passado era t\u00e3o ruim assim: a vida humana era mais fr\u00e1gil em geral. Havia imensa escassez de recursos, pouco tempo livre e qualquer machucado podia ser fatal. Num sistema desses, morrer era uma consequ\u00eancia muito mais natural de entrar em conflito com outra pessoa. Justiceiros e linchadores o faziam sem muita supervis\u00e3o.<\/p>\n<p>Pudera, n\u00e3o havia muito para onde ou quem correr: se voc\u00ea n\u00e3o tomasse a justi\u00e7a em suas m\u00e3os, ela dificilmente te encontraria. A viol\u00eancia era uma consequ\u00eancia natural do meio. Sem as facilidades do mundo moderno, era realmente dif\u00edcil oferecer a outra face. Mas todo esse clima sanguinolento tirava as coisas de propor\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Matar era uma resposta v\u00e1lida em leg\u00edtima defesa ou at\u00e9 mesmo para um xingamento qualquer. Quando a coletividade entende que a viol\u00eancia f\u00edsica \u00e9 uma resposta aceit\u00e1vel para uma ofensa, temos o brutal mundo de outrora. Mas, como eu disse antes, evolu\u00edmos. N\u00e3o que a vontade de confrontar outras pessoas tenha diminu\u00eddo, longe disso, mas a forma como esse confronto acontece melhorou consideravelmente.<\/p>\n<p>E inevit\u00e1vel que alguns de n\u00f3s tenhamos opini\u00f5es mais fortes sobre assuntos muito passionais para outras pessoas. O confronto sempre vai estar entre n\u00f3s&#8230; mas a forma de resolv\u00ea-los&#8230; essa acaba se conformando ao mundo no qual vivemos. N\u00e3o \u00e9 mais aceit\u00e1vel usar viol\u00eancia f\u00edsica, tirando alguns casos muito especiais. O Estado tomou o monop\u00f3lio dela, e nascemos assinando esse contrato.<\/p>\n<p>Mas ainda ardemos com o fogo da controv\u00e9rsia! Ainda queremos enfrentar nossos colegas de esp\u00e9cie e esfregar na cara deles como eles est\u00e3o errados! Queremos nossos direitos, nossas vantagens, nosso respeito. Queremos construir o mundo \u00e0 nossa imagem. Ent\u00e3o, como extravasar essa coisa t\u00e3o humana?<\/p>\n<p>Se voc\u00ea n\u00e3o pode mais ter a viol\u00eancia, que seja a ofensa! A ofensa \u00e9 v\u00edtima de uma campanha negativa que passa longe de merecer. Foi a ofensa que nos salvou do mundo b\u00e1rbaro onde viv\u00edamos. Ela \u00e9 a v\u00e1lvula de escape do cidad\u00e3o civilizado. N\u00e3o existe harmonia entre n\u00f3s, precisamos externar isso. Quando fizemos a transi\u00e7\u00e3o da espada para a caneta, pudemos construir um mundo muito melhor e mais seguro de se viver. Claro que a ofensa n\u00e3o \u00e9 uma inven\u00e7\u00e3o moderna, mas a forma como a aceitamos na nossa sociedade \u00e9. <\/p>\n<p>A ofensa n\u00e3o \u00e9 a predecessora da viol\u00eancia, \u00e9 sua alternativa mais vi\u00e1vel. Da viol\u00eancia n\u00e3o se tem volta, como pudemos ver no caso do Charlie Hebdo. Mas da ofensa? Da ofensa se cura. A ofensa vira piada, causo, barulho branco. Um corpo forte n\u00e3o te protege da viol\u00eancia, uma mente forte te protege da ofensa.<\/p>\n<p>A liberdade de express\u00e3o \u00e9 o meio pelo qual transformamos viol\u00eancia em ofensa, e qui\u00e7\u00e1 um dia ofensa em di\u00e1logo. Aceitar a viol\u00eancia de volta nesse caminho \u00e9 retroceder, \u00e9 ignorar tudo o que conquistamos at\u00e9 aqui. H\u00e1 sim um processo em desenvolvimento, e ele \u00e9 parte do que \u00e9 o ser humano. Abrir m\u00e3o de partes da liberdade de express\u00e3o para n\u00e3o provocar os que ainda n\u00e3o evolu\u00edram o suficiente para aceitar a ofensa \u00e9 n\u00e3o dar espa\u00e7o para que fa\u00e7amos essa substitui\u00e7\u00e3o. Como deixaremos a espada obsoleta se a caneta n\u00e3o puder escrever?<\/p>\n<p>Os cartunistas brutalmente assassinados n\u00e3o estavam pedindo pela viol\u00eancia, eles estavam lutando contra ela. Estavam transformando seu rep\u00fadio pela viol\u00eancia em comunica\u00e7\u00e3o, e mesmo que ofendessem por vezes, ainda sim estavam honrando um acordo maior que todos nossos medos e inseguran\u00e7as. Podiam estar matando ou roubando, mas estavam ofendendo.<\/p>\n<p>Liberdade de express\u00e3o \u00e9 sim liberdade de ofensa. Precisamos da ofensa para combater a viol\u00eancia, precisamos dessa v\u00e1lvula de escape aberta para que o \u00f3dio n\u00e3o acumule em atentados covardes. Os terroristas s\u00e3o justamente aqueles que n\u00e3o tem voz. Eles vivem num mundo (ou num estado de esp\u00edrito) an\u00e1logo \u00e0quele mundo selvagem onde s\u00f3 a viol\u00eancia resolvia.<\/p>\n<p>Quem disse que n\u00e3o existe o direito de se horrorizar com os absurdos cometidos em nome da f\u00e9 mu\u00e7ulmana e combat\u00ea-los com unhas e dentes? Muita gente nesse mundo n\u00e3o suporta o que est\u00e1 acontecendo com a radicaliza\u00e7\u00e3o religiosa e se mexe para n\u00e3o deixar isso acontecer livremente. Somos humanos, entramos em conflito. Ao inv\u00e9s de resolver isso com viol\u00eancia, que resolvamos com ofensa.<\/p>\n<p>Qualquer concess\u00e3o a eles ou mesmo aos ofendidos profissionais que pululam pelo nosso mundo cada vez mais politicamente correto \u00e9 uma concess\u00e3o ao sil\u00eancio violento de um mundo sem ofensa. Calar a ofensa \u00e9 calar a solu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>E se n\u00e3o concordar comigo, v\u00e1 \u00e0 merda, seu desperd\u00edcio de oxig\u00eanio!<\/p>\n<h3>Para dizer que isso \u00e9 t\u00e3o semana passada, para dizer que agora vai ofender sabendo que est\u00e1 fazendo bem para o mundo, ou mesmo para me mandar para a puta que pariu: <a href=\"mailto:somir@desfavor.com\">somir@desfavor.com<\/a><\/h3>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o, eu ainda n\u00e3o enjoei do assunto. Logo ap\u00f3s a explos\u00e3o do &#8220;Eu sou Charlie&#8221;, vimos a ascens\u00e3o do &#8220;Eu n\u00e3o sou Charlie&#8221;: gente que n\u00e3o pactua com os assassinatos, mas tamb\u00e9m n\u00e3o aceita os excessos do seman\u00e1rio franc\u00eas em suas caricaturas. 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