{"id":8040,"date":"2015-03-11T06:00:28","date_gmt":"2015-03-11T09:00:28","guid":{"rendered":"http:\/\/www.desfavor.com\/blog\/?p=8040"},"modified":"2015-03-11T04:08:22","modified_gmt":"2015-03-11T07:08:22","slug":"meio-termo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/2015\/03\/meio-termo\/","title":{"rendered":"Meio-termo."},"content":{"rendered":"<p>O texto de hoje tende a ser chato: j\u00e1 aviso que n\u00e3o vai ter nenhuma opini\u00e3o forte aqui. Nem mesmo um assunto que vai dividir multid\u00f5es. Eu s\u00f3 quero falar sobre o meio-termo. O ponto de encontro entre vis\u00f5es distintas de mundo&#8230; e mesmo nunca tendo sido popular, parece estar se transformando em algo negativo.<!--more--><\/p>\n<p>Que n\u00e3o \u00e9 algo apaixonante eu nem discuto. Chegar num consenso \u00e0 partir de concess\u00f5es de ambos os lados n\u00e3o \u00e9 algo que povoa nossa imagina\u00e7\u00e3o ou mesmo que excite nossas mentes. O que provavelmente explica muita coisa nesse mundo. Se a concilia\u00e7\u00e3o amig\u00e1vel e a toler\u00e2ncia pac\u00edfica disparassem os mesmos coquet\u00e9is qu\u00edmicos que disparam amor e \u00f3dio, duvido que tiv\u00e9ssemos sequer uma guerra no curr\u00edculo da esp\u00e9cie at\u00e9 aqui.<\/p>\n<p>Nem sei se isso seria \u00fatil do ponto de vista evolutivo, essa passionalidade toda \u00e9 parte integrante de uma sociedade que se n\u00e3o \u00e9 perfeita, pelo menos percorreu um LONGO caminho desde as cavernas. Se a humanidade evoluiu de forma a perpetuar aqueles que aderem com mais \u00eanfase a um ou outro argumento, presume-se que essa caracter\u00edstica seja \u00fatil para nosso desenvolvimento. <\/p>\n<p>Percebem que j\u00e1 est\u00e1 ficando meio chato? N\u00e3o seria um texto mais &#8216;saboroso&#8217; se eu estivesse dizendo que o mundo seria muito melhor se as pessoas achassem mais gra\u00e7a no meio-termo? Voc\u00ea poderia concordar ou discordar nos mais diversos graus de intensidade, daria para buscar exemplos para refor\u00e7ar seu argumento, lembrar de pessoas s\u00e1bias que enxergavam as coisas da mesma forma que voc\u00ea&#8230; daria at\u00e9 para me desqualificar totalmente e considerar todos os argumentos contr\u00e1rios em provas da minha imbecilidade.<\/p>\n<p>Mas se eu considerei os dois lados&#8230; \u00e9 dif\u00edcil saber direito o que fazer com isso. N\u00e3o \u00e9 como se eu estivesse personificando alguma ideia com a qual voc\u00ea pactua ou mesmo um que voc\u00ea deteste, n\u00e3o d\u00e1 nem para saber se tem que concordar ou discordar do que estou escrevendo. \u00c9 s\u00f3 uma ideia, sem nenhuma press\u00e3o de fazer parte da sua vida.<\/p>\n<p>E normalmente o meio-termo \u00e9 assim. N\u00e3o se intromete em nada. Numa analogia de quem escreve o texto sentindo fome: o meio-termo \u00e9 uma receita que precisa de ingredientes selecionados e muito cuidado no preparo. A opini\u00e3o passional tem mais jeit\u00e3o de fast food: j\u00e1 est\u00e1 quase pronta e tem em cada esquina. E eu n\u00e3o vou mentir, \u00e9 deliciosa! N\u00e3o \u00e9 de se espantar que uma seja mais popular que a outra.<\/p>\n<p>Para chegar no meio-termo, voc\u00ea precisa de trabalho e de ren\u00fancias. N\u00e3o pode ser tudo do jeito que voc\u00ea quer, tem que tomar cuidado para respeitar o outro lado, tem que se manter concentrado durante todo o processo. Pior, muitas vezes voc\u00ea tem que engolir ideias que te reviram o est\u00f4mago!<\/p>\n<p>Eu, por exemplo, adoraria viver num mundo onde a religi\u00e3o fosse abolida, tiv\u00e9ssemos liberdades pessoais beirando \u00e0 anarquia, que a evolu\u00e7\u00e3o da tecnologia para substituir as limita\u00e7\u00f5es do corpo humano e do planeta Terra fossem prioridades absolutas, que a ind\u00fastria da aspira\u00e7\u00e3o fosse desintegrada completamente&#8230; Mas n\u00e3o d\u00e1 para esperar que a humanidade em peso aderisse ao meu sonho. Eu acredito que as coisas funcionariam bem na minha utopia racionalista, mas tem muita gente que n\u00e3o suportaria um mundo sem as ferramentas de controle psicol\u00f3gico que est\u00e3o acostumadas.<\/p>\n<p>E aqui eu j\u00e1 come\u00e7o a cometer o pecado do parcialismo: perceberam como estou sendo condescendente? &#8220;As pessoas n\u00e3o suportariam um mundo melhor&#8221;? Oras, isso \u00e9 um golpe barato, estou condicionando o conceito de melhor com as minhas fantasias totalit\u00e1rias e dizendo que as pessoas tem o direito de estarem erradas! Fazer o qu\u00ea? \u00c9 divertido se imaginar como o basti\u00e3o de tudo o que \u00e9 correto e justo.<\/p>\n<p>Se eu quisesse chegar num meio-termo mesmo, teria que aceitar os amigos imagin\u00e1rios da maioria da popula\u00e7\u00e3o mundial como condi\u00e7\u00e3o de estabilidade. Teria que conceder o ponto que liberdade demais n\u00e3o faria bem para uma popula\u00e7\u00e3o t\u00e3o pobre e pouco educada&#8230; deveria aceitar que muitos se sentem genuinamente felizes seguindo modas e imitando celebridades. E principalmente que ningu\u00e9m tem obriga\u00e7\u00e3o de trabalhar em prol dos avan\u00e7os cient\u00edficos que povoam minha imagina\u00e7\u00e3o. Tudo bem, n\u00e3o precisa de tudo isso, podemos come\u00e7ar com menos.<\/p>\n<p>Meu meio-termo de um mundo melhor j\u00e1 estaria muito bem com menos preconceito racial, sexual e seja l\u00e1 o que &#8216;al&#8217;. Pode ficar com a religi\u00e3o, mas os fan\u00e1ticos est\u00e3o sobrando. Vai curtir a not\u00edcia sobre a \u00faltima pl\u00e1stica de uma bunda profissional, mas estuda um pouco em quem vai votar. N\u00e3o precisa dedicar a vida \u00e0 ci\u00eancia (at\u00e9 porque nem eu estou fazendo isso), mas pelo menos n\u00e3o perca a curiosidade sobre o mundo assim que entrar na puberdade&#8230; e t\u00e1 bom, pode continuar sendo crime algu\u00e9m falar mal de voc\u00ea, mas custa s\u00f3 ser quando te acusam de um crime que voc\u00ea n\u00e3o cometeu? Vamos fazer o seguinte? Eu n\u00e3o voto no Gabeira* e voc\u00ea n\u00e3o vota no Feliciano! T\u00e1 legal, n\u00e3o t\u00e1?<\/p>\n<p>*ha ha, ot\u00e1rios, eu n\u00e3o votaria nele mesmo!<\/p>\n<p>Mas \u00e9 claro, essa discuss\u00e3o n\u00e3o funciona na vida real. Eu sempre achei que fosse pela teimosia das pessoas&#8230; que elas s\u00f3 queriam ver o lado delas e deixar os outros se explodirem. Tem disso, \u00e9 claro, mas&#8230; tem mais a\u00ed. O meio-termo \u00e9 complicado, ele exige muito esfor\u00e7o para ser alcan\u00e7ado. Complicado entender o seu lado e ainda tentar entender o outro para encontrar pontos comuns.<\/p>\n<p>Ali\u00e1s, quase her\u00e9tico considerar o outro lado. As pessoas parecem ter medo das ideias que est\u00e3o em sua cabe\u00e7a, como se fossem meras testemunhas de suas sinapses. Parece que pensar que nem o outro \u00e9 sin\u00f4nimo de ser o outro! Como se essas ideias subversivas ficassem encubadas na cabe\u00e7a e fossem eclodir a qualquer minuto.<\/p>\n<p>O meio-termo \u00e9 chato, trabalhoso e ainda por cima lida com o estigma de fazer uma pessoa &#8216;trocar de time&#8217;. A gente passa muito tempo acreditando que o mundo \u00e9 o conjunto de vis\u00f5es das pessoas, como se nossas diverg\u00eancias fossem algo muito racionalizado e intencional, mas quanto mais voc\u00ea presta aten\u00e7\u00e3o, mais parece ser sobre as leis da f\u00edsica.<\/p>\n<p>E n\u00e3o, n\u00e3o estou atacando de determinismo. \u00c9 que a f\u00edsica \u00e9 baseada na lei do menor esfor\u00e7o: o que \u00e9 mais prov\u00e1vel por simplicidade tende a acontecer sempre do mesmo jeito. A bola solta rola ladeira abaixo porque daria muito mais trabalho rolar ladeira acima! N\u00e3o \u00e9 como se ela fosse proibida pela natureza de fazer isso, \u00e9 que o mais f\u00e1cil VAI acontecer primeiro que o mais dif\u00edcil.<\/p>\n<p>O meio-termo \u00e9 a bola rolando ladeira acima. Na conjuntura geral das coisas \u00e9 t\u00e3o mais simples que as pessoas fiquem brigando por qualquer assunto do que tentando fazer concess\u00f5es para chegar num ponto comum que \u00e9 evidente que vamos passar a maior parte do tempo lidando com discuss\u00f5es infrut\u00edferas entre lados desejosos apenas de uma vit\u00f3ria absoluta.<\/p>\n<p>Por algum motivo, o c\u00e9rebro parece trabalhar menos quando se est\u00e1 muito seguro de uma posi\u00e7\u00e3o. O ser humano tem em si a incr\u00edvel capacidade de subverter o \u00f3bvio e colocar mais esfor\u00e7o do que deveria em alguma coisa, mas isso n\u00e3o quer dizer que essa seja sua primeira escolha. N\u00e3o fomos feitos para sair desperdi\u00e7ando energia por a\u00ed, o organismo toma atalhos quando esses lhe s\u00e3o apresentados.<\/p>\n<p>E mais, ideias mais intensas mexem mais com nosso delicado equil\u00edbrio mental. Algumas delas nos fazem sentir prazer, seguran\u00e7a, \u00e2nimo&#8230; tudo isso de acordo com algumas regras escritas direto nos nossos c\u00f3digos gen\u00e9ticos. Opini\u00f5es extremas devem ser mais econ\u00f4micas e mais recompensadoras. Afinal, do ponto de vista do neur\u00f4nio \u00e9 tudo mais matem\u00e1tico: est\u00edmulo 1 dispara resposta 2, est\u00edmulo 3 dispara resposta 4&#8230; o sentido se faz no todo.<\/p>\n<p>Talvez um dia tenhamos at\u00e9 uma formula matem\u00e1tica quase perfeita para descobrir quantas pessoas de uma popula\u00e7\u00e3o v\u00e3o radicalizar e quantas v\u00e3o contemporizar. Tem todo o jeito de ser menos subjetivo do que normalmente acreditamos. Mas ainda sim influi demais no mundo. O meio-termo parece fora de moda num mundo onde se preza tanto pela velocidade da informa\u00e7\u00e3o. As pessoas s\u00e3o exigidas em suas opini\u00f5es constantemente, e todo mundo tem uma. Qual a tend\u00eancia &#8216;f\u00edsica&#8217; disso? Muitos extremos e poucos meios termos. A bola s\u00f3 vai subir a ladeira se algu\u00e9m estiver disposto a ir at\u00e9 ela e fazer alguma coisa&#8230; parece que n\u00e3o temos mais tempo para isso.<\/p>\n<p>A natureza n\u00e3o se importa: ela faz o seu trabalho do jeito mais simples. O resultado estamos vendo, dia ap\u00f3s dia. E n\u00f3s, quando vamos nos esfor\u00e7ar?<\/p>\n<p>E se esse texto pode te servir de algo, que seja a ideia que suas opini\u00f5es mais intensas talvez sejam mais culpa da mat\u00e9ria do que da mente. Estou chegando \u00e0s raias da paran\u00f3ia com isso, mas eu sou um not\u00f3rio desperdi\u00e7ador de energia mental. Talvez voc\u00ea consiga encontrar um meio-termo. Boa sorte.<\/p>\n<h3>Para dizer que agora j\u00e1 acostumou e nem espera conclus\u00e3o, para dizer que o meio-termo desse texto seria med\u00edocre, ou mesmo para dizer que nem tanto ao mar, nem tanto \u00e0 terra: <a href=\"mailto:somir@desfavor.com\">somir@desfavor.com<\/a><\/h3>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O texto de hoje tende a ser chato: j\u00e1 aviso que n\u00e3o vai ter nenhuma opini\u00e3o forte aqui. Nem mesmo um assunto que vai dividir multid\u00f5es. Eu s\u00f3 quero falar sobre o meio-termo. 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