{"id":7967,"date":"2015-02-20T06:00:22","date_gmt":"2015-02-20T08:00:22","guid":{"rendered":"http:\/\/www.desfavor.com\/blog\/?p=7967"},"modified":"2015-02-20T03:38:34","modified_gmt":"2015-02-20T05:38:34","slug":"laptriz","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/2015\/02\/laptriz\/","title":{"rendered":"Laptriz"},"content":{"rendered":"<p>Eu lembro bem quando os primeiros sinais foram captados. Discuti com meu chefe por um bom tempo tentando convenc\u00ea-lo de que aquilo era s\u00f3 uma anomalia da radia\u00e7\u00e3o de fundo que calhava de parecer com uma palavra. Na minha profiss\u00e3o, ceticismo \u00e9 um excelente ant\u00eddoto para a frustra\u00e7\u00e3o. Nunca era algum contato&#8230; bom, nunca at\u00e9 aquele dia.<!--more--><\/p>\n<p>Foi pol\u00eamico. Muita gente analisou o \u00e1udio depois que ele foi tornado p\u00fablico, eu inclusive. Meu veredicto: nada demais. Estava prestes a publicar o v\u00eddeo quando veio a not\u00edcia de outras palavras. E dessa vez n\u00e3o eram s\u00f3 os grandes receptores dos pesquisadores profissionais, algumas transmiss\u00f5es podiam ser ouvidas em r\u00e1dios amadores. Quando ouvimos o &#8220;sakadt uleram&#8221; em som l\u00edmpido e cristalino, eu ainda apostava em uma fonte interna. Algu\u00e9m brincando com a gente.<\/p>\n<p>Juro que tinha provas e mais provas dessa teoria. Eu acreditava estar certo, mas&#8230; como eu queria estar errado. Meu trabalho era procurar por vida alien\u00edgena, analisava transmiss\u00f5es como essa diariamente num grande centro de pesquisas internacional. Mas minhas certezas foram derrubadas quando vimos voc\u00eas pela primeira vez: um relance, a luz solar refletida naquele planeta estranho na resolu\u00e7\u00e3o p\u00edfia de uma sonda prestes a ser desativada.<\/p>\n<p>E as transmiss\u00f5es ficando cada vez mais fortes. Escut\u00e1vamos mais e mais da fascinante l\u00edngua alien\u00edgena que tantos aprenderam a falar por aqui. Minha incredulidade tornou-se em fascina\u00e7\u00e3o. E meu emprego veio a calhar, n\u00e3o? Voc\u00eas estavam passando por Saturno quando eu consegui trocar as primeiras palavras com voc\u00ea. Nunca te perguntei, mas imagino que a sala onde voc\u00ea estava deve ter ficado muda feito a minha.<\/p>\n<p>&#8220;C\u00e2mbio! C\u00e2mbio! Algu\u00e9m na escuta?&#8221; &#8211; Esse nem \u00e9 o protocolo, acho que assisti filmes demais. Mas eu j\u00e1 estava cansado naquela hora, estava h\u00e1 horas falando \u00e0 esmo naquele microfone. &#8220;Sakadt uler&#8221;, voc\u00ea respondeu. Eu quase esqueci de respirar! Voc\u00ea podia at\u00e9 estar declarando guerra naquele momento, mas eu parecia uma crian\u00e7a diante de um brinquedo novo.<\/p>\n<p>A gente nunca explicou direito sobre o que falamos naqueles dias. Eu sem saber como sua l\u00edngua funcionava, voc\u00ea sem saber a minha. O governo daqui tentou colocar outro no lugar, mas voc\u00ea nem imagina o quanto eu briguei para continuar naquela conversa sem sentido com voc\u00ea. Eventualmente aceitaram e me deixaram continuar.<\/p>\n<p>Ainda bem que os meses se passaram e come\u00e7amos a trocar sinais com imagem. O mundo aqui estava em polvorosa! Ningu\u00e9m mais conseguia esconder que um planeta &#8220;perdido&#8221; estava cruzando nosso sistema solar, e mais incr\u00edvel ainda, habitado por uma civiliza\u00e7\u00e3o inteligente! S\u00f3 se falava disso. Quando surgiram as primeiras imagens de voc\u00eas, ou melhor, de voc\u00ea, n\u00e3o havia uma tela por aqui que n\u00e3o estivesse mostrando sua face.<\/p>\n<p>Viramos duas celebridades, amigo. Eu ainda dou risada quando lembro dos seus infantes usando roupas com a minha cara estampada! Nunca me imaginei chamando aten\u00e7\u00e3o dos outros nessa vida, e da noite para o dia, eu sou o ser humano mais famoso de Laptriz. Um mero operador de r\u00e1dio! Pena que meus pais n\u00e3o viveram para ver isso&#8230; Me chamaram para dar entrevistas umas dez vezes mais por a\u00ed do que por aqui.<\/p>\n<p>Mas o sucesso n\u00e3o subiu \u00e0 nossa cabe\u00e7a, n\u00e3o \u00e9 mesmo? Continuamos amigos mesmo com toda aquela aten\u00e7\u00e3o. Outros daqui e da\u00ed clamaram o t\u00edtulo de primeiros a entender a l\u00edngua oposta, mas eu duvido que algu\u00e9m tenha se entendido t\u00e3o r\u00e1pido feito a gente. N\u00e3o sab\u00edamos todas as palavras e nossos rostos s\u00e3o completamente diferentes, mas a gente sempre sabia quando o outro estava fazendo uma piada.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria do seu planeta e do seu povo me deixava embasbacado, mesmo escutando tudo pela en\u00e9sima vez. Um planeta sem estrela para orbitar, alimentado pela energia de seu interior, uma civiliza\u00e7\u00e3o inteligente que se desenvolveu sem nunca ter pisado na superf\u00edcie de seu planeta&#8230; voc\u00eas s\u00e3o a prova da for\u00e7a da vida. Aprendeu-se muito aqui na Terra estudando voc\u00eas.<\/p>\n<p>E com certeza devemos demais \u00e0 voc\u00eas. Antes do seu planeta aparecer na nossa vizinhan\u00e7a, t\u00ednhamos dificuldade de entrar em acordo sobre qualquer coisa. Tudo era motivo para disputas, guerras&#8230; mas as coisas mudaram. Claro, aqui ainda passa longe de ser uma utopia de paz e amor, mas&#8230; as coisas mudaram.<\/p>\n<p>Primeiro pela fascina\u00e7\u00e3o. Tirado do caminho o risco de uma colis\u00e3o &#8211; o que assustou muita gente nos primeiros meses &#8211; os nossos daqui mergulharam numa jornada de aprendizado e curiosidade como h\u00e1 muito n\u00e3o se via. Tudo sobre voc\u00eas era novidade. E como a tecnologia de voc\u00eas n\u00e3o estava t\u00e3o atrasada assim em rela\u00e7\u00e3o a nossa, foi f\u00e1cil trocar figurinhas.<\/p>\n<p>Nossas culturas acabaram todas misturadas. Sabe aquele esquisit\u00e3o com as presas cortadas que seus filhos tanto gostavam alguns anos atr\u00e1s? A m\u00fasica dele est\u00e1 tocando direto por aqui. Aposto que o f\u00e3-clube dele aqui na Terra \u00e9 maior do que o da\u00ed! Tem uma garota aqui na vizinhan\u00e7a que at\u00e9 casou \u00e0 dist\u00e2ncia (seja l\u00e1 como isso funciona) com um dos seus jovens. Nem mesmo as religi\u00f5es brigaram tanto entre si. Deus ou Mozy, d\u00e1 no mesmo para quase todo mundo&#8230;<\/p>\n<p>Saber que n\u00e3o estamos sozinhos no Universo realmente coloca as coisas em perspectiva. Eu diria que acalmamos um pouco as disputas mesquinhas por poder s\u00f3 pela curiosidade e pelos novos objetivos que fomos nos colocando. Primeiro foram as visitas. Voc\u00eas v\u00e3o nos perdoar por todo lixo que colocamos na \u00f3rbita do seu planeta, mas era nossa chance de ver um pouquinho mais de perto nossos vizinhos.<\/p>\n<p>Durante muito tempo se falou de levar alguns de n\u00f3s at\u00e9 voc\u00eas, mas levar gente para Marte j\u00e1 \u00e9 um problema, imagina para al\u00e9m da \u00f3rbita de J\u00fapiter! E a viagem at\u00e9 aqui tem todos os problemas que voc\u00eas sabem melhor do que eu. Muitos por aqui pensaram em planos mirabolantes para at\u00e9 prender seu planeta na \u00f3rbita do nosso Sol. Ou mesmo para usar grandes naves para traz\u00ea-los para c\u00e1. Voc\u00ea poderia morar aqui em casa, aposto que nossas fam\u00edlias iam se dar muito bem.<\/p>\n<p>Imagina nossos filhos brincando juntos? Quem sabe voc\u00ea poderia finalmente me explicar a gra\u00e7a daquele esporte maluco com as tr\u00eas bolas que voc\u00eas tanto gostam por a\u00ed? Voc\u00eas n\u00e3o gostariam de tanta luz, mas tenho certeza que encontrar\u00edamos um jeito de acomodar nossos amigos.<\/p>\n<p>Mas depois de tantos anos, sabemos melhor do que planejar um encontro, n\u00e3o \u00e9 mesmo, amigo? Os anos passaram, e os c\u00e1lculos todos deram no mesmo: voc\u00eas n\u00e3o seriam capturados pela gravidade do Sol. Eu sabia que eles estavam certos, mas como eu queria que estivessem errados. Fomos nos distanciando&#8230; nada de voc\u00eas desacelerarem e resolver fazer a visita permanente.<\/p>\n<p>Sinto falta das nossas conversas. As janelas de oportunidade para comunica\u00e7\u00e3o ficaram cada vez mais curtas, de v\u00eddeo para \u00e1udio, de \u00e1udio para texto. De texto para nada. Frequ\u00eancias todas tomadas por governos e poderosos, mensagens de suma import\u00e2ncia, creio eu. Tive que fazer um grande esfor\u00e7o para colocar essa mensagem na \u00faltima transmiss\u00e3o. Depois dessa, as antenas que voc\u00eas tem n\u00e3o v\u00e3o mais conseguir captar as nossas mensagens.<\/p>\n<p>E voc\u00eas ter\u00e3o nos deixado. Siga em paz. Seja para onde for que seu valente planeta estiver seguindo, como sempre contra todas as probabilidades, saiba que voc\u00ea deixou um grande amigo por aqui. N\u00f3s n\u00e3o vamos esquecer voc\u00eas.<\/p>\n<p>C\u00e2mbio final.<\/p>\n<h3>Para dizer que isso foi gay, para dizer que isso foi nerd, ou mesmo para dizer que isso sim \u00e9 relacionamento \u00e0 dist\u00e2ncia: <a href=\"mailto:somir@desfavor.com\">somir@desfavor.com<\/a><\/h3>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Eu lembro bem quando os primeiros sinais foram captados. Discuti com meu chefe por um bom tempo tentando convenc\u00ea-lo de que aquilo era s\u00f3 uma anomalia da radia\u00e7\u00e3o de fundo que calhava de parecer com uma palavra. Na minha profiss\u00e3o, ceticismo \u00e9 um excelente ant\u00eddoto para a frustra\u00e7\u00e3o. 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