{"id":9576,"date":"2016-02-09T06:56:32","date_gmt":"2016-02-09T08:56:32","guid":{"rendered":"http:\/\/www.desfavor.com\/blog\/?p=9576"},"modified":"2016-02-10T15:24:02","modified_gmt":"2016-02-10T17:24:02","slug":"independencia-ou-sorte","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/2016\/02\/independencia-ou-sorte\/","title":{"rendered":"Independ\u00eancia ou sorte?"},"content":{"rendered":"<p><em>Semana Outros Carnavais: nesta semana vamos trazer uma nova luz sobre acontecimentos hist\u00f3ricos brasileiros. Muitos deles sugerem que s\u00f3 podem ter sido decididos numa bebedeira de carnaval&#8230;<\/em><\/p>\n<p><strong>A independ\u00eancia do Brasil.<\/strong><\/p>\n<p>Vossa Majestade, por favor ou\u00e7a nossas s\u00faplicas: esta terra n\u00e3o foi feita para pessoas decentes. Nem eu nem Lady Sally podemos ser felizes aqui. Fizemos o que nos foi pedido, Rei George IV, e acredito que finalmente merecemos a gra\u00e7a de voltarmos para nossa querida Londres, longe deste calor infernal, insetos gigantes e povo desagrad\u00e1vel. Por que merecemos? O plano deu resultados: o tolo Pedro acaba de declarar independ\u00eancia da coroa portuguesa. Sim, conseguimos!<!--more--><\/p>\n<p>E antes que uma vers\u00e3o oficial florida mude os rumos do acontecido, conto aqui o que realmente aconteceu. Como Vossa Majestade em sua sabedoria infinita j\u00e1 deve saber, este povo ainda segue as ultrapassadas regras da Igreja de Roma, onde a comemora\u00e7\u00e3o dos excessos pag\u00e3os \u00e9 comum algum tempo antes da P\u00e1scoa. O nome que se d\u00e1 aqui \u00e9 &#8220;Entrudo&#8221;. Palavra curiosa, mas nem perto da insanidade que \u00e9 essa festa propriamente dita. Selvagens&#8230; todos eles.<\/p>\n<p>O Entrudo consiste de v\u00e1rios escravos correndo pelas ruas e fazendo algazarra, acompanhados por nobres inebriados em decadentes orgias dom\u00e9sticas. De sua terra natal, os africanos trouxeram seu batuque, uma barulheira irritante que ocupa todo o ambiente por dias e dias. Lady Sally parece mais afeita ao ritmo dos escravos, mas eu pensei v\u00e1rias vezes em furar meus ouvidos. De qualquer forma, menciono o Entrudo por um bom motivo: o pr\u00edncipe regente e futuro imperador desta terra \u00e9 um de seus maiores entusiastas.<\/p>\n<p>Dom Pedro de Alc\u00e2ntara chegou ainda crian\u00e7a na col\u00f4nia, fugindo dos malditos franceses junto com toda sua fam\u00edlia. Seus pais nunca se sentiram muito confort\u00e1veis por aqui, mas Pedro&#8230; Pedro estava em casa. Impulsivo, intempestivo, irrespons\u00e1vel, metido a artista, pouco instru\u00eddo, mulherengo&#8230;. cabia feito uma luva entre os locais. Se era sua personalidade ou se o Brasil o fez assim, n\u00e3o tenho como precisar. O que importa \u00e9 que sua personalidade permitiu que tiv\u00e9ssemos o resultado desejado.<\/p>\n<p>Lady Sally e eu n\u00e3o tivemos dificuldade de nos infiltrar nas mais elevadas rodas sociais deste pa\u00eds, incr\u00edvel como os locais impressionam-se com um sotaque ingl\u00eas. Gra\u00e7as aos generosos pr\u00e9stimos de Vossa Majestade &#8211; que temos certeza que ser\u00e3o pagos muito mais que em dobro assim que conseguirmos empurrar um empr\u00e9stimo para a na\u00e7\u00e3o rec\u00e9m-criada &#8211; pudemos criar um h\u00e1bito de dar grandes festas no Rio de Janeiro. Mas confesso que demorou algum tempo at\u00e9 o pr\u00edncipe se juntar a n\u00f3s, ench\u00edamos o casar\u00e3o de cortes\u00e3s, mas nada dele aparecer.<\/p>\n<p>At\u00e9 que Lady Sally conseguiu se aproximar de uma das muitas amantes de Pedro e coletou a informa\u00e7\u00e3o que mudaria o rumo de tudo: o futuro imperador desta terra tem uma queda toda especial pela carne mais escura. Passamos semanas procurando e comprando as mais belas mulatas \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o, e at\u00e9 roubando algumas de donos mais desatentos. Ajudava muito dizer para elas que seriam libertas. Algumas se foram, mas v\u00e1rias ficaram. E com exce\u00e7\u00e3o de uma, que, digamos, eu tenha preferido manter sob meus cuidados, a maioria delas adorou a ideia de posarem como servas e tentarem Pedro assim que ele estivesse sob o nosso teto.<\/p>\n<p>E quando a not\u00edcia de nosso estafe das mais belas escravas da regi\u00e3o chegou aos ouvidos do pr\u00edncipe, ele virou presen\u00e7a constante. Aqui, o mais importante: combinamos com elas para jamais cederem fisicamente a Pedro. A ideia era provocar. E provocado ele foi. O pr\u00edncipe n\u00e3o ousaria abusar de escravas de emiss\u00e1rios de Vossa Majestade, e isso foi usado com maestria para deix\u00e1-lo no ponto onde quer\u00edamos.<\/p>\n<p>O ponto do Entrudo. Lady Sally e eu planejamos o seguinte: j\u00e1 era de conhecimento p\u00fablico que os escravos faziam suas comemora\u00e7\u00f5es de Entrudo de forma diferente da nobreza. Que tinham seus pr\u00f3prios locais de celebra\u00e7\u00e3o e que tudo era permitido ali. Pois bem, criamos algo chamado Entrudo Deveras Proibido, uma festa m\u00edtica vedada \u00e0 nobreza. Onde poder-se-ia ouvir os batuques mais ousados, onde as escravas perdiam todas suas inibi\u00e7\u00f5es e frequentemente terminava-se a madrugada numa pilha de corpos nus e suados. A lenda, carregada por nossas falsas escravas, chegou aos ouvidos de Pedro.<\/p>\n<p>E, como previsto, n\u00e3o havia mais nada em sua mente depois disso. Como manipular algu\u00e9m que sempre pode ter tudo o que quis? Negando algo a ele. Foi nesse momento que eu consegui finalmente me aproximar, agindo como um conselheiro preocupado com seu status. Pedro confessara-me sua fascina\u00e7\u00e3o com o Entrudo Deveras Proibido, e eu fazia quest\u00e3o de contar as hist\u00f3rias que ouvi com uma express\u00e3o de desgosto, falando sobre mulatas nuas rebolando por toda a noite ao som de ritmos africanos que fariam corar at\u00e9 mesmo uma cortes\u00e3. Das bebidas secretas que s\u00f3 os escravos conseguiam produzir, das drogas desconhecidas pelo homem branco&#8230; e, claro, como isso era completamente incompat\u00edvel com a imagem do herdeiro do trono portugu\u00eas.<\/p>\n<p>Lady Sally, por outro lado, fez o papel de aliada relutante, deixando entender que sabia onde seria por ter ouvido demais de suas servas, mas que n\u00e3o achava aconselh\u00e1vel dividir a informa\u00e7\u00e3o. Nossa posi\u00e7\u00e3o de prest\u00edgio pelo suporte da coroa inglesa nos garantiu poder de barganha contra o pr\u00edncipe, incapaz de extrair a informa\u00e7\u00e3o que tanto desejava. E quando chegou o dia em que supostamente aconteceria o Entrudo Deveras Proibido, Pedro era o desespero em pessoa. Lady Sally, eu e as nossas belas escravas desaparecemos, buscando ref\u00fagio na regi\u00e3o montanhosa.<\/p>\n<p>Voltamos dias depois. E todas nossas c\u00famplices de \u00e9bano com hist\u00f3rias incr\u00edveis ensaiadas \u00e0 exaust\u00e3o durante nosso retiro. Pedro n\u00e3o demorou mais que algumas horas para nos visitar. Fizemo-nos de sonsos, dizendo que deixamos nossas escravas livres por tr\u00eas dias e que n\u00e3o sab\u00edamos o que acontecera. Ele fez quest\u00e3o de falar com elas, o que obviamente permitimos. Evito descrever em detalhes o relato que combinamos com elas, em respeito ao decoro necess\u00e1rio para se falar com um rei, mas posso garantir que foi moldado precisamente para atender todos os gostos &#8211; p\u00fablicos ou os mais secretos conquistados pelos ouvidos pacientes de Lady Sally &#8211; do pr\u00edncipe.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, demos o golpe final: numa conversa entre eu, Lady Sally e Pedro, contamos algo que nos tinha sido confidenciado por v\u00e1rias de nossas servas, o fato de que o pr\u00edncipe era querido por elas, mas que por estar envolvido com a coroa portuguesa, incentivadora da escravid\u00e3o e opressora de seu povo, n\u00e3o podia ser aceito no seio de sua comunidade. E que por mais que elas quisessem fazer um Entrudo especial s\u00f3 para ele, eram de mundos muito diferentes. N\u00e3o havia nada os unindo.<\/p>\n<p>Eu temi ser um plano muito \u00f3bvio, mas Pedro n\u00e3o era exatamente brilhante. Passaram-se poucos meses e ele fez o esperado: criou toda uma situa\u00e7\u00e3o onde se sentira injusti\u00e7ado pelos pais e proclamou independ\u00eancia. Aposto que isso vai pegar a coroa portuguesa de surpresa. Nesse processo todo, fizemos os acordos pelos quais fomos contratados para arranjar, e j\u00e1 temos garantia que assim que o pa\u00eds se tornar independente, vai pagar repara\u00e7\u00f5es para Portugal com dinheiro emprestado por Vossa Majestade. Parab\u00e9ns, temos mais uma col\u00f4nia em nossas m\u00e3os, e sem precisar derramar o sangue de nenhum de nossos soldados.<\/p>\n<p>E vai ser f\u00e1cil conseguir muito mais coisas, Pedro vive pela expectativa de ser chamado para o pr\u00f3ximo Entrudo Deveras Proibido depois de ter finalmente unificado seu povo e se isolado da monarquia portuguesa. Mal sabe ele que temos que honrar nossa parte do acordo e enviar nossas escravas para a liberdade na Inglaterra. Talvez isso atrase um pouco os planos de faz\u00ea-lo derrubar a escravid\u00e3o aqui, mas temos certeza que agora vai ser f\u00e1cil o suficiente para ser tratado por substitutos que esperamos, de cora\u00e7\u00e3o, que sejam enviados.<\/p>\n<p>O Brasil j\u00e1 \u00e9 livre, fizemos nossa parte. Imploramos pela sua benevol\u00eancia para sermos libertados tamb\u00e9m&#8230; este pa\u00eds n\u00e3o vai nos fazer bem.<\/p>\n<p>De seu fiel s\u00fadito, Lorde Sommir.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Semana Outros Carnavais: nesta semana vamos trazer uma nova luz sobre acontecimentos hist\u00f3ricos brasileiros. Muitos deles sugerem que s\u00f3 podem ter sido decididos numa bebedeira de carnaval&#8230; A independ\u00eancia do Brasil. Vossa Majestade, por favor ou\u00e7a nossas s\u00faplicas: esta terra n\u00e3o foi feita para pessoas decentes. Nem eu nem Lady Sally podemos ser felizes aqui. 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