{"id":8016,"date":"2015-03-06T06:00:23","date_gmt":"2015-03-06T09:00:23","guid":{"rendered":"http:\/\/www.desfavor.com\/blog\/?p=8016"},"modified":"2015-03-06T04:49:02","modified_gmt":"2015-03-06T07:49:02","slug":"tempo-perdido","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/2015\/03\/tempo-perdido\/","title":{"rendered":"Tempo perdido."},"content":{"rendered":"<p>Valdir estava muito atrasado. Era apenas o segundo encontro com aquela bela morena e os vinte minutos al\u00e9m do combinado n\u00e3o ajudariam com suas pretens\u00f5es de esticar o jantar para um motel. Celular sem bateria, para variar. E para ajudar, o caminh\u00e3o \u00e0 sua frente parecia se arrastar pela estradinha. Belo atalho esse&#8230; n\u00e3o havia tempo a perder: subida, curva e tudo mais, l\u00e1 se foi Valdir pisar fundo no acelerador para fazer a ultrapassagem. No sentido oposto, outro caminh\u00e3o. Sem chance alguma de desviar, ouviu o estrondo, sentiu o corpo flutuando no ar&#8230; e depois, mais nada.<!--more--><\/p>\n<p>Ainda registrou mais alguns poucos segundos se lucidez, intermitentes. Viu param\u00e9dicos, luzes cegantes, talvez at\u00e9 uma sala de cirurgia. A vis\u00e3o s\u00f3 foi recuperar o foco muito depois. Um rosto desconhecido, castigado pela idade&#8230; o homem que via de p\u00e9 ao lado de seu corpo deitado falava uma l\u00edngua estranha e gesticulava muito. Recuperando o controle sobre o corpo, Valdir se levantou. Havia mais gente por perto. Muito mais gente.<\/p>\n<p>Ao seu redor, tudo&#8230; branco. N\u00e3o havia paredes, teto ou mesmo uma fonte de luz reconhec\u00edvel. Uma imensid\u00e3o est\u00e9ril pontuada por uma consider\u00e1vel popula\u00e7\u00e3o de desconhecidos e desconhecidas. Alguns deles claramente perdidos, outros reunidos em grupos de diferentes tamanhos. Todos nus, inclusive Valdir. O senhor agitado ao seu lado logo foi buscar outras paragens, incomodando um grupo pr\u00f3ximo onde v\u00e1rios homens e mulheres discutiam entre si.<\/p>\n<p>Valdir come\u00e7a a perambular pelo local, perdido na multid\u00e3o ocupada demais com seja l\u00e1 o que estivessem fazendo. O som de uma l\u00edngua conhecida guia serve de incentivo para uma aproxima\u00e7\u00e3o. Um homem e duas mulheres, dois jovens e uma senhora conversam em um idioma reconhec\u00edvel.<\/p>\n<p><b>HOMEM:<\/b> Deve ter algum segredo&#8230;<br \/>\n<b>MULHER JOVEM:<\/b> \u00c9 um teste!<br \/>\n<b>MULHER IDOSA:<\/b> Foi algo que fizemos em vida&#8230;<\/p>\n<p>Valdir se aproxima.<\/p>\n<p><b>VALDIR:<\/b> Oi?<\/p>\n<p>Os tr\u00eas se voltam para Valdir, express\u00f5es curiosas.<\/p>\n<p><b>VALDIR:<\/b> Onde&#8230; onde eu estou?<br \/>\n<b>MULHER IDOSA:<\/b> Isso \u00e9 o purgat\u00f3rio!<br \/>\n<b>MULHER JOVEM:<\/b> Voc\u00ea n\u00e3o tem certeza disso.<\/p>\n<p>O homem estica a m\u00e3o na dire\u00e7\u00e3o de Valdir.<\/p>\n<p><b>HOMEM:<\/b> Carlos.<br \/>\n<b>VALDIR:<\/b> Valdir.<br \/>\n<b>HOMEM:<\/b> Essa \u00e9 a Clara *apontando para a jovem, essa \u00e9 a Maria *apontando para a idosa.<br \/>\n<b>VALDIR:<\/b> Como assim purgat\u00f3rio?<br \/>\n<b>CLARA:<\/b> Voc\u00ea acabou de chegar, n\u00e9?<br \/>\n<b>CARLOS:<\/b> Voc\u00ea morreu. Isso a gente sabe.<br \/>\n<b>VALDIR:<\/b> N\u00e3o! N\u00e3o&#8230; os m\u00e9dicos&#8230; eu vi&#8230; tem um telefone?<br \/>\n<b>MARIA:<\/b> Contar assim n\u00e3o ajuda ningu\u00e9m, mocinho.<br \/>\n<b>CARLOS:<\/b> \u00c9 melhor saber logo e passar mais r\u00e1pido pela nega\u00e7\u00e3o.<br \/>\n<b>CLARA:<\/b> N\u00e3o \u00e9 certeza que a gente morreu.<br \/>\n<b>CARLOS:<\/b> Eu apertei o gatilho e n\u00e3o foi para errar.<br \/>\n<b>CLARA:<\/b> Voc\u00ea pode ter ficado em coma! Quando eu tomei os rem\u00e9dios, sabia que podia acontecer.<br \/>\n<b>MARIA:<\/b> Suic\u00eddio \u00e9 motivo para o purgat\u00f3rio.<br \/>\n<b>CLARA:<\/b> Mas eu n\u00e3o queria me matar!<br \/>\n<b>VALDIR:<\/b> Algu\u00e9m me explica onde eu estou, pelo amor de Deus!<br \/>\n<b>CARLOS:<\/b> A gente n\u00e3o sabe. Ningu\u00e9m sabe. Muita gente aqui tenta explicar, mas ningu\u00e9m tem prova de nada.<br \/>\n<b>MARIA:<\/b> Parece purgat\u00f3rio.<br \/>\n<b>CLARA:<\/b> A gente n\u00e3o pode ter morrido&#8230; isso aqui n\u00e3o tem cara de c\u00e9u, inferno ou seja l\u00e1 o que for.<br \/>\n<b>CARLOS:<\/b> Valdir, qual a \u00faltima coisa que voc\u00ea lembra?<br \/>\n<b>VALDIR:<\/b> Um caminh\u00e3o&#8230; eu tentei ultrapassar&#8230;<br \/>\n<b>CARLOS:<\/b> T\u00e1 vendo? Coma meu ovo, a gente bateu as botas mesmo.<br \/>\n<b>CLARA:<\/b> Prova!<br \/>\n<b>VALDIR:<\/b> Eu morri?<br \/>\n<b>MARIA:<\/b> Parece que sim, meu filho. Deixou fam\u00edlia?<br \/>\n<b>VALDIR:<\/b> Eu era sozinho&#8230; tem meu irm\u00e3o.<br \/>\n<b>MARIA:<\/b> Menos mal, \u00e9 triste quando deixa filho para tr\u00e1s.<br \/>\n<b>VALDIR:<\/b> E o que a gente est\u00e1 fazendo aqui? Por que est\u00e1 todo mundo pelado?<br \/>\n<b>MARIA:<\/b> Daquela vida a gente n\u00e3o traz nada.<br \/>\n<b>CARLOS:<\/b> Ali\u00e1s, algum de voc\u00eas sentiu fome, frio ou algo assim nesse tempo aqui?<br \/>\n<b>CLARA:<\/b> Nada. Outro dia eu corri o dia todo tentando achar um fim nesse lugar, mas nem cansar eu cansei.<br \/>\n<b>CARLOS:<\/b> Achou alguma coisa?<br \/>\n<b>CLARA:<\/b> S\u00f3 mais e mais gente. Eu vi at\u00e9 gente brigando, mas ningu\u00e9m se machucou.<br \/>\n<b>CARLOS:<\/b> Nada funciona aqui! *pegando na pr\u00f3pria genit\u00e1lia<br \/>\n<b>MARIA:<\/b> Respeito!<br \/>\n<b>CARLOS:<\/b> Mas n\u00e3o funciona. N\u00e3o deve ter pecado nisso, n\u00e9?<br \/>\n<b>MARIA:<\/b> Voc\u00ea n\u00e3o sabe quem est\u00e1 observando, melhor se prevenir.<br \/>\n<b>VALDIR:<\/b> Voc\u00eas est\u00e3o aqui h\u00e1 muito tempo?<br \/>\n<b>CLARA:<\/b> N\u00e3o sei. Sinto que estou aqui faz anos, mas podem ser dias&#8230; voc\u00ea?<br \/>\n<b>CARLOS:<\/b> Nem sei se o tempo passa aqui.<br \/>\n<b>MARIA:<\/b> Quem era o presidente do Brasil quando voc\u00ea&#8230; bom, quando voc\u00ea se lembra?<br \/>\n<b>CLARA:<\/b> O Fernando Henrique&#8230;<br \/>\n<b>MARIA:<\/b> Quem?<br \/>\n<b>CARLOS:<\/b> Voc\u00ea morreu antes do Lula?<br \/>\n<b>CLARA:<\/b> O Lula virou presidente?<br \/>\n<b>CARLOS:<\/b> E ainda foi reeleito!<br \/>\n<b>CLARA:<\/b> Ah, que legal. Eu votava nele.<br \/>\n<b>CARLOS:<\/b> Valdir?<br \/>\n<b>VALDIR:<\/b> A Dilma&#8230;<br \/>\n<b>CARLOS:<\/b> Aquela que estava com c\u00e2ncer?<br \/>\n<b>VALDIR:<\/b> \u00c9.<br \/>\n<b>CLARA:<\/b> Eu estou maluca&#8230; ou a gente j\u00e1 conversou sobre isso antes?<br \/>\n<b>MARIA:<\/b> Agora que voc\u00ea mencionou&#8230; eu lembro sim.<br \/>\n<b>CARLOS:<\/b> Nossa, \u00e9 verdade! Voc\u00ea morreu em 1957, n\u00e3o \u00e9?<br \/>\n<b>MARIA:<\/b> E voc\u00ea em 2007!<br \/>\n<b>CLARA:<\/b> E eu&#8230; eu vim pra c\u00e1 em 1998.<br \/>\n<b>VALDIR:<\/b> Est\u00e1vamos em 2015 quando eu&#8230; bom, quando eu me lembro antes de vir pra c\u00e1.<br \/>\n<b>CARLOS:<\/b> E voc\u00ea acha que est\u00e1 viva? 17 anos depois?<br \/>\n<b>CLARA:<\/b> Tem gente que passou 20 ou mais anos em coma.<br \/>\n<b>CARLOS:<\/b> E a Maria est\u00e1 em coma h\u00e1 mais de 50? Acorda!<br \/>\n<b>CLARA:<\/b> N\u00e3o&#8230; n\u00e3o quero falar mais disso.<br \/>\n<b>VALDIR:<\/b> Maria, voc\u00ea est\u00e1 aqui h\u00e1 mais de 50 anos?<br \/>\n<b>MARIA:<\/b> \u00c9 o que parece&#8230; mas n\u00e3o assusta n\u00e3o, nem parece tanto tempo assim por aqui.<br \/>\n<b>VALDIR:<\/b> A gente morre e n\u00e3o vai para lugar nenhum? A gente fica aqui pra sempre?<br \/>\n<b>CARLOS:<\/b> N\u00e3o sei&#8230; eu nunca vi o Einstein ou o Hitler, por exemplo.<br \/>\n<b>MARIA:<\/b> Mas tem tanta gente aqui&#8230; ser\u00e1 que n\u00e3o foi azar? Ou sorte, no caso do Hitler.<br \/>\n<b>CARLOS:<\/b> Sei l\u00e1, pode ser.<br \/>\n<b>VALDIR:<\/b> O que a gente faz?<br \/>\n<b>CLARA:<\/b> Mata o tempo? Eu aprendi a falar um pouco de outras l\u00ednguas&#8230;<br \/>\n<b>MARIA:<\/b> Dan\u00e7ar tamb\u00e9m faz bem para passar o tempo.<br \/>\n<b>CARLOS:<\/b> De vez em quando a gente faz umas lutinhas&#8230; ningu\u00e9m se machuca mesmo. Distrai. Mas \u00e9 meio gay&#8230; com todo mundo pelado e tal.<br \/>\n<b>VALDIR:<\/b> &#8230;<br \/>\n<b>CARLOS:<\/b> Eu s\u00f3 fa\u00e7o boxe, as outras de se pegar eu n\u00e3o gosto n\u00e3o. Nada contra quem gosta, mas&#8230;<br \/>\n<b>CLARA:<\/b> Ah, e o problema \u00e9 ficar se ro\u00e7ando e n\u00e3o sair na porrada?<br \/>\n<b>CARLOS:<\/b> N\u00e3o tem lei nenhuma aqui dizendo que n\u00e3o pode brigar.<br \/>\n<b>MARIA:<\/b> Mas Deus pode estar te julgando.<br \/>\n<b>CARLOS:<\/b> Se est\u00e1, n\u00e3o est\u00e1 nos dizendo o qu\u00ea.<br \/>\n<b>MARIA:<\/b> Voc\u00ea aprendeu as regras em vida!<br \/>\n<b>CARLOS:<\/b> Tem crian\u00e7a aqui, porra! Como \u00e9 que crian\u00e7a vai saber as regras? E outra, quem disse que quem manda aqui \u00e9 o Deus da B\u00edblia?<br \/>\n<b>MARIA:<\/b> \u00c9 esse tipo de coisa que voc\u00ea diz que vai te deixar preso aqui!<br \/>\n<b>CARLOS:<\/b> Voc\u00ea \u00e9 cat\u00f3lica, super carola&#8230; e est\u00e1 aqui h\u00e1 meio s\u00e9culo.<br \/>\n<b>MARIA:<\/b> Eu nunca fui santa.<br \/>\n<b>CARLOS:<\/b> Ningu\u00e9m \u00e9! Se for esperar por isso, fica todo mundo no purgat\u00f3rio pra sempre. Acho que nem os papas sobem.<br \/>\n<b>MARIA:<\/b> Devemos aceitar nosso julgamento. E isso \u00e9 dif\u00edcil.<br \/>\n<b>CARLOS:<\/b> N\u00e3o sei por que eu ainda insisto em discutir isso com voc\u00ea.<br \/>\n<b>VALDIR:<\/b> Gente&#8230; ningu\u00e9m aqui sabe onde estamos?<br \/>\n<b>CLARA:<\/b> Muita gente diz que sabe, mas continua todo mundo na mesma. E&#8230; a gente j\u00e1 discutiu isso tamb\u00e9m, n\u00e3o foi?<br \/>\n<b>CARLOS:<\/b> Ha&#8230; pior que sim. Foi com aquele peruano que falava com um sotaque carregado&#8230;<br \/>\nCLARO: Verdade! Onde ele foi parar?<br \/>\n<b>CARLOS:<\/b> Parece que ele encontrou gente da fam\u00edlia dele.<br \/>\n<b>MARIA:<\/b> Gra\u00e7as a Deus eu ainda n\u00e3o vi os meus filhos!<br \/>\n<b>VALDIR:<\/b> Ser\u00e1 que minha v\u00f3 est\u00e1 aqui?<br \/>\n<b>CLARA:<\/b> Ela estava em coma?<br \/>\n<b>CARLOS:<\/b> Clara! Isso j\u00e1 est\u00e1 ficando rid\u00edculo.<br \/>\n<b>CLARA:<\/b> Voc\u00ea est\u00e1 chato demais hoje, a gente se fala depois&#8230;<br \/>\n<b>CARLOS:<\/b> Volta aqui! Volta&#8230; ai&#8230; acho que ela nunca vai aceitar.<br \/>\n<b>MARIA:<\/b> Voc\u00ea gosta dela, n\u00e9?<br \/>\n<b>CARLOS:<\/b> De um jeito meio diferente do que eu estava acostumado, mas sim.<br \/>\n<b>VALDIR:<\/b> Voc\u00eas v\u00e3o ficar por aqui?<br \/>\n<b>MARIA:<\/b> Se voc\u00ea andar muito, n\u00e3o acha mais a gente. O lugar aqui n\u00e3o parece ter fim e \u00e9 muita gente por todos os lados. A Clara s\u00f3 foi at\u00e9 ali, est\u00e1 vendo?<br \/>\n<b>VALDIR:<\/b> Vi. Ent\u00e3o, n\u00e3o tem mais o que fazer? A gente s\u00f3 fica aqui conversando?<br \/>\n<b>CARLOS:<\/b> \u00c9. Mas \u00e9 menos chato do que parece. Juro.<br \/>\n<b>VALDIR:<\/b> Eu vou ficar maluco assim&#8230;<br \/>\n<b>MARIA:<\/b> Quem era o presidente do Brasil quando voc\u00ea&#8230; bom, quando voc\u00ea veio para c\u00e1?<br \/>\n<b>CARLOS:<\/b> O Lula.<br \/>\n<b>MARIA:<\/b> Quem?<br \/>\n<b>VALDIR:<\/b> Ent\u00e3o voc\u00ea chegou bem antes, quando eu vim, a Dilma tinha sido reeleita&#8230;<br \/>\n<b>CARLOS:<\/b> Aquela que estava com c\u00e2ncer?<br \/>\n<b>VALDIR:<\/b> \u00c9.<br \/>\n<b>CARLOS:<\/b> U\u00e9&#8230; a gente n\u00e3o falou disso faz algum tempo?<br \/>\n<b>MARIA:<\/b> \u00c9! Voc\u00ea veio para c\u00e1 em&#8230; 2007! Nossa, eu cheguei em 1957!<br \/>\n<b>VALDIR:<\/b> Voc\u00ea est\u00e1 aqui h\u00e1 mais de 50 anos?<br \/>\n<b>MARIA:<\/b> Mas nem parece, sabe? Olha, olha s\u00f3 quem voltou.<br \/>\n<b>CLARA:<\/b> Tudo bem?<br \/>\n<b>CARLOS:<\/b> Tudo.<br \/>\n<b>CLARA:<\/b> Se eu fico quieta por algum tempo, eu acho que consigo escutar as m\u00e1quinas.<br \/>\n<b>CARLOS:<\/b> De novo com essa hist\u00f3ria?<br \/>\n<b>CLARA:<\/b> Dizem que seus sentidos ainda funcionam quando voc\u00ea est\u00e1 em coma. Eu acho que estou melhorando.<br \/>\n<b>CARLOS:<\/b> E como \u00e9 que a Maria estaria em coma por 50 anos?<br \/>\n<b>VALDIR:<\/b> J\u00e1 n\u00e3o falamos sobre isso?<br \/>\n<b>MARIA:<\/b> Verdade. Isso aqui s\u00f3 pode ser o purgat\u00f3rio.<br \/>\n<b>VALDIR:<\/b> E ser\u00e1 que a gente sai daqui? Voc\u00ea fez algo grave, Maria?<br \/>\n<b>MARIA:<\/b> Eu tra\u00ed meu esposo, uma vez s\u00f3.<br \/>\n<b>VALDIR:<\/b> 50 anos por isso me parece meio exagerado.<br \/>\n<b>MARIA:<\/b> Bom, n\u00e3o tenho orgulho do que eu fiz.<br \/>\n<b>CARLOS:<\/b>Se voc\u00ea est\u00e1 esse tempo todo por isso, eu vou demorar mil anos para sair daqui.<br \/>\n<b>CLARA:<\/b> E se&#8230;<br \/>\n<b>CARLOS:<\/b>N\u00e3o, n\u00e3o completa.<\/p>\n<p><b>VOZ ESTRANHA:<\/b> Desculpa&#8230; mas&#8230;<\/p>\n<p>Um homem l\u00e1 pelos seus cinquenta anos de idade interpela o grupo.<\/p>\n<p><b>HOMEM:<\/b> Onde&#8230; onde estamos?<br \/>\n<b>CARLOS:<\/b>Voc\u00ea quer a resposta curta ou a longa?<br \/>\n<b>HOMEM:<\/b> Qualquer uma.<br \/>\n<b>CARLOS:<\/b>Voc\u00ea morreu e ningu\u00e9m aqui sabe onde est\u00e1.<br \/>\n<b>VALDIR:<\/b> Que ano voc\u00ea estava?<br \/>\n<b>HOMEM:<\/b> H\u00e3?<br \/>\n<b>VALDIR:<\/b> Em que ano estamos?<br \/>\n<b>HOMEM:<\/b> 2035.<br \/>\n<b>CLARA:<\/b> Est\u00e3o ouvindo?<br \/>\n<b>VALDIR:<\/b> O qu\u00ea?<br \/>\n<b>CLARA:<\/b> Est\u00e3o falando&#8230; est\u00e3o falando&#8230;<\/p>\n<p>Clara desaparece.<\/p>\n<p><em>Fim.<\/em><\/p>\n<h3>Para dizer que se sente tra\u00eddo(a) por aguentar at\u00e9 aqui, para fingir que entendeu ou para fingir que n\u00e3o entendeu: <a href=\"mailto:somir@desfavor.com\">somir@desfavor.com<\/a><\/h3>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Valdir estava muito atrasado. 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