{"id":910,"date":"2011-08-05T13:38:00","date_gmt":"2011-08-05T16:38:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.desfavor.com\/blog\/?p=910"},"modified":"2011-08-05T13:38:00","modified_gmt":"2011-08-05T16:38:00","slug":"des-contos-lobo-solitario","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/2011\/08\/des-contos-lobo-solitario\/","title":{"rendered":"Des Contos: Lobo solit\u00e1rio."},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" alt=\"Pera\u00ed, isso n\u00e3o s\u00e3o lobos...\" class=\"titleimg\" src=\"http:\/\/i363.photobucket.com\/albums\/oo74\/desfavor\/img\/des_lobosolitario.jpg\" \/>Certa vez ouvi que o v\u00edrus da gripe era muito mais evolu\u00eddo que o que causava o ebola. Parecia estranho que o menos poderoso fosse mais avan\u00e7ado, mas era justamente por isso: N\u00e3o \u00e9 uma boa estrat\u00e9gia de sobreviv\u00eancia matar quem te mant\u00e9m vivo.<\/p>\n<p>E toda vez que eu tra\u00e7o esse paralelo, entendo melhor o que aconteceu com o mundo. Se tivessem gerado qualquer outro desequil\u00edbrio mental, as coisas teriam desabado em pouco tempo. Perdoem-me a vagueza, escrita ainda n\u00e3o \u00e9 uma arte que domino. Vou tentar contextualizar melhor:<\/p>\n<p>Uma s\u00e9rie de descobertas sobre o funcionamento do c\u00e9rebro finalmente criou a mais poderosa ferramenta de controle j\u00e1 criada: O g\u00e1s DOc, que acabamos apelidando de G\u00e1s D\u00f3cil com o passar do tempo. Os efeitos definitivamente corroboravam com o nome. Pessoas expostas \u00e0 subst\u00e2ncia tinham seu humor controlado em quest\u00e3o de minutos. Para o bem e para o mal. A gama de emo\u00e7\u00f5es humana se resumia, quase que definitivamente, basicamente \u00e0 apatia depois de poucas sess\u00f5es de inala\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>E como ele funcionava diretamente no c\u00e9rebro, rar\u00edssimos efeitos colaterais foram encontrados. Era dif\u00edcil notar alguma sequela f\u00edsica, e at\u00e9 por isso passaram-se anos e anos antes da imprensa finalmente ter acesso ao que acontecera aos &#8220;terroristas&#8221; abandonados em por\u00f5es de pris\u00f5es de seguran\u00e7a m\u00e1xima.<\/p>\n<p>A opini\u00e3o p\u00fablica n\u00e3o pareceu satisfeita com isso. Os aplicadores foram acusados de aplicar uma pena irrevers\u00edvel em acusados ainda em julgamento. A compara\u00e7\u00e3o com uma lobotomia (embora infundada, j\u00e1 que a v\u00edtima ainda funcionava socialmente) selou o caso. <\/p>\n<p>O esc\u00e2ndalo  sacudiu a sociedade por mais ou menos um m\u00eas, e presidentes de grandes na\u00e7\u00f5es assinaram compromissos p\u00fablicos de n\u00e3o utiliza\u00e7\u00e3o do G\u00e1s DOc. N\u00e3o antes de argumentar que era muito seguro, \u00e9 claro.<\/p>\n<p>E como todos aqueles governos tinham oposi\u00e7\u00f5es sedentas por simpatia popular, v\u00e1rios sensores espec\u00edficos foram instalados nos locais onde essas aplica\u00e7\u00f5es do g\u00e1s d\u00f3cil foram comprovadas. Era basicamente o fim da impunidade no Esc\u00e2ndalo DOc.<\/p>\n<p>Mas como todos aqueles governos tamb\u00e9m n\u00e3o eram conhecidos por se entregar facilmente, come\u00e7ou o grande problema: A pesquisa e o desenvolvimento ultra-secretos de um g\u00e1s parecido que burlasse os sensores. O resultado foi melhor do que o encomendado.<\/p>\n<p>O DOc 2 era mais poderoso, duradouro, heredit\u00e1rio e n\u00e3o deixava rastros reconhec\u00edveis por nenhuma tecnologia existente. \u00c9 extremamente dif\u00edcil achar o que n\u00e3o se est\u00e1 procurando. Ele voltou a ser usado impunemente por ag\u00eancias secretas, e n\u00e3o podemos dizer que isso foi ruim: O n\u00famero de atentados suicidas diminuiu consideravelmente nos anos seguintes.<\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o realmente se complica quando essa subst\u00e2ncia cai no setor privado. Alguns pa\u00edses terceirizam seus sistemas correcionais, alguns pa\u00edses n\u00e3o fiscalizam muito bem quem os mant\u00e9m livres de problemas.<\/p>\n<p>A tecnologia necess\u00e1ria para a produ\u00e7\u00e3o do DOc 2 se populariza r\u00e1pido demais. O mercado negro se encarrega de espalhar pelo mundo amostras, equipamentos e a mat\u00e9ria prima necess\u00e1ria. Embora a m\u00eddia mais uma vez perceba o ocorrido e ataque impiedosamente, desta vez n\u00e3o havia mais como fazer a conten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Governos e empresas inescrupulosas n\u00e3o perdiam tempo: Estima-se que mesmo com o aviso pr\u00e9vio, mais da metade da popula\u00e7\u00e3o em pa\u00edses pobres havia sido exposta ao g\u00e1s em quest\u00e3o de dois anos. O n\u00famero de ditaduras cresceu exponencialmente, e para ser honesto, os pa\u00edses compostos por uma maioria exposta acabavam bem mais seguros e organizados, apesar de governantes e elite abusarem do poder como nunca.<\/p>\n<p>A tenta\u00e7\u00e3o era muito grande. A resist\u00eancia cada vez mais fraca. Uma &#8220;bomba&#8221; de DOc 2 acabava com uma manifesta\u00e7\u00e3o popular em minutos. E essa manifesta\u00e7\u00e3o dificilmente aconteceria novamente, nem mesmo os filhos das pessoas &#8220;domesticadas&#8221; pelo g\u00e1s estavam livres. Ele passava diretamente pelo cord\u00e3o umbilical e amansava a nova gera\u00e7\u00e3o antes mesmo desta nascer.<\/p>\n<p>Meio s\u00e9culo ap\u00f3s a cria\u00e7\u00e3o do g\u00e1s original, a absoluta maioria da popula\u00e7\u00e3o humana tinha sido furtada de virtualmente todas suas emo\u00e7\u00f5es. Os desejos mais primais dos poucos livres restantes podiam ser satisfeitos sem a menor resist\u00eancia. Alguns continuaram \u00edntegros, mas o poder subiu \u00e0 cabe\u00e7a de milh\u00f5es de homens e mulheres diante de bilh\u00f5es de expectadores passivos.<\/p>\n<p>Como a imprensa come\u00e7a a falhar consideravelmente nesta mesma \u00e9poca, n\u00e3o temos muitos relatos das barbaridades cometidas pelos &#8220;lobos&#8221;. As &#8220;ovelhas&#8221; com certeza n\u00e3o parecem se importar em serem objetos nos passatempos s\u00e1dicos daqueles monstros. Mas n\u00e3o demora muito para as coisas tomarem um rumo inesperado.<\/p>\n<p>O comprometimento emocional e a empatia pareciam extintos. E a sociedade come\u00e7ava a funcionar cada vez melhor entre as ovelhas. Por mais que os lobos tentassem, e acreditem, eles tentaram&#8230; Nada parecia abalar suficientemente a rotina da humanidade.<\/p>\n<p>Li o estudo de um psic\u00f3logo lobo que explica bem o que aconteceu. O senso de fun\u00e7\u00e3o social humano \u00e9 t\u00e3o forte quanto o de sobreviv\u00eancia. Quando o g\u00e1s tirou qualquer ru\u00eddo emocional do processo, sobraram bilh\u00f5es de pessoas dispostas a encenar um mundo perfeito. O cinismo e a rebeldia n\u00e3o tinham mais lugar.<\/p>\n<p>Coisas que nos complicaram por mil\u00eanios pareciam ser resolvidas em quest\u00e3o de meses. A viol\u00eancia e as guerras foram abolidas, o meio-ambiente era bem cuidado como nunca, v\u00edcios como alcoolismo e tabagismo viraram coisas obsoletas, dezenas de curas para doen\u00e7as at\u00e9 ent\u00e3o incur\u00e1veis&#8230; Ningu\u00e9m fazia corpo mole, ningu\u00e9m exagerava na dose. O \u00fanico objetivo dessas pessoas era alcan\u00e7ar os resultados necess\u00e1rios para viver numa sociedade ideal.<\/p>\n<p>O curioso \u00e9 que os \u00fanicos elementos podres ali eram aqueles que tinham se mantido livres do g\u00e1s. Embora ainda muito livres para aprontar qualquer coisa com as ovelhas, o rep\u00fadio frio e justo delas come\u00e7a a realmente machucar o comparativamente fr\u00e1gil emocional humano normal.<\/p>\n<p>O bom exemplo tem um poder incr\u00edvel. Cada vez mais lobos se submetem ao g\u00e1s por n\u00e3o aguentarem a sensa\u00e7\u00e3o de serem atrasos para aquela sociedade ideal. Alguns at\u00e9 se submetem voluntariamente a ocupar as vazias pris\u00f5es daquela sociedade. O mundo caminhava a passos largos para um estado ut\u00f3pico de paz e seguran\u00e7a.<\/p>\n<p>Voc\u00ea deve estar se perguntando se eu estou falando do mesmo mundo no qual voc\u00ea vive. E sua quest\u00e3o \u00e9 v\u00e1lida. O problema daquela sociedade sem emo\u00e7\u00f5es era justamente conseguir o que queria.<\/p>\n<p>Os sonhos e desejos humanos que eles herdaram foram criados numa \u00e9poca onde era basicamente imposs\u00edvel realiz\u00e1-los. T\u00ednhamos objetivos e mais objetivos para ocupar mais de um s\u00e9culo de trabalho duro deles. S\u00f3 que eventualmente eles conseguiram. Os raros lobos ainda vivos tinham se afastado da civiliza\u00e7\u00e3o. Tinha acabado oficialmente qualquer possibilidade de problemas naquela sociedade.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m estava feliz, ningu\u00e9m mais tinha essa capacidade. Trabalhar por anos e anos e n\u00e3o ter como aproveitar os louros dessa vit\u00f3ria \u00e9 algo complicado. T\u00e3o complicado que a nova humanidade simplesmente n\u00e3o sabia mais o que fazer. Lutaram para conseguir um mundo ideal, mas n\u00e3o tinham o que fazer com ele.<\/p>\n<p>At\u00e9 o Dia da Explos\u00e3o. O que ningu\u00e9m tinha imaginado \u00e9 que n\u00e3o \u00e9ramos uma sociedade de pessoas boas e justas. \u00c9ramos bilh\u00f5es de psicopatas tentando se encaixar numa sociedade. O estado de normalidade escondia todo mundo \u00e0 plena vista. Bastou uma das ovelhas perder o controle e tudo desabou.<\/p>\n<p>R\u00e1pido. Deixava de ser gripe e virava ebola. At\u00e9 onde eu sei, foi um pai de fam\u00edlia que perdeu a cabe\u00e7a depois de uma de suas crian\u00e7as trocar de canal no meio de um filme. Ao inv\u00e9s de pedir educadamente para retornar a atra\u00e7\u00e3o desejada e ser atendido, como sempre acontecera, daquela vez ele simplesmente se levantou, pegou uma faca na cozinha e estripou todos os outros habitantes da casa.<\/p>\n<p>Pelo menos \u00e9 isso que est\u00e1 noticiado na imprensa deles. N\u00e3o achei nenhum ind\u00edcio de crime cometido por ovelha antes desse. Mas depois&#8230; Nas primeiras vinte e quatro horas pelo menos um d\u00e9cimo das pessoas expostas \u00e0 not\u00edcia repetiram o ato.<\/p>\n<p>E o crescimento continuou, exponencial. \u00c9ramos ideais quatro bilh\u00f5es de humanos h\u00e1 duas d\u00e9cadas atr\u00e1s. Somos algumas centenas de milh\u00f5es hoje. N\u00e3o foi uma guerra, foi um massacre. Hoje sabemos que o efeito do g\u00e1s, apesar de heredit\u00e1rio, dilui-se com o tempo. Talvez tenha sido isso, mas basta estudar a hist\u00f3ria da humanidade antes da grande contamina\u00e7\u00e3o para entender que essa n\u00e3o \u00e9 a nossa forma natural de lidar com as coisas.<\/p>\n<p>Cada dia mais nascem pessoas livres do efeito. Os \u00faltimos fora de controle est\u00e3o sendo presos ou se matando. Temos toda a capacidade de recuperar nossa sociedade, mas n\u00e3o podemos fazer isso se n\u00e3o entendermos nossa natureza. N\u00e3o precisamos mais do g\u00e1s, ali\u00e1s, nunca precisamos. Por favor n\u00e3o fa\u00e7am essa irresponsabilidade de pulverizar mais uma vez esse veneno nos sobreviventes. Nunca \u00e9 t\u00e3o f\u00e1cil.<\/p>\n<p>Espero que meu apelo chegue a tempo.<\/p>\n<p>Ass: Lobo solit\u00e1rio.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Certa vez ouvi que o v\u00edrus da gripe era muito mais evolu\u00eddo que o que causava o ebola. Parecia estranho que o menos poderoso fosse mais avan\u00e7ado, mas era justamente por isso: N\u00e3o \u00e9 uma boa estrat\u00e9gia de sobreviv\u00eancia matar quem te mant\u00e9m vivo. E toda vez que eu tra\u00e7o esse paralelo, entendo melhor o [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[39],"tags":[],"class_list":["post-910","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-des-contos"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/910","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=910"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/910\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=910"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=910"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=910"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}