{"id":9772,"date":"2016-03-18T05:49:24","date_gmt":"2016-03-18T08:49:24","guid":{"rendered":"http:\/\/www.desfavor.com\/blog\/?p=9772"},"modified":"2016-03-18T05:49:24","modified_gmt":"2016-03-18T08:49:24","slug":"cristina-f","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/2016\/03\/cristina-f\/","title":{"rendered":"Cristina F."},"content":{"rendered":"<p>Cristina era feia. Feia mesmo, daquele tipo que nem a generosidade do \u00e1lcool conseguia contornar. A cabe\u00e7a era grande demais para o corpo esqu\u00e1lido, n\u00e3o conseguia sequer preencher o que seria o primeiro suti\u00e3 da maioria das mulheres; o sorriso comprometido por diversos dentes tortos, as bochechas devassadas pela acne excessiva na adolesc\u00eancia, os l\u00e1bios finos que pareciam s\u00f3 evidenciar o nariz que sempre lhe fez receber o apelido de bruxa&#8230; Cristina era boa pessoa, esfor\u00e7ada, mas n\u00e3o era o que nenhum homem conseguiria chamar de atraente. Vivera toda sua vida lutando para se manter minimamente bem cuidada, mas faltava-lhe at\u00e9 o dinheiro necess\u00e1rio para dar um jeito na apar\u00eancia de forma mais definitiva.<!--more--><\/p>\n<p>Mesmo os desesperados, aqueles que frequentemente encaram qualquer coisa em troca da promessa de sexo, s\u00f3 passavam por seus bra\u00e7os em casos de apostas perdidas. Das primeiras vezes que ficou sabendo as reais inten\u00e7\u00f5es de seus raros sucessos com o sexo oposto, ficara devastada. Mas o tempo lhe mostrou que cada um joga com as armas que tem. Cristina desenvolvera um talento pronunciado para descobrir o tipo de situa\u00e7\u00e3o onde essas apostas cru\u00e9is aconteciam. Baladas, eventos, carnaval de rua&#8230; ela havia notado at\u00e9 mesmo quais express\u00f5es faciais e din\u00e2micas de grupo que sugeriam que homens estavam apostando para ver quem teria que ficar com a mulher mais feia do local. Fazia mais, at\u00e9: sabia que s\u00f3 a sua presen\u00e7a j\u00e1 poderia desencadear esse tipo de comportamento em homens.<\/p>\n<p>E de posse dessa habilidade, Cristina buscava suas oportunidades fazendo-se vis\u00edvel para algum desses grupos. Pegava uma bebida, mantinha-se afastada das amigas que sempre a acompanhavam &#8211; sabe-se l\u00e1 se por amizade ou pelo efeito embelezador de ter uma amiga feia por perto &#8211; mostrando-se vulner\u00e1vel a qualquer investida masculina. Sabia tamb\u00e9m que tinha todo o tempo do mundo: rar\u00edssimas eram as vezes que algu\u00e9m b\u00eabado demais vinha por conta pr\u00f3pria para uma tentativa de flerte, ainda mais quando ela se prostrava em \u00e1reas suficientemente iluminadas.<\/p>\n<p>E numa noite dessas, um s\u00e1bado numa boate rec\u00e9m-inaugurada na regi\u00e3o, ela nota uma excelente oportunidade. Um grupo de homens em sua maioria atraentes conversa animadamente, copos praticamente vazios em m\u00e3os, risadas soltas. Ela segue seu protocolo e se apoio numa pilastra, bem debaixo de um canh\u00e3o de luz que evidencia toda sua fei\u00fara. Inimiga mortal da luz, sabe que cada raio batido em sua face destaca ainda mais seus pontos negativos. E parece funcionar, primeiro um deles nota. Ela n\u00e3o corresponde o olhar, fingindo-se alheia aos acontecimentos. Com o canto do olho, percebe que aquele homem divide a not\u00edcia com seus colegas, e um a um, todos acabam se voltando para ela, olhando rapidamente e voltando-se para o grupo para uma sess\u00e3o de gargalhadas.<\/p>\n<p>Quest\u00e3o de tempo. E sorte grande! O mais bonito deles, um moreno alto e atl\u00e9tico, cabelo imaculadamente desarrumado, barba rala, camisa aberta destacando a musculatura avantajada, aproxima-se de forma nem um pouco discreta, dan\u00e7ando ao som da m\u00fasica ambiente enquanto tenta manter o resto da bebida ainda no copo. Ele chega confiante, olhar penetrante. Sem dizer uma palavra, coloca uma das m\u00e3os em sua cintura, num convite pra l\u00e1 de f\u00edsico para ser acompanhado em sua dan\u00e7a. Cristina conhece esse jogo, e sabe que tem que tirar o m\u00e1ximo da oportunidade. Simula uma resist\u00eancia inicial, esperando que o belo rapaz aumente a aposta. Abastecido pelo ego prestes a ser ferido, ele a puxa diante de seu rosto, tentando fazer uma express\u00e3o sedutora. Cristina ent\u00e3o vai para o abate: como uma fera esfomeada, agarra o homem e tasca-lhe um beijo apaixonado.<\/p>\n<p>Cada um joga com as armas que tem. Se pl\u00e1sticas eram caras demais para ela, conhecimento vinha de gra\u00e7a: sabia mil formas diferentes de ati\u00e7ar a libido masculina, e gra\u00e7as \u00e0 sua estrat\u00e9gia de ca\u00e7a, tinha experi\u00eancia o suficiente para coloc\u00e1-las em pr\u00e1tica. O beijo tinha uma t\u00e9cnica perfeita, adaptada em fra\u00e7\u00f5es de segundo de acordo com as rea\u00e7\u00f5es de seu parceiro. Cristina moldava-se instantaneamente para o que quer que sentisse ser ben\u00e9fico para seu objetivo final: falar diretamente com os instintos dos homens. Ousada, t\u00edmida, dominadora, passiva&#8230; ela vestia qualquer fantasia que lhe conviesse.<\/p>\n<p>Sentiu a rea\u00e7\u00e3o positiva a uma postura mais agressiva, e n\u00e3o se fez de rogada: com uma m\u00e3o segurava a camisa dele, com a outra, tomava controle de sua virilha. N\u00e3o deu sequer tempo dele respirar, sabia que quebrar o contato do beijo o faria enxergar a realidade novamente. Cristina confiou nas sensa\u00e7\u00f5es que poderia proporcionar. E foram v\u00e1rios e v\u00e1rios minutos dessas sensa\u00e7\u00f5es. As m\u00e3os dele procuravam por elementos que simplesmente n\u00e3o estavam l\u00e1, mas ela sabia jogar com sua postura para evitar que isso ficasse claro demais.<\/p>\n<p>Mais uma parte do plano estava completa: o rapaz tinha apostado alto demais. Seus amigos j\u00e1 tinham visto ele passar muito tempo agarrado com ela. Ele havia virado a piada. Via de regra a alternativa menos vergonhosa para um homem desses era continuar at\u00e9 o final, sumir de l\u00e1 com ela e torcer para que tudo fosse esquecido. Ou mesmo usar a verdade como rede de seguran\u00e7a: um talento na cama costuma ser desculpa v\u00e1lida para ambos os sexos. Cristina mesmo sugere que ambos saiam de l\u00e1 para um lugar mais tranquilo. Ele olha ao seu redor, pensa por alguns segundos, e como esperado, aceita a proposta.<\/p>\n<p>Ela sugere que ambos sigam para seu acanhado apartamento, confiante que isso diminua o risco para ele de ser visto em p\u00fablico com ela, at\u00e9 mesmo um motel seria arriscado, com seus espelhos por todos os lados. Sucesso, ele concorda. Agora, bastava contornar a dificuldade da carona: como ela morava bem mal, a viagem seria longa e haveria muito tempo para uma mudan\u00e7a de ideia da parte dele. Nada que manter a cabe\u00e7a baixa pela maior parte do percurso n\u00e3o resolvesse. Claro, levantando de vez em quando para apontar as dire\u00e7\u00f5es. O suficiente para que ele n\u00e3o pensasse em nada pela dura\u00e7\u00e3o da viagem.<\/p>\n<p>A moradia popular n\u00e3o impressionava por fora, mas Cristina sabia montar seu &#8220;ninho de amor&#8221; com maestria. O bar comprado a duras custas, sempre bem estocado, ao lado da cama. N\u00e3o havia muitos m\u00f3veis no caminho at\u00e9 a cama, para a qual ela rapidamente o conduz. A luz d\u00e9bil da lua que entrava pela janela transforma-se em breu com o fechamento das cortinas. As \u00fanicas palavras trocadas s\u00e3o cuidadosamente jogadas por ela para manter a excita\u00e7\u00e3o no grau mais elevado. O talento continua impressionante ap\u00f3s as roupas acabarem arremessadas ao ch\u00e3o.<\/p>\n<p>Cristina joga pra ganhar. Nenhuma inibi\u00e7\u00e3o, habilidades que a maioria das mulheres desconhecem, uma generosidade \u00edmpar com o prazer do parceiro&#8230; e at\u00e9 mesmo concess\u00f5es perigosas para manter tudo o mais prazeroso e impulsivo para ele. A noite avan\u00e7a, selvagem, at\u00e9 que ele n\u00e3o tenha mais sequer a capacidade de levantar da cama. Miss\u00e3o cumprida, que viesse a manh\u00e3 do domingo.<\/p>\n<p>Ela vem e passa. J\u00e1 era passada a hora do almo\u00e7o quando ela finalmente abre os olhos. Ele continua l\u00e1, ainda mais bonito com a luz que invade pelas frestas da cortina. Cristina sorri, satisfeita. Desinibida, levanta, vai at\u00e9 a janela e permite que o sol adentre o ambiente. Ele demonstra inc\u00f4modo por alguns segundos, e logo abre os olhos. Ela j\u00e1 est\u00e1 acostumada com a express\u00e3o de &#8220;p\u00e2nico contido&#8221; a essa altura do campeonato. Eles sempre se assustam e tentam rapidamente disfar\u00e7ar. Ela n\u00e3o se abala mais com isso, abre um largo sorriso e d\u00e1 bom dia para ele.<\/p>\n<p>Ele pergunta que horas s\u00e3o, ela responde sem olhar para o rel\u00f3gio. Ele, como previsto, diz que est\u00e1 muito tarde e que tem um compromisso. Ela concorda com um aceno de cabe\u00e7a, inabal\u00e1vel. O homem se levanta, envergonhado, procurando por suas roupas. Veste-se rapidamente, tentando evitar contato visual. Ela n\u00e3o se importa, observando a paisagem pela janela, a luz do sol iluminando seu corpo nu. Assim que ele se aproxima para um protocolar beijo de despedida, ela olha fixamente em seus olhos e diz, com express\u00e3o serena:<\/p>\n<p><em>&#8220;Quando voc\u00ea passar por aquela porta, s\u00f3 lembra disso&#8230; nunca mais na sua vida, n\u00e3o importa onde voc\u00ea v\u00e1, quem voc\u00ea conhe\u00e7a ou quanto voc\u00ea se esforce, voc\u00ea vai sequer chegar perto de sentir o que sentiu ontem. Ningu\u00e9m mais faz o que eu fa\u00e7o. Ela pode ser linda, cara de modelo e corpo de dan\u00e7arina&#8230; mas pode ter certeza que uma hora ou outra, voc\u00ea vai lembrar de mim quando estiver com ela. E ela nunca vai fazer o que eu fa\u00e7o. Nunca com a vontade que eu fa\u00e7o, nunca com o talento que eu tenho, nunca mais voc\u00ea vai se sentir assim com outra. Lembra de hoje, porque n\u00e3o fica melhor que isso.&#8221;<\/em><\/p>\n<p>Ele para por um tempo, express\u00e3o confusa. Refaz-se depois de algum tempo e pergunta:<\/p>\n<p><em>&#8220;A gente pode ser ver outro dia?&#8221;<\/em><\/p>\n<p>Ela sorri:<\/p>\n<p><em>&#8220;N\u00e3o. Tchau.&#8221;<\/em><\/p>\n<p>Ele fica est\u00e1tico por mais alguns segundos, mas segue em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 porta. Ela o acompanha. Assim que ele est\u00e1 do lado de fora, tenta dizer mais alguma coisa, mas \u00e9 isolado pelo fechar da porta. Logo se volta para a mesa no centro da sala, onde seu celular est\u00e1 apinhado de mensagens de homens que conheceu em semanas passadas. Pensa em dar uma chance para algum deles, mas resolve deixar para depois, ainda \u00e9 divertido hoje como era no passado.<\/p>\n<p class=\"uk-background-muted uk-padding\">Para dizer que meus contos er\u00f3ticos s\u00e3o broxantes, para dizer que eu acordei feminista hoje, ou mesmo para dizer que pegava a Cristina mas n\u00e3o apresentava pra fam\u00edlia: <a href=\"mailto:somir@desfavor.com\">somir@desfavor.com<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cristina era feia. Feia mesmo, daquele tipo que nem a generosidade do \u00e1lcool conseguia contornar. 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