{"id":8653,"date":"2015-08-03T06:00:46","date_gmt":"2015-08-03T09:00:46","guid":{"rendered":"http:\/\/www.desfavor.com\/blog\/?p=8653"},"modified":"2025-11-26T14:20:30","modified_gmt":"2025-11-26T17:20:30","slug":"consumo-fiel","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/2015\/08\/consumo-fiel\/","title":{"rendered":"Consumo fiel."},"content":{"rendered":"<p>Consumir \u00e9 parte dessa vida capitalista que levamos. Diante de um mercado cheio de op\u00e7\u00f5es e marcas, Sally e Somir discordam sobre a fidelidade no consumo. Os impopulares compram seu lado preferido.<\/p>\n<h6>Tema de hoje: O que \u00e9 melhor para o consumidor, experimentar novas marcas ou manter-se fiel \u00e0s que conhece?<\/h6>\n<p><!--more--><\/p>\n<h4 class=\"somir\">SOMIR<\/h4>\n<p>O consumidor ganha mais experimentando. Por quest\u00f5es pessoais e tamb\u00e9m pelo bem do mercado em geral, o que acaba voltando em mais vantagens pessoais, no final das contas. E como em casa de ferreiro, o espeto \u00e9 de pau: marca n\u00e3o \u00e9 tudo isso n\u00e3o. Marcas s\u00e3o constru\u00e7\u00f5es do &#8220;imagin\u00e1rio&#8221; consumidor que podem ou n\u00e3o significar vantagens pr\u00e1ticas nos produtos e servi\u00e7os que a ostentam.<\/p>\n<p>Claro que uma marca que te atende bem por muitos anos gera a sensa\u00e7\u00e3o de seguran\u00e7a, mas vamos relativizar isso um pouco: uma das quest\u00f5es mais b\u00e1sicas do consumo \u00e9 a dificuldade (muito razo\u00e1vel) de uma pessoa saber se est\u00e1 mesmo fazendo um bom neg\u00f3cio. Como voc\u00eas devem imaginar, essa ideia tem pouco peso na compra de um chiclete, mas chega a ser paralisante quando se quer comprar um carro, por exemplo. A pessoa n\u00e3o tem muito conhecimento sobre o que vai consumir para bater o martelo que aquilo vale o seu suado dinheirinho, mas \u00e9 claro, precisa tomar uma decis\u00e3o.<\/p>\n<p>E \u00e9 aqui que a publicidade (a parte menos podre dela) entra: ela pretende te informar e te convencer que voc\u00ea vai fazer um bom neg\u00f3cio ao consumir determinado produto ou servi\u00e7o. Num mundo ideal, a publicidade s\u00f3 estaria focada em mostrar os benef\u00edcios do que apresenta para o p\u00fablico. As pessoas receberiam as informa\u00e7\u00f5es (corretas) sobre o que \u00e9 anunciado e tomariam suas decis\u00f5es com mais seguran\u00e7a.<\/p>\n<p>Isso, \u00e9 claro, num mundo ideal&#8230; o que costuma acontecer demais \u00e9 que as empresas concorrentes num mercado n\u00e3o tem benef\u00edcios exclusivos no que vendem. Qual a diferen\u00e7a fundamental entre o macarr\u00e3o que a marca A e a B vendem? Claro que os produtos podem ser muito diferentes para conhecedores aprofundados, mas para o cidad\u00e3o m\u00e9dio? A tend\u00eancia \u00e9 que eles sejam incomodamente parecidos. E se estiverem com pre\u00e7os parecidos, a cabe\u00e7a come\u00e7aria a soltar fuma\u00e7a&#8230; s\u00e9rio, qual a diferen\u00e7a entre os macarr\u00f5es?<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o ficamos malucos no supermercado, ficamos? Bom, tirando as filas e as pessoas que andam muito devagar no meio da porra do corredor, \u00e9 claro. N\u00f3s n\u00e3o piramos nessas escolhas entre produtos sem diferenciais \u00f3bvios porque temos uma s\u00e9rie de informa\u00e7\u00f5es extras plantadas na cabe\u00e7a. Um tira-teima que normalmente n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o aprofundado assim nas caracter\u00edsticas pr\u00e1ticas do produto: a marca que a sua m\u00e3e comprava, a marca que voc\u00ea viu mais propagandas, a marca que importa da It\u00e1lia, a marca que voc\u00ea comprou uma vez e achou ok&#8230; mil coisas diferentes passam pela nossa cabe\u00e7a quando tomamos uma decis\u00e3o de consumo. Tudo muito r\u00e1pido, r\u00e1pido at\u00e9 demais para ser registrado.<\/p>\n<p>Mas nada disso quer dizer que voc\u00ea respondeu a pergunta sobre qual produto oferece mais em troca do seu dinheiro. Com uma frequ\u00eancia muito maior do que se imagina, marcas s\u00e3o carregadas pela mem\u00f3ria de atributos alheios aos produtos que vendem. Voc\u00eas acham que a Coca-Cola precisa fazer propaganda para voc\u00ea conhecer o produto? Mesmo se eles parassem de anunciar por vinte anos, teria gente comprando sem medo. Mas se eles sa\u00edrem da mem\u00f3ria recente do comprador, alguma outra marca vai entrar. E isso come\u00e7a a virar mais vendas para essa outra marca, que eventualmente pode virar o &#8220;default&#8221; na mente para a categoria de produto. Ningu\u00e9m assume esse risco no mercado.<\/p>\n<p>Estou falando disso porque muitas vezes a no\u00e7\u00e3o de que uma marca tem o melhor produto n\u00e3o \u00e9 seu gosto apurado por ele falando, \u00e9 o &#8220;al\u00edvio&#8221; da sua mente de conhecer uma marca e acreditar que ela vale seu dinheiro. E mesmo que voc\u00ea tenha argumentos s\u00f3lidos para preferir os produtos de uma marca, eles tamb\u00e9m n\u00e3o querem dizer que n\u00e3o existam solu\u00e7\u00f5es melhores. N\u00e3o se sabe se aquele biscoito tem um gosto melhor s\u00f3 de olhar para a embalagem. Achamos que d\u00e1, e a publicidade tenta te influenciar a achar que \u00e9 f\u00e1cil assim, mas a verdade \u00e9 que essa decis\u00e3o depende das suas papilas gustativas e de seu estado emocional no momento.<\/p>\n<p>Foi mal a\u00ed, mas mesmo que voc\u00ea tenha suas marcas preferidas, grandes chances de voc\u00ea n\u00e3o saber muito sobre o que torna esses produtos melhores do que os outros. Tem gente &#8220;cantando essa bola&#8221; no seu ouvido dia sim, dia tamb\u00e9m. Gostos podem ser criados por repeti\u00e7\u00e3o ou por pura falta de saco para procurar outras alternativas. A verdade \u00e9 que tem muita marca pequena por a\u00ed que faz seus produtos com grande qualidade. Eu lido bastante com pequenos neg\u00f3cios e ind\u00fastrias, existem padr\u00f5es de qualidade dos quais n\u00e3o se pode nem escapar. E para quem n\u00e3o sabe, grandes marcas (principalmente as de supermercado) tendem a subcontratar f\u00e1bricas pequenas para fazer seus produtos.<\/p>\n<p>E tamb\u00e9m tem a quest\u00e3o da escala: empresas maiores entram numa \u00e1rea de risco diferenciada, com os processos muito autom\u00e1ticos e com uma difus\u00e3o de responsabilidade gigantesca, erros acontecem. E pela escala da produ\u00e7\u00e3o, esses erros passam batido. Voc\u00eas acham que uma fabrica pequena deixaria ir para o mercado um lote inteiro de achocolatado com soda c\u00e1ustica? Erros s\u00e3o muito \u00f3bvios na pequena escala. E eles s\u00e3o ainda mais mortais para quem n\u00e3o est\u00e1 faturando milh\u00f5es e milh\u00f5es. Uma marca menor simplesmente morre se oferecer um produto problem\u00e1tico no mercado.<\/p>\n<p>Se voc\u00ea tentar experimentar marcas novas, vai investindo na diversifica\u00e7\u00e3o do mercado. Ajuda produtores locais, gira o dinheiro na sua regi\u00e3o, ganha produtos mais frescos&#8230; n\u00e3o \u00e9 papo ecochato de economia local (embora seja verdade, se n\u00e3o come\u00e7armos a focar em produ\u00e7\u00e3o local logo a coisa vai azedar), \u00e9 manter o dinheiro e o interesse ao seu redor. Investir em marcas novas \u00e9 tamb\u00e9m barrar a concentra\u00e7\u00e3o insana de poder na m\u00e3o de poucas empresas. Hoje em dia, se voc\u00ea est\u00e1 comprando produtos que anunciam na TV, est\u00e1 comprando de umas duas ou tr\u00eas empresas basicamente TUDO o que coloca no carrinho do supermercado. Oligop\u00f3lios te deixam mais seguro? Eu ainda prefiro pulverizar.<\/p>\n<p>E se quiserem continuar achando que s\u00e3o especialistas em tudo o que compram, continuem. Meu emprego est\u00e1 garantido assim.<\/p>\n<h3>Para dizer que essa coisa de novas experi\u00eancias \u00e9 muito gay para voc\u00ea, para dizer que vai tentar outra Rep\u00fablica Impopular ent\u00e3o, ou mesmo para dizer que eu fui pago para escrever este texto: <a href=\"mailto:somir@desfavor.com\">somir@desfavor.com<\/a><\/h3>\n<h4 class=\"sally\">SALLY<\/h4>\n<p>O que \u00e9 melhor para o consumidor, se manter fiel a uma marca ou estar sempre experimentando marcas novas?<\/p>\n<p>Fosse este um pa\u00eds civilizado, eu at\u00e9 concordaria em arriscar, mas estamos falando do Brasil, o pa\u00eds onde leite vem com soda c\u00e1ustica e fica tudo por isso mesmo. N\u00e3o, obrigada. Quando eu acho algo minimamente decente eu me mantenho fiel ao produto.<\/p>\n<p>Conhecer \u00e9 \u00f3timo, desde que seja em um ambiente seguro, de confian\u00e7a. Nos EUA, por exemplo, se um produto faz mal aos consumidores, isso gera um custo de indeniza\u00e7\u00f5es para a empresa t\u00e3o exorbitante que pode inclusive fazer com que ela feche as portas. H\u00e1 um medo real de causar danos ao consumidor, pois as consequ\u00eancias s\u00e3o dolorosas.<\/p>\n<p>Aqui? Bem, eu j\u00e1 vi brinquedo decepar dedo de crian\u00e7a e a coisa ficar em uma indeniza\u00e7\u00e3o de oito mil reais. Ningu\u00e9m tem medo de causar mal ao consumidor, a rela\u00e7\u00e3o custo\/benef\u00edcio compensa. Inclusive muitas empresas fazem economia porca j\u00e1 calculando que ter\u00e3o lucro mesmo em caso de ter que pagar eventuais indeniza\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Quem aqui n\u00e3o se lembra de pelo menos um caso famoso de desrespeito acintoso ao consumidor? Porta-malas de carro que decepa o dedo, alimento com coliformes fecais, produto para o cabelo que faz com que ele caia, os exemplos s\u00e3o muitos. Voc\u00ea quer ser cobaia de produtos que visivelmente s\u00e3o jogados no mercado sem os devidos testes e cuidados? N\u00e3o, obrigada. Eu fico com os meus produtos conhecidos.<\/p>\n<p>Deixa-se de ganhar ao n\u00e3o experimentar coisas novas? N\u00e3o necessariamente. O resto do mundo est\u00e1 a\u00ed para isso. Converso, pergunto, procuro me informar com pessoas que julgo terem algum discernimento (voc\u00eas) sobre eventuais novidades. O que realmente j\u00e1 foi testado e aprovado por pessoas que tem um padr\u00e3o de exig\u00eancia similar ao meu (que nem \u00e9 muito alto) e eu posso cogitar testar. Mas pegar algo que nunca ouvi falar na prateleira do supermercado? Tenho receio.<\/p>\n<p>Isso sem contar que ao levar um produto novo para dentro de casa voc\u00ea n\u00e3o se coloca apenas como cobaia, coloca todos os que est\u00e3o naquela casa. Se existe uma fam\u00edlia, voc\u00ea se torna respons\u00e1vel pelo bem estar deles tamb\u00e9m ao escolher levar um produto para seu lar. Al\u00e9m de se colocar em risco, coloca em risco terceiros ao resolver \u201cexperimentar\u201d. N\u00e3o, obrigada. Em tempos de produtos baratos e t\u00f3xicos feitos na China, eu prefiro n\u00e3o testar marcas surpreendentemente mais baratas. N\u00e3o tem almo\u00e7o de gra\u00e7a. O barato geralmente acaba custando caro. Eu pago para n\u00e3o me aborrecer, n\u00e3o adoecer ou n\u00e3o me machucar.<\/p>\n<p>Em um mercado onde a falta de respeito com o consumidor compensa, \u00e9 preciso se apegar aos poucos que n\u00e3o a praticam. Hoje, eu n\u00e3o tenho d\u00favidas que existem mais marcas desrespeitando o consumidor do que respeitando. Isso faz de qualquer varia\u00e7\u00e3o por curiosidade uma grande chance de acabar levando para casa um produto nocivo. Ningu\u00e9m aqui \u00e9 perito ou t\u00e9cnico para antever os males que um produto pode causar, por isso, inovar sempre ser\u00e1 um risco. Arriscar quando as probabilidades est\u00e3o contra mim? N\u00e3o, obrigada.<\/p>\n<p>Felizmente n\u00e3o tenho aquela arrog\u00e2ncia padr\u00e3o de achar que comigo nunca vai acontecer nada, aquela ignor\u00e2ncia propagada em larga escala de achar que \u00e9 tudo alarmismo para conseguir continuar vivendo em um mundo todo errado. Se voc\u00ea consegue tapar o sol com a peneira dessa forma, bacaninha, no final das contas voc\u00ea vai ser mais feliz do que eu. Eu n\u00e3o consigo.<\/p>\n<p>Se voc\u00ea arrisca, bem, s\u00f3 tenho a te agradecer por ser minha cobaia. Gra\u00e7as a pessoas como voc\u00ea, pessoas como eu n\u00e3o precisam correr tantos riscos.<\/p>\n<h3>Para se ofender por ser minha cobaia, para dizer que n\u00e3o mora no Brasil e por isso pode arriscar ou ainda para dizer que \u00e9 hippie e fabrica seus pr\u00f3prios produtos industrializados em casa: <a href=\"mailto:sally@desfavor.com\">sally@desfavor.com<\/a><\/h3>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Consumir \u00e9 parte dessa vida capitalista que levamos. Diante de um mercado cheio de op\u00e7\u00f5es e marcas, Sally e Somir discordam sobre a fidelidade no consumo. Os impopulares compram seu lado preferido. Tema de hoje: O que \u00e9 melhor para o consumidor, experimentar novas marcas ou manter-se fiel \u00e0s que conhece?<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":8654,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[22],"tags":[],"class_list":["post-8653","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-ele-disse-ela-disse"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8653","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=8653"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8653\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":38837,"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8653\/revisions\/38837"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media\/8654"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=8653"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=8653"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=8653"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}