{"id":9964,"date":"2016-04-21T06:00:22","date_gmt":"2016-04-21T09:00:22","guid":{"rendered":"http:\/\/www.desfavor.com\/blog\/?p=9964"},"modified":"2016-04-21T05:34:33","modified_gmt":"2016-04-21T08:34:33","slug":"vendo-uma-ideia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.desfavor.com\/blog\/2016\/04\/vendo-uma-ideia\/","title":{"rendered":"Vendo uma ideia."},"content":{"rendered":"<p>Outro dia desses eu estava revirando algumas caixas com coisas antigas, daquelas que depois de um tempo viram paisagem no fundo de um arm\u00e1rio, e voc\u00ea nem se lembra mais de que ela n\u00e3o deveria estar ali. Dentre uma pilha de pap\u00e9is, uma revista antiga sobre videogames. Nost\u00e1lgico, ou, com pregui\u00e7a de continuar a limpeza, resolvi folhe\u00e1-la. Logo no come\u00e7o, na sess\u00e3o de cartas (sim, revistas se comunicavam com seus leitores por cartas!), uma charge enviada por um leitor com uma piada sobre um garoto dizendo que queria fazer bal\u00e9 e apanhando do pai por isso. Minha primeira rea\u00e7\u00e3o? &#8220;Nossa, arriscado publicar isso&#8230;&#8221;<!--more--><\/p>\n<p>Bom, arriscado hoje. Com certeza n\u00e3o em 1997, quando a revista foi publicada. Claro que a idade e o pouco de maturidade conquistadas desde minha adolesc\u00eancia tem influ\u00eancia, mas com certeza na \u00e9poca eu jamais pensaria em como um garoto gay se sentiria lendo aquilo. Ou mesmo um que n\u00e3o fosse e tivesse o sonho de dan\u00e7ar&#8230; ou imagine s\u00f3 se ambas as condi\u00e7\u00f5es estivessem presentes? Evidente que minha posi\u00e7\u00e3o contra a censura, principalmente a do humor, mant\u00e9m-se intacta&#8230; mas, eu pensei num grupo cujo sapato n\u00e3o me aperta automaticamente. N\u00e3o tive que parar pra refletir sobre o tema, simplesmente pensei que algumas pessoas podiam ficar chateadas com aquilo, achando ficar chateado com isso uma frescura, mas mesmo assim, pensando por reflexo.<\/p>\n<p>Aconteceu alguma coisa. A ideia, n\u00e3o s\u00f3 do politicamente correto, mas a de uma compreens\u00e3o m\u00ednima sobre os problemas de outros grupos humanos, parece finalmente instalada nesta cabe\u00e7a. Temos que aprender a entender o que vai acender o pavio (curto) das v\u00edtimas profissionais para poder escolher nossas batalhas, mas nessa esteira veio junto uma ideia que com certeza faz bem para a conviv\u00eancia humana: pensar no outro considerando que cada um tem problemas muito pr\u00f3prios.<\/p>\n<p>E a\u00ed, e agora vem a virada que voc\u00eas j\u00e1 estavam esperando, comecei a me perguntar o qu\u00e3o cedo na &#8220;vida comercial&#8221; da ideia eu a adotei. Porque ideias n\u00e3o deixam de ser produtos que consumimos. E podemos tra\u00e7ar diversos paralelos entre a vida de um produto e de uma ideia. J\u00e1 estava mais do que na hora da humanidade come\u00e7ar a se preocupar com os direitos de minorias discriminadas. E por mais que ideais de igualdade tenham surgido em diversos per\u00edodos da nossa hist\u00f3ria, estamos vivendo o &#8220;boom&#8221; deles no nosso mercado de aceita\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>E ideias, principalmente essas grandiosas que nos obrigam a rever o mundo sob uma nova lente, ideias passam por etapas de penetra\u00e7\u00e3o no mercado bem parecidas com as de bens de consumo, se pensarmos direito. Imagine que a Apple lan\u00e7ou mais um iPhone, dessa vez com uma cor mais brega ainda e 1% a mais de tela. Temos grupos distintos de compradores: aqueles que v\u00e3o acampar na frente da loja por dias e morrer de orgulho de ser um dos primeiros a consumir o produto, os que querem comprar cedo mas n\u00e3o v\u00e3o se matar por isso, os que esperam o produto estar maduro o suficiente para experimentar&#8230; e at\u00e9 mesmo aqueles que n\u00e3o podem consumir o original e seguem para as imita\u00e7\u00f5es&#8230;<\/p>\n<p>Calma, o paralelo vai aparecer: pense numa ideia, como a do respeito aos direitos dos homossexuais, da mesma forma. Alguns malucos v\u00e3o largar tudo o que est\u00e3o fazendo, passar dias dentro de uma barraca numa rua fria e ficarem monotem\u00e1ticos quando essa ideia estiver pr\u00f3xima de ficar dispon\u00edvel. Atualmente vemos eles na figura dos ativistas v\u00edtimas que infestam as redes sociais&#8230; gente que gosta tanto da ideia que quer fazer dela parte indissol\u00favel de sua personalidade. E, como bons cultistas, espalhar a palavra entre os infi\u00e9is, seja l\u00e1 o meio necess\u00e1rio.<\/p>\n<p>Esses veriam a mesma piadinha que eu li sob uma \u00f3tica muito mais agressiva, provavelmente tentariam organizar um boicote contra a revista (assim que descobrissem no Google o que era uma revista) e destruir a vida de todos os envolvidos na publica\u00e7\u00e3o do material que os desagradem. Esses f\u00e3s malucos da ideia querem a exclusividade de serem os primeiros a ostentar a ideia\/produto diante de seus pares, e v\u00e3o colocar tudo em segundo plano pra conseguir.<\/p>\n<p>\u00c9, eu n\u00e3o estava nesse grupo. Eu gosto da ideia de respeitar os direitos humanos independentemente de prefer\u00eancias sexuais, mas n\u00e3o gosto tanto ao ponto de me tornar t\u00f3xico \u00e0queles pr\u00f3ximos de mim. Talvez a pr\u00f3xima escala na rela\u00e7\u00e3o de consumo: ainda querer ser um dos primeiros, mas sem desespero. Claro, ser &#8220;early adopter&#8221; de um produto tem seus custos, \u00e9 quase sempre mais caro quando acaba de ser lan\u00e7ado. Em ideias, idem. Ent\u00e3o, h\u00e1 de se calcular o qu\u00e3o caro \u00e9 expressar essa ideia entre seus pares&#8230; e no meu caso, acredito que seja bem barato. Ningu\u00e9m vai me causar problemas se eu disser que gays deveriam poder se casar, por exemplo.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 essa fase do processo n\u00e3o. Eu nem moro num lugar muito avan\u00e7ado nessas quest\u00f5es de liberdades pessoais, mas o pre\u00e7o \u00e9 aceit\u00e1vel e a ideia encontra muito eco entre aqueles que me s\u00e3o pr\u00f3ximos. Algu\u00e9m vivendo no meio dos taleb\u00e3s que deve estar pagando o pre\u00e7o cheio por uma ideia do tipo&#8230;<\/p>\n<p>Deve ser a pr\u00f3xima etapa ainda: aquela onde o produto j\u00e1 est\u00e1 maduro no mercado, todo mundo conhece, muita gente j\u00e1 tem e come\u00e7a a valer a pena pagar por ele. Com a ideia, agora sim parece encaixar. Virei consumidor consciente: entendo os benef\u00edcios da ideia sem ficar cego para aqueles que parecem fazer mau uso dela. Se eu &#8220;comprei esse iPhone&#8221;, foi porque a rela\u00e7\u00e3o custo\/benef\u00edcio valeu a pena. E, se eu vir algum babaca berrando numa vers\u00e3o dourada dele ao meu lado, sei diferenciar. Voltando para o exemplo inicial do texto, \u00e9 como se eu fosse capaz de entender e at\u00e9 simpatizar com uma pessoa que ficasse chateada de ver aquela charge supostamente homof\u00f3bica, mas sem querer calar ou prejudicar quem a fez e\/ou publicou. Custo e benef\u00edcio.<\/p>\n<p>Mas o que come\u00e7a a me preocupar \u00e9 a pr\u00f3xima camada de consumidores dessas ideias. O produto foi disputado a tapa por malucos assim que foi lan\u00e7ado, foi comprado mesmo custando muito caro por quem fazia quest\u00e3o de ter um, depois por pessoas que acabaram se rendendo a ele por facilidades no mercado&#8230; e a\u00ed entram as pessoas que at\u00e9 queriam esse iPhone, mas nem juntando tudo o que tem poderiam comprar um. E a ideia novamente segue esse caminho: primeiro s\u00e3o ativistas raivosos ou vitimistas que se estapeiam pelo status de segui-la, depois vem aqueles acreditam precisar dela e se arriscar ao divulgar&#8230; e s\u00f3 a\u00ed fica f\u00e1cil o suficiente conversar sobre ela com outras pessoas de n\u00edvel intelectual parecido.<\/p>\n<p>S\u00f3 que a camada seguinte de consumidores potenciais dificilmente vai ter capacidade de consumir o produto ou a ideia se eles n\u00e3o forem produzidos de forma mais palat\u00e1vel, tanto em fun\u00e7\u00f5es como em custos. O celular chin\u00eas baratinho e a ideia extremamente simplificada da m\u00eddia de massa prestam-se ao mesmo objetivo: uma falsifica\u00e7\u00e3o realista do objeto do desejo cujo pre\u00e7o \u00e9 acess\u00edvel o suficiente para muitos ao mesmo tempo. Porque, n\u00e3o se enganem, classes sociais costuma se espelhar na mais alta, sempre que poss\u00edvel. O quase rico vai querer ter vis\u00f5es de mundo parecidas com o rico, a classe m\u00e9dia quer ser quase rica, os pobres querem pelo menos serem classe m\u00e9dia. Compreens\u00edvel.<\/p>\n<p>Eventualmente a preocupa\u00e7\u00e3o com direitos humanos vai chegar at\u00e9 quem hoje berra com a TV pedindo pra matar bandido e acusando mulher estuprada de estar com saia curta demais&#8230; mesmo que tenhamos que pular uma gera\u00e7\u00e3o ou mais para isso. E quando a ideia chegar neles, como ela vai chegar? Na vers\u00e3o mais f\u00e1cil de produzir em massa. Vers\u00e3o vitimiza\u00e7\u00e3o, politicamente correto com regrinhas bem definidas que a maioria das pessoas sequer entende. Funciona com religi\u00e3o, claro que vai funcionar com isso.<\/p>\n<p>Sempre achei que o povo mais humilde seria nosso \u00faltimo basti\u00e3o de resist\u00eancia contra o choror\u00f4 da ofensa permanente, por n\u00e3o estarem nem a\u00ed pra essas discuss\u00f5es &#8220;filos\u00f3ficas&#8221;; mas ser\u00e1 que quando esse produto realmente chegar at\u00e9 o mercado consumidor que eles conseguem alcan\u00e7ar, eles v\u00e3o pensar numa piada sobre um garoto querendo dan\u00e7ar bal\u00e9 para o desgosto do pai como um risco (que pode muito bem ser corrido) ou como uma afronta ao seu rec\u00e9m-adquirido senso de justi\u00e7a social?<\/p>\n<p>Esse povo alcan\u00e7a. Pode alcan\u00e7ar com d\u00e9cadas e d\u00e9cadas de atraso, mas uma hora ou outra os valores de camadas mais bem educadas da popula\u00e7\u00e3o come\u00e7am a vazar pir\u00e2mide social abaixo. Muitas vezes para serem completamente destro\u00e7adas no processo, criando caricaturas monstruosas dos significados iniciais daquela ideia. E ao contr\u00e1rio de produtos propriamente ditos, ideias n\u00e3o trabalham t\u00e3o bem assim com datas de validade e atualiza\u00e7\u00f5es constantes. Quando chegarem, v\u00e3o demorar muito pra sair.<\/p>\n<p>Espero estar errado, mas essa l\u00f3gica de mercado est\u00e1 passando perto demais da ideia pra ser s\u00f3 uma conjectura moment\u00e2nea&#8230;<\/p>\n<p class=\"uk-background-muted uk-padding\">Para dizer que gostou da mudan\u00e7a de rumo, pra perguntar porque eu tenho uma revista de videogame de 1997 (daqui a 40 anos ela vai valer o triplo do que eu paguei por ela), ou mesmo pra me mandar parar de viadagem: <a href=\"mailto:somir@desfavor.com\">somir@desfavor.com<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Outro dia desses eu estava revirando algumas caixas com coisas antigas, daquelas que depois de um tempo viram paisagem no fundo de um arm\u00e1rio, e voc\u00ea nem se lembra mais de que ela n\u00e3o deveria estar ali. Dentre uma pilha de pap\u00e9is, uma revista antiga sobre videogames. 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