{"id":8130,"date":"2015-04-03T07:52:42","date_gmt":"2015-04-03T10:52:42","guid":{"rendered":"http:\/\/www.desfavor.com\/blog\/?p=8130"},"modified":"2015-04-03T07:53:26","modified_gmt":"2015-04-03T10:53:26","slug":"a-carta","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/2015\/04\/a-carta\/","title":{"rendered":"A carta."},"content":{"rendered":"<p><strong>Transcri\u00e7\u00e3o do interrogat\u00f3rio de Jos\u00e9 Alves Pereira: 23:18 &#8211; 02\/04\/2015<\/strong><\/p>\n<p>INVESTIGADOR: Comece do come\u00e7o. Por que voc\u00ea estava com o Valter Silva naquela rua \u00e0s 03:42 da manh\u00e3?<br \/>\nJOS\u00c9 ALVES: N\u00e3o me lembro disso. Sou eu na filmagem?<!--more--><br \/>\nINVESTIGADOR: Voc\u00ea conhecia a v\u00edtima?<br \/>\nJOS\u00c9 ALVES: Conheci alguns dias antes, numa investiga\u00e7\u00e3o para uma recupera\u00e7\u00e3o. Conversamos algumas vezes sobre um tal de&#8230; de&#8230; eu juro que sei o nome&#8230; o nome era&#8230; ele tinha uma&#8230; um&#8230; eu&#8230; eu n\u00e3o lembro.<br \/>\nINVESTIGADOR: Voc\u00ea n\u00e3o est\u00e1 se ajudando.<br \/>\nJOS\u00c9 ALVES: Eu n\u00e3o sei dizer&#8230; eu posso escrever. Eu posso escrever?<br \/>\nINVESTIGADOR: Tudo bem.<\/p>\n<p><strong>Relat\u00f3rio escrito de Jos\u00e9 Alves Pereira: 23:52 &#8211; 02\/04\/2015<\/strong><\/p>\n<p>Eu trabalho com recupera\u00e7\u00f5es amig\u00e1veis, como j\u00e1 disse. Nada de ilegal no meu ramo de atua\u00e7\u00e3o&#8230; eu atendo clientes que precisam reaver itens que n\u00e3o foram pagos por seus compradores. Desde rel\u00f3gios at\u00e9 avi\u00f5es, eu j\u00e1 recuperei de tudo um pouco. Mas o caso que interessa voc\u00eas \u00e9 sobre a carta, n\u00e3o \u00e9 mesmo?<\/p>\n<p>Bom, fui contratado pelo senhor Antunes (se \u00e9 que esse \u00e9 o nome dele, foi o que ele me disse) para recuperar uma carta que ele tinha vendido para um tal de Domingos. N\u00e3o sei muito porque n\u00e3o \u00e9 boa pr\u00e1tica no meu neg\u00f3cio ficar enchendo os clientes de perguntas. Eles querem de volta, eu tento o poss\u00edvel dentro da lei para conseguir.<\/p>\n<p>E a \u00fanica informa\u00e7\u00e3o que eu tinha era um endere\u00e7o. Bairro antigo, central, mais famoso hoje em dia pelos viciados nas ruas do que pela rica hist\u00f3ria. O lugar eu descobri ser uma pens\u00e3o, um pr\u00e9dio de esquina caindo aos peda\u00e7os e frequentado por todo o tipo de sujeitos estranhos. Fiz o meu trabalho inicial de investiga\u00e7\u00e3o e ouvi de um dos locais que havia sim um Domingos por l\u00e1, mas ningu\u00e9m o via h\u00e1 semanas. A dona da pens\u00e3o, depois da persuasiva voz do suborno, acabou me revelando que ele tinha pago por tr\u00eas meses assim que chegou.<\/p>\n<p>Mas nem sinal dele. Sabia qual o andar e o quarto, mas esperei mais alguns dias rodeando o local antes de tentar qualquer outra coisa. Nesse meio tempo, acabei ganhando a confian\u00e7a de um dos moradores. Um jovem consumido pelas drogas, mas consideravelmente esperto em seus momentos de lucidez. O nome dele era Valter. Valter me contou que havia visto Domingos h\u00e1 algum tempo atr\u00e1s entrando na pens\u00e3o pela madrugada. Disse que ele carregava uma grande sacola de papel manchada de sangue. Podia ser algo problem\u00e1tico, podia ser nada. Eu n\u00e3o achei ter motivos para avisar a pol\u00edcia naquela \u00e9poca.<\/p>\n<p>Mas Domingos continuava ausente. E pelo o que eu entendi, voc\u00eas me disseram v\u00e1rias vezes que eu n\u00e3o poderia ser punido por nada que escrevesse aqui, certo? \u00c0s vezes n\u00e3o d\u00e1 para ser totalmente obediente \u00e0 lei nesse neg\u00f3cio: tive que dar uma espiada no quarto de Domingos. Foi f\u00e1cil abrir aquela fechadura antiga, ainda mais no meio da noite sem ningu\u00e9m para bisbilhotar. A primeira coisa que notei ao abrir a porta foi um cheiro podre. N\u00e3o era muito forte, mas com certeza incomodava \u00e0s narinas.<\/p>\n<p>O quarto tinha uma configura\u00e7\u00e3o estranha dos m\u00f3veis. Parecia tudo empurrado em dire\u00e7\u00e3o \u00e0s paredes, muitos empilhados. No ch\u00e3o, alguns rastros vermelhos que eu logo presumi serem sangue. No centro do quarto, s\u00edmbolos estranhos desenhados em giz, se era algo sat\u00e2nico algum especialista vai saber melhor do que eu. Os s\u00edmbolos formavam um c\u00edrculo ao redor de uma&#8230; carta. Um envelope amarelado, aparentemente selado com cera, mas j\u00e1 aberto. A carta estava saindo um pouco de dentro.<\/p>\n<p>Minha primeira rea\u00e7\u00e3o foi acelerar o passo para peg\u00e1-la. Tinha que ser aquela que fui contratado para reaver! Mas quanto mais me aproximava, mais o cheiro incomodava. Meu est\u00f4mago embrulhou&#8230; e o mais estranho era o frio. S\u00e9rio, a cada passo a temperatura parecia cair alguns graus. Quando j\u00e1 estava em cima daqueles s\u00edmbolos, sentia-me dentro de um freezer! Vacilei um pouco, mas imaginei que estava s\u00f3 impressionado com o que parecia ser um ritual como tanto vi em filmes de terror.<\/p>\n<p>Fui at\u00e9 a carta, minha m\u00e3o endurecida pelo frio. N\u00e3o tive dificuldades de retir\u00e1-la dali, mas logo em seguida eu pareci perder todo o controle sobre minhas m\u00e3os: levei-as \u00e0 altura do meus olhos e desvendei a carta de dentro do envelope. Essa nem era a minha vontade! Saber o que estava escrito ali feria a \u00e9tica do meu trabalho.<\/p>\n<p>Mas de nada adiantou ficar naquele dilema moral, revelei a carta e pus-me a l\u00ea-la ali mesmo. Como eu j\u00e1 disse, eu tenho a mem\u00f3ria de ver a carta com algo escrito, mas quanto mais eu me concentro, menos n\u00edtido fica o seu conte\u00fado. N\u00e3o tenho a menor ideia do que estivesse escrito ali, mas sei, de verdade, que eu a li. As mem\u00f3rias ficam confusas depois disso, s\u00f3 me lembro mesmo de estar de volta para fora do c\u00edrculo de s\u00edmbolos, sentindo aquele cheiro ruim. E sim, como eu disse, j\u00e1 era de manh\u00e3.<\/p>\n<p>Atordoado pelo lapso de mem\u00f3ria, resolvi sair dali. Voltei para casa e dormi um sono profundo at\u00e9 a noite. Ligando a TV, eu vi a not\u00edcia sobre o rapaz encontrado morto naquele mesmo bairro, e quando vi que o nome dele era Valter e a foto colocada na tela sendo do mesmo Valter que eu conheci na pens\u00e3o, entrei em p\u00e2nico. Aquela situa\u00e7\u00e3o estranha com a carta, uma noite esquecida e um conhecido morto logo em sequ\u00eancia? Claro que eu comecei a desconfiar se n\u00e3o tinha algo a ver com isso.<\/p>\n<p>Pelo o que voc\u00eas me disseram, uma loja na vizinhan\u00e7a tinha uma c\u00e2mera que me filmou empurrando o Valter rua abaixo umas duas horas depois do que eu lembro de ter lido a carta. Foi assim que voc\u00eas me acharam, n\u00e3o? Eu juro que n\u00e3o sei o que aconteceu, j\u00e1 colaborei com as digitais, com o DNA, j\u00e1 entreguei a roupa que estava usando, j\u00e1 passei todas as informa\u00e7\u00f5es que tenho. Eu estou fazendo tudo o que posso para ajudar voc\u00eas a solucionar esse caso, tenho certeza que eu n\u00e3o sou assassino, muito menos no tipo de arrancar \u00f3rg\u00e3os e drenar o sangue de uma pessoa inocente. Se eu fosse voc\u00eas, eu procuraria pelo Domingos.<\/p>\n<p>E \u00e9 isso o que eu sei at\u00e9 agora. N\u00e3o sei mais o que escrever. Minha mente est\u00e1 ficando confusa&#8230;<\/p>\n<p>A palavra deve ficar viva<br \/>\nUm sacrif\u00edcio de sangue<br \/>\nPara a palavra renascer<br \/>\nUma noite a mais<\/p>\n<p><em>FIM<\/em><\/p>\n<h3>Para dizer que n\u00e3o entendeu e n\u00e3o gostou, para dizer que entendeu e n\u00e3o gostou, ou mesmo para dizer que agora vai ter que matar algu\u00e9m: <a href=\"mailto:somir@desfavor.com\">somir@desfavor.com<\/a><\/h3>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Transcri\u00e7\u00e3o do interrogat\u00f3rio de Jos\u00e9 Alves Pereira: 23:18 &#8211; 02\/04\/2015 INVESTIGADOR: Comece do come\u00e7o. Por que voc\u00ea estava com o Valter Silva naquela rua \u00e0s 03:42 da manh\u00e3? JOS\u00c9 ALVES: N\u00e3o me lembro disso. 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