{"id":9590,"date":"2016-02-13T14:11:16","date_gmt":"2016-02-13T16:11:16","guid":{"rendered":"http:\/\/www.desfavor.com\/blog\/?p=9590"},"modified":"2025-11-05T10:55:32","modified_gmt":"2025-11-05T13:55:32","slug":"macaquinhos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/2016\/02\/macaquinhos\/","title":{"rendered":"Macaquinhos."},"content":{"rendered":"<h5 class=\"topdes-lnk\"><a href=\"http:\/\/extra.globo.com\/noticias\/brasil\/pai-acusado-de-racismo-se-diz-surpreso-com-repercussao-de-foto-na-internet-foi-ingenuidade-da-minha-parte-18639179.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><i class=\"fa fa-external-link fa-2x alignright\">+<\/i><\/a>Neste carnaval, a fam\u00edlia resolveu se fantasiar para curtir a folia. Os personagens do filme Aladim serviram de inspira\u00e7\u00e3o. Fernando virou o pr\u00f3prio menino do tapete voador, a mulher se tornou Jasmine e o filho veio caracterizado como o fiel amigo de Aladim, o macaco Abu. Mateus, filho de Fernando e Cintia, \u00e9 negro. A imagem da fam\u00edlia se divertindo no carnaval caiu nas redes sociais e os pais da crian\u00e7a foram acusados de racismo.<\/h5>\n<p>Aparentemente a preocupa\u00e7\u00e3o com o racismo no Brasil tamb\u00e9m \u00e9 uma fantasia&#8230; <strong>desfavor da semana<\/strong>.<!--more--><\/p>\n<h4 class=\"uk-heading-line\"><span>SALLY<\/span><\/h4>\n<p>Ano passado a sociedade se perguntava se existiam limites para o humor. Este ano parece que a coisa piorou e as pessoas est\u00e3o se perguntando se existem limites para fantasias de carnaval. Isso mesmo. Em uma modalidade nunca antes vista de ofensa por procura\u00e7\u00e3o, o Brasil se ofendeu pela fantasia que um pai escolheu para seu filho de dois anos.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o uma ofensa qualquer. Eu entendo que uma beb\u00ea vestido de prostituta sendo colocada para fazer pole dance cause indigna\u00e7\u00e3o, afinal, \u00e9 degradante, \u00e9 precoce, \u00e9 inadequado para qualquer beb\u00ea (<a href=\"http:\/\/dainteresdit.ge\/images\/nicegallery\/big\/877387fab5f675b74736672c2b0b104b.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">sim, isso existe<\/a>). Mas uma crian\u00e7a vestida de um personagem de desenho Disney, em uma fantasia conjunta e familiar? Desculpa, mas nesse caso eu acho que o racismo est\u00e1 nos olhos de quem v\u00ea.<\/p>\n<p>Se fosse uma crian\u00e7a branca, ningu\u00e9m teria dito nada. Como era uma crian\u00e7a negra, fizeram um esc\u00e2ndalo. Pensem comigo: tem algo mais racista do que tratar diferente duas pessoas na exata mesma situa\u00e7\u00e3o por causa da cor da sua pele? Essa \u00e9 a defini\u00e7\u00e3o de racismo e foi exatamente isso que o brasileiro m\u00e9dio fez nas redes sociais.<\/p>\n<p>Esse menino se chama Matheus. Por gentileza, essa crian\u00e7a tem nome e \u00e9 pelo nome que vou trata-la, ao contr\u00e1rio da imprensa, que o despersonificou e o transformou em um show, uma atra\u00e7\u00e3o. Esse menino tem nome e seus pais tem nome: Fernando e Cynthia. Pois bem, essa fam\u00edlia, Fernando (fantasiado de Aladim), Cynthia (fantasiada de Jasmine) e Matheus(fantasiado de Abu, o macaquinho que \u00e9 o melhor amigo do Aladdin no desenho Disney) fez cair a m\u00e1scara de muita gente: cada acusa\u00e7\u00e3o de racismo foi uma proje\u00e7\u00e3o, um espelhamento do que h\u00e1 dentro da cabe\u00e7a de cada acusador. Quem viu racismo, provavelmente o \u00e9.<\/p>\n<p>Ok, era previs\u00edvel que em uma sociedade pau no cu politicamente correta essa fantasia poderia gerar pol\u00eamica \u2013 e nesse ponto, apenas nesse ponto, os pais erraram. Com ou sem raz\u00e3o, o ideal \u00e9 que uma crian\u00e7a seja preservada de esc\u00e2ndalos, mesmo que para isso os pais tenham que fazer alguma concess\u00e3o injusta em sua liberdade de express\u00e3o. Eu faria concess\u00f5es? Eu n\u00e3o faria, meu filho se vestiria de gonorreia se quisesse, mas eu n\u00e3o tenho filhos justamente pela minha falta de limites.<\/p>\n<p>Mas&#8230; ser\u00e1 que realmente os pais conseguiram antever que causaria todo esse esc\u00e2ndalo? Senhores do Bom Senso dir\u00e3o que era \u00f3bvio que a fantasia causaria repercuss\u00e3o, mas, se pararmos para pensar no hist\u00f3rico de merdas que vemos gente fazer, coisas muito piores do que uma fantasia de carnaval, perceberemos que o brasileiro n\u00e3o \u00e9 muito bom em antever a repercuss\u00e3o de seus atos. Ali\u00e1s, basta olhar para nossos pr\u00f3prios rabos: quem nunca errou a m\u00e3o e fez algo que julgava pequeno mas que acabou repercutindo demais?<\/p>\n<p>Estamos em um dos pa\u00edses do mundo onde mais chegam pais de fam\u00edlia no pronto socorro com objetos nada anat\u00f4micos entalados no \u00e2nus (e temos um texto aqui com depoimentos reais para ilustrar). Pessoas enfiam gnomos de jardim no pr\u00f3prio cu, enfiam l\u00e2mpadas de vidro que quebram e transformam seu col\u00f3n em um sashimi. Por favor, \u00e9 mais do que \u00f3bvio que falta um desconfi\u00f4metro de \u201cvai dar merda\u201d na maioria das pessoas,qual \u00e9 a novidade? Voc\u00eas tem merda na cabe\u00e7a? Estava esperando bom senso de brasileiro, \u00e9 isso? Se sim, v\u00e3o se tratar, a coisa beira a insanidade.<\/p>\n<p>Acontece no Brasil em escala industrial, mas a verdade \u00e9 que acontece com todo mundo algumas vezes na vida. Quem de n\u00f3s nunca anteviu errado a repercuss\u00e3o de um ato? Todos, at\u00e9 eu, Control Freak Queen, cagam na previs\u00e3o de vez em quando, como aconteceu no texto sobre lado negro da gesta\u00e7\u00e3o, que, se voc\u00eas repararem, \u00e9 um Desfavor Explica, coluna que n\u00e3o se prop\u00f5e a causar pol\u00eamica. Gente, acontece. Aceitem e sejam mais compassivos. Amanh\u00e3 pode ser com voc\u00ea.<\/p>\n<p>Todos n\u00f3s j\u00e1 erramos a m\u00e3o, e certamente erraremos novamente. A nossa diferen\u00e7a para Fernando e Cynthia \u00e9 que tivemos a grande sorte, isso mesmo, apenas SORTE, de nenhum filho da puta fotografar nossa cagada e ficar polemizando em cima dela em rede social. Por enquanto. Celulares com c\u00e2mera e v\u00eddeos e fotos vazadas s\u00e3o uma realidade constante. Cuidado, ningu\u00e9m est\u00e1 livre de linchamento virtual. Repito: amanh\u00e3 pode ser voc\u00ea.<\/p>\n<p>A repercuss\u00e3o foi estrondosa a ponto de ter sido o assunto mais comentado do carnaval. O pequeno Matheus, que estava lindo de Abu, foi mais falado do que todas as subcelebridades semi-nuas, todos os esc\u00e2ndalos de famosos b\u00eabados, toda a putaria e baixaria inerente ao carnaval brasileiro. Foi mais falado que pol\u00edticos corruptos que sa\u00edram da pris\u00e3o em um momento de distra\u00e7\u00e3o popular. Mais falado do que Zika v\u00edrus que est\u00e1 se disseminando em forma de pandemia. N\u00e3o est\u00e1 \u00f3bvio que as prioridades brasileiras est\u00e3o bastante distorcidas?<\/p>\n<p>A histeria punitiva chegou ao c\u00famulo de cogitar que o pequeno Matheus seja tirado de seus pais. Para quem n\u00e3o sabe, ele \u00e9 filho adotivo de Fernando e Cynthia. Sim, existem pessoas que acham que ele estar\u00e1 melhor em um orfanato ou talvez at\u00e9 mesmo nas ruas do que com pais supostamente monstruosos que&#8230; que&#8230; fantasiam o filho como um personagem Disney! \u00c9 muita vontade de parece corret\u00e3o \u00e0s custas dos outros, n\u00e3o \u00e9 n\u00e3o? Quanto mais atrasado e tosco um povo, menos compassivo ele \u00e9 com o erro dos outros e menos tolerante com as diferen\u00e7as. Estou com asco das pessoas que lincharam esta fam\u00edlia, a ponto de Fernando ter ir a p\u00fablico se desculpar pela fantasia que escolheu para seu filho!<\/p>\n<p>Honestamente, hoje eu me\u00e7o meu grau de interesse por uma pessoa (interesse enquanto ser humano, que fique claro) de acordo com a compaix\u00e3o com a qual ele trata o equ\u00edvoco dos outros. Tenho para mim que esse vai ser o grande diferencial que vai nos permitir peneirar gente bosta de gente com alguma massa encef\u00e1lica dentro do cr\u00e2nio. Trucidar quem comete um \u00fanico erro (at\u00e9 onde eu pesquisei, n\u00e3o h\u00e1 nada que deponha contra este casal como pais), linchar, espezinhar, incitar revolta, \u00e9 coisa de gente vil, insegura e baixa.<\/p>\n<p>A sanha destrutiva \u00e9 tanta que foge \u00e0 coer\u00eancia. Se Fernando e Cynthia fossem racistas, ser\u00e1 que adotariam um menino negro? Orfanatos est\u00e3o cheios de crian\u00e7as negras que s\u00e3o recusadas por pais brancos em todo Brasil, enquanto crian\u00e7as branquinhas s\u00e3o imediatamente adotadas, havendo inclusive, fila de espera para elas. Por sinal, eles est\u00e3o na fila para adotar mais uma crian\u00e7a. Quem dera racista fosse assim!<\/p>\n<p>Racismo, meus queridos, seria n\u00e3o vestir o filho com a fantasia que ele queria porque ele \u00e9 negro. Isso sim seria racismo. Mas no Brasil racismo, por defini\u00e7\u00e3o, \u00e9 qualquer ato que desperte um inc\u00f4modo causado pela proje\u00e7\u00e3o do racismo do interlocutor na pessoa que ser\u00e1 acusada. A defini\u00e7\u00e3o de racismo, assim como a de feminismo, foi totalmente estuprada, assassinada e substitu\u00edda por uma aberra\u00e7\u00e3o fruto de uma mentalidade coletiva ignorante e atrasada.<\/p>\n<p>A fam\u00edlia Fernando, Cynthia e Matheus usou outras fantasias ao longo do carnaval. Por exemplo, sa\u00edram em um combo Pequeno Pr\u00edncipe, Matheus era o Pr\u00edncipe, Cynthia era a Rosa e Fernando a Raposa. Percebem que a fantasia de Abu era apenas mais uma fantasia e n\u00e3o uma forma de degradar a crian\u00e7a? Para quem n\u00e3o percebe, quero terminar o texto propondo um simples exerc\u00edcio mental (funciona melhor com quem tem filhos). Vamos l\u00e1.<\/p>\n<p>Suponha que voc\u00ea tenha um filho. Voc\u00ea, como todo pai de crian\u00e7a pequena, de tempos em tempos recorre a desenhos Disney para acalmar ou entreter seu filho. Ele assiste Aladdin, (que por sinal virou desenho fixo da TV tamb\u00e9m) e adorou. Ele quer ver seu e pai como o Pr\u00edncipe e sua m\u00e3e como a Princesa e que ser o Abu, nada mais natural, pois crian\u00e7as amam animais, principalmente animais em desenhos. O que voc\u00ea faz? Voc\u00ea nega esse pedido a seu filho por ele ser negro ou realiza o desejo do seu filho e foda-se o mundo? Eu realizaria. E voc\u00ea? Ser\u00e1 que voc\u00ea \u00e9 assim t\u00e3o diferente de Fernando e Cynthia? Fica mais dif\u00edcil de jogar merda nos outros quando se humaniza a situa\u00e7\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 mesmo?<\/p>\n<p>Lembra do Desfavor em 2009, quando tudo come\u00e7ou? Lembra o que nos fazia diferentes de todo mundo? Era ter a coragem que ningu\u00e9m tinha de criticar de forma dura aquilo que entend\u00edamos nocivo. Vejam voc\u00eas, oito anos se passaram e hoje o que nos faz diferente dos outros \u00e9 lutarmos contra covardia e linchamento. Que bela bosta este pa\u00eds virou.<\/p>\n<p>OBS: Infelizmente a babaquice do brasileiro ofuscou o tema ao qual eu estava agarrada com unhas e dentes. O macaco que merecia destaque n\u00e3o era o personagem Abu e sim um lindo macaquinho que apelidamos de \u201cBM\u201d. Eu cato not\u00edcias desfavor\u00e1veis desde 2009 e, puta que me pariu, n\u00e3o lembro deter visto <a href=\"http:\/\/extra.globo.com\/noticias\/brasil\/macaco-embriagado-ameaca-frequentadores-de-bar-na-paraiba-com-uma-peixeira-18655413.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">uma not\u00edcia t\u00e3o deliciosa e que expresse t\u00e3o bem o que \u00e9 este pa\u00eds como essa<\/a>. N\u00e3o vamos poder falar de BM hoje, mas ele, junto com Tilikum, j\u00e1 virou mascote do desfavor. Gente&#8230; TEM COISAS QUE S\u00d3 ACONTECEM NO BRASIL! MUITO AMOR POR ESSA NOT\u00cdCIA, \u00c9 A CARA DO BRASIL!<\/p>\n<p class=\"uk-background-muted uk-padding\">Para chafurdar na sua mediocridade e me chamar de racista, para declarar seu amor por BM ou para dizer que ainda est\u00e1 com choque com a beb\u00ea stripper do primeiro par\u00e1grafo: <a href=\"mailto:sally@desfavor.com\">sally@desfavor.com<\/a><\/p>\n<h4 class=\"uk-heading-line\"><span>SOMIR<\/span><\/h4>\n<p>Talvez eu esteja ficando velho. Estou come\u00e7ando a sentir falta de algo que lembrava no passado e n\u00e3o estou mais encontrando nos dias de hoje: contexto. Em tempos de informa\u00e7\u00f5es mais limitadas, sofr\u00edamos com a manipula\u00e7\u00e3o da m\u00eddia, mas nossas fontes precisavam montar toda uma narrativa para passar a ideia desejada. N\u00e3o que fosse bonito, mas ainda havia alguma &#8220;arte&#8221; na distor\u00e7\u00e3o. Tanto que as pessoas n\u00e3o sa\u00edam concluindo muita coisa sozinhas, precisava de alguma figura de autoridade contando uma hist\u00f3ria para gerar indigna\u00e7\u00e3o popular.<\/p>\n<p>Em tempos de redes sociais, o processo mudou. Mas, ao inv\u00e9s de utilizar as vantagens da internet e da informa\u00e7\u00e3o que flui livre para diminuir a confus\u00e3o sobre os fatos que nos s\u00e3o apresentados, a via do menor esfor\u00e7o foi escolhida: manipulamo-nos sozinhos, abdicando de contextos para fazer julgamentos de valor \u00e0 medida que a &#8220;timeline&#8221; corre, ganhando tempo precioso para&#8230; bom, para fazer tudo de novo.<\/p>\n<p>Ou algu\u00e9m controla por n\u00f3s, ou n\u00e3o controlamos nada. O caminho de analisar as informa\u00e7\u00f5es recebidas antes de tomar uma posi\u00e7\u00e3o sobre elas presume muito mais trabalho do que as pessoas parecem dispostas a ter. Se uma foto mostra um garoto fantasiado de macaco no carnaval, pronto, \u00e9 racismo! Execremos os envolvidos rapidamente, antes que surja uma nova informa\u00e7\u00e3o e a indigna\u00e7\u00e3o potencial vire not\u00edcia velha. N\u00e3o temos tempo a perder! Se parece, \u00e9! E mesmo se n\u00e3o for, pelo menos a linha de produ\u00e7\u00e3o continua funcionando eficientemente, num pa\u00eds onde a maioria das pessoas parece n\u00e3o se importar em deixar alguns corpos inocentes pelo caminho na busca de uma maior sensa\u00e7\u00e3o de seguran\u00e7a, n\u00e3o \u00e9 de se estranhar o pouco cuidado com a integridade de uma fam\u00edlia cujo crime foi ter sido fotografada.<\/p>\n<p>O que incomoda, at\u00e9 mais do que a covardia coletiva, \u00e9 a no\u00e7\u00e3o que isso j\u00e1 virou um modo de funcionar de sociedades conectadas. A internet realmente entregou na promessa de nos deixar mais pr\u00f3ximos, mas isso tamb\u00e9m significa que a mentalidade de bando est\u00e1 tomando sua maior propor\u00e7\u00e3o na hist\u00f3ria. Turbas enfurecidas s\u00e3o t\u00e3o inteligentes quanto seus elos mais fracos, \u00e9 uma tend\u00eancia natural que exige cuidados. Tanto que mesmo o Brasil sendo o campe\u00e3o mundial de linchamentos, eles ainda s\u00e3o ilegais. N\u00e3o d\u00e1 pra deixar na m\u00e3o do povo a execu\u00e7\u00e3o da justi\u00e7a: vai ser a justi\u00e7a do menos capaz elevada ao poder do grupo.<\/p>\n<p>Se lidar com a difus\u00e3o de responsabilidade ainda \u00e9 um desafio no mundo moderno, parece que ela ainda n\u00e3o \u00e9 tratada nos termos que deveria. Como uma manifesta\u00e7\u00e3o da mentalidade coletiva. Mentalidade que abre m\u00e3o de contextos por serem complexos demais para o &#8220;correto&#8221; funcionamento do grupo de linchamento da vez. Pudera: se for esperar que cada um dos elementos que foram ou se convidaram para o apedrejamento da vez entendam exatamente o que est\u00e3o julgando, n\u00e3o h\u00e1 tempo h\u00e1bil para aplicar uma senten\u00e7a. S\u00f3 a rea\u00e7\u00e3o instintiva \u00e9 c\u00e9lere o suficiente.<\/p>\n<p>Pessoas razoavelmente inteligentes conseguem perceber os riscos desse modo de funcionar dos seres humanos enquanto em bandos quando falamos de casos mais &#8220;reais&#8221;. Tanto que os pais da crian\u00e7a s\u00f3 foram lidar com as rea\u00e7\u00f5es negativas na internet. N\u00e3o chegou ningu\u00e9m na rua para apontar para eles seu suposto racismo. Na vida real, precisamos de contextos, normalmente n\u00e3o adianta s\u00f3 apontar o dedo para algu\u00e9m e acus\u00e1-la, as pessoas tendem a n\u00e3o dar a m\u00ednima. E outra: ao vivo a pessoa tem que manter sua acusa\u00e7\u00e3o &#8220;ativa&#8221;, tentando angariar simpatizantes a sua causa.<\/p>\n<p>Na internet, cria-se o ambiente perfeito: o linchamento self-service. De qualquer lugar, a qualquer hora, e com a intensidade que voc\u00ea quiser. Ao inv\u00e9s de uma matilha de lobos atacando um alvo coordenadamente, um bando de urubus se servindo, bicada a bicada, do sofrimento alheio. Eu n\u00e3o sou do tipo que vai vir aqui pedir leis mais severas na internet, at\u00e9 porque acredito de cora\u00e7\u00e3o em liberdade de express\u00e3o irrestrita, mas precisamos conversar sobre isso. Pessoas s\u00e3o linchadas todos os dias na grande rede, e parecem sequer perceber isso. Ou, pior: acham que linchamentos s\u00e3o formas aceit\u00e1veis de exercer justi\u00e7a.<\/p>\n<p>Eu aposto na segunda op\u00e7\u00e3o porque at\u00e9 mesmo a turma do politicamente correto (que n\u00e3o \u00e9 ser humanista, \u00e9 ser chato, burro e ego\u00edsta) entra de cabe\u00e7a em qualquer oportunidade de isolar e atacar um alvo. Quem aparece para julgar o casal acredita, de uma forma torta, que est\u00e1 fazendo o bem. Que vale a pena se juntar para tentar envergonhar e at\u00e9 mesmo ferir algu\u00e9m que j\u00e1 sentenciaram vil\u00e3o, mesmo sem ter se dado ao trabalho de sequer pesquisar sobre o assunto.<\/p>\n<p>Essa \u00e9 exatamente a mentalidade do grupo que se junta para torturar e matar um ladr\u00e3o na rua. A subvers\u00e3o da justi\u00e7a para ganhos pr\u00f3prios: o prazer de estar certo, de ser superior, de ter poder. E, azar dos inocentes que ca\u00edrem pelo caminho, porque quem vem dar chilique em rede social fingindo se importar com quest\u00f5es nobres s\u00f3 quer mesmo ter prazer \u00e0s custas de outras pessoas. Atacar o elo mais fraco, e hoje em dia o elo mais fraco \u00e9 mera quest\u00e3o de exposi\u00e7\u00e3o. Basta ser acusado para ser criminoso.<\/p>\n<p>E o contexto? Oras, o contexto ficou obsoleto.<\/p>\n<p>Em tempo: Sim, temos um novo mascote. BM, o macaco b\u00eabado com uma peixeira! Brasil-sil-sil!<\/p>\n<p class=\"uk-background-muted uk-padding\">Para dizer que j\u00e1 cansou de ler sobre gente que n\u00e3o sabe ler, para dizer que esperan\u00e7a tamb\u00e9m \u00e9 uma fantasia, ou mesmo para dizer que nunca vamos ser expostos com tanto texto: <a href=\"mailto:somir@desfavor.com\">somir@desfavor.com<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>+Neste carnaval, a fam\u00edlia resolveu se fantasiar para curtir a folia. Os personagens do filme Aladim serviram de inspira\u00e7\u00e3o. Fernando virou o pr\u00f3prio menino do tapete voador, a mulher se tornou Jasmine e o filho veio caracterizado como o fiel amigo de Aladim, o macaco Abu. Mateus, filho de Fernando e Cintia, \u00e9 negro. A [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":9591,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1637],"tags":[],"class_list":["post-9590","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-arca"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9590","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9590"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9590\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media\/9591"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9590"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=9590"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=9590"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}