{"id":8072,"date":"2015-03-20T06:00:50","date_gmt":"2015-03-20T09:00:50","guid":{"rendered":"http:\/\/www.desfavor.com\/blog\/?p=8072"},"modified":"2015-03-20T04:57:05","modified_gmt":"2015-03-20T07:57:05","slug":"nocaute","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/2015\/03\/nocaute\/","title":{"rendered":"Nocaute."},"content":{"rendered":"<p>Mat Silva era indiscutivelmente a melhor lutadora de MMA do mundo de todos os tempos. Batizada como Matilda, Mat havia vencido suas \u00faltimas vinte disputas pelo cintur\u00e3o de pesos-galos femininos, e n\u00e3o parecia haver mais nenhuma atleta capaz de fazer frente aos seus talentos. O que come\u00e7ava a diminuir o interesse da m\u00eddia e patrocinadores para sua categorias. Era chato ver a mesma luta r\u00e1pida e desigual seguidas vezes&#8230; foi quando tiveram a ideia: Mat lutaria contra um homem.<!--more--><\/p>\n<p>O mundo das artes marciais entrou em guerra civil instantaneamente. Machistas, feministas e todos os &#8220;istas&#8221; poss\u00edveis e imagin\u00e1rios discutiam acaloradamente na internet: para uns um absurdo, para outros uma bem-vinda novidade. Tiveram que criar uma nova liga especial s\u00f3 para essa luta, e s\u00f3 conseguiram aprova\u00e7\u00e3o para realizar o evento num para\u00edso fiscal caribenho, mais afeito aos d\u00f3lares do que a quaisquer preocupa\u00e7\u00f5es com as condi\u00e7\u00f5es de sa\u00fade dos lutadores.<\/p>\n<p>Ah, j\u00e1 ia me esquecendo: sou importante nessa hist\u00f3ria, pelo menos como coadjuvante. Mat era a grande estrela, eu, o desafiante. Na \u00e9poca eu me chamava Paulo &#8220;Pancad\u00e3o&#8221; Rodrigues. O apelido n\u00e3o fazia muito meu gosto, mas meu treinador achava o m\u00e1ximo. A quest\u00e3o \u00e9 que eu j\u00e1 tinha conseguido duas vit\u00f3rias nas minhas primeiras lutas e muitos viam potencial em mim. E como eu pesava e media exatamente o mesmo que Mat&#8230; nunca fui muito grande&#8230; um produtor americano entrou em contato com meu time.<\/p>\n<p>Mas \u00e9 claro que eu recusei na hora. Eu tinha uma carreira em frente e muitas contas para pagar&#8230; imagina s\u00f3 lutar contra uma mulher? Se eu ganhasse, seria conhecido como o cara que bateu numa mulher, se eu perdesse, seria conhecido como o cara que apanhou de uma mulher! N\u00e3o tinha nada para mim naquilo. Quer dizer, nada al\u00e9m de alguns milh\u00f5es de d\u00f3lares.<\/p>\n<p>E eu disse que tinha muitas contas para pagar, n\u00e3o? Minha fam\u00edlia inteira dependia de mim, as bolsas que eu ganhava n\u00e3o resolviam muita coisa. Passei algum tempo remoendo a ideia, escutando gente com opini\u00f5es fort\u00edssimas seja de um lado, seja do outro. Um amigo de treinamento at\u00e9 me disse que eu tinha ganhado na loteria: era s\u00f3 dar um sopapo na menina que ela ca\u00eda e eu estava rico. N\u00e3o precisava nem estragar a mo\u00e7a, que c\u00e1 entre n\u00f3s, n\u00e3o era de se jogar fora.<\/p>\n<p>O engra\u00e7ado \u00e9 que minha m\u00e3e foi uma das que mais me incentivou: segundo ela, a menina sabia o que estava fazendo. Muitas mulheres com as quais eu conversei falavam coisas parecidas. Uma mo\u00e7a que treinava na academia falou grosso comigo dizendo que eu tinha a obriga\u00e7\u00e3o de lutar porque seria sacanagem negar a luta contra Mat s\u00f3 porque ela era mulher. Disse que eu estaria lutando pela igualdade.<\/p>\n<p>Mas c\u00e1 entre n\u00f3s, foram os milh\u00f5es de d\u00f3lares que me fizeram aceitar. Nenhuma TV aceitou mostrar, mas o pay-per-view na internet vendeu tanto que minha bolsa j\u00e1 estava quadruplicada antes mesmo de pisar no ringue. E tudo o que eu ganhei, a mo\u00e7a levou dez vezes mais. Justo, eu era um Z\u00e9 Ningu\u00e9m, ela era a rainha das artes marciais.<\/p>\n<p>Bom, era s\u00f3 bater o peso e partir para a luta! Minha vida j\u00e1 estava ganha&#8230; n\u00e3o precisaria mais trabalhar depois disso. Meus pais teriam uma casa nova, eu viveria de renda&#8230; mas ainda era dif\u00edcil lidar com a ideia que eu ia bater numa mulher. Mas os produtores da luta foram facilitando as coisas para mim&#8230; eram bons de papo, eles.<\/p>\n<p>O acordo era o seguinte: eu ia dar alguns sopapos nela, mas nada de muito violento, e de prefer\u00eancia n\u00e3o na cara. A cara dela vendia quase qualquer coisa se estampada num p\u00f4ster! Tinha toda uma &#8220;etiqueta&#8221; de n\u00e3o pegar nos peitos dela e n\u00e3o ficar em posi\u00e7\u00f5es muito&#8230; sexuais&#8230; para n\u00e3o criar nenhuma imagem vexat\u00f3ria para a garota. Eu tinha que manter a luta em p\u00e9 e segurar pelo menos um round inteiro.<\/p>\n<p>L\u00e1 pelo segundo round, eu tentaria uma imobiliza\u00e7\u00e3o &#8220;respeitosa&#8221; ou daria uma sequ\u00eancia um pouco mais forte. A ju\u00edza da luta estava treinada para fechar antes mesmo de Mat ficar tonta para evitar danos desnecess\u00e1rios. At\u00e9 onde eu sei, a \u00fanica que n\u00e3o sabia de nada era justamente minha advers\u00e1ria. Me avisaram que ela viria com tudo, que estava treinando como nunca&#8230; tamb\u00e9m n\u00e3o era para eu ficar de guarda aberta feito um tonto na frente dela: todo mundo j\u00e1 desconfiava de uma marmelada com a vit\u00f3ria dela.<\/p>\n<p>Eu tinha que ser um ator perfeito. Ganhar a luta dando a impress\u00e3o que foi dif\u00edcil e dar uma abertura para uma revanche futura. N\u00e3o ficaria feio para ela perder para um homem dando trabalho! E ningu\u00e9m ia desconfiar. Um dos produtores at\u00e9 disse que se eu fosse perfeito, far\u00edamos a pr\u00f3xima luta ainda mais lucrativa e nessa sim eu perderia. As quantias eram incr\u00edveis! E eu imaginei o roteiro de um filme na minha cabe\u00e7a&#8230; n\u00e3o ligava mais de ser um ator, at\u00e9 me convenci que as mulheres do mundo todo se sentiriam muito mais confiantes depois da revanche. Seria realista! Mat treinaria mais ainda e a\u00ed sim conseguiria o imposs\u00edvel! Imagina o exemplo para as meninas?<\/p>\n<p>Mas veio a luta. Batemos o peso, n\u00f3s dois. Ela me deu uma encarada feia para as fotos, eu fiz o mesmo. As fotos ficaram \u00f3timas! Na noite seguinte, o gin\u00e1sio estava cheio e super produzido! Era s\u00f3 para a internet, mas tinham umas cem c\u00e2meras por todos os lados. O mundo todo estava vendo ou acompanhando de alguma forma. Eu entrei primeiro, escolhi um rap bem pesad\u00e3o para botar um clima de vil\u00e3o. Todo mundo me vaiou.<\/p>\n<p>Ela entrou com uma m\u00fasica pop, pulando e dan\u00e7ando como sempre fazia. O povo adorou. O anunciador teve que pedir sil\u00eancio umas tr\u00eas vezes para pararem de aplaudir, assoviar e berrar o nome dela. Tocamos os punhos, ela disse que ia me matar! Eu quase ri, mas lembrei do script: n\u00e3o podia fazer pouco dela. Tinha que ganhar meio apertado e dar impress\u00e3o que tinha chance de fazer uma nova luta.<\/p>\n<p>Gongo. Primeiro round. Ela veio para cima de mim feito um raio. Eu vi a abertura para enfiar o primeiro golpe, mas vacilei. Ela n\u00e3o. Mandou um direto no meu queixo que me fez bambear. Logo me protegi e cambaleei para o outro lado do ringue. Ela me seguiu e tentou um chute voador. Passou muito perto. A plat\u00e9ia estava ensandecida! Dei um soco meio fraco nas costelas dela, que ela nem fez men\u00e7\u00e3o de sentir. Trocamos alguns socos, os dela bem mais fortes que os meus, mas a maioria acertando a guarda ou cruzando os ares em v\u00e3o. Ah, voc\u00eas viram a luta, quem n\u00e3o viu? Fomos at\u00e9 o final do primeiro round com ela acertando mais golpes do que eu. Tudo bem, esse era o script.<\/p>\n<p>Segundo round: a luta ficou meio estudada no primeiro minuto, eu j\u00e1 estava mais atencioso com os avan\u00e7os dela. Estava mais ou menos na hora de come\u00e7ar a minha parte. Corri para derrub\u00e1-la e aplicar uma finaliza\u00e7\u00e3o. J\u00e1 tinha sentido que ela n\u00e3o tinha for\u00e7a para me encarar naquela situa\u00e7\u00e3o, era s\u00f3 entrar e fazer o b\u00e1sico na base da grosseria mesmo! Muito melhor do que bater naquele rostinho famoso. Bom, eu corri. Mas ela leu perfeitamente meu movimento e acertou aquele soco&#8230; hist\u00f3rico&#8230;<\/p>\n<p>A imagem mais compartilhada da hist\u00f3ria da internet. E o meu rosto sendo amassado pelo punho de uma mulher nela. Eu ainda n\u00e3o lembro muito bem de sair do ringue, mas o v\u00eddeo diz que eu at\u00e9 parabenizei ela, escorado por duas pessoas. Para falar a verdade, a minha primeira mem\u00f3ria mesmo depois de levar o soco foi a da conversa com um m\u00e9dico me perguntando seguidas vezes se eu lembrava o meu nome.<\/p>\n<p>Na hora eu lembrei. Mas hoje em dia eu costumo esquecer&#8230; desafiantes desconhecidos n\u00e3o ganham direito a revanches e eu virei not\u00edcia velha alguns meses depois. N\u00e3o havia mais muito o que espremer do velho &#8220;Pancad\u00e3o&#8221;, aquele que apanhou de uma mulher. Muita gente ainda diz que foi tudo arranjado e duvida que fui a nocaute de verdade, mas o fato hist\u00f3rico \u00e9 saboroso demais para ser esquecido.<\/p>\n<p>Mat lutou contra homens duas vezes mais depois disso. Outro pobre coitado foi colocado em seu caminho numa luta lucrativa. Ela venceu por pontos dessa vez&#8230; n\u00e3o foi un\u00e2nime, mas at\u00e9 que foi convincente. Ela saiu bem machucada. Decidiram que era o bastante e ela voltou a lutar contra mulheres. Aposentou-se invicta dois anos depois.<\/p>\n<p>Mas eu disse que ela lutou contra homens mais duas vezes, n\u00e3o? Ela me encontrou alguns meses atr\u00e1s. Disse que ficou sabendo da arma\u00e7\u00e3o dos produtores e que n\u00e3o ia sossegar at\u00e9 lutar comigo de novo, mas dessa vez sem nenhum show. Eu e ela numa academia de boxe da regi\u00e3o, sem mais nenhuma viva alma para presenciar al\u00e9m de um m\u00e9dico de confian\u00e7a. Tr\u00eas rounds de cinco minutos.<\/p>\n<p>Aceitei. Ganhei a luta no segundo round com uma finaliza\u00e7\u00e3o. Vinte e duas vit\u00f3rias e uma derrota. Ainda sim um cartel impressionante! Melhor que o meu. Antes dela sair, eu perguntei se ela queria sair para tomar alguma coisa um dia desses&#8230; ela olhou para a minha cara com uma express\u00e3o debochada, e bufou um sorriso de desd\u00e9m.<\/p>\n<p>E foi-se embora sem dizer mais nada.<\/p>\n<p>3&#8230; 2&#8230; 1&#8230; FIM!<\/p>\n<h3>Para dizer que esperava tanto uma reviravolta que est\u00e1 surpreso, para dizer que pagaria para ver uma luta dessas, ou mesmo para dizer que o texto \u00e9 &#8220;ista&#8221;: <a href=\"mailto:somir@desfavor.com\">somir@desfavor.com<\/a><\/h3>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mat Silva era indiscutivelmente a melhor lutadora de MMA do mundo de todos os tempos. Batizada como Matilda, Mat havia vencido suas \u00faltimas vinte disputas pelo cintur\u00e3o de pesos-galos femininos, e n\u00e3o parecia haver mais nenhuma atleta capaz de fazer frente aos seus talentos. 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