{"id":9438,"date":"2016-01-12T06:00:27","date_gmt":"2016-01-12T08:00:27","guid":{"rendered":"http:\/\/www.desfavor.com\/blog\/?p=9438"},"modified":"2016-01-12T03:54:48","modified_gmt":"2016-01-12T05:54:48","slug":"diario-do-fundo-do-poco","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/2016\/01\/diario-do-fundo-do-poco\/","title":{"rendered":"Di\u00e1rio do fundo do po\u00e7o."},"content":{"rendered":"<p><strong>Di\u00e1rio do fundo do po\u00e7o, parte 1:<\/strong><\/p>\n<p>Pensando bem, n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o ruim assim. Existem lugares piores para se estar. Se n\u00e3o chover forte demais, eu posso ficar aqui por um tempo. Fazia muito tempo que eu n\u00e3o ouvia o som da minha pr\u00f3pria respira\u00e7\u00e3o. \u00c9 bom estar vivo, sempre bom lembrar disso. Acho que se me concentrar bastante, ou\u00e7o meu cora\u00e7\u00e3o batendo. Vou ficar em sil\u00eancio por um tempo, tudo bem?<!--more--><\/p>\n<p><strong>Di\u00e1rio do fundo do po\u00e7o, parte 2:<\/strong><\/p>\n<p>As pessoas d\u00e3o nomes para as mais diversas coisas, n\u00e3o? Eu tive um amigo, em outra vida, que nomeou um copo. Sim, um copo! Bebia demais, o safado, saudades. Ele tinha um copo especial, especial para ele porque para qualquer um de n\u00f3s parecia s\u00f3 mais um dentro os outros cinco iguais que repousavam por sobre o bar em sua casa. Mas era incr\u00edvel, ele sabia qual era aquele copo, de olhos fechados at\u00e9. \u00c1gua ele tomava em qualquer um, vinho tamb\u00e9m, mas u\u00edsque&#8230; s\u00f3 naquele copo. Mas a parte da \u00e1gua \u00e9 pura anedota, nunca o vimos tomando. U\u00edsque, por sua vez&#8230;<\/p>\n<p>O nome? Guerra e Paz. Se ele tinha lido o livro? Claro que n\u00e3o. Era do tipo que desistia de uma mat\u00e9ria de revista no segundo par\u00e1grafo. Mas isso nunca impediu algu\u00e9m de emular profundidade, n\u00e3o? Guerra e Paz era sua rela\u00e7\u00e3o com o u\u00edsque. Nos momentos que precisava de for\u00e7a, recorria ao copo, quando precisava relaxar, idem. Esse \u00e9 o tipo da dualidade que leva algu\u00e9m ao alcoolismo, creio eu. Espero que esteja bem.<\/p>\n<p>Ah, falo disso porque eu tamb\u00e9m tenho um nome para um objeto incomum. Batizei um tijolo de Lolita. Talvez inspirado pelo tema da literatura russa, mas tem algo nele que me evoca essa exata sensa\u00e7\u00e3o. \u00c9 um tijolo que est\u00e1 um pouco pronunciado em rela\u00e7\u00e3o aos outros. Provavelmente at\u00e9 na medida certa para encaixar meus dedos. Mas ele repousa a poucos cent\u00edmetros acima do limite do meus bra\u00e7os. Eu quero alcan\u00e7ar, n\u00e3o consigo&#8230; ou n\u00e3o quero. Mesmo que eu alcance e consiga us\u00e1-lo para me erguer, ainda vou estar longe demais da sa\u00edda.<\/p>\n<p>Um obsess\u00e3o que eu sei que n\u00e3o vai me levar a lugar algum. \u00c9 at\u00e9 prov\u00e1vel que eu escorregue, caia e me machuque mais ainda. Mas&#8230; eu s\u00f3 quero alcan\u00e7ar. Talvez seja minha \u00faltima ilus\u00e3o de escolha.<\/p>\n<p><strong>Di\u00e1rio do fundo do po\u00e7o, parte 3:<\/strong><\/p>\n<p>Quanto tempo algu\u00e9m pode viver aqui? Eu sei que as pessoas morrem r\u00e1pido sem ar, e ele chega aqui. Sei que \u00e1gua faz falta em poucos dias, mas desse mal eu com certeza n\u00e3o morro. O problema \u00e9 a comida. Energia. Energia que eu gasto a cada vez que respiro ou bebo \u00e1gua. N\u00e3o \u00e9 fascinante morrer por tentar viver? Eu li uma vez que nosso corpo \u00e9 feito pra morrer. J\u00e1 pensou nisso? Que desperd\u00edcio.<\/p>\n<p>Se bem que eu come\u00e7o a entender os motivos&#8230; n\u00e3o gostaria de ficar aqui por toda a eternidade. \u00c0s vezes nossas fraquezas nos libertam&#8230; meus pais eram pessoas muito fortes. Fortes at\u00e9 demais. Detestavam-se, era vis\u00edvel. Eu perdi meu quarto com seis anos de idade e fui for\u00e7ado a dormir no mesmo que uma irm\u00e3 que s\u00f3 conseguia dormir com todas as luzes acesas porque ao inv\u00e9s de admitirem seu fracasso, os dois enfrentaram a situa\u00e7\u00e3o com todas as for\u00e7as que tinham. Ficariam juntos mesmo dormindo em quartos separados e trocando meia d\u00fazia de palavras por dia.<\/p>\n<p>Custasse o que custasse. Eu demorei meses para me acostumar com aquela luz toda. Nem fazia sentido levar meus adesivos de estrelas para o quarto novo, sem escurid\u00e3o eles n\u00e3o tinham a menor gra\u00e7a. Meu pai herdou o meu quarto. Tudo bem, foi ele que pagou mesmo, era meu em termos. Mas&#8230; n\u00e3o era mais f\u00e1cil ter desistido? Morreram poucas semanas de diferen\u00e7a um do outro, acho que a raiva m\u00fatua que os mantinha vivos.<\/p>\n<p>J\u00e1 n\u00e3o lembro mais quantos dias estou aqui. Eu posso jurar que Lolita est\u00e1 se despindo do musgo s\u00f3 para me provocar.<\/p>\n<p><strong>Di\u00e1rio do fundo do po\u00e7o, parte 4:<\/strong><\/p>\n<p>Sabe o que mais irrita? \u00c9 ver a luz l\u00e1 no alto. Mesmo de noite, a Lua encontra seu jeito de mostrar a diferen\u00e7a entre onde estou e onde eu gostaria de estar. \u00c9 o jeito como ela reflete nos tijolos l\u00e1 de cima&#8230; a cor muda, dourado durante o dia e prateado de noite. E depois de algumas horas de sol, eles est\u00e3o sequinhos. Eu sei que n\u00e3o vai durar, mas l\u00e1 em cima&#8230; l\u00e1 em cima as coisas mudam, tem um ciclo. Come\u00e7am e terminam&#8230;<\/p>\n<p>Aqui est\u00e1 tudo sempre igual. O musgo cresce sem impedimentos, fungos e insetos not\u00edvagos sem preocupa\u00e7\u00e3o alguma, sorte deles. Eles est\u00e3o onde deveriam estar, eu que n\u00e3o. Ou, pelo menos eu tenho no\u00e7\u00e3o disso, n\u00e3o fosse aquela luz quem sabe eu cresceria tamb\u00e9m? Abra\u00e7aria a escurid\u00e3o, aceitaria meu habitat e faria ra\u00edzes, ra\u00edzes profundas que me sustentariam por quanto tempo eu quisesse.<\/p>\n<p>Mas com exce\u00e7\u00e3o dos dias chuvosos, onde um teto de chumbo obscurece a vis\u00e3o e me d\u00e1 alguma esperan\u00e7a, a luz est\u00e1 sempre l\u00e1. Eu j\u00e1 tentei fechar os olhos, mas fica tudo vermelho. N\u00e3o \u00e9 a mesma coisa.<\/p>\n<p><strong>Di\u00e1rio do fundo do po\u00e7o, parte 5:<\/strong><\/p>\n<p>Eu deveria ter morrido. Estou pele enrugada e ossos! S\u00f3 meu pesco\u00e7o fica acima da \u00e1gua, as pernas se recusam a cooperar. Por sorte encontrei uma posi\u00e7\u00e3o confort\u00e1vel para olhar as estrelas durante a noite. Na noite passada eu vi uma brilhar mais forte, me deu vontade de rezar. Mas n\u00e3o seria hip\u00f3crita? Eu at\u00e9 acredito que tem algu\u00e9m olhando aqui para baixo, mas eu nunca fui muito de olhar pra cima at\u00e9 agora. Se eu estava bem sem ouvir ou dar ouvidos at\u00e9 agora, acredito que j\u00e1 fiz minha escolha.<\/p>\n<p>N\u00e3o deixa de ser uma escolha, n\u00e3o? Minha primeira namorada tinha olhos verdes, francamente n\u00e3o tinha muito mais o que apreciar ali, mas eu me lembro de me sentir muito sortudo por ter conquistado uma mulher de olhos verdes, o que nem faz muito sentido pensando hoje em dia. N\u00e3o \u00e9 t\u00e3o raro assim, \u00e9? Na maioria das vezes eu nem entendia muito bem o que ela dizia, mas parecia t\u00e3o especial por causa daquele olhar&#8230; eu gostava de me ver refletido ali. N\u00e3o ouvia nada, e duvido que ela dissesse algo de importante, ainda mais naquela idade que s\u00f3 queremos nos afirmar. Mon\u00f3logos acompanhados. Amor adolescente. Ela me deixou por um rapaz que bebia muito, mas era bem mais descolado que eu, talvez at\u00e9 por isso. Azar dela, depois de brigarmos na sa\u00edda de um bailinho, ficamos amigos.<\/p>\n<p>Fico pensando se eu vou ver as estrelas desaparecerem mais uma vez. Se vou ter raiva o suficiente para mais um dia, para rever Lolita e seu tentador verde. S\u00f3 sei que estou cansado.<\/p>\n<p><strong>Di\u00e1rio do fundo do po\u00e7o, parte 6:<\/strong><\/p>\n<p>Hoje algu\u00e9m apareceu. Pouco tempo depois eu fui retirado. Acho que o pr\u00f3ximo vai ter que ser num lugar mais distante ainda&#8230;<\/p>\n<h3>Para dizer que preferia os dias que eu furava, para dizer que adorou a parte de &#8220;emular profundidade&#8221;, ou mesmo para pedir um pouco do que eu estou tomando: <a href=\"mailto:somir@desfavor.com\">somir@desfavor.com<\/a><\/h3>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Di\u00e1rio do fundo do po\u00e7o, parte 1: Pensando bem, n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o ruim assim. Existem lugares piores para se estar. Se n\u00e3o chover forte demais, eu posso ficar aqui por um tempo. Fazia muito tempo que eu n\u00e3o ouvia o som da minha pr\u00f3pria respira\u00e7\u00e3o. \u00c9 bom estar vivo, sempre bom lembrar disso. 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