{"id":8471,"date":"2015-06-17T06:00:47","date_gmt":"2015-06-17T09:00:47","guid":{"rendered":"http:\/\/www.desfavor.com\/blog\/?p=8471"},"modified":"2015-06-17T02:18:07","modified_gmt":"2015-06-17T05:18:07","slug":"vida-feia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/2015\/06\/vida-feia\/","title":{"rendered":"Vida feia."},"content":{"rendered":"<p>Um dos meus maiores problemas com o conceito de &#8220;C\u00e9u&#8221; \u00e9 a felicidade eterna. Imagine n\u00e3o ter mais nenhum problema e sentir-se satisfeito o tempo todo, para sempre? Imagino que \u00e9 o muita gente nesse mundo imagina ser o pr\u00eamio ideal para uma exist\u00eancia conflituosa e muitas vezes injusta, mas&#8230; para sempre? Se n\u00e3o existe mais o feio, tudo \u00e9 bonito ou tudo \u00e9 med\u00edocre? Eu aposto mais na segunda hip\u00f3tese.<!--more--><\/p>\n<p>J\u00e1 falei desse tema num Des Contos antigo sobre um futuro (talvez nem t\u00e3o distante) onde todos seriam geneticamente perfeitos e saud\u00e1veis. A moda entre os adolescentes ent\u00e3o seria adicionar cicatrizes e defeitos em seus corpos. Mas eu n\u00e3o trabalhei o conceito como mera rebeldia, porque acredito que seja mais do que isso: no fundo mesmo, temos tanta atra\u00e7\u00e3o pelo feio e pelo tr\u00e1gico como temos pelo belo e o rom\u00e2ntico. A \u00fanica coisa que muda \u00e9 a preval\u00eancia deles na nossa realidade.<\/p>\n<p>A vida \u00e9 &#8220;feia&#8221; na m\u00e9dia. O org\u00e2nico tem seus momentos de agrados sensoriais, mas at\u00e9 a modelo mais atraente \u00e9 capaz de interditar um banheiro! Todo mundo \u00e9 mais ou menos repulsivo por igual por dentro. Est\u00e9tica \u00e9 um conceito complexo e secund\u00e1rio na vida. Primeiro tem que funcionar, depois pode ser agrad\u00e1vel, mas sem obriga\u00e7\u00e3o nenhuma.<\/p>\n<p>O que eu argumento aqui \u00e9 bem mais do que &#8220;\u00e9 conhecer o feio que torna algo bonito em compara\u00e7\u00e3o&#8221;, \u00e9 uma teoria (provavelmente maluca) que tudo o que envolve vida \u00e9 atraente mais ou menos por igual, a \u00fanica coisa que nos especializou na busca pelo belo e pelo justo (conceito personal\u00edssimo) \u00e9 a lei de oferta e demanda. N\u00e3o h\u00e1 nada de intrinsecamente belo em um cr\u00e2nio aberto num acidente de carro, mas a estrada sempre fica mais lenta pelos carros desacelerando para ver melhor o desastre.<\/p>\n<p>Porque nesse contexto de tratar repulsa como uma atra\u00e7\u00e3o mal resolvida muita coisa come\u00e7a a fazer sentido nesse mundo. Desde aquela pessoa que adora ver p\u00fastulas cheia de pus estourando at\u00e9 mesmo copr\u00f3filos derivando enorme prazer de seu fetiche. Talvez tudo isso seja nosso em geral. Talvez todo mundo possa aprender a gostar das coisas mais horr\u00edveis e nojentas que a humanidade faz (e frequentemente nos deixam confusos). Eu sei, eu sei&#8230; \u00e9 uma ideia de dif\u00edcil digest\u00e3o. Mas nada tema, \u00e9 s\u00f3 uma ideia. A vida e tudo o que gira ao redor dela nos \u00e9 extremamente atraente. Inclusive a parte horr\u00edvel. E n\u00e3o estou falando s\u00f3 do que \u00e9 f\u00edsico&#8230;<\/p>\n<p>Uma das minhas palavras preferidas no mundo \u00e9 &#8220;schadenfreude&#8221;, do alem\u00e3o. Significa o sentimento de derivar prazer da trag\u00e9dia alheia. N\u00e3o se traduz perfeitamente para o portugu\u00eas, mas traduz bem algo muito humano. Eu vou mais longe aqui: n\u00e3o enxerguem esse prazer como algo necessariamente odioso, n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 querer ver outra pessoa que voc\u00ea n\u00e3o gosta sofrendo. \u00c9 muito do que eu estou propondo sobre a atra\u00e7\u00e3o pelo feio, pelo tr\u00e1gico. A hist\u00f3ria triste te faz sentir mais vivo, a empatia gera um prazer de &#8220;exist\u00eancia&#8221;, mesmo no sofrimento.<\/p>\n<p>O que h\u00e1 de feio e tr\u00e1gico na vida \u00e9 muito do que nos prende a ela. \u00c9 onde achamos um ch\u00e3o, um terreno comum com quem enfrenta os mesmos desafios e nos faz nos sentir um pouco menos sozinhos. Uma das condi\u00e7\u00f5es mais torturantes da consci\u00eancia \u00e9 o isolamento: tudo \u00e9 resultado de est\u00edmulos interpretados. O Universo est\u00e1 todo na sua cabe\u00e7a e n\u00e3o h\u00e1 nenhuma escapat\u00f3ria disso. Bom, pelo menos se voc\u00ea exige um m\u00ednimo de m\u00e9todo cient\u00edfico no que escolhe acreditar. \u00c9 no entendimento da morte, por exemplo, que finalmente se come\u00e7a a notar a vida. O que nos incomoda nos d\u00e1 suporte.<\/p>\n<p>Repulsa (psicol\u00f3gica) \u00e9 uma constru\u00e7\u00e3o nossa para manter a busca pelo raro viva. Claro que o corpo humano \u00e9 feito para rejeitar muita coisa que faz mal, a evolu\u00e7\u00e3o cuida disso. Sem a rejei\u00e7\u00e3o ao feio, talvez fic\u00e1ssemos presos demais ao &#8220;utilitarismo&#8221; e jamais tiv\u00e9ssemos nos tornado o que somos agora. A busca pelo que \u00e9 belo e justo nos move rumo aos destinos mais complexos, nos faz gastar muito mais energia do que o estritamente necess\u00e1rio. Humanos gostam muito de sal e a\u00e7\u00facar porque nossos antepassados penavam para conseguir, por exemplo. E quem se esfor\u00e7a mais para conseguir alguma coisa com certeza tem mais chances de seguir em frente na evolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Se ainda n\u00e3o parece que estou indo para alguma dire\u00e7\u00e3o com esse texto, tento esclarecer: estou separando tudo entre comum e raro. Beleza, fei\u00fara, felicidade e tristeza&#8230; queremos o raro. Somos descendentes diretos de quem procurava o raro, e essas ma\u00e7\u00e3s n\u00e3o ca\u00edram longe da \u00e1rvore. A mesma l\u00f3gica de quem se encanta pela beleza funciona para quem se encanta pela fei\u00fara (e o nojento). E eu, talvez dessensibilizado pelos horrores da internet, come\u00e7o a desconfiar seriamente que n\u00e3o h\u00e1 vantagem clara para nenhuma das prefer\u00eancias, desde que exista o fator da raridade.<\/p>\n<p>Por isso eu volto e explico a \u00fanica inst\u00e2ncia de &#8220;feia&#8221; com aspas neste texto. Justamente ao falar da vida em m\u00e9dia. A m\u00e9dia \u00e9 comum, n\u00e3o \u00e9 bonita nem feia. Seja l\u00e1 o que te move, n\u00e3o aposte que est\u00e1 nessa m\u00e9dia. O horrendo nos prende \u00e0 exist\u00eancia, o encantador nos mostra que ela pode ser melhor. O resto &#8211; a grande maioria &#8211; \u00e9 apenas a sopa primordial que permite o nascimento de ambos. O &#8220;C\u00e9u&#8221; \u00e9 algo estranho por tirar de n\u00f3s o m\u00e9dio, justamente a vida. Evidente que eu n\u00e3o estou escrevendo o texto apenas para enfraquecer um conceito de cren\u00e7as que acho rid\u00edculas, mas muitos de n\u00f3s nos perdemos \u00e0s vezes com ideias parecidas.<\/p>\n<p>Ideias de perfei\u00e7\u00e3o. Excesso de limpeza, por assim dizer. Seja no que os sentidos te trazem, seja no que a mente faz com esses est\u00edmulos. No final das contas, o &#8220;C\u00e9u&#8221; \u00e9 um conceito limitado no que pode nos oferecer. A busca pelo o que \u00e9 belo, nobre e justo com certeza deve fazer parte do que n\u00f3s somos, mas negar a atra\u00e7\u00e3o do lado feio da vida \u00e9 furtar-se da capacidade de &#8220;estar aqui&#8221; para vivenciar o que buscamos. A escrotid\u00e3o da vida \u00e9 aquele cheiro pungente que nos acorda de qualquer sono.<\/p>\n<p>E uma das condi\u00e7\u00f5es primordiais para sentir o que a vida nos oferece&#8230; \u00e9 estar vivo. Vivemos num mundo t\u00e3o abarrotado de pessoas esperando por um pr\u00eamio depois da vida que acabamos ancorados numa no\u00e7\u00e3o de que o feio \u00e9 passageiro, que tudo vai melhorar consideravelmente e isso aqui n\u00e3o passa de um ped\u00e1gio. O que talvez explique bem a dificuldade de evoluir e lidar com os pr\u00f3prios problemas. Abandonar o conceito de beleza e felicidade perenes &#8211; mesmo que como pr\u00eamio do al\u00e9m-vida &#8211; significa tamb\u00e9m colocar os p\u00e9s no ch\u00e3o e assumir-se respons\u00e1vel pela busca. Justamente a fun\u00e7\u00e3o da &#8220;fei\u00fara&#8221;.<\/p>\n<p>A vida? A vida \u00e9 m\u00e9dia.<\/p>\n<h3>Para dizer que eu claramente n\u00e3o sei mais do que estou falando, para dizer que sente-se motivado e desmotivado ao mesmo tempo, ou mesmo para dizer que eu devo rir muito quando escrevo essas coisas: <a href=\"mailto:somir@desfavor.com\">somir@desfavor.com<\/a><\/h3>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um dos meus maiores problemas com o conceito de &#8220;C\u00e9u&#8221; \u00e9 a felicidade eterna. Imagine n\u00e3o ter mais nenhum problema e sentir-se satisfeito o tempo todo, para sempre? Imagino que \u00e9 o muita gente nesse mundo imagina ser o pr\u00eamio ideal para uma exist\u00eancia conflituosa e muitas vezes injusta, mas&#8230; para sempre? 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