{"id":8289,"date":"2015-05-13T06:00:57","date_gmt":"2015-05-13T09:00:57","guid":{"rendered":"http:\/\/www.desfavor.com\/blog\/?p=8289"},"modified":"2015-05-13T00:33:14","modified_gmt":"2015-05-13T03:33:14","slug":"filhos-do-atomo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/2015\/05\/filhos-do-atomo\/","title":{"rendered":"Filhos do \u00e1tomo."},"content":{"rendered":"<p>Normalmente quando eu tenho uma discuss\u00e3o um pouco mais &#8220;elevada&#8221; com pessoas religiosas, eu escuto perguntas do tipo &#8220;Ent\u00e3o voc\u00ea acha que tudo isso aqui \u00e9 s\u00f3 um acidente?&#8221;. E por tudo, querem dizer tudo mesmo: universo, vida, pensamento abstrato&#8230; Lembro-me de responder que sim para a maioria delas, afinal, eu n\u00e3o acredito num criador. Mas, pensando bem&#8230; est\u00e1 na hora de mudar essa resposta. N\u00e3o, isso tudo aqui n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 um acidente.<!--more--><\/p>\n<p>Tem uma frase que eu adoro sobre o Universo: &#8220;Dado tempo suficiente, o hidrog\u00eanio vai come\u00e7ar a se perguntar de onde veio e para onde vai&#8221;. At\u00e9 onde eu sei, \u00e9 atribu\u00edda ao astr\u00f4nomo brit\u00e2nico Edward R. Harrison. Adoro essa frase porque ela d\u00e1 um senso de prop\u00f3sito \u00e0 exist\u00eancia sem nos tornar pe\u00f5es de um confuso jogo c\u00f3smico. Para quem \u00e9 horr\u00edvel em qu\u00edmica, o hidrog\u00eanio \u00e9 o \u00e1tomo mais simples e leve que existe: um n\u00eautron, um pr\u00f3ton, um el\u00e9tron.<\/p>\n<p>Nove entre dez \u00e1tomos do Universo s\u00e3o hidrog\u00eanio. Ele corresponde sozinho a tr\u00eas quartos de toda a mat\u00e9ria &#8216;normal&#8217; que existe. Basicamente todo o resto \u00e9&#8230; bom, \u00e9 h\u00e9lio. O segundo elemento mais leve. A\u00ed sim, sobram uns dois por cento com todos os outros elementos. Toda a mat\u00e9ria vis\u00edvel do Universo j\u00e1 pouco do total, e desse pouco, somos resultados de ainda mais pouco.<\/p>\n<p>Quando a gravidade concentra muito hidrog\u00eanio em algum lugar, s\u00f3 ent\u00e3o come\u00e7amos a ver a produ\u00e7\u00e3o de outros \u00e1tomos. Basicamente tudo ao seu redor foi cozido na fornalha de uma estrela antes de ser servido. N\u00e3o devo estar contando nenhuma novidade para voc\u00eas a essa altura do campeonato (pelo menos espero que n\u00e3o, porque isso \u00e9 meio obrigat\u00f3rio de saber), mas quanto mais voc\u00ea pensa no assunto, menos aleat\u00f3rio parece.<\/p>\n<p>Confesso que a ideia de mero acidente tamb\u00e9m me deixava confuso quando discutia com pessoas que enxergavam prop\u00f3sito consciente em nossa exist\u00eancia. Parece t\u00e3o&#8230; vazio. N\u00e3o \u00e9 intuitivo para c\u00e9rebros t\u00e3o acostumados com o conceito de causa e consequ\u00eancia. Se voc\u00ea v\u00ea uma bola de futebol voando na sua frente, a tend\u00eancia \u00e9 que voc\u00ea procure por quem a tenha chutado! O trabalho da f\u00edsica na explica\u00e7\u00e3o dos fen\u00f4menos que vemos \u00e9 excelente, mas n\u00e3o \u00e9 como se n\u00e3o entend\u00eassemos o que estava acontecendo antes disso. Quase sempre queremos saber o porqu\u00ea de algo.<\/p>\n<p>Essa parte de querer saber \u00e9 razoavelmente f\u00e1cil de entender. A parte de criar um &#8220;humano gigante&#8221; para fazer tudo isso, nem tanto. O conceito de divindade deve ser t\u00e3o interessante para tanta gente porque gera prop\u00f3sito e causa para tudo o que nos acontece sem necessariamente confrontar o que nossos c\u00e9rebros acham l\u00f3gico. O criador responde quem chutou aquela bola! Ningu\u00e9m viu, mas se a bola est\u00e1 voando, presume-se&#8230; ali\u00e1s, \u00e9 justamente o que fazemos na vers\u00e3o mais mundana desse exemplo. Presumimos.<\/p>\n<p>Tem coisas que a gente nunca pensa direito at\u00e9 parar em cima do assunto por algum tempo: o conceito do criador n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o maluco assim. Claro, depende muito de n\u00e3o conhecer o suficiente sobre a ci\u00eancia j\u00e1 dispon\u00edvel, mas dentro de um conhecimento limitado sobre a ci\u00eancia moderna&#8230; \u00e9, tem sua l\u00f3gica. Se formos pensar mesmo, quem primeiro sugeriu que o Sol girava ao redor da Terra estava tirando leite de pedra com o conhecimento que tinha na \u00e9poca. Estava errado, sim. Mas n\u00e3o deixa de ser impressionante. S\u00f3 o conceito de girar ao redor j\u00e1 era um passo incr\u00edvel na dire\u00e7\u00e3o certa.<\/p>\n<p>O conceito de criador do Universo tamb\u00e9m tem algo de brilhante: um come\u00e7o externo \u00e0 nossa pr\u00f3pria exist\u00eancia. \u00c9 uma abstra\u00e7\u00e3o interessante que aparentemente animal algum consegue conceber. Mas mais ou menos como na pol\u00eamica entre Geo e Heliocentrismo, s\u00f3 conseguimos avan\u00e7ar mesmo esse conhecimento quando nos tiramos do centro de tudo. E \u00e9 aqui que eu volto ao hidrog\u00eanio.<\/p>\n<p>Um \u00e1tomo nem \u00e9 a menor subdivis\u00e3o da mat\u00e9ria, mas \u00e9 um ponto suficientemente bem posicionado entre o concreto e o abstrato. E \u00e9 por isso que eu estou me concentrando nele&#8230; \u00e9 mais ou menos como se ele fosse o ponto divisor entre f\u00edsica qu\u00e2ntica e tradicional. Provavelmente nosso limite &#8216;pr\u00e1tico&#8217; de compreens\u00e3o, quanto mais longe vamos dele, mais complexas as coisas ficam (para ambos os lados, o maior e o menor). O hidrog\u00eanio \u00e9 imensamente abundante no Universo, e tudo o que conhecemos \u00e9 uma varia\u00e7\u00e3o dele.<\/p>\n<p>E se nosso senso de prop\u00f3sito mudasse para o hidrog\u00eanio? Ele nos criou para que pud\u00e9ssemos entend\u00ea-lo. O hidrog\u00eanio precisava de ferramentas, e n\u00f3s somos excelentes para esse trabalho. Esse &#8216;deus&#8217; criou as estrelas, que por sua vez criaram os elementos mais pesados, que por sua vez criaram planetas, que por sua vez criaram a vida&#8230; tudo com processos que apesar de ainda termos muito para compreender totalmente, n\u00e3o parecem nem um pouco misteriosos. Causa e consequ\u00eancia. Algu\u00e9m chutou aquela bola!<\/p>\n<p>O Universo \u00e9 incomensur\u00e1vel, mas \u00e9 bem simples. Seguindo tudo o que j\u00e1 aprendemos sobre ele, presume-se que eventualmente tenhamos s\u00f3 uma part\u00edcula fundamental e uma lei geral. Um hidrog\u00eanio universal, por assim dizer. Quando chegarmos nesse ponto (se chegarmos) vamos ter respondido tudo &#8216;em tese&#8217;. Na pr\u00e1tica pode se provar bem dif\u00edcil fazer o caminho todo numa simula\u00e7\u00e3o e prever o futuro com perfei\u00e7\u00e3o&#8230; o Universo n\u00e3o deixa de ser uma grande m\u00e1quina que j\u00e1 est\u00e1 fazendo essa simula\u00e7\u00e3o (m\u00e1quinas consomem energia para fazer um trabalho e desligam quando a energia acaba &#8211; o Universo idem).<\/p>\n<p>Mas em tese, teremos achado a resposta para o motivo de tudo acontecer. Provavelmente o Big Bang era inevit\u00e1vel, uma propriedade simples da exist\u00eancia. S\u00f3 que eu sei o que voc\u00ea est\u00e1 pensando: faltou responde o porqu\u00ea. Por que come\u00e7ou? Quem chutou a bola? E \u00e9 aqui que eu argumento sobre mudar a perspectiva: ao inv\u00e9s de usar a da vida, usar a do hidrog\u00eanio. Somos uma rea\u00e7\u00e3o. Uma configura\u00e7\u00e3o \u00fanica da mat\u00e9ria causada por calor aplicado nas horas certas. Mas mesmo assim, o caminho inevit\u00e1vel do hidrog\u00eanio num Universo com as leis da f\u00edsica vigentes.<\/p>\n<p>Com as condi\u00e7\u00f5es desenvolvidas nessa rocha flutuante, o hidrog\u00eanio come\u00e7ou a pensar. E o caminho entre um \u00e1tomo e uma consci\u00eancia avan\u00e7a numa velocidade progressivamente mais r\u00e1pida. Na s\u00e9rie Cosmos (a nova com o Neil deGrasse Tyson) tem uma \u00f3tima analogia dessa velocidade toda: se o Universo tivesse um ano de idade, n\u00f3s ter\u00edamos surgido no \u00faltimo minuto do \u00faltimo dia. E h\u00e1 menos de um segundo atr\u00e1s, pisamos na Lua. O hidrog\u00eanio achou um jeito de acelerar absurdamente sua sede por prop\u00f3sito. Do que adianta conhecer todo o Universo se voc\u00ea n\u00e3o o entende?<\/p>\n<p>Eu acredito que somos um caminho, n\u00e3o um destino. O hidrog\u00eanio n\u00e3o pode se replicar. Todo ele foi criado em mais ou menos tr\u00eas minutos algum tempo depois do Big Bang. E nunca mais. E se o hidrog\u00eanio estivesse na verdade querendo se replicar? S\u00f3 uma intelig\u00eancia incrivelmente avan\u00e7ada conseguiria replicar o processo de cria\u00e7\u00e3o do hidrog\u00eanio, provavelmente atrav\u00e9s de um outro Big Bang. O Universo nos passou uma tocha. Ele quer deixar descendentes antes de morrer. Porque ele vai morrer.<\/p>\n<p>A vida n\u00e3o deixa de ser mais uma propriedade da mat\u00e9ria\/energia. Tudo o que nos faz vivos n\u00e3o \u00e9 vivo. Somos hidrog\u00eanio. Uma combina\u00e7\u00e3o incr\u00edvel de in\u00fameras possibilidades evolutivas dele, mas ainda somos hidrog\u00eanio. E \u00e9 claro, o hidrog\u00eanio \u00e9 uma combina\u00e7\u00e3o incr\u00edvel de in\u00fameras possibilidades evolutivas de partes ainda mais b\u00e1sicas. Somos hidrog\u00eanio, mas tamb\u00e9m somos complexidade &#8216;desnecess\u00e1ria&#8217;. A mat\u00e9ria n\u00e3o precisa estar na nossa forma, mas est\u00e1. Muita energia precisou ser gasta para nos montar como somos.<\/p>\n<p>De uma certa forma, somos um esfor\u00e7o do Universo. Uma tarefa que ele est\u00e1 realizando contra todas as probabilidades. Um grito no escuro, desesperado para encontrar mais algu\u00e9m. Nossos \u00f3rg\u00e3os e sentidos s\u00e3o os \u00f3rg\u00e3os e sentidos da pr\u00f3pria exist\u00eancia. Isso tudo n\u00e3o \u00e9 um acidente! A vida tamb\u00e9m n\u00e3o precisa ser complexa do jeito que \u00e9, se vida fosse o \u00fanico objetivo, bact\u00e9rias seriam mais do que suficiente. Mas as bact\u00e9rias trabalharam duro para nos criar. Bilh\u00f5es de anos de muta\u00e7\u00f5es e extin\u00e7\u00f5es para chegar aqui.<\/p>\n<p>Seja qual for a lei fundamental da exist\u00eancia, ela claramente nos permite. N\u00e3o \u00e9 um acidente. Mas&#8230; n\u00e3o \u00e9 consciente tamb\u00e9m. O mais dif\u00edcil de aceitar que n\u00e3o \u00e9 o Sol girando ao redor da Terra \u00e9 o que isso significa: que a resposta n\u00e3o \u00e9 mais o que faz sentido para o observador. Que existe outro ponto de vista privilegiado de onde se pode depreender mais sobre a exist\u00eancia&#8230; e n\u00e3o estamos nele. Acreditar na consci\u00eancia do Universo de acordo com nossos padr\u00f5es (vulgo o humano gigante chutando a bola, vulgo deus) \u00e9 colocar tudo o que existe dentro do confinamento da mente humana. \u00c9 deixar de procurar o ponto de vista privilegiado&#8230;<\/p>\n<p>N\u00f3s somos o caminho da consci\u00eancia do Universo. Ele depende de n\u00f3s para ser vivo. Talvez para encontrar outro e se multiplicar? Os compostos de carbono n\u00e3o est\u00e3o vivos at\u00e9&#8230; estarem. A vida precisa ser constru\u00edda por complexidade. Hidrog\u00eanio por hidrog\u00eanio. O Universo n\u00e3o nos deu a vida, n\u00f3s que vamos dar a vida para ele. N\u00f3s somos a consci\u00eancia, n\u00f3s somos o prop\u00f3sito. N\u00f3s somos o hidrog\u00eanio, n\u00f3s somos o Universo.<\/p>\n<p>Quem criou tudo? N\u00f3s criamos porque precis\u00e1vamos existir. E eu estou falando de todas as formas de vidas conscientes que existem, nesta rocha flutuante ou em outras. O que o hidrog\u00eanio fez, voc\u00ea fez tamb\u00e9m. Sua hist\u00f3ria tem 13.8 bilh\u00f5es de anos e MUITO trabalho para chegar at\u00e9 aqui.<\/p>\n<p>N\u00e3o foi acidente.<\/p>\n<h3>Para dizer que hoje eu estou especialmente confuso, para dizer que ainda prefere ter sido criado para rezar numa igreja, ou mesmo para dizer que eu n\u00e3o sei sobre o que estou falando (pois \u00e9&#8230;): <a href=\"mailto:somir@desfavor.com\">somir@desfavor.com<\/a><\/h3>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Normalmente quando eu tenho uma discuss\u00e3o um pouco mais &#8220;elevada&#8221; com pessoas religiosas, eu escuto perguntas do tipo &#8220;Ent\u00e3o voc\u00ea acha que tudo isso aqui \u00e9 s\u00f3 um acidente?&#8221;. E por tudo, querem dizer tudo mesmo: universo, vida, pensamento abstrato&#8230; Lembro-me de responder que sim para a maioria delas, afinal, eu n\u00e3o acredito num criador. [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":8290,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[37],"tags":[],"class_list":["post-8289","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-somir-surtado"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8289","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=8289"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8289\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media\/8290"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=8289"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=8289"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=8289"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}