{"id":7961,"date":"2015-02-18T06:00:57","date_gmt":"2015-02-18T08:00:57","guid":{"rendered":"http:\/\/www.desfavor.com\/blog\/?p=7961"},"modified":"2015-02-18T02:22:21","modified_gmt":"2015-02-18T04:22:21","slug":"a-re-revolta-da-vacina","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/2015\/02\/a-re-revolta-da-vacina\/","title":{"rendered":"A re-revolta da vacina."},"content":{"rendered":"<p>Nos EUA, ganha for\u00e7a um movimento contr\u00e1rio \u00e0 aplica\u00e7\u00e3o de vacinas, principalmente em crian\u00e7as. Segundo os detratores da pr\u00e1tica, vacinas n\u00e3o protegem de verdade e at\u00e9 causam efeitos colaterais como o autismo. Hoje eu quero falar um pouco sobre vacinas, mas principalmente como o ser humano tem uma habilidade incr\u00edvel de interpretar mal estat\u00edsticas e estudos.<!--more--><\/p>\n<p>Provavelmente todo mundo aqui j\u00e1 sabe, mas s\u00f3 para garantir: vacinas s\u00e3o vers\u00f5es enfraquecidas ou inativas das doen\u00e7as injetadas no corpo de uma pessoa para que ela desenvolva os anticorpos espec\u00edficos e possa combater o problema por conta pr\u00f3pria se for infectada pela doen\u00e7a de verdade. As primeiras foram desenvolvidas por Edward Jenner no final do s\u00e9culo XVIII, combatendo a var\u00edola. Pasteur desenvolveu vacinas contra novas doen\u00e7as mais de um s\u00e9culo depois, e a partir da\u00ed a vacina\u00e7\u00e3o passou a ser parte integrante da luta humana contra as doen\u00e7as contagiosas.<\/p>\n<p>Apesar da consider\u00e1vel evolu\u00e7\u00e3o no quadro da sa\u00fade p\u00fablica humana desde seu advento, a vacina\u00e7\u00e3o passa longe de ser perfeita. Diversos fatores influenciam sua efic\u00e1cia, e como cada organismo reage de uma forma, as vacinas podem funcionar mal em algumas pessoas, n\u00e3o funcionar de vez ou mesmo causar danos para o paciente. A hist\u00f3ria nos conta que na m\u00e9dia funciona muito bem, tanto que quase erradicamos (em pa\u00edses com melhores condi\u00e7\u00f5es) a maioria das doen\u00e7as que aterrorizavam nossos antepassados.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o \u00e9 como o caminho tivesse sido tranquilo at\u00e9 aqui: em outros tempos a informa\u00e7\u00e3o n\u00e3o navegava t\u00e3o bem assim entre as pessoas. E como vamos ver na sequ\u00eancia do texto, vacina\u00e7\u00e3o \u00e9 uma coisa que depende muito de &#8216;cobertura&#8217;. Adianta pouco vacinar s\u00f3 alguns membros de uma popula\u00e7\u00e3o. Como os governos de antigamente precisavam vacinar muita gente e n\u00e3o havia capacidade (ou vontade) de fazer campanhas de conscientiza\u00e7\u00e3o, a hist\u00f3ria est\u00e1 cheia de rea\u00e7\u00f5es negativas \u00e0 imuniza\u00e7\u00e3o em larga escala.<\/p>\n<p>Temos uma famosa aqui no Brasil, inclusive. O objetivo era muito nobre: erradicar a var\u00edola. Para quem n\u00e3o sabe muito bem o que \u00e9 var\u00edola (e agrade\u00e7am \u00e0s vacinas por isso), \u00e9 uma doen\u00e7a que matou centenas de milh\u00f5es de pessoas s\u00f3 no s\u00e9culo XX. O \u00faltimo caso (natural) registrado foi em 1977, na Som\u00e1lia. Est\u00e1 oficialmente erradicada do mundo. De qualquer forma&#8230; Oswaldo Cruz convenceu o congresso a tornar a vacina\u00e7\u00e3o contra a var\u00edola obrigat\u00f3ria. E as autoridades brasileiras fizeram isso com todo o cuidado e sensibilidade que lhes s\u00e3o peculiares.<\/p>\n<p>Invadiram casas, espancaram pessoas, fizeram o diabo. E como as condi\u00e7\u00f5es de vida do brasileiro m\u00e9dio em 1903 eram terrivelmente piores do que s\u00e3o atualmente (e bota terrivelmente piores nisso), o povo estava sem a menor paci\u00eancia para levar agulhadas. Muita informa\u00e7\u00e3o errada e muita trucul\u00eancia depois, o povo se ergueu contra a vacina\u00e7\u00e3o, e por consequ\u00eancia, o Estado. N\u00e3o foi s\u00f3 pela vacina, mas ficou conhecida como a Revolta da Vacina. Depois de uma pequena guerra civil nas ruas do Rio de Janeiro, finalmente conseguiram vacinar o povo e a var\u00edola foi erradicada da cidade.<\/p>\n<p>Isso n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 para relembrar voc\u00ea daquela aula de hist\u00f3ria que voc\u00ea passou dormindo na carteira, \u00e9 tamb\u00e9m para situar como vacinas tem sim sua dose de controv\u00e9rsia. Quase tudo que depende de maci\u00e7a participa\u00e7\u00e3o popular tem. Sempre vai ter quem n\u00e3o concorde em ser imunizado, seja l\u00e1 por qual motivo tiver. Entramos aqui no complicado equil\u00edbrio entre bem comum e liberdade pessoal&#8230; algu\u00e9m vai precisar engolir sapo se precisarmos que todos obede\u00e7am as mesmas regras.<\/p>\n<p>Eu normalmente pendo mais para as liberdades pessoais nas minhas opini\u00f5es, mas no caso das vacinas h\u00e1 um complicador: a imunidade do grupo. No caso das vacinas, n\u00e3o \u00e9 exatamente o indiv\u00edduo imunizado que faz as coisas funcionarem, \u00e9 o conjunto deles. E \u00e9 aqui que eu trago \u00e0 tona v\u00e1rios dos argumentos dos que s\u00e3o contra a vacina\u00e7\u00e3o obrigat\u00f3ria para explicar melhor esse conceito de imunidade do grupo.<\/p>\n<p>Nem vou ficar discutindo fontes nesse ponto, vamos tratar esses argumentos como bem fundamentados (at\u00e9 porque s\u00e3o) no tange seus dados e estudos. O problema de muita gente ao analisar estat\u00edsticas \u00e9 querer tirar conclus\u00f5es precipitadas em cima delas.<\/p>\n<p>Os modernos detratores da vacina\u00e7\u00e3o citam v\u00e1rios casos de epidemias onde: a vacina\u00e7\u00e3o n\u00e3o impediu o surgimento da doen\u00e7a na popula\u00e7\u00e3o; onde a doen\u00e7a se espalhou mais entre os vacinados da popula\u00e7\u00e3o, e por fim, onde os que n\u00e3o foram vacinados n\u00e3o foram afetados. S\u00e3o an\u00e1lises s\u00e9rias de casos reais e os dados n\u00e3o parecem ser fabricados. Como vacinas podem funcionar de verdade se casos assim acontecem at\u00e9 com alguma frequ\u00eancia?<\/p>\n<p>Vamos ent\u00e3o \u00e0 imunidade do grupo. Existe um certa porcentagem de uma popula\u00e7\u00e3o que precisa estar vacinada contra uma doen\u00e7a contagiosa para que a popula\u00e7\u00e3o inteira se beneficie dela. Doen\u00e7as diferentes exigem propor\u00e7\u00f5es diferentes, at\u00e9 porque elas podem ser espalhar por meios diferentes e ser mais ou menos propensas a se manifestar nos infectados.<\/p>\n<p>Quando uma popula\u00e7\u00e3o atinge a imunidade do grupo, temos tantas pessoas com os anticorpos adequados para uma doen\u00e7a que ela simplesmente n\u00e3o consegue ir muito longe. Uma pessoa vacinada n\u00e3o est\u00e1 100% imune, at\u00e9 porque 100% \u00e9 o tipo da coisa que s\u00f3 existe no campo das ideias. At\u00e9 quem toma a vacina corre o risco de pegar a doen\u00e7a, mas \u00e9 claro, uma chance bem menor. E por mais contagiosa que seja, n\u00e3o \u00e9 100% de chance de infectar ou se manifestar numa pessoa n\u00e3o vacinada.<\/p>\n<p>Do ponto de vista da doen\u00e7a, a chance de se espalhar para uma pessoa vacinada \u00e9 de 10% (por exemplo), e para uma que n\u00e3o foi, de 90% (novamente, por exemplo). A chance dela de acertar entre os 90% seguidas vezes \u00e9 imensamente maior do que de acertar os 10% seguidas vezes. A doen\u00e7a precisa de uma sorte absurda para se espalhar entre uma popula\u00e7\u00e3o bem vacinada, o que n\u00e3o significa que um indiv\u00edduo qualquer dessa popula\u00e7\u00e3o n\u00e3o tenha no m\u00ednimo os 10% de chance de pegar a doen\u00e7a.<\/p>\n<p>Por isso: vacina\u00e7\u00e3o n\u00e3o impede mesmo que uma popula\u00e7\u00e3o sofra com uma doen\u00e7a (a n\u00e3o ser que a imunidade do grupo seja t\u00e3o grande como \u00e9 no caso da var\u00edola &#8211; quase todo mundo nesse mundo tomou a vacina), mas isso n\u00e3o quer dizer que n\u00e3o estejamos MUITO mais seguros com a aplica\u00e7\u00e3o em larga escala da vacina. A doen\u00e7a pode aparecer, mas n\u00e3o consegue ir longe, e \u00e9 justamente isso que se quer conseguir antes de uma poss\u00edvel erradica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O outro engano dos anti-vacinas: \u00e9 claro que em muitos casos os vacinados v\u00e3o morrer em maior n\u00famero do que os n\u00e3o-vacinados. Estamos em pleno s\u00e9culo XXI, os vacinados s\u00e3o a maioria. \u00c9 a mesma coisa que metralhar um grupo de presos e chegar a conclus\u00e3o que ser corintiano aumenta suas chances de morrer metralhado. Evidente que a maioria vai continuar sendo maioria num caso desses. Vacinas n\u00e3o tornam ningu\u00e9m 100% imune \u00e0 uma doen\u00e7a.<\/p>\n<p>E para completar: evidente que muitos n\u00e3o vacinados n\u00e3o v\u00e3o pegar a doen\u00e7a. Imunidade do grupo protege inclusive quem n\u00e3o tomou vacina. Se voc\u00ea est\u00e1 cercado de pessoas que s\u00e3o vacinadas, a doen\u00e7a tem uma chance muito menor de chegar at\u00e9 voc\u00ea.<\/p>\n<p>Aposto que deve ter muito babaca aqui no Brasil que tamb\u00e9m se reserva ao direito de n\u00e3o acreditar em vacinas, mas provavelmente ainda n\u00e3o \u00e9 um problema de sa\u00fade p\u00fablica como est\u00e1 amea\u00e7ando ser nos EUA. As pessoas tem seu sagrado direito de n\u00e3o entender como as coisas funcionam e tirar conclus\u00f5es est\u00fapidas dos dados a que s\u00e3o expostas, mas elas jamais podem colocar todo o grupo em risco por isso. Se bem que foi justamente isso que fizeram na elei\u00e7\u00e3o passada por essas bandas&#8230;<\/p>\n<p>Analfabetismo cient\u00edfico \u00e9 um problema s\u00e9rio para a sociedade humana. J\u00e1 fizemos at\u00e9 um texto inteiro sobre isso num desfavor da semana, mas n\u00e3o custa refor\u00e7ar. E ainda tem um agravante nesse caso dos EUA: n\u00e3o s\u00e3o s\u00f3 os muito pobres e\/ou ignorantes que est\u00e3o caindo nessa onde de revolta da vacina moderna, \u00e9 gente com estudo e capacidade de buscar e exibir fundamentos para suas opini\u00f5es.<\/p>\n<p>Uma coisa \u00e9 saber ler um texto cient\u00edfico, outra completamente diferente \u00e9 entender o que se demonstra ali. Ci\u00eancia boa oferece dados e n\u00e3o fica for\u00e7ando conclus\u00f5es sem embasamento. N\u00fameros podem ser usados para tirar praticamente qualquer conclus\u00e3o que voc\u00ea quiser, por isso \u00e9 essencial ter alguma base de conhecimento pr\u00e9vio sobre o assunto para interpret\u00e1-los.<\/p>\n<p>Gente que nem sabe como uma vacina funciona est\u00e1 citando dados e fontes como se fossem experts no assunto, for\u00e7ando uma conclus\u00e3o onde ela n\u00e3o existe e ainda passando a impress\u00e3o de algo s\u00e9rio e respons\u00e1vel para os incautos que entram nesse fogo cruzado. Eles acreditam que est\u00e3o sendo muito l\u00f3gicos, mas na verdade est\u00e3o apenas dizendo &#8220;tens aqu\u00e1rio em casa?&#8221;.<\/p>\n<p>Temos que tomar cuidado: contra burrice n\u00e3o existe vacina.<\/p>\n<h3>Para dizer que eu estou sendo pago para dizer isso, para dizer que n\u00e3o precisa de vacina porque tem a homeopatia, ou mesmo para dizer que at\u00e9 os burros de l\u00e1 se esfor\u00e7am mais: <a href=\"mailto:somir@desfavor.com\">somir@desfavor.com<\/a><\/h3>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nos EUA, ganha for\u00e7a um movimento contr\u00e1rio \u00e0 aplica\u00e7\u00e3o de vacinas, principalmente em crian\u00e7as. Segundo os detratores da pr\u00e1tica, vacinas n\u00e3o protegem de verdade e at\u00e9 causam efeitos colaterais como o autismo. 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