{"id":9606,"date":"2016-02-16T06:00:22","date_gmt":"2016-02-16T08:00:22","guid":{"rendered":"http:\/\/www.desfavor.com\/blog\/?p=9606"},"modified":"2016-02-16T05:41:54","modified_gmt":"2016-02-16T07:41:54","slug":"agentes-provocadores","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/2016\/02\/agentes-provocadores\/","title":{"rendered":"Agentes provocadores."},"content":{"rendered":"<p>Eu nunca fui muito de ser f\u00e3 de ningu\u00e9m. Sabe aquela admira\u00e7\u00e3o pura que a maioria das pessoas expressa por pelo menos algum outro ser humano? At\u00e9 tenho curiosidade de saber como \u00e9. Mas, algumas vezes bate na trave: eu fiquei realmente chateado quando o Christopher Hitchens morreu, o ingl\u00eas frequentemente b\u00eabado e extremamente arrogante que sabia como poucos enfiar o dedo em feridas com seus argumentos abrasivos e rapidez de pensamento. Pol\u00eamico, muito inteligente e muito&#8230; chato. Faz falta para o mundo quem escreve um livro descrevendo porque a Madre Teresa foi uma charlat\u00e3 desumana, n\u00e3o?<!--more--><\/p>\n<p>Mesmo assim, n\u00e3o era aquela admira\u00e7\u00e3o pura que eu imagino que outras pessoas sintam. N\u00e3o tinha nem curiosidade de conhecer a pessoa, n\u00e3o sei nada sobre sua vida pessoal e tenho certeza que nunca vou me preocupar em descobrir. Mas nada temam, n\u00e3o estou usando voc\u00eas para fazer terapia sobre minhas dificuldades de interesse pela humanidade em geral, na verdade meu interesse hoje \u00e9 falar sobre o que eu realmente admiro aqui: a figura do agente provocador. Sempre quis saber o que me fascinava nessa hist\u00f3ria de trollagem, e acredito que finalmente entendi.<\/p>\n<p>A express\u00e3o &#8220;agente provocador&#8221; vem de longe, e tecnicamente significa algu\u00e9m infiltrado num grupo com o objetivo consciente de sabot\u00e1-lo. Mas n\u00e3o como um espi\u00e3o comum, plantando bombas e espalhando mentiras, o agente provocador \u00e9 quem come\u00e7a a dar &#8220;ideia errada&#8221; para as pessoas ao seu redor, convencendo-as a tomar p\u00e9ssimas decis\u00f5es para a causa que defendem. \u00c9 mais sutil que sabotagem, \u00e9 manipula\u00e7\u00e3o; sugerir algo para conseguir o efeito contr\u00e1rio. \u00c9 fazer o advers\u00e1rio acreditar que vai se defender melhor contra o Barcelona se deixar s\u00f3 um zagueiro e o goleiro do meio para tr\u00e1s usando o argumento que a melhor defesa \u00e9 o ataque.<\/p>\n<p>Mas, quando pensamos no conceito de forma mais ampla, d\u00e1 pra trabalhar com uma defini\u00e7\u00e3o menos engessada: o agente provocador social \u00e9 quem incomoda as pessoas nas suas vis\u00f5es de mundo, colocando mais lenha numa fogueira cujas labaredas querem ver cada vez maiores. Hitchens, meu exemplo inicial, era mestre nisso: ao inv\u00e9s de tratar discuss\u00f5es como trocas de ideias, atropelava qualquer um menos articulado e\/ou esperto sempre que poss\u00edvel, gerando muito mais raiva do que reflex\u00e3o em seus advers\u00e1rios. Fal\u00e1cias, deboches, discurso de autoridade&#8230; se desestabilizasse o outro, ele usava sem d\u00f3 nem pena.<\/p>\n<p>E eu confesso que \u00e0s vezes imaginava isso como um desperd\u00edcio de potencial. Por que uma pessoa t\u00e3o inteligente e focada vai passar tanto tempo queimando pontes se poderia tentar explicar para as pessoas o que acontece nesse mundo? S\u00f3 para ficar no campo de ingleses que escreveram livros famosos apontando como religi\u00e3o \u00e9 rid\u00edcula, Richard Dawkins parece muito mais preocupado em ser acess\u00edvel e educativo. Pois bem, esse n\u00e3o \u00e9 o papel do agente provocador, e algu\u00e9m precisa cuidar dessa parte de ficar irritando e incomodando as pessoas.<\/p>\n<p>Ainda bem que pessoas inteligentes assumem esse papel de tempos em tempos, ali\u00e1s, ainda bem que pessoas em geral entrem na briga contra nossas certezas. Claro, o processo \u00e9 muito mais divertido quando esse agente tem mais recursos. Recentemente eu ando gostando muito de ver Milo Yiannopoulos fazendo esse papel, cada vez com mais visibilidade. Para quem n\u00e3o sabe, e quase certeza que a maioria n\u00e3o sabe, Milo \u00e9 um jornalista ingl\u00eas (\u00f4 pa\u00eds pra fazer esse tipo de gente), cat\u00f3lico e abertamente homossexual, que adora provocar feministas e a turma do politicamente correto com seu discurso conservador. Ele ajudou a criar um fundo de estudo para homens brancos lutarem em igualdade com mulheres, gays e minorias em geral. Voc\u00ea pode achar absurdo, mas \u00e9 o tipo de coisa que mexe com a cabe\u00e7a de todo mundo. Gera discuss\u00e3o e se tiver alguma m\u00e1scara para cair nesse caminho, ela cai.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 um Hitchens, com certeza, mas \u00e9 muito divertido que ainda tenhamos gente assim aparecendo no mundo. Tem algo muito interessante em gente que fica provocando e desestabilizando nossas certezas, mesmo que discordemos de quase tudo o que a pessoa fala (concordava muito com o Hitchens, concordo pouco com Milo, mas \u00e9 o conceito que fascina), esse \u00e9 o tipo de bagun\u00e7a que ajuda a humanidade a n\u00e3o ficar muito confiante nos seus caminhos. Agentes provocadores envenenam a causa de seus advers\u00e1rios ao mesmo tempo que envenenam as pr\u00f3prias, \u00e9 a defini\u00e7\u00e3o do homem que s\u00f3 ver esse mundo queimar.<\/p>\n<p>E agora eu come\u00e7o a entender meu fasc\u00ednio com a trollagem, talvez da forma mais clara at\u00e9 hoje. Gosto de ver a bagun\u00e7a resultante e o que as pessoas v\u00e3o fazer para lidar com isso. Tem algo muito interessante a\u00ed, a explicita\u00e7\u00e3o da carga emocional presente em todo argumento racional. E quando o emocional explode, todo o resto \u00e9 coadjuvante. H\u00e1 uma catarse nesse processo, algo que desmonta e precisa ser remontado com novas pe\u00e7as. E talvez a\u00ed resida uma das maiores for\u00e7as de mudan\u00e7a poss\u00edveis para o ser humano.<\/p>\n<p>O agente provocador tem que ser capaz de injetar sua vis\u00e3o de mundo dentro de uma bomba de irrita\u00e7\u00e3o ou inc\u00f4modo na esperan\u00e7a que seus alvos tenham rea\u00e7\u00f5es emocionais poderosas e se quebrem no processo. \u00c9 uma forma de tornar o pensamento realmente infeccioso, aproveitando brechas rec\u00e9m-criadas para invadir um novo hospedeiro. E n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 com argumenta\u00e7\u00e3o arrogante que isso \u00e9 poss\u00edvel, o humor \u00e9 um ve\u00edculo fenomenal para isso. Claro que a principal obriga\u00e7\u00e3o do humor \u00e9 fazer rir, mas alguns de seus expoentes s\u00e3o excelentes para fazer esse papel de incomodar ou confundir ao ponto de agirem como provocadores.<\/p>\n<p>Talvez at\u00e9 por isso eu n\u00e3o me anime muito com os brasileiros, um Bill Hicks imitando o dem\u00f4nio por meia hora ou um Andy Kauffman lutando com mulheres para se provar poderoso s\u00e3o capazes de atingir uma \u00e1rea do c\u00e9rebro que mesmo as sacadas mais brilhantes da maioria n\u00e3o conseguem. Percebam que nem \u00e9 quest\u00e3o de qualidade, \u00e9 sobre um caminho diferente que infelizmente n\u00e3o faz parte da nossa cultura. Acham por aqui que abrir os horizontes \u00e9 enfiar o dedo um no rabo do outro. As coisas ficam muito separadas. Ou \u00e9 inacess\u00edvel masturbat\u00f3rio ou \u00e9 \u00f3bvio concreto, sem meio termo. Falta cultura de provoca\u00e7\u00e3o no Brasil.<\/p>\n<p>A provoca\u00e7\u00e3o se vale muito de subverter expectativas, seja o argumentador brilhante jogando sujo e sendo at\u00e9 meio infantil \u00e0s vezes, seja o humorista estragando suas piadas para se meter onde n\u00e3o \u00e9 chamado. A confus\u00e3o e a rea\u00e7\u00e3o emocional s\u00e3o aliados poderosos na hora de passar uma ideia para a frente. Tendemos a ser muito diretos, indo de encontro com as defesas de nossos interlocutores.<\/p>\n<p>Quando se age como um sabotador de certezas por dentro da cabe\u00e7a da pessoa, voc\u00ea consegue resultados \u00fanicos. O caminho, me parece cada vez mais, \u00e9 ao redor das defesas. Ou mesmo fingindo que est\u00e1 atacando por um lado quando est\u00e1 por outro. O curioso que essa foi uma das primeiras li\u00e7\u00f5es da publicidade moderna: os comerciais de antigamente eram diretos, falavam sobre produtos e seus benef\u00edcios. Os de hoje falam de basicamente tudo, menos o que voc\u00ea vai comprar. Sei que isso n\u00e3o \u00e9 Publiciot\u00e1rios, mas gente que vive de enfiar ideias na cabe\u00e7a dos outros tende a estar alguns passos a frente, mesmo que n\u00e3o perceba conscientemente o que est\u00e1 fazendo.<\/p>\n<p>E mesmo que algumas pessoas s\u00f3 queiram ver o circo pegar fogo, o mundo parece n\u00e3o estar perdendo muito com a a\u00e7\u00e3o delas. Na verdade, talvez at\u00e9 mais do que admira\u00e7\u00e3o pura, sejam os agentes provocadores que incentivem a maior parte de nossas a\u00e7\u00f5es. Sally me disse algo muitos anos atr\u00e1s que eu acho que s\u00f3 estou entendendo agora: sabemos explicar muito melhor por que n\u00e3o gostamos de uma coisa do que explicar o porqu\u00ea de gostarmos. Existem atalhos na mente humana, e eu duvido que estejam no nosso centro de recompensas.<\/p>\n<p>E ei, voc\u00ea! Se voc\u00ea est\u00e1 achando que eu estou sendo confuso e mudando muito de assunto, pense melhor&#8230;<\/p>\n<p class=\"uk-background-muted uk-padding\">Para dizer que finalmente entendeu tudo, para dizer que est\u00e1 com pregui\u00e7a de jogar esse joguinho, ou mesmo para dizer que \u00e9 meu f\u00e3: <a href=\"mailto:somir@desfavor.com\">somir@desfavor.com<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Eu nunca fui muito de ser f\u00e3 de ningu\u00e9m. Sabe aquela admira\u00e7\u00e3o pura que a maioria das pessoas expressa por pelo menos algum outro ser humano? At\u00e9 tenho curiosidade de saber como \u00e9. 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