{"id":8010,"date":"2015-03-04T06:00:55","date_gmt":"2015-03-04T09:00:55","guid":{"rendered":"http:\/\/www.desfavor.com\/blog\/?p=8010"},"modified":"2015-03-04T02:12:58","modified_gmt":"2015-03-04T05:12:58","slug":"passando-de-fase","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/2015\/03\/passando-de-fase\/","title":{"rendered":"Passando de fase."},"content":{"rendered":"<p>Meu primeiro contato com um videogame foi com um Atari. Confesso que nunca entendi muito bem o que estava fazendo apertando um bot\u00e3o e vendo quadradinhos coloridos se mexendo na tela. Distra\u00eda, pelo menos. E, cacete, como era dif\u00edcil conseguir qualquer senso de progresso ali. Devo ter jogado basicamente s\u00f3 as telas iniciais da maioria dos jogos que t\u00ednhamos em casa. Mas tinha algo de positivo a\u00ed: mesmo na mais tenra inf\u00e2ncia, j\u00e1 come\u00e7ava a entender que algumas coisas n\u00e3o eram para o meu bico.<!--more--><\/p>\n<p>Ou pelo menos, n\u00e3o por enquanto. Quando tinha a chance de ver pessoas mais velhas jogando, percebia que elas iam bem mais longe que eu. Por sorte crian\u00e7a se amarra numa repeti\u00e7\u00e3o e eu n\u00e3o via nada demais em ficar batendo cabe\u00e7a sempre nos mesmos est\u00e1gios dos jogos. Era bacana ver os outros fazendo melhor, de verdade. N\u00e3o passava pela minha cabe\u00e7a que eu era um zero \u00e0 esquerda por n\u00e3o conseguir, era s\u00f3 uma coisa que os adultos faziam e eu ainda n\u00e3o.<\/p>\n<p>Uma limita\u00e7\u00e3o minha.<\/p>\n<p>Os videogames do passado eram bem mais cru\u00e9is que os atuais. Nem digo dif\u00edceis, porque uma coisa \u00e9 decorar f\u00edsica e mentalmente como passar um est\u00e1gio num jogo antigo tipo Mario, outra completamente diferente \u00e9 lidar com a overdose de informa\u00e7\u00e3o e possibilidades dos jogos atuais. Ambas s\u00e3o dif\u00edceis para o c\u00e9rebro. Mas os jogos que eu joguei na inf\u00e2ncia e adolesc\u00eancia eram bem mais cru\u00e9is.<\/p>\n<p>Muitos deles feitos por gente sacana que dificultava tudo mesmo para mascarar qu\u00e3o rasos eram esses jogos. Vinte fases parecidas com milhares de outras fases dos outros jogos dispon\u00edveis. Diversidade n\u00e3o foi o forte das primeiras gera\u00e7\u00f5es dos consoles caseiros. Queriam te for\u00e7ar a alugar o jogo mais vezes (quem comprava jogo era playboyzinho), ou te fazer gastar mais fichas quando era jogo de fliperama.<\/p>\n<p>Muito se engana quem acha que os jogos de outrora eram mais complicados porque se respeitava mais a intelig\u00eancia dos consumidores. Neg\u00f3cio \u00e9 neg\u00f3cio hoje e h\u00e1 vinte, trinta anos atr\u00e1s. Sem contar que muitos dos programadores dos jogos eram sem no\u00e7\u00e3o mesmo: foda-se que vai frustrar terrivelmente uma crian\u00e7a, o jogo tinha que ser daquele jeito e azar de quem jogasse. Eram tempos menos&#8230; atenciosos&#8230; por assim dizer.<\/p>\n<p>Quando eu finalmente ganhei um videogame para chamar de meu, j\u00e1 era algo bem mais avan\u00e7ado que o Atari. Um Mega Drive japon\u00eas! E naquela \u00e9poca isso contava muito: os jogos compat\u00edveis com o meu videogame s\u00f3 falavam a l\u00edngua da terra do sol nascente. As maravilhas da &#8216;gambiarragem&#8217; eletr\u00f4nica me permitiram jogar jogos em ingl\u00eas depois de algum tempo, mas no come\u00e7o, ou era em japon\u00eas, ou era em japon\u00eas.<\/p>\n<p>N\u00e3o, n\u00e3o estou tentando explicar o in\u00edcio da minha fascina\u00e7\u00e3o com as loucuras nip\u00f4nicas aqui, tem um ponto: com ingl\u00eas voc\u00ea meio que se vira mesmo n\u00e3o conhecendo a l\u00edngua, mas com japon\u00eas? Garanto que n\u00e3o entendia bulhufas do que estava nas telas ou mesmo nos manuais que vinham com os jogos. Mas ei, era o que tinha! E a n\u00e3o ser que voc\u00ea tivesse a sorte de conhecer algu\u00e9m fluente na l\u00edngua, n\u00e3o tinha como depreender o que estava escrito, estivesse onde estivesse. Ideogramas deixam c\u00e9rebros ocidentais em pane.<\/p>\n<p>Mesmo assim, nerd nasce nerd e nada me impediu de jogar tudo o que podia. Entende jogando, chuta at\u00e9 acertar, se vira a\u00ed! E n\u00e3o tinha para quem correr. Mesmo com as revistas de jogos, voc\u00ea dependia da sorte de falarem do jogo que voc\u00ea estava jogando, e mais, que fosse uma mat\u00e9ria ensinando a jogar, porque a maioria s\u00f3 os apresentava.<\/p>\n<p>E considerando o n\u00famero de jogos m\u00e9dio que uma crian\u00e7a tinha ao seu dispor naquela \u00e9poca, era acertar na loteria achar informa\u00e7\u00e3o sobre um dos poucos que voc\u00ea tinha. No meu auge, eu tinha umas 10 fitas. E nem gostava de todos. Mas logo no come\u00e7o, o videogame veio com uma fita. E foi ela que eu joguei por meses antes de ter a chance de sequer ver outra. O jogo era simples, um avi\u00e3o atirando em milh\u00f5es de inimigos voando em sua dire\u00e7\u00e3o. E, cacete&#8230; como eu era ruim nele.<\/p>\n<p>Devo ter jogado a primeira fase umas cinco mil vezes, e se cheguei \u00e0 quarta umas dez vezes, foi muito. Recentemente descobri pelo Youtube que eram cinco no total. A quinta eu vi s\u00f3 em v\u00eddeo mesmo. Tudo culpa de um conceito que foi eliminado dos games com o passar do tempo: o de come\u00e7ar de novo. Os jogos de hoje te empurram em frente e te d\u00e3o op\u00e7\u00f5es de salvar seus progressos. Os jogos que eu jogava te davam algumas chances, e se voc\u00ea n\u00e3o conseguisse vencer, come\u00e7ava desde o come\u00e7o, como se nunca tivesse tocado na fita antes.<\/p>\n<p>Sim, eu sei que est\u00e1 parecendo um apelo barato \u00e0 nostalgia de muitos de n\u00f3s criados nessa mesma \u00e9poca, mas eu quero refor\u00e7ar o ponto que coloquei l\u00e1 no come\u00e7o: a limita\u00e7\u00e3o. Se eu tivesse que escolher entre os jogos cru\u00e9is do meu tempo e coisas incr\u00edveis como o Minecraft que as crian\u00e7as tem hoje, trocaria meu passado pelo presente num piscar de olhos. N\u00e3o sou muito nost\u00e1lgico, aposto que voc\u00eas j\u00e1 perceberam.<\/p>\n<p>Mas mesmo assim, tem um motivo ego\u00edsta e pregui\u00e7oso nessa escolha pelo presente: preferia ter lidado com menos frustra\u00e7\u00f5es e ter \u00e0 minha disposi\u00e7\u00e3o jogos feitos para me divertir (e n\u00e3o para me testar). Mas ser\u00e1 que eu n\u00e3o estou escolhendo entre os vegetais e o fast-food aqui? O caminho mais curto e mais prazeroso sempre vai ter seu apelo, mesmo que perca nutrientes no caminho.<\/p>\n<p>Eu ouvi um sonoro N\u00c3O quando quis jogar feito os adultos no Atari, outro quando quis entender uma l\u00edngua que n\u00e3o tinha aprendido, e ainda mais v\u00e1rios outros quando quis jogar outra coisa mais f\u00e1cil do que a que eu tinha. Os videogames me ajudaram a aprender sobre frustra\u00e7\u00e3o e impot\u00eancia. Aquela dificuldade toda &#8211; embora n\u00e3o tenha sido planejada com fins educativos &#8211; educou.<\/p>\n<p>O Atari me ensinou que \u00e9 normal n\u00e3o saber fazer algumas coisas. E que \u00e0s vezes leva tempo para aprend\u00ea-las. O Mega Drive japon\u00eas jogou na minha cara que eu n\u00e3o era t\u00e3o inteligente assim, e ainda me mostrou que mesmo ralando muito tem coisas que voc\u00ea s\u00f3 consegue pela metade sem o suporte correto. Aquele jogo maldito do avi\u00e3o me ensinou a curtir o que eu tinha e tentar tirar o m\u00e1ximo disso. Confesso que algumas dessas li\u00e7\u00f5es eu esque\u00e7o ou ignoro de tempos em tempos, mas elas est\u00e3o l\u00e1. Eu passei por essa fase.<\/p>\n<p>Quando come\u00e7ou a era dos videogames mais modernos, vulgo os com gr\u00e1ficos 3D, j\u00e1 n\u00e3o tinha muito mais disso para se basear. Os produtores de jogos ficaram mais profissionais e n\u00e3o puniam tanto os jogadores, era mais f\u00e1cil ter acesso \u00e0 informa\u00e7\u00e3o sobre os jogos, e gra\u00e7as \u00e0 pirataria que comia solta, op\u00e7\u00f5es n\u00e3o faltavam. J\u00e1 era o embri\u00e3o dessa era moderna.<\/p>\n<p>Quem passou pela fase dif\u00edcil curtiu muito mais o &#8216;est\u00e1gio b\u00f4nus&#8217; da ind\u00fastria dos games atual. E talvez tenha aprendido a n\u00e3o fazer coisas como jogar fora o celular velho toda vez que sai uma nova vers\u00e3o. Muito embora as crian\u00e7as de hoje tornem-se mais inteligentes do que sequer poder\u00edamos sonhar em nossa era de escassez, isso n\u00e3o acontece sem uma troca. As li\u00e7\u00f5es do Atari e seus sucessores n\u00e3o fazem parte da cria\u00e7\u00e3o das novas gera\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>O &#8220;n\u00e3o&#8221; saiu de moda. O &#8220;n\u00e3o tem&#8221; virou um conceito alien\u00edgena. O &#8220;se vira&#8221; ent\u00e3o&#8230; s\u00f3 v\u00e3o entender se algu\u00e9m fizer um passo-a-passo e publicar no Youtube. Como o <a href=\"http:\/\/southpark.cc.com\/full-episodes\" target=\"_blank\">South Park<\/a> soube criticar muito bem h\u00e1 pouco tempo atr\u00e1s, as crian\u00e7as de hoje talvez achem at\u00e9 mais gra\u00e7a ver outros jogando os jogos pela internet do que jogar elas mesmas. Talvez seja aquela sensa\u00e7\u00e3o que eu experimentei ao ver os adultos jogando o Atari e conseguindo fazer alguma coisa, ao contr\u00e1rio de mim. \u00c9 um belo atalho para a sensa\u00e7\u00e3o de conquista, sem ter que lutar por ela.<\/p>\n<p>Talvez a principal diferen\u00e7a \u00e9 que eu tinha que jogar e quebrar a cara para experimentar. E tinha que sobreviver \u00e0s frustra\u00e7\u00f5es. A maioria de voc\u00eas tamb\u00e9m. N\u00e3o existia atalho&#8230; n\u00e3o somos melhores pela capacidade de resistir \u00e0 tenta\u00e7\u00e3o, mas demos sorte de aprender isso logo cedo, e com personagens coloridos pulando numa tela do mesmo jeito que as crian\u00e7as de hoje tem. \u00c9 tudo muito bacana com os games modernos, os tablets, a conectividade entre tudo&#8230; mas falta frustra\u00e7\u00e3o. A fase \u00e9 muito bem feita, mas est\u00e3o esquecendo de colocar um chefe no final!<\/p>\n<p>P.S.: Mas que eu mataria um para ter um Minecraft para jogar quando tinha uns 10 anos de idade, mataria.<\/p>\n<h3>Para dizer que eu s\u00f3 queria uma desculpa para falar nerdice, para dizer que prefere a Sally sendo nost\u00e1lgica, ou mesmo para dizer que prefere ser bunda-mole e ter os jogos de hoje: <a href=\"mailto:somir@desfavor.com\">somir@desfavor.com<\/a><\/h3>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Meu primeiro contato com um videogame foi com um Atari. 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