{"id":8351,"date":"2015-05-28T06:00:41","date_gmt":"2015-05-28T09:00:41","guid":{"rendered":"http:\/\/www.desfavor.com\/blog\/?p=8351"},"modified":"2015-05-28T03:31:22","modified_gmt":"2015-05-28T06:31:22","slug":"charlie-charlie","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/2015\/05\/charlie-charlie\/","title":{"rendered":"Charlie Charlie"},"content":{"rendered":"<p>Como eu n\u00e3o tenho redes sociais, sempre fico sabendo dessas coisas quando j\u00e1 est\u00e3o muito famosas. O tal do <a href=\"http:\/\/gizmodo.uol.com.br\/a-mais-nova-lenda-urbana-da-internet-e-um-demonio-mexicano-chamado-charlie\/\" target=\"_blank\">desafio do Charlie Charlie<\/a> viralizou, e muita gente se diz conversar com esp\u00edritos mexicanos atrav\u00e9s de um papel e dois l\u00e1pis. Se eu vou desmistificar isso? Claro que n\u00e3o, \u00e9 muito \u00f3bvio o truque (e o mecanismo de acreditar) e acredito que pelo menos aqui estamos todos acima disso. Mas&#8230; e se fosse verdade mesmo?<!--more--><\/p>\n<p>Digo, e se esp\u00edritos de falecidos se comunicassem com as pessoas na frequ\u00eancia que se acredita nisso? Que tipo de babaca voltaria para balan\u00e7ar l\u00e1pis (ou mexer em copos) para o deleite de gente impression\u00e1vel? Sei que meu grau de ceticismo \u00e9 consideravelmente maior que a m\u00e9dia, aposto que muitos de voc\u00eas tem hist\u00f3rias sobre fantasmas e coisas do tipo, mas&#8230; por que n\u00e3o se analisa mais as implica\u00e7\u00f5es pr\u00e1ticas desses contatos?<\/p>\n<p>Pensem comigo: voc\u00ea morreu. Contra toda a l\u00f3gica conhecida que rege nosso Universo, de alguma forma sua consci\u00eancia se manteve. Temos pelo menos duas hip\u00f3teses iniciais: ou voc\u00ea \u00e9 capaz de se comunicar com outras consci\u00eancias desencarnadas ou n\u00e3o \u00e9. Se \u00e9, \u00e9 prov\u00e1vel que exista alguma forma de organiza\u00e7\u00e3o social p\u00f3s-morte. Se n\u00e3o \u00e9, bom, a morte come\u00e7a a me parecer bem assustadora, porque significaria que voc\u00ea se tornaria um observador impotente ou um mero parasita comunicativo de pessoas vivas.<\/p>\n<p>Vamos continuar trabalhando com a hip\u00f3tese de organiza\u00e7\u00e3o. Voc\u00ea tem acesso a outras pessoas que j\u00e1 morreram, algumas talvez com mil\u00eanios de experi\u00eancia em estar mortas a mais do que voc\u00ea. Pelo o que a maioria dos estudiosos e crentes da \u00e1rea dizem, h\u00e1 sim hierarquia. Faz sentido, considerando que faz parte de nossos costumes. O que novamente \u00e9 meio escroto: nem depois de morrer voc\u00ea fica livre de ter superiores e ordens? Talvez para quem acredite em divindades seja mais f\u00e1cil, afinal, acreditam em chefes perfeitos. Mas sem um ped\u00e1gio de absolutismo religioso, essa coisa de vida ap\u00f3s a morte parece uma roubada se tem algum tipo de estratifica\u00e7\u00e3o social remanescente.<\/p>\n<p>Mais uma encruzilhada no caminho: a morte confere uma esp\u00e9cie de ilumina\u00e7\u00e3o autom\u00e1tica ou continua-se t\u00e3o burro quanto era no final da vida? Se aprende-se algo s\u00f3 por isso, o Universo \u00e9 m\u00e1gico. E se \u00e9 m\u00e1gico, toda a l\u00f3gica que desenvolvemos n\u00e3o serve para nada, a resposta de qualquer pergunta sempre pode ser &#8220;m\u00e1gica!&#8221;. Vamos tentar nos ater a um Universo compreens\u00edvel, ou seja, um onde informa\u00e7\u00e3o\/mat\u00e9ria\/energia n\u00e3o \u00e9 criada nem destru\u00edda, mas sempre modificada. Cidad\u00e3o morre e continua na mesma, tendo que aprender muita coisa nova de seu novo ponto de vista.<\/p>\n<p>Estamos trabalhando com organiza\u00e7\u00e3o e aprendizado. Morrer \u00e9 mais ou menos como voltar pra escola. E por algum motivo, muitas dessas consci\u00eancias s\u00e3o vistas como comunic\u00e1veis por pessoas vivas. Pentelhar vivos e continuar lidando com assuntos &#8220;terrenos&#8221; faz parte dessa escola? Se faz, o objetivo \u00e9 voltar eventualmente para o conv\u00edvio dos vivos como algu\u00e9m mais s\u00e1bio? Mas isso n\u00e3o seria um problema com a coisa de nascer sem mem\u00f3rias? Ou quem volta para psicografar livro brega na verdade est\u00e1 matando aula?<\/p>\n<p>O meu maior problema com esp\u00edritos \u00e9 que eles em m\u00e9dia n\u00e3o s\u00e3o mais inteligentes. Quer dizer, n\u00e3o mais do que qualquer um de n\u00f3s seria. Eles n\u00e3o criam coisas muito diferentes, n\u00e3o inovam, n\u00e3o d\u00e3o conselhos mais acertados do que qualquer outra pessoa ao seu redor. Sim, em alguns casos saem belas frases e pensamentos supostamente atribu\u00eddos a pessoas que j\u00e1 morreram, mas&#8230; de boa? Auto-ajuda tem em qualquer canto. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel que pessoas com interesses diferentes como pesquisa espacial n\u00e3o tenham feito alguma coisa sem a obriga\u00e7\u00e3o social de corpos.<\/p>\n<p>Porque isso me assusta muito: se a morte te colocar alguma limita\u00e7\u00e3o intelectual, eu vou virar um fantasma e passar a eternidade com raiva de tudo. Muita raiva. Se esp\u00edritos s\u00e3o reais, por que eles s\u00e3o t\u00e3o med\u00edocres? Eu aceito minha mediocridade pelos limites da vida. O c\u00e9rebro funciona at\u00e9 certo ponto e muitas coisas nos impedem de buscar todo o conhecimento dispon\u00edvel. Ficar na mesma SEM corpo? Que esp\u00e9cie de tortura \u00e9 essa? Imagina ter que se comunicar balan\u00e7ando um l\u00e1pis para adolescentes impression\u00e1veis&#8230;<\/p>\n<p>E essa coisa de ficar olhando pelas pessoas queridas? A morte \u00e9 uma fantasia voyeur para muita gente. Que horror a ideia de ficar espiando os outros em seus momentos de intimidade, que ideia nojenta imaginar que tem algu\u00e9m te olhando. Ser\u00e1 que tem um antepassado seu te vendo cagar? Ser\u00e1 que esse \u00e9 o fetiche dele? Pode parecer muito mundano pensar numa bobagem dessas, mas ningu\u00e9m parece se tocar dessa parte. Certeza que algum esp\u00edrita ou algo do tipo tem uma resposta para isso que \u00e9 t\u00e3o reconfortante quanto vaga. Colocam um vi\u00e9s m\u00e1gico de coer\u00eancia no conceito de perman\u00eancia e isolam todas as ideias preocupantes de escrut\u00ednio.<\/p>\n<p>Sem m\u00e1gica para tornar tudo poss\u00edvel do jeito perfeito para todos, o conceito de vida ap\u00f3s a morte com o material dispon\u00edvel baseado em relatos e cren\u00e7as dos vivos soa uma bagun\u00e7a depressiva. Uma pris\u00e3o. Se esp\u00edritos se comunicam e n\u00e3o conseguem adicionar NADA de relevante para o mundo (que outras pessoas vivas n\u00e3o conseguiriam do mesmo jeito), das duas uma: ou todo mundo fica limitado depois de morrer, ou s\u00f3 o resto do resto que se comunica. Foi mal, mas n\u00e3o \u00e9 nenhum orgulho ficar baixando para dar conselhos e sugest\u00f5es que n\u00e3o evoluem com o tempo. Pode baixar o que quiser em mim de retalia\u00e7\u00e3o, mas \u00e9 muito loser voltar.<\/p>\n<p>Se eles n\u00e3o ficam mais inteligentes, como acreditar que ficam menos mundanos? Que n\u00e3o continuam com os mesmos defeitos e impulsos de quanto ainda tinham corpos? (sim, eu sei que pessoas espertas que est\u00e3o na \u00e1rea v\u00e3o me dizer que continuam sim e faz parte do jogo) Claro que eu estou apenas entretendo a ideia pelo argumento, n\u00e3o acredito em esp\u00edritos, nunca vi e nunca vou ver porque n\u00e3o tem o elemento de auto-sugest\u00e3o. N\u00e3o me incomoda que algumas pessoas se dediquem a conhecer mais sobre isso, mas por que eu s\u00f4o t\u00e3o deslocado ao n\u00e3o enxergar l\u00f3gica alguma no conceito? Dif\u00edcil entender algo que precisa ser acreditado. Eu consigo montar uma estrutura muito melhor para os mortos do a que eles parecem ter, e eu deveria ser burro pra caralho perto de algu\u00e9m sem amarras de corpo e de tempo. Ali\u00e1s, se algum deus existir, eu tamb\u00e9m sei fazer melhor, s\u00f3 para avisar. Querendo trocar de lugar, s\u00f3 me avisar que eu arrumo essa porra toda em quest\u00e3o de semanas.<\/p>\n<p>A primeira rea\u00e7\u00e3o a qualquer coisa que envolva vida ap\u00f3s a morte deveria ser ceticismo at\u00e9 por auto-prote\u00e7\u00e3o. Mas por algum motivo, \u00e9 raro achar gente que pense assim. Sabem o que incomoda? Que mais gente n\u00e3o se cague de medo de n\u00e3o conseguir evoluir intelectualmente. Que achem que um esp\u00edrito escrevendo livro de auto-ajuda \u00e9 algo para se pautar no futuro. \u00c9 muito med\u00edocre.<\/p>\n<p>Ou mesmo que mexer um l\u00e1pis seja um sinal de que h\u00e1 algo de maior nessa exist\u00eancia. N\u00e3o, \u00e9 rid\u00edculo. \u00c9 prova, no m\u00e1ximo, de que tudo n\u00e3o passa de uma grande piada.<\/p>\n<h3>Para dizer que vai mandar o Charlie puxar meu p\u00e9, para dizer dar uma resposta reconfortante e vaga para perguntas claras, ou mesmo para dizer que preferia outro plant\u00e3o Pilha: <a href=\"mailto:somir@desfavor.com\">somir@desfavor.com<\/a><\/h3>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Como eu n\u00e3o tenho redes sociais, sempre fico sabendo dessas coisas quando j\u00e1 est\u00e3o muito famosas. O tal do desafio do Charlie Charlie viralizou, e muita gente se diz conversar com esp\u00edritos mexicanos atrav\u00e9s de um papel e dois l\u00e1pis. Se eu vou desmistificar isso? 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