{"id":9507,"date":"2016-01-26T06:00:54","date_gmt":"2016-01-26T08:00:54","guid":{"rendered":"http:\/\/www.desfavor.com\/blog\/?p=9507"},"modified":"2025-12-16T16:14:38","modified_gmt":"2025-12-16T19:14:38","slug":"a-historia-e-o-sexo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/2016\/01\/a-historia-e-o-sexo\/","title":{"rendered":"A hist\u00f3ria e o sexo."},"content":{"rendered":"<p>N\u00e3o tem como falar de sexo sem contextualizar o momento hist\u00f3rico. A liberdade sexual e reprodutiva esteve, durante toda a hist\u00f3ria, atrelada \u00e0 conveni\u00eancia social daquele momento, seja de forma imposta, seja de forma instintiva. At\u00e9 que ponto o sexo influencia a hist\u00f3ria ou a hist\u00f3ria influencia o sexo? N\u00e3o sei responder. Mas isso n\u00e3o nos impede de fazer um passeio pelo sexo ao longo dos s\u00e9culos, para que voc\u00eas mesmos tirem suas conclus\u00f5es.<!--more--><\/p>\n<p>Na pr\u00e9-hist\u00f3ria, por tudo que se sabe, basicamente n\u00e3o havia regras, salvo a lei do mais forte. Quando um homem queria fazer sexo com uma f\u00eamea, ele fazia na base da for\u00e7a. E ainda estava no lucro se fosse com uma de sua esp\u00e9cie, pois a zoofilia era relativamente comum. Diversas pinturas mostram homens fazendo sexo com animais de forma recorrente e natural. Pinturas rupestres encontradas na regi\u00e3o da It\u00e1lia mostram homens copulando com asnos. Outras encontradas na regi\u00e3o da Sib\u00e9ria mostram homens copulando com alces.<\/p>\n<p>Durante muito tempo n\u00e3o havia qualquer ind\u00edcio de monogamia no ser humano. Mas, aos primeiros sinais de agricultura, que permitiu que nossos ancestrais fixem moradia em um \u00fanico lugar e aprimorem a ideia de propriedade privada, a no\u00e7\u00e3o de monogamia surgiu.<\/p>\n<p>Com esse conceito de posse, te ter aquilo que voc\u00ea ocupa, come\u00e7ou a ser interessante fortalecer os la\u00e7os de fam\u00edlia, quanto mais aliados pelo sangue, mais gente para proteger e cuidar das terras, comida e bens adquiridos. E ningu\u00e9m estava disposto a ralar para alimentar a prole alheia, ent\u00e3o, era bom que a mulher fosse monog\u00e2mica, para assegurar que os filhos fossem daquele macho provedor.<\/p>\n<p>Como mulheres costumavam ter muitos filhos (em alguns per\u00edodos hist\u00f3ricos se estimou que mulheres passavam 50% da sua vida gr\u00e1vidas), isso as \u201cenfraqueceu\u201d socialmente, j\u00e1 que n\u00e3o estavam aptas para guerra, ca\u00e7a ou qualquer atividade que demandasse for\u00e7a e preparo f\u00edsico.<\/p>\n<p>Nos est\u00e1gios avan\u00e7ados da gesta\u00e7\u00e3o, eram praticamente dependentes dos homens em fun\u00e7\u00e3o de sua limita\u00e7\u00e3o de sa\u00fade e motora. Ser gr\u00e1vida hoje com vitaminas e suplementos \u00e9 f\u00e1cil, antigamente uma gesta\u00e7\u00e3o consumia muito do organismo de uma mulher. Assim, nessa cultura patriarcal, ela come\u00e7aram a ficar em desvantagem.<\/p>\n<p>As rela\u00e7\u00f5es humanas evolu\u00edram e veio o conceito propriedade: ter algo mesmo que voc\u00ea n\u00e3o esteja de posse daquele algo, mesmo que n\u00e3o o esteja usando. Com isso, veio o ac\u00famulo de riquezas, e a\u00ed j\u00e1 n\u00e3o era t\u00e3o bacana para os homens terem filhos de forma desenfreada. N\u00e3o por considera\u00e7\u00e3o \u00e0 mulher ou por monogamia, e sim porque seriam mais bocas para sustentar, para dividir seus pertences. Nesse contexto (e em momentos hist\u00f3ricos diferentes temporalmente falando) come\u00e7am a surgir as primeiras camisinhas.<\/p>\n<p>Pois \u00e9, a camisinha n\u00e3o \u00e9 uma inven\u00e7\u00e3o moderna. Em quase todas as culturas se encontram ind\u00edcios deste m\u00e9todo contraceptivo em algum momento, ainda que rudimentar. Uma pintura de 12 mil anos encontrada na caverna de Combarelles, na Fran\u00e7a, mostra um homem fazendo sexo com o p\u00eanis recoberto por algo n\u00e3o identificado. Escritos antigos tamb\u00e9m fazem men\u00e7\u00e3o a fara\u00f3s usando intestino de animais para cobrir o p\u00eanis ou papiros embebidos em \u00f3leos. Chineses usavam papel de seda untado de subst\u00e2ncias lubrificantes.<\/p>\n<p>Prevenir filhos n\u00e3o \u00e9 um desejo moderno. Existem documentos datados de 3.000 AC que j\u00e1 d\u00e3o instru\u00e7\u00f5es sobre como n\u00e3o procriar. Ok, os ensinamentos n\u00e3o eram dos melhores, mas j\u00e1 havia o desejo de evitar crian\u00e7as. Coisas como untar os membros do homem e da mulher com mel (que reduziriam a mobilidade dos espermatozoides) ou despejar leite azedo (que alteraria o PH da vagina tornando-a um ambiente in\u00f3spito). Na \u00e9poca, \u00e9 claro, n\u00e3o se tinha consci\u00eancia da rela\u00e7\u00e3o causa-efeito, era na base da tentativa e erro. Os m\u00e9todos que melhor funcionavam prosperavam.<\/p>\n<p>Para quem n\u00e3o queria bocas para sustentar, existiam as prostitutas. Em tempos onde ainda n\u00e3o havia exame de DNA, filho de prostituta n\u00e3o tinha pai, podia ser de qualquer um. Na Roma e Gr\u00e9cia antiga a prostitui\u00e7\u00e3o era t\u00e3o comum que era tratada como um trabalho regulamentado como outro qualquer, desempenhado por homens e mulheres, mas sempre voltado para clientes homens.<\/p>\n<p>Foram encontradas moedas de bronze que de um lado tinham um numero e do outro uma cena de sexo expl\u00edcito. Acredita-se que eram usadas como um \u201cvale\u201d, ao entregar a moeda para o bordel ou para a prostituta se contratava implicitamente o servi\u00e7o que estava estampado na moeda. Sim, senhores, a coisa era t\u00e3o recorrente que tinha uma moeda pr\u00f3pria.<\/p>\n<p>Por motivos \u00f3bvios, foram eles os primeiros a catalogar e nomear algumas doen\u00e7as sexualmente transmiss\u00edveis, como por exemplo a Gonorreia, termo de autoria de Galeano, no s\u00e9culo II. Cada vez mais se faz a distin\u00e7\u00e3o da \u201cmulher para fazer sexo\u201d e da \u201cmulher para casar\u201d, inclusive com refor\u00e7os na apar\u00eancia, para n\u00e3o haver enganos. Em Roma as prostitutas deveriam obedecer a uma s\u00e9rie de regras de vestimentas, por exemplo, n\u00e3o poderiam vestir a cor violeta e seus cabelos deveriam ser, obrigatoriamente, amarelos ou vermelhos.<\/p>\n<p>Se era importante perpetrar sua prole e n\u00e3o era interessante alimentar e compartilhar bens com filho dos outros, n\u00e3o espanta que lei tenha evolu\u00eddo no sentido de coibir adul\u00e9rio. A mera acusa\u00e7\u00e3o de infidelidade sujeitava uma mulher \u00e0 morte em algumas culturas, pois ela era punida de qualquer jeito: s\u00f3 se presumia que se fosse inocente se escapasse de testes como ser amarrada dentro de um saco cheio de pedras e jogada em um rio. No Egito, era mais democr\u00e1tico: sobrava para todo mundo, homem ou mulher. Por exemplo, em caso de adult\u00e9rio, os homens eram castrados e as mulheres perdiam o nariz.<\/p>\n<p>Na Idade M\u00e9dia, a ideia de monogamia ganha ainda mais for\u00e7a, pois o grande status de riqueza eram as terras. Quem tinha terras, tinha poder. E para cuidar das terras era necess\u00e1rio filhos, muitos filhos. Para obrigar uma uni\u00e3o familiar, come\u00e7aram as regrinhas religiosas cheias de amea\u00e7as e proibi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Passou a ser imposto que para fazer sexo tinha que casar (e casar pressupunha uma jun\u00e7\u00e3o patrimonial muito conveniente entre as duas fam\u00edlias). Em uma \u00e9poca onde mulher virou moeda de troca, natural que se foque no embelezamento da mulher a qualquer pre\u00e7o, ainda que seja deformar as costelas com um espartilho apertado. Mulher era pr\u00eamio. Mulher era caderneta de poupan\u00e7a.<\/p>\n<p>Em uma \u00e9poca de muitas mortes por guerras e doen\u00e7as, era necess\u00e1rio povoar, colocar filhos para cuidar das suas terras, por isso o mainstream da \u00e9poca convergia sempre para a natalidade: n\u00e3o deveriam ser usados m\u00e9todos anticoncepcionais, homossexualidade virou crime pass\u00edvel de pena de morte, aborto passou a ser violentamente repudiado. Tudo isso foi revestido de camadas morais e religiosas, mas o objetivo era um s\u00f3: riqueza.<\/p>\n<p>Era preciso ter muitos filhos para conseguir cuidar, manter e produzir na maior parte de terras poss\u00edveis. A coisa era t\u00e3o acentuada que a esposa que era incapaz de dar um filho ao marido no casamento era considerada in\u00fatil, deficiente e muitas vezes at\u00e9 descartada. E, por incr\u00edvel que pare\u00e7a, sobrou um resqu\u00edcio disso at\u00e9 hoje na cabe\u00e7a de muita mulher, que repete um discurso difundido na \u00e9poca: uma mulher s\u00f3 \u00e9 completa, s\u00f3 sabe o que \u00e9 amor, s\u00f3 est\u00e1 totalmente realizada quando tem um filho.<\/p>\n<p>Nessa \u00e9poca paranoia com adult\u00e9rio aumenta, afinal, j\u00e1 existia um conceito rudimentar de heran\u00e7a. Mas nem sempre adult\u00e9rio era punido com mutila\u00e7\u00e3o. Existia tamb\u00e9m a pena por humilha\u00e7\u00e3o. Em algumas cidades quando a mulher tra\u00eda o marido eles eram obrigados a desfilar em cima de um asno, o marido usando um chap\u00e9u com chifres e a esposa com o corpo coberto de penas.<\/p>\n<p>\u00d3bvio que o adult\u00e9rio masculino era tolerado, afinal, se um homem fazia um filho fora do casamento, isso n\u00e3o gerava nenhum \u00f4nus financeiro. O problema maior era a mulher ter um filho de outro homem, pois esse filho teria que ser bancado pelo corno. Dinheiro, sempre o dinheiro.<\/p>\n<p>O tempo passou, guerras vieram. Morreu homem pra cacete, deixando mulheres e filhos sem amparo. As mulheres come\u00e7aram a arrega\u00e7ar as mangas e foram obrigadas a se inserir no mercado de trabalho. N\u00e3o que elas n\u00e3o quisessem antes, os homens \u00e9 que n\u00e3o deixavam. Se viram obrigados a aceitar quando faltou m\u00e3o de obra masculina.<\/p>\n<p>Mulher ganhando dinheiro gerou mais mulher ganhando dinheiro, pois agora as m\u00e3es podiam dar uma educa\u00e7\u00e3o melhor \u00e0s suas filhas e tamb\u00e9m tinham o seu dinheiro para decidir como gastar. Resultado: mais independ\u00eancia feminina. Resultado sexual: agora que mulheres tem poder de consumo, ser\u00e3o criados produtos atendendo ao interesse delas. Surgiu um grande mercado para produtos de beleza, eletrodom\u00e9sticos que facilitem a vida em casa mas principalmente para anticoncepcionais, que possibilitaram uma nova forma de sexo sem fins reprodutivos. Queima suti\u00e3, toma p\u00edlula, faz sexo com quem quer.<\/p>\n<p>Mas, sabemos que a hist\u00f3ria acontece em movimentos pendulares: quando o p\u00eandulo vai muito para um lado, algo surge e o joga para o outro. Doen\u00e7as Sexualmente Transmiss\u00edveis (algumas letais) e o crescimento ainda maior da mulher no mercado de trabalho fizeram com que moradores dos grandes centros urbanos comecem a pensar melhor nas suas escolhas.<\/p>\n<p>A mulher j\u00e1 era proclamada sexualmente livre (apesar de ainda n\u00e3o s\u00ea-lo at\u00e9 hoje), n\u00e3o precisava mais se provar para ningu\u00e9m, ent\u00e3o, volta a ideia de constituir fam\u00edlia, pois agora seria bom para ambos os lados: fica mais f\u00e1cil criar filhos entre dois, fica mais f\u00e1cil pagar as contas entre dois.<\/p>\n<p>Percebam que dependendo da localidade do planeta onde se v\u00e1, existem hoje seres humanos que se determinam sexualmente como na pr\u00e9-hist\u00f3ria, como na idade m\u00e9dia e como em qualquer outro per\u00edodo que, para n\u00f3s, j\u00e1 passou. Geralmente movidos pelo contexto que os cercam, acreditam experimentar uma escolha na sexualidade. Mas&#8230; ser\u00e1? Talvez seja apenas o contexto que determine a sexualidade vigente.<\/p>\n<p>Existe inclusive uma teoria muito interessante sobre o que o nosso atual contexto est\u00e1 fazendo e vai fazer com a nossa vida sexual. Essa uma teoria que diz que n\u00e3o temos essa liberdade sexual que pensamos, que na verdade sentimos aquilo que conv\u00e9m \u00e0 esp\u00e9cie, ainda que acreditemos ser um sentimento totalmente desvinculado do lado social. N\u00e3o \u00e9, \u00e9 uma jogada evolutiva buscando a sobreviv\u00eancia da esp\u00e9cie, camuflada de escolha pessoal. E as previs\u00f5es s\u00e3o bizarras.<\/p>\n<p>Tudo come\u00e7ou com um experimento realizado com ratos. Ele foi a base para uma teoria nov\u00edssima sobre o atual e futuro estado da sexualidade humana. Alguns ratos foram colocados em um ambiente controlado, em condi\u00e7\u00f5es ideais: fartura de comida e aus\u00eancia de predadores. Como era de se esperar, reproduziram bastante, at\u00e9 que o ambiente come\u00e7ou a ficar lotado.<\/p>\n<p>Quanto mais lotado ficava, mais agressivos e descompensados os ratos ficavam, desenvolvendo uma esp\u00e9cie de psicopatia progressiva, agindo de modo a aniquilar uns aos outros sem motivo aparente. Spoiler: o experimento acaba com todos os ratos mortos.<\/p>\n<p>H\u00e1 quem diga que o ser humano est\u00e1 chegando ao limite populacional suport\u00e1vel e, de alguma forma, instintivamente, sente isso. O reflexo pode ser visto em comportamentos cada vez mais agressivos, destrutivos e na falta de empatia. Mas gente tem uma mente mais elaborada do que a do rato (ao menos alguns de n\u00f3s), ent\u00e3o, estar\u00edamos desenvolvendo mecanismos para lidar com isso, inclusive criando diferentes formas de procriar menos de forma inconsciente.<\/p>\n<p>Assim se explicaria a homossexualidade (que \u00e9 real e nasce com a pessoa, que fique claro, seria apenas predeterminada pelo ambiente), uma grande quantidade de assexuais e um aumento inexplic\u00e1vel por rela\u00e7\u00f5es plat\u00f4nicas, \u00e0 dist\u00e2ncia ou virtuais, pessoas que n\u00e3o querem ter filhos e at\u00e9 pessoas que se comportam de forma infantil para n\u00e3o serem consideradas aptas a ter filhos.<\/p>\n<p>Se esta tend\u00eancia se confirmar, o interesse do ser humano por sexo vai cair vertiginosamente nas pr\u00f3ximas d\u00e9cadas, at\u00e9 virar algo secund\u00e1rio e eventual. O interesse maior vai migrar para o virtual, para a dist\u00e2ncia, para o plat\u00f4nico. \u00c9 a natureza encontrando seu jeito de manter sua col\u00f4nia de humanos viva.<\/p>\n<p>Segundo essa teoria, o contexto social agora \u00e9 que procriemos menos, levando para avan\u00e7os nos m\u00e9todos de controle de natalidade, permiss\u00e3o para realizar aborto e, ao que tudo indica, desinteresse progressivo por sexo.<\/p>\n<p>E a\u00ed, quem determina suas prefer\u00eancias sexuais, a gen\u00e9tica, voc\u00ea ou o contexto social?<\/p>\n<p class=\"uk-background-muted uk-padding\">Para dizer que prometer texto sobre sexo e entregar texto hist\u00f3rico \u00e9 pecado, para dizer que faltou avisar aos pobre com 9 filhos sobre o desinteresse por sexo ou ainda para dizer que \u00e9 bom que eu escreva algo engra\u00e7ado na quinta porque este texto foi chato: <a href=\"mailto:sally@desfavor.com\">sally@desfavor.com<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o tem como falar de sexo sem contextualizar o momento hist\u00f3rico. 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