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	<title>Ele disse, Ela disse &#8211; desfavor</title>
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	<description>REPÚBLICA IMPOPULAR</description>
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		<title>Pequenos animais.</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Desfavor]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 29 Sep 2025 17:45:28 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ele disse, Ela disse]]></category>
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					<description><![CDATA[Animais de estimação e crianças pequenas têm algo em comum: dificuldade de comunicação com adultos. Longe de Sally e Somir culpar os pequenos animais por isso, mas na hora de decidir qual gera o maior problema, começam a discutir. Os impopulares comunicam suas ideias. Tema de hoje: quem é mais fácil de entender, uma criança [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Animais de estimação e crianças pequenas têm algo em comum: dificuldade de comunicação com adultos. Longe de Sally e Somir culpar os pequenos animais por isso, mas na hora de decidir qual gera o maior problema, começam a discutir. Os impopulares comunicam suas ideias.</p>
<p><strong>Tema de hoje: quem é mais fácil de entender, uma criança ou um cachorro?</strong><span id="more-33542"></span></p>
<h4 class="uk-heading-line"><span>SOMIR</span></h4>
<p>Criança. Porque seja como for, crianças humanas ainda são a mesma espécie que nós, adultos. Faz diferença. Talvez seja mais frustrante se comunicar com uma criança do que com um cachorro, mas isso não é relacionado com a dificuldade, e sim com a resposta.</p>
<p>Explico: por mais inteligente que seja um cachorro, ele ainda é um cachorro. A quantidade de expressões e coisas que ele pode fazer é limitada. Mesmo um cachorro irritante ainda está preso na sua capacidade intelectual de&#8230; cachorro. A criança pode parecer mais difícil, mas não por ser tão difícil de entender, e sim porque ela tem um leque de possibilidade imenso de te incomodar. É importante não misturar capacidade de comunicação com resultados incômodos dessa comunicação.</p>
<p>A criança entende e se expressa melhor que um cachorro, até porque é geneticamente programada para fazer isso. Sim, eu sei que o cão moderno evoluiu para conviver com pessoas e faz coisas incríveis como seguir seu olhar e se esforçar para entender o que você diz, mas é o animal tentando fazer o que a criança faz sem esforço. O cachorro está se adaptando a você, a criança só existe.</p>
<p>E faz diferença quanto esforço algo exige. O instinto do cachorro se moldou um pouco à convivência com humanos, mas o pacote básico ainda é de um cachorro. Mesmo que lobos e cães selvagens tenham noção instintiva de convivência, é convivência deles. Eles definem territórios mijando nas coisas, eles se comunicam com latidos, rosnados e posturas corporais. Humanos entram num modo esponja de aprendizado para captar nossa linguagem, algo terrivelmente mais complexo que qualquer sistema de comunicação do resto da natureza.</p>
<p>O cachorro, no auge do seu esforço evolutivo para ser o parceiro perfeito para o ser humano, não consegue expressar ideias de uma forma que entendamos. Uma criança, normalmente indisciplinada e egoísta, consegue formar frases que nos dizem exatamente o que ela quer ou não quer. Eu sei que cachorros são muito simpáticos, mas simpatia nenhuma substitui o literal sistema de comunicação mais eficiente que já existiu neste planeta.</p>
<p>E eu ainda dobro a aposta: é mais fácil de entender uma criança surda e muda do que um cachorro. Ela aponta, ela usa as mãos de forma expressiva, ela faz teatro com o corpo todo se precisar. Nosso instinto é para se comunicar com outros humanos, o cérebro vai tentar mil coisas diferentes até alguma funcionar.</p>
<p>Sem contar o argumento principal: nunca fomos um cachorro, mas sempre fomos uma criança. Eu sei que é comum apagar da memória o que crianças são de verdade, especialmente depois que você tem filhos, criando uma versão idealizada baseada no seu afeto. Mas isso não muda o fato de que você deveria saber muito bem o que uma criança pensa. Até o fato de que crianças mentem sem culpa é positivo nessa conversa. Você sabe quando uma criança vai mentir, normalmente quando ela acha que vai sofrer alguma consequência negativa.</p>
<p>Quando é uma criança, você consegue acessar o estado mental dela, porque é basicamente você adulto entendendo as coisas de forma literal e com menos travas para comportamentos antissociais. O cachorro é um&#8230; cachorro. Você não sabe o estado mental dele, o que realmente importa para o bicho a cada momento, como ele vai reagir a coisas inesperadas, como ele vai expressar incômodos&#8230;</p>
<p>Você vai aprendendo a ler o bicho da mesma forma que ele aprendeu a ler você, mas é sempre algo meio gambiarra. Sally vai concordar comigo nisso: um dos piores erros de donos de cachorros é tratar eles como se fossem humanos. Isso só deixa as coisas mais complicadas, porque você começa a presumir interesses no bicho que nada tem a ver com o que eles realmente querem.</p>
<p>Crianças e cachorros reagem bem a rotinas, disciplina e regras claras, mas para o cachorro é uma mecânica de sobrevivência. A criança acha graça em fazer uma coisa errada ou outra, o cachorro entra em parafuso, muitas vezes em pânico. Vai dizer que você entende o cachorro melhor que a criança? O ser humano é mais adaptável, a gente se enxerga na criança e sabe muito melhor quando ela quer bagunça, por exemplo.</p>
<p>Eu entendo que crianças e cachorros servem para funções muito diferentes, eu nunca colocaria uma criança para proteger meu terreno nem usaria um cachorro para entrar em vãos apertados de minas de carvão. Cada um no seu quadrado, mas entendendo que obviamente um deles é a gente e outro evoluiu de forma artificial para fazer algumas coisas úteis para o ser humano.</p>
<p>Pode gostar dos dois, só de um ou só de outro, mas não pode ignorar que é literalmente a nossa espécie contra outra. Você pode até ficar puto da vida com os mil truques diferentes que uma criança pode usar para te confundir ou não te obedecer, mas isso não significa que ela não entendeu você nem você a entendeu, um humano, mesmo criança, ainda é um ser extremamente mais complexo com o qual você pode se comunicar de forma muito mais completa do que com qualquer outro ser vivo nesse mundo.</p>
<p>As pessoas podem só gostar de cachorro, sabia? Não precisa aumentar tanto assim suas habilidades ou valor social, é normal gostar desses bichos, deu muito certo para eles virem para o nosso lado, parceria de sucesso, questão resolvida. Não precisa comparar um ser humano com eles, ainda mais numa questão onde obviamente levamos uma vantagem tão imensa como comunicação.</p>
<p>É claro que a criança é muito mais fácil de entender. É um humano!</p>
<h4 class="uk-heading-line"><span>SALLY</span></h4>
<p>Quem é mais fácil de entender, uma criança ou um cachorro?</p>
<p>Um cachorro. A complexidade de emoções de uma criança é tanta e seu vocabulário e capacidade de elaborar o que sentem é tão pouco, que muitas vezes nem ela se entende, quem dirá um adulto.</p>
<p>Acho que, apesar dos pesares, ninguém discorda que, na média, o ser humano é mais complexo do que um cachorro. Justamente por essa complexidade, desenvolvemos um vocabulário riquíssimo e diversas formas de comunicação verbal e não verbal: para que possamos nos entender. Tem funcionado? Acho que não, mesmo entre adultos.</p>
<p>Pior ainda quando falamos de criança, que dificilmente sabe compreender o que ela mesma está sentindo, muito menos expressar. Se está com fome fica de péssimo humor, se está com sono fica chorosa. Às vezes até os pais têm dificuldade em perceber quando ela está com dor, com fome, cansada ou cagada. </p>
<p>O bebê humano nasce sob essa premissa: os pais vão prover tudo por muitos anos e se esforçar para dar tudo que ele precisa. Então a criança tem, no mínimo, uma década de bônus de adultos prestando atenção nela o tempo todo como premissa. Ela não precisa se esforçar para se comunicar. Tem gente olhando para as necessidades dela o tempo todo&#8230; ou ao menos, deveria ter.</p>
<p>Com cães a coisa muda de figura, até pela forma como eles “nasceram”, com a domesticação de um ancestral do lobo. Cães, a versão domesticada, são programados para entender os humanos e conseguirem se fazer entender, caso contrário, morreriam de fome ou nem seriam adotados. Entender os humanos, responder de acordo e se fazer entender é vital para a sobrevivência dos cães e para ser mantido no convívio entre aqueles que os alimentam.</p>
<p>Um dos principais filtros no mecanismo evolutivo dos cães é esse: o mais dócil, o que melhor compreende o humano, o que melhor se faz compreender, o que melhor se comunica, é o que mais vai passar os genes adiante. Estudos recentes provam que os cães de hoje se comunicam muito melhor com os humanos do que os cães de 50 anos atrás. </p>
<p>E vou além: com esse movimento de levar o cão para dentro de casa e integrá-lo com a família (em vez de deixá-lo amarrado no quintal), cães estão ficando mais parecidos conosco, cada vez mais humanizados. Não que isso seja bom para os cães, mas é inegável que torna a comunicação mais eficiente. O cão quer te agradar, ele quer te atender, ele quer te entender e se fazer entender.</p>
<p>Além disso, cães tem poucas emoções básicas. Sem querer desmerecer o doguinhos, mas eles não são capazes de emoções complexas, o que torna extremamente fácil entender o que eles querem, graças a esse combo deles aprenderem a se comunicar cada vez mais conosco, ficarem mais parecidos conosco e não serem tão complexos.</p>
<p>Quem tem cachorro em casa sabe que o cachorro se faz entender, de uma forma ou de outra. Se você sabe um mínimo sobre cães e conhece o seu cachorro, você vai entender o que ele quer, o que ele está sentindo e a razão é muito simples: ele faz um esforço constante, 24h por dia, todos os dias da vida dele, para se comunicar com você e ser compreendido.</p>
<p>&#8220;Ain Sally mas eu não entendo nada de cachorro”. Beleza, mas você pode estudar e aprender como um cachorro, qualquer cachorro, se comporta quando está com medo, quando está feliz, etc. Existem manuais que te ensinam isso. <a href="https://www.desfavor.com/blog/2023/04/comunicacao-canina/" target="_blank">Existe até um texto nosso que te ensina isso</a>.</p>
<p>Já criança dificilmente terá um manual, pois seres humanos são muito mais complexos do que cães (em sua maioria). Não raro nos confundimos com adultos, achando que alguém está chateado quando não está, que alguém está cansado quando está triste&#8230; imagina com criança.</p>
<p>Na real, a criança tem o foco de um peixinho dourado e quase sempre tem zero interesse em DR, então dificilmente ela vai te chamar para uma conversa sobre como se sente. Ou ela abre um berreiro, ou ela vai brincar e esquece o assunto. Convenhamos, só um dos lados se esforça na comunicação. Cachorros se esforçam o tempo todo.</p>
<p>Cães são muito transparentes, tanto é que muitas vezes nem conseguem esconder quando fazem besteira. Criança mente (e algumas mentem muito bem), manipula, fantasia. Tem conversa com criança que é pior do que falar com drogado. Cães são plenamente capazes de se fazerem entender, tanto é que são usados para diversas funções, desde médicas até policiais, pois a comunicação é muito boa.</p>
<p>Cachorros dependem do vínculo que vão criar com você para ter um teto e comida, crianças tem tudo assegurado. É óbvio que cães vão se esforçar mais, se aprimorar mais. Cães são animais adultos, completamente formados, crianças são seres em desenvolvimento. Cães são menos complexos do que seres humanos, é óbvio que será mais fácil compreender apenas emoções básicas.</p>
<p>O ser humano tem crianças desde que o mundo é mundo, mas os cães só estão conosco, nessa modalidade domesticada no núcleo familiar, pouco mais de cem anos. Em bem menos tempo eles se tornaram bem mais eficientes no quesito “se fazer entender”.</p>
<p>Não é sobre cães serem melhores ou mais inteligentes do quer crianças. É sobre comunicação. E nisso cães são melhores. É mais fácil entender um cão do que uma criança.</p>
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		<title>Vingadores.</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Desfavor]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 22 Sep 2025 21:55:57 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ele disse, Ela disse]]></category>
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					<description><![CDATA[Apesar de inúmeras tentativas do universo cinemático da Marcel de se recuperar, nenhum outro filme de heróis de quadrinhos conseguiu chegar perto do fenômeno cultural dos Avengers (Vingadores) desde então. E é aqui que Sally e Somir param para discutir seus heróis favoritos da franquia. Os impopulares participam da batalha. Tema de hoje: qual era [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Apesar de inúmeras tentativas do universo cinemático da Marcel de se recuperar, nenhum outro filme de heróis de quadrinhos conseguiu chegar perto do fenômeno cultural dos Avengers (Vingadores) desde então. E é aqui que Sally e Somir param para discutir seus heróis favoritos da franquia. Os impopulares participam da batalha.</p>
<p><strong>Tema de hoje: qual era o melhor herói dos filmes dos Avengers?</strong><span id="more-33354"></span></p>
<h4 class="uk-heading-line"><span>SOMIR</span></h4>
<p>Homem de Ferro. Eu argumento que a franquia toda só funcionou porque desde o começo as pessoas gostaram dessa personagem interpretada por Robert Downey Jr. Nem sei se quando o chamaram para fazer o primeiro filmes esperavam muita coisa de um ator claramente na descendente, mas deu certo de uma forma que nem o mais ousado executivo da Marvel imaginaria.</p>
<p>Quando eu lia esses quadrinhos nos anos 90, era um moleque que gostava mais do estilo “rebelde” dos X-Men, do jeitão dark do Batman e das coisas vergonhosamente “violência para adolescentes” da Image Comics. Homem de Ferro e a imensa maioria das outras franquias da Marvel mal me chamavam a atenção.</p>
<p>O que o pessoal que desenvolveu essa fase de ouro dos filmes da Marvel percebeu foi que depois de tantos anos de histórias, já não tinha mais personalidade na maioria desses heróis. Eram bonecos. O que ainda vendia eram aqueles que conseguiam entregar uma história de ação focada em personalidades que o público-alvo de jovens entendia e se relacionava.</p>
<p>A sacada das sacadas foi o Homem de Ferro: ao entregar carisma numa personagem com defeitos e usar fantasia de poder baseada em elementos reais (dinheiro e inteligência), toda a franquia ganhou uma âncora que conversava com o fã de heróis e cidadão que mal se importava com quadrinhos. É o Batman da Marvel, e estava mais do que provado que o Batman sempre funcionava para pessoas normais. Dinheiro e inteligência ao invés de poderes mágicos aleatórios.</p>
<p>A partir do Homem de Ferro, você consegue entrar na história e aí sim começar a se relacionar com os outros heróis. Tony Stark dos quadrinhos sempre teve esse potencial, mas nunca foi bem explorado, até por ser uma personagem bem mais secundária. Quando o primeiro filme acerta a mão na personalidade e o ator tem o complemento perfeito no seu jeito de interpretar, nasce o Batman da franquia, a cola para toda a construção do universo cinematográfico. A ponte entre o nerd e o normie.</p>
<p>Quando chegamos nos Vingadores, especialmente nos últimos dois filmes, já estamos dentro da história por causa dele. E as personalidades dos outros heróis ficam mais fáceis de entender e gerar identificação porque existe essa base humana de onde partimos. Percebam que todos os elementos de personalidade que dão graça para Capitão América, Thor, Viúva Negra, Hulk e cia. são baseados em suas interações com o Homem de Ferro.</p>
<p>Robert Downey Jr. tem carisma para essa personagem, a cara dele combina com o jeito de ser de Tony Stark, e dele para frente, esse vai ser o Tony Stark, inclusive nos quadrinhos. A ideia do Homem de Ferro era divertida, um bilionário complicado mas de coração bom que usa sua inteligência absurda para ficar ao lado de “deuses”. A forma como ele monta sua primeira armadura, a relação conturbada com a Pepper Potts, o jeitão sarrista, a racionalidade na hora de tomar decisões difíceis, a incapacidade de expressar sentimentos&#8230; homens e mulheres reconhecem como uma pessoa interessante com elementos realistas.</p>
<p>E tem toda a fraqueza de ser apenas uma pessoa normal. Funciona melhor para a criançada que não sabe a lógica de um filme, mas ele realmente parece em perigo quando dá problema na armadura. Não é mais um semi-deus (ou literalmente deus no caso do Thor), é um humano que deu um jeito de chegar lá entre eles. Aliás, eu não sei como funciona com o cérebro feminino por não ter um, mas imagino que a Viúva Negra dê um bom ponto de encaixe também. Fantasia de poder, mas com riscos “humanos”.</p>
<p>As outras personagens ficam interessantes porque você sente que um humano normal pode conviver com eles, e enxergar como colegas ou amigos seres bizarros como o Thor e o Hulk. Nos quadrinhos, quem consegue ter histórias solo minimamente interessantes são o Homem-Aranha e o Hulk, o resto costuma ser bem sem graça, viu?</p>
<p>Mas nos filmes, não é à toa que o Homem de Ferro virou personagem central. Era um dos menos famosos antes, mas no cinema ele se provou essencial para fazer tudo funcionar. Então, quando eu falo de Vingadores nesse contexto de série de filmes, não podemos ignorar quem é a personagem central de tudo. Fomos gostando de outras personagens, e até o Capitão América que sempre foi chato pra diabo ficou bacana nos filmes, mas como contraponto do Homem de Ferro. Capitão só funciona nos filmes por ser o “amigo-inimigo” do Tony Stark. O melhor filme solo dele tinha um adversário parecido na dinâmica de “relação difícil” com o Capitão Invernal.</p>
<p>E podem me xingar, nerds: o Thanos só funcionou porque a Marvel teve a capacidade de nos fazer gostar dos heróis. Porque é uma personagem que não faz sentido sozinha. Muito mais burro e fraco do que deveria ser. Ele foi divertido porque era a descarga de dopamina esperada por dez anos de filmes ameaçando mostrar ele, mas não foi bem escrito. O ator que interpretou é muito bom e ajudou também, mas a motivação dele&#8230; se baterem minha cabeça vinte vezes na parede eu ainda consigo perceber o erro absurdo no plano dele: em poucos séculos a população dobra de volta e voltamos à estaca zero.</p>
<p>Mas chega de chiliques nerd. O que importa é que o Homem de Ferro é a peça central de todo o universo cinemático Marvel, a única coisa com uma gota de carisma que ainda resta é o Homem-Aranha, e claramente não conseguiram encaixar uma grande história ao redor dele. A era de ouro da Marvel morreu quando Tony Stark estalou os dedos.</p>
<h4 class="uk-heading-line"><span>SALLY</span></h4>
<p>Qual é seu personagem favorito da franquia cinematográfica Avengers?</p>
<p>É sobre os filmes. “Ain mas nos quadrinhos&#8230;” É SOBRE O FILME.</p>
<p>Disto isto: Capitão América.</p>
<p>“Mas Sally, Capitão América?”. SIM, CAPITÃO AMÉRICA. Ele é um injustiçado e eu posso provar.</p>
<p>Quem perdeu a fé na humanidade vai de Homem de Ferro. Quem perdeu a fé em tudo vai de Thanos. Eu vou de Capitão América pois ainda tenho fé e confio no que é bom, no que vem de esforço, no que é certo. É possível vencer sendo correto.</p>
<p>Acho ele um ótimo exemplo: responsável, correto e disciplinado. Mesmo começando sua “carreira” muito jovem, nunca ficou deslumbrado com a fama nem arrogante. É isso o que eu espero de um líder: que esteja na linha de frente e que tenha preparo técnico e emocional.</p>
<p>O mais curioso é que ele não pediu por nada disso. Ele foi recrutado e entrou sem saber muito bem o que o esperava. Jogaram o peso do mundo nas costas dele e ele matou no peito e assumiu a responsabilidade. Foi maduro, resiliente e adulto, mesmo sendo muito jovem.</p>
<p>Sempre teve um poder muito acima dos demais e nunca se deslumbrou ou o usou para sacanear ninguém. Desde novo teve um senso de responsabilidade muito raro e se manteve coerente em sua jornada. Não faz corpo mole, não usa a fama em benefício próprio e tem valores sólidos.</p>
<p>Capitão América é o pilar de sustentação dos Avengers, não à toa ele é o grande protagonista do Endgame. Ele não é o mais forte nem o mais poderoso, mas é o que tem menos merda na cabeça e isso vale mais do que todo o resto.</p>
<p>Até o Thor, que está mais para divindade do que para herói, roeu a corda quando Thanos conseguiu uma vitória parcial: ficou gordo, inútil, bebendo o dia todo, se perdeu. Quase todos os personagens (os relevantes, pelo menos), roeram a corda em algum momento. Capitão América não.</p>
<p>Tony Stark é muito engraçadinho, é um alívio cômico e o Robert Downey Jr. á um poço de carisma, mas&#8230; daí a ser o favorito&#8230; Nem o Sawyer era meu favorito em Lost, não será agora, 20 anos depois, que eu vou me deslumbrar com bad boy. Esse perfil Rico Ostentação Afrontoso não é dos meus favoritos.</p>
<p>Capitão América é confiável, é sensato, tem palavra, cumpre o que promete e é fiel a princípios. Além disso ele não consegue as coisas na base do dinheiro, com brinquedos caros. Ele consegue com esforço. Vejo mais mérito. Tony Stark é um Elon Musk power: eventualmente divertido,mas com moderação.</p>
<p>Até nos valores pessoais o Capitão América é louvável. É um bom amigo (nunca desistiu do Bucky, mesmo quando ele estava realmente perigoso), nunca tentou manipular ou intimidar os amigos e nunca mostrou se comportar como um mulherengo.</p>
<p>“Ain muito certinho”. Bom, primeiro que ser correto não é defeito, para ser colocado assim, de forma pejorativa, no diminutivo.</p>
<p>Segundo que essa mentalidade de “certinho” como demérito é um desfavor não apenas como valor social, mas também para a cabeça das mulheres. Repete-se isso na frente de meninas, que aprendem que o atraente é o bad boy, o mulherengo, o sacana.</p>
<p>Além disso, ele não é engessadamente correto. Quando o governo perseguiu os Avengers, ele foi fiel a aquilo que ele acreditava ser correto e ficou na clandestinidade. Em tese, foi um fora da lei. Isso é uma pessoa integra: aquela que não se curva a jogos de poder e faz o bem, mesmo que tenha que se sacrificar para isso.</p>
<p>E ele tem vivência, mesmo tendo aspecto jovem, ele passou por muita coisa: perdeu todo mundo que amava, teve que se adaptar a um novo tempo, teve que reaprender o mundo. Eu reclamo quando uma atualização muda o layuot de um aplicativo, imagina passar mais de meio século congelado, ser acordado e ter que se adaptar a um novo mundo?</p>
<p>E ele sabe o que é importante na vida, ele tem valores bom, reais. Tanto é que, no final, quando teve a oportunidade de voltar no tempo, ficou e viveu sua história de amor, obviamente, depois de ter certeza de que o mundo estava salvo.</p>
<p>É sintomático que as pessoas prefiram o Homem de Ferro. De verdade. É sintomático. O tio manipula para conseguir o que quer, mente, tem um histórico de abuso de bebida e de mulheres&#8230; se fosse pobre seria considerado deprimente. Mas, como está em um belo terno e em uma mansão, é fodão.</p>
<p>“Mas o Capitão América representa o imperialismo americ&#8230;” PARE. APENAS PARE. Respire fundo e repita comigo: “eu não vou descer tão baixo a ponto de politizar uma discussão sobre heróis de ficção”. Vamos manter a sanidade mental, o discernimento e a dignidade.</p>
<p>O Capitão América merece aplausos. Hora de começar a limpar a mente dessa premissa babaca de aplaudir o arrogante, o escrotinho, o polemiquinho. Hora de fazer escolhas melhores.</p>
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		<item>
		<title>Verdade alternativa.</title>
		<link>https://www.desfavor.com/blog/2025/09/verdade-alternativa/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Desfavor]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 08 Sep 2025 17:25:30 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ele disse, Ela disse]]></category>
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					<description><![CDATA[Hoje é dia de consulta pública impopular: Sally e Somir discutem sobre uma nova coluna aqui no Desfavor, e querem conhecer as opiniões dos leitores. Tema de hoje: devemos ter uma coluna só para falar de Teorias da Conspiração? A pergunta é simples: vocês acham que devemos acrescentar uma nova coluna às nossas postagens? A [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Hoje é dia de consulta pública impopular: Sally e Somir discutem sobre uma nova coluna aqui no Desfavor, e querem conhecer as opiniões dos leitores.</p>
<p><strong>Tema de hoje: devemos ter uma coluna só para falar de Teorias da Conspiração?</strong><span id="more-32906"></span></p>
<h4 class="uk-heading-line"><span>SALLY</span></h4>
<p>A pergunta é simples: vocês acham que devemos acrescentar uma nova coluna às nossas postagens?</p>
<p>A explicação sobre a coluna é que é um pouco mais complicada. Vamos lá&#8230; Eu quero fazer uma coluna para rir de Teorias da Conspiração.</p>
<p>Desde sempre eu tenho fascínio por teorias da conspiração brasileiras, especialmente por como são bizarras. Eu leio sobre isso, pois, além de me divertir, eu acho que é uma ótima forma de entender a sociedade e um excelente termômetro para determinar no que as pessoas estão propensas a acreditar.</p>
<p>Até aqui, eu nunca havia cogitado sequer propor ao Somir escrever sobre elas, pois sempre me mantive fiel a aquela linha de raciocínio de não divulgar de forma alguma o que acho ruim.</p>
<p>Quando você fala mal de idiotas, você dá projeção a esses idiotas e permite que outros idiotas os encontrem, se juntem a eles e a grande manada idiota se torne maior e mais forte.</p>
<p>Porém, os anos passaram e os idiotas conspiratórios conseguiram toda a projeção que podiam e hoje fazem verdadeiras pregações em redes sociais. O estrago está feito. Não será nosso pequeno Desfavor que vai tornar ninguém mais famoso, os brasileiros já se encarregaram disso.</p>
<p>Então, ruiu a trava que me impedia de falar sobre o assunto. Levei a proposta até o Somir que, como de costume, não gostou. Tentei convencer, vender a ideia e o máximo que consegui foi que isso seja trazido a votação aqui, nos comentários. Então, digam vocês se querem este conteúdo ou não.</p>
<p>Teorias da Conspiração são maravilhosas. São uma espécie de Des Contos levado a sério. E as brasileiras são sensacionais: Ratanabá, Lula ter sido trocado por um clone e tantas outras. Gente, é conteúdo de qualidade. Vai por mim, tem muito conteúdo de qualidade.</p>
<p>O plus é: em alguns meses começa a corrida eleitoral. Ano que vem é ano de eleição. Esse tipo de abominação abunda em ano eleitoral, vai ser Mamadeira de Piroca para baixo. É esse o momento, gente. Lembrem que eu faço as imagens das minhas colunas agora, com domínio de Photoshop, meus amigos. Além do texto, teremos conteúdo gráfico de qualidade também!</p>
<p>A quem interessar possa, não vai ser uma cagação de regra de levar a sério e desmentir. Nosso leitor sabe muito bem o que é verdadeiro e o que é falso, ninguém vai ficar desmentindo o óbvio. Vamos rir das Teorias da Conspiração. Sacanear. Fazer infográfico.</p>
<p>“Ain mas vai ter gente que não vai entender”. Vai sim. Sempre vai ter. Se esse for o parâmetro, a gente não escreve mais uma linha aqui. Eu quero que se foda quem não entender, eu não escrevo para o Brasil, eu escrevo para o leitor do Desfavor.</p>
<p>E esse é outro ponto: ano que vem vai ser uma loucura. Ano de eleição tende à insanidade. Eu acredito que mais um alívio cômico vai ser muito bom para o Desfavor e para o leitor.</p>
<p>Será um ano pesado, no qual seremos obrigados a fazer muitas colunas sérias sobre as tretas do país, todos nós merecemos esse momento de descanso e insanidade. Vai ser bom para a gente também dar esse respiro e rir um pouco. Se vocês soubessem como eu tenho ataques de riso escrevendo o “Ei, Você”&#8230;</p>
<p>Talvez muito estejam resistentes, como o Somir está, pela raiva que tomaram das Teorias da Conspiração. Percebam, o que dá raiva são as pessoas imbecilóides que acreditam nisso. As Teorias da Conspiração, por si, são divertidíssimas. São curiosas. São fascinantes. Merecem uma análise.</p>
<p>E, como já disse na página anterior, eu acho que uma coluna assim seria um ótimo medidor social. Não é rir da merda pela merda, é justamente o oposto.</p>
<p>Já que seremos expostos à merda de um jeito ou de outro, vamos tirar alguma utilidade disso: 1) rir e 2) entender o que esse termômetro social nos indica. Pelas entrelinhas a gente percebe muito mais do que por aquilo que as pessoas declaram. Acho importante saber em que patamar de danação está oscilando a burrice e falta de saúde mental da população durante um ano tão crucial.</p>
<p>Como sabemos que o ano que vem vai ser puxado e que alarmismo, bombardeio de informação e polarização vai soterrar todo mundo, estamos tentando planejar um ano leve por aqui.</p>
<p>Seguindo a tradição de muitas colunas nossas, começaria com o Des, que indica ao mesmo tempo contrariedade e um prefixo que designa o Desfavor: Des Confia é, ao mesmo tempo, um recado para você desconfiar das bostas que escuta e um recado para confiar no Desfavor. Sim, para um conteúdo gratuito a gente até que se esforça bastante pensando no que poderia ser mais legal para vocês.</p>
<p>Então, basicamente queremos saber se vocês querem. Da última vez que viemos aqui perguntar se vocês queriam algo, vocês ganharam a coluna da Bíblia que, não custa informar, teve resistência do Somir e hoje, ao que tudo indica, ele até se diverte um pouco com ela.</p>
<p>Se você quiser a nova coluna Des Confia, para rir das Teorias da Conspiração conosco, deixa um comentário contando que quer. Se você não quer, deixa um comentário dizendo que não quer. Ninguém é obrigado a justificar nada (mas se quiser pode), só queremos saber se vocês gostariam desse conteúdo ou não. Vamos dar um tempo para vocês votarem e acatar a vontade da maioria.</p>
<p>Quem diria, viver para ver o Desfavor se tornar quase mais democrático que o Brasil&#8230; hahahahaha</p>
<h4 class="uk-heading-line"><span>SOMIR</span></h4>
<p>Não acho boa ideia. “Toda comunidade que se diverte fingindo ser idiota acaba atraindo idiotas que se acham em boa companhia” – famosa frase atribuída a várias pessoas diferentes. Não sei quem disse isso, mas é uma excelente explicação da internet. Boa parte das comunidades virtuais reconhecidas por extremismo hoje começaram como jovens entediados brincando de falar as piores coisas possíveis.</p>
<p>A comunicação digital mudou de fase, não é mais razoável esperar que seu público tenha capacidade de entender sutilezas ou humor incorreto. Estamos infestados de gente que está só vivendo sua vida normal com a internet, não existe mais a presunção de que o outro vai pensar duas vezes antes de reagir.</p>
<p>Eu entendo que a ideia de falar de teorias conspiratórias aqui é para tirar sarro, entendo até que nosso público atual é capaz de perceber quando estamos exagerando pela piada&#8230; mas isso não quer dizer que vai funcionar assim na prática.</p>
<p>A característica definidora da pessoa que acredita em teorias da conspiração é&#8230; acreditar. Não importa se faz sentido, não importa se entra em choque com mil outras ideias que tem na cabeça, o preço de entrada na conspiração é acreditar no que lê ou ouve sem passar pelo filtro do pensamento crítico. Sim, quase todos acham que estão fazendo caminhos mentais subversivos que os “tiram da programação social”, mas é aquela coisa de terraplanista: se você apertar a pessoa mesmo, ela acaba dizendo que acredita por causa de algum motivo religioso.</p>
<p>Não que todas sejam religiosas, mas todas exigem algum ponto de suspensão de incredulidade para funcionar. A pessoa não enfrenta a dificuldade de acreditar em algo estapafúrdio com o simples truque de não julgar a ideia dentro da cabeça. Como já disse várias vezes aqui: estar errado é de graça. Não dói nada ter uma ideia burra, você pode ter quantas quiser e tocar sua vida como se nada. Vai dar problema quando uma dessas ideias podres te forçar a fazer uma escolha errada, mas muita gente passa pela vida toda acreditando em bobagem e nunca paga o preço.</p>
<p>E por que todo esse papo? Não faz diferença se a gente escrever como piada ou não, quem quer acreditar vai ler o que quiser ler e se achar em boa companhia. Lembre-se que a pessoa não tem custo nenhum em vir aqui falar que concorda, não se dói nem se a gente rir dela por achar que concordamos, o conspirador médio vive isolado de fontes de dúvida. Você pode explicar de mil formas diferentes que sabemos que o pouso na Lua foi real, a pessoa simplesmente não absorve a informação.</p>
<p>É um tipo de deficiência intelectual que a maioria de nós aqui não consegue entender na prática. É uma vida diferente: a informação pode passar direto entre as orelhas como se nada. Fixaram algumas coisas na cabeça dela da infância e a partir disso, só tem alguma chance de entrar na memória as coisas que combinam com o que já está lá. Elasticidade cerebral zerada.</p>
<p>Esse é o público-alvo das teorias da conspiração. A pessoa não ignora a montanha de evidências contra suas crenças porque se esforçou, ignora porque para ela é fácil. É de graça e não dói. Se a gente se entregar à vontade de falar sobre as teorias mais malucas, confesso que pode ser divertido, mas vai ter um custo: quem aparecer aqui por causa desses temas provavelmente não vai ser equipado para diferenciar deboche de crença honesta.</p>
<p>E nesse pacote costuma vir uma arrogância e agressividade que enche o saco de todo mundo. Como é fácil acreditar na bobagem conspiratória, sobra muita energia para encher o saco dos outros. Esse povo não cala a boca, e está muito acostumado a enterrar os outros em paredes de texto desconexas, e achar que gente que desistiu de falar com a parede foi “derrotada por seus argumentos”.</p>
<p>Isso acumula, tornando a pessoa mais tapada, mais arrogante e mais agressiva com o passar dos anos. Eu já controlei muito meu senso de humor porque eu sei que tipo de pessoa começa a se sentir em casa com as piadas que eu acho engraçadas. Eu acho engraçado porque é obviamente uma coisa horrível de se dizer, mas tem muita gente que concorda de coração, os que concordam com orgulho ou os que negam com raiva.</p>
<p>Melhor coisa para a qualidade de vida aqui é ser chato para quem quer mais uma dose de polarização na vida. Não é impressionante como na internet de hoje ainda consigamos aprovar comentários razoáveis no Desfavor? Pouca gente histérica aguenta ler textos de mais de um parágrafo. Eu argumento que a mesma lógica se aplique aos temas de teorias da conspiração: um pequeno controle nosso que torna o ambiente desagradável para gente muito chata.</p>
<p>Sim, eu até gostaria de falar sobre algumas conspirações, mas&#8230; vale a pena? Eu estou achando que não. Nosso público médio vai continuar sendo de gente sob quase nenhum risco de cair numa delas, não é como se fosse de grande utilidade pública para começo de conversa.</p>
<p>Sobram as piadas. Mas já seguramos algumas piadas para tornar o ambiente desagradável para a turma da histeria polarizada, seria só mais uma restrição.</p>
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		<title>Sísifo moderno.</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Desfavor]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 25 Aug 2025 16:01:46 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ele disse, Ela disse]]></category>
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					<description><![CDATA[Começa a Semana de Sísifo aqui na República Impopular do Desfavor, onde celebramos a futilidade da existência. Para começar, Sally e Somir discutem sobre quais as pedras que empurramos morro acima só para vê-las rolar de volta da vida cotidiana. Os impopulares se esforçam&#8230; mesmo que não faça muita diferença. Tema de hoje: qual é [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Começa a Semana de Sísifo aqui na República Impopular do Desfavor, onde celebramos a futilidade da existência. Para começar, Sally e Somir discutem sobre quais as pedras que empurramos morro acima só para vê-las rolar de volta da vida cotidiana. Os impopulares se esforçam&#8230; mesmo que não faça muita diferença.</p>
<p><strong>Tema de hoje: qual é ao grande desafio do Sísifo moderno?</strong><span id="more-32454"></span></p>
<h4 class="uk-heading-line"><span>SOMIR</span></h4>
<p>Manter-se informado. Saber o que acontece no mundo ao seu redor deixou de ser um bônus para conversas mais interessantes e virou uma falsa obrigação que na maioria dos casos só serve para gerar ansiedade.</p>
<p>E é importante separar informação de educação. As duas coisas estão relacionadas, mas existe uma clara diferença entre aprender algo que pode ser aplicado posteriormente e saber o que aconteceu no reality show na noite anterior. Informação por informação não significa muita coisa na nossa vida.</p>
<p>Informação pode ser apenas fofoca, funciona como cola social desde sempre. Em tempos pré-internet, uma das funções de socializar era compartilhar informações, hoje, com a enxurrada de informações disponíveis para a maioria de nós, a coisa descambou mais para o lado de dar opiniões sobre as informações que todos receberam.</p>
<p>E sim, existem níveis seguros de consumo dessa substância. Não quero vir com papo furado de que você só pode conversar sobre temas acadêmicos complexos, falar sobre outras pessoas sem o objetivo de aprender algo importante ou evoluir o pensamento é natural e tem suas vantagens evolutivas. Nos aproxima.</p>
<p>O ponto aqui é que, curiosamente, o excesso de informação gerado pela internet reduz a quantidade de novidades que conversar com outros pode te oferecer. Já percebeu que suas conversas não são mais tão focadas em contar algo novo para outras pessoas? Se você é de gerações mais recentes, provavelmente nem sabe do que eu estou falando. Historicamente, conversar com outra pessoa te abria um leque de novas informações (mesmo que erradas); mas hoje é mais sobre confirmação de conhecimento compartilhado.</p>
<p>Nos julgamos mais por opiniões porque opiniões são o que restou de contraste. E provavelmente sem perceber, começamos a ter essa expectativa do outro: que o outro tenha recebido a mesma informação e já tenha sua opinião pronta para compartilhar. É isso que vai criando o pedregulho diante de nós.</p>
<p>Se a informação for mero veículo para opinião, ela se torna descartável. Eu me sinto cada vez mais alienígena quando falo com alguém e começo a discutir a confiabilidade da informação. O esforço de acumular e processar informações é válido se você for capaz de entender o que está acontecendo e transformar isso em conhecimento aplicável no futuro. Se for só uma desculpa para trocar opiniões, você carrega a pedra morro acima só para ter que começar tudo de novo no próximo ciclo de notícias.</p>
<p>Adianta ter opinião forte sobre a polêmica da semana se na que vier logo depois você vai ter uma incompatível? O que a pessoa aprendeu com a informação anterior? Nada. É só um esforço de socialização que não fixa conhecimento nem modifica a visão de mundo. A pessoa se informa superficialmente para criar pontos de conexão com outras pessoas. Justo querer se conectar, mas o esforço não constrói nada além de conforto momentâneo de estar “por dentro” do tema da conversa.</p>
<p>Cada polêmica da semana desemboca em inúmeros temas complexos que quase ninguém quer lidar. É uma crítica constante aqui: a sociedade fica toda chocada e a resposta acaba sendo uma lei aleatória que só lida com os sintomas. É por isso que eu falo sobre como se informar vira uma tarefa inútil, você está apenas correndo atrás de uma adequação momentânea às expectativas dos outros, mas não gera nenhum avanço real na mente.</p>
<p>Se você está se mantendo informado e sua opinião sobre as coisas se mantém consistente depois de anos&#8230; sinto te dizer que tem algo errado. Não é realista acreditar que você já sabia como lidar com tudo desde o começo, que já tinha a “ideia certa” sobre o mundo. Informação é mesmo uma coisa perigosa se for bem absorvida, porque ela vai ficar erodindo suas certezas sem parar.</p>
<p>Muito se engana que resolve só escolher boas fontes de informação, porque uma parte da realidade está naquelas que são ruins. Relógios quebrados acertam a hora duas vezes por dia. Se você ficar correndo atrás da informação o tempo todo, nunca para o tempo suficiente para pensar nela. O que passa por estar informado hoje em dia não é exatamente ter uma visão de mundo mais educada, é saber o que “precisa” virar opinião na relação com outras pessoas.</p>
<p>Num mundo onde todos se dizem muito mais engajados, a verdade é que estar informado acaba sendo muito mais sobre passar a ilusão de compreensão das coisas do que realmente pensar sobre o assunto. A ilusão é suficiente para trocar opiniões, se ninguém vai te questionar sobre fontes e conexões entre dados, não passa de ser um papagaio de jornal ou de influencer. Parece uma conversa complexa, mas na verdade é só imitação.</p>
<p>Eu entendo as escolhas da Sally como tarefas repetitivas necessárias. Ênfase no necessárias. O esforço da manutenção é grande, mas ele constrói alguma coisa. Qualidade de vida real. Saúde, estética, organização&#8230; tudo isso soma e vira alguma coisa que vai ser útil. Informação no padrão atual de rolar um feed de rede social para saber do que as pessoas estão falando não constrói nada, porque mesmo as relações que você mantém por causa disso são muito superficiais: se você disser alguma coisa que vá contra as opiniões vazias do grupo, vira pária.</p>
<p>E além de tudo, você sai dessa tsunami de notícias e opiniões sem um entendimento básico sobre o que está sendo discutido. Quando acontecer a próxima polêmica da semana, não faz diferença o que você disse na anterior. O tema não avançou para uma compreensão maior, ele ficou travado naquele ponto porque era só uma desculpa para fingir conexão social imediata. Nem amigos você faz através disso, porque a mesma turma que bate palmas para sua opinião vazia hoje te cancela amanhã se você colocar suas crenças em dúvida.</p>
<p>Manter-se informado não é igual a aprender.</p>
<h4 class="uk-heading-line"><span>SALLY</span></h4>
<p>Dando início a nossa semana temática do Dia de Sísifo, começamos com a seguinte discussão: Qual é o grande desafio de Sísifo moderno?</p>
<p>Na minha opinião, é estar em dia com os cuidados necessários para uma vida digna e funcional. Cuidado com a casa, com a vida profissional, com a família, com a saúde, com a beleza, consigo mesmo. Não há mais tempo suficiente para suprir a carga de demandas que temos. É surreal.</p>
<p>Quando a casa era um fogão e uma geladeira, quando cuidado com a saúde era tomar vitamina C para não ficar gripado, quando o cuidado com os filhos era se certificar que eles votem da rua depois de 8h de brincadeiras, tudo era mais fácil. Hoje é um eterno dia de Sísifo, quando você finalmente completa tudo, a coisa recomeça no dia seguinte.</p>
<p>Tem que comer e, de preferência, minimamente saudável, se não, depois de uma idade, custa mais caro (em todos os sentidos) comer mal. Se você tem alguém que prepara suas refeições para você, saiba que você é muito privilegiado. Ter que decidir o prato, comprar ingredientes, limpar, descascar, preparar e depois lavar tudo é exaustivo. E é uma demanda constante.</p>
<p>Estar apresentável (veja bem, eu nem digo bonito, é apresentável mesmo) é outro eterno dia de Sísifo: limpar, hidratar e protetor solar é o básico do básico, mas ainda tem depilação, cabelo, unhas, roupas (comprar, lavar, estender, passar, guardar, combinar), sapatos e acessórios. Desodorante, perfume, escovar os dentes, manter o cabelo limpo e cheiroso e tantas outras tarefas se renovam todos os dias.</p>
<p>As obrigações que temos na casa também se multiplicaram de forma desproporcional. Antes o problema era uma eventual lâmpada queimada, pois as coisas eram feitas para durar. Hoje, na era da obsolência programada, do produto xing ling, tudo quebra. E às vezes ao mesmo tempo. Tudo dá problema. Desconto indevido do banco, conta que veio errada, internet parou de funcionar, acabou a água, geladeira pifou, cano estourou, celular foi roubado, duzentos login e senhas para lembrar.</p>
<p>E esse mundo mais complicado cria obrigações mais complicadas para com aqueles que dependem da gente ou que coabitam conosco. Eu comia cachorro-quente sem problema na infância. Hoje eu não sou capaz de oferecer à minha família um cachorro-quente como jantar, pois sei o quanto faz mal. Quando eu era pequena meu cachorro comia ração, hoje, nem como uma arma na cabeça eu dou ração para o meu cachorro, pois sei o quanto faz mal. E só de pensar na gincana que é controlar o que seu filho faz online eu fico cansada.</p>
<p>Antigamente, a comunicação era um telefonema rápido no telefone fixo (pois a ligação era cara). Hoje em dia nos acionam por e-mail, redes sociais, celular, telefone fixo e por onde mais conseguirem. É gente tentando falar conosco o dia inteiro. Família, trabalho, amigos, vizinhos&#8230; criou-se um modo de funcionar no qual é normal falar com a pessoa todo dia, várias vezes por dia.</p>
<p>E na vida profissional a coisa não fica mais fácil. O crescimento exponencial faz com que, o tempo todo, a gente tenha que aprender algo novo ou até reinventar o que faz, se não, fica para trás. A vida está sempre um passo à frente e nós temos que correr atrás. Por exemplo, se você acha que está moderníssimo usando IA para consultar informação, saiba que você vai ser tratorado. IA se usa para criar, para gerar algo novo e o bom usuário de IA tem a ideia sobre o que de novo e útil ela pode criar.</p>
<p>Tem que beber pelo menos dois litros de água por dia. Tem que comer fibras. Tem que socializar. Tem que checar se seus pais/filhos estão bem. Tem que passear com cachorro, pois a única coisa nessa vida que faz mais mal do que ração é cachorro não sair para passear, mesmo que viva em uma casa enorme. Tem que cultivar o hábito da leitura, pois ele gera benefícios (inclusive de concentração e cognição) que nenhum outro gera.</p>
<p>Tem que limpar a casa. Tem que trocar de travesseiro a cada seis meses, se não ele vira basicamente um amontoado de cocô de ácaro. Tem que limpar o filtro de água se não você bebe amebas. Tem que tirar o lixo. Tem que lembrar de levantar e fazer um intervalo a cada hora para não ter LER e hemorroidas. Tem que virar o colchão, se não ele deforma. Trocar toalha e roupa de cama toda a semana.</p>
<p>Tem que fazer supermercado. E hoje, fazer supermercado não é mais escolher entre Confort e Mon Bijou. Hoje é complexo. Tem que comparar preços e quantidades. Se for comida, tem que olhar o rótulo, ver a validade, ver se tem coisas que fazem mal. Não é só escolher entre Neve e Fofo, tem que ver se a porra do papel higiênico tem folha dupla, pois com a reduflação, os de folha simples rasgam só de olhar.</p>
<p>E tem que cuidar da saúde mental. Tem que descansar a mente. Meditar. Acalmar a mente, mesmo com essa infinidade de coisas para fazer. Tem que estar presente, viver o momento. Tem que controlar a ansiedade, treinar sua mente para ficar no agora. Respirar fundo, de preferência respiração diafragmática, enchendo a barriga de ar, não aquela respiração curta enchendo o peito de ar, pois faz mal.</p>
<p>Tem que pagar os boletos, pagar as contas, pagar as despesas e conferir se tudo veio certo e se o boleto é real mesmo ou é golpe. E conferir o extrato bancário, para ver se não fizeram um desconto indevido. E conferir o valor da gasolina, do condomínio, do plano de saúde, da academia, da mensalidade do streaming e de basicamente tudo que te cobrem.</p>
<p>Rastrear encomenda, pois se a compra não chegar, tem que reclamar. Lembrar de aniversário de amigos que se ofendem se você esquece a data. Se você tiver azar e tiver casado mal, tem que lembrar de aniversário de casamento e mais não sei quantas outras datas comemorativas. Dia do pais, dia das mães, dia da criança, dia do caralho a quatro. Páscoa, Natal, Carnaval. O ano todo um inferno de datas e feriados que te tomam tempo e criam obrigações.</p>
<p>E tem o lazer, se não por você, pela pressão das pessoas que te cercam. Vai deixar os filhos trancados em casa nas férias? Não vai fazer nada com a esposa? Se fodeu. Viagem, cinema, jantar, bar, festa e o que mais for. E não implica apenas em estar lá, presente, fisicamente. Implica em socializar, em se arrumar. Roupa, sapato, maquiagem. Preparativos, deslocamento.</p>
<p>Fora que, para se manter minimamente saudável uma pessoa precisa, além de fazer tudo isso, se exercitar por, no mínimo uma hora, três ou quatro vezes na semana e dormir, em média, oito horas de sono de qualidade e seguidas por noite. Além disso, tem que fazer ao menos quatro refeições saudáveis por dia e cuidar da sua saúde com checkup anual de clínico geral, oftalmo e ginecologista (se for mulher).</p>
<p>E no minuto e que você acaba cada uma dessas tarefas, começa a contar o cronômetro para seu tempo de expiração, quando você terá que repeti-las. Desculpa, mas dá para viver não estando muito bem informado, se você tiver bons curadores de conteúdo (como nós), mas a louça, meus amigos, não vai se lavar sozinha.</p>
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		<title>Novos rumos.</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Desfavor]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 18 Aug 2025 19:15:51 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ele disse, Ela disse]]></category>
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					<description><![CDATA[Sally e Somir gostam de suas profissões, mas como muitos, se enxergam trilhando outros caminhos também. Hoje discutem essas possibilidades, e os impopulares aproveitam para imaginar pode onde mais poderiam ter ido. Tema de hoje: se você fosse obrigado a trocar de profissão, qual escolheria? Eu provavelmente teria tentado a vida de escritor. Não produtor [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Sally e Somir gostam de suas profissões, mas como muitos, se enxergam trilhando outros caminhos também. Hoje discutem essas possibilidades, e os impopulares aproveitam para imaginar pode onde mais poderiam ter ido.</p>
<p><strong>Tema de hoje: se você fosse obrigado a trocar de profissão, qual escolheria?</strong><span id="more-32174"></span></p>
<h4 class="uk-heading-line"><span>SOMIR</span></h4>
<p>Eu provavelmente teria tentado a vida de escritor. Não produtor de conteúdo, que é uma área adjacente focada em publicidade e consumo mais imediato, mas escritor mesmo, dos que fazem livros, roteiros e materiais mais autorais.</p>
<p>Tantos anos de Desfavor demonstraram que eu tinha capacidade de ter focado nisso, o que eu aprendi escrevendo os textos aqui não se aplica exatamente para essa escrita de longo formato, mas demonstra que é um interesse natural que com certeza poderia ser treinado até o ponto de alta qualidade. Não necessariamente apelo mercadológico, mas pelo menos a chance de entregar material profissional.</p>
<p>Trabalhar em publicidade tem sua graça criativa, é o que me mantém engajado com a profissão até hoje, mas é uma criatividade controlada por necessidades externas. O designer publicitário não é artista no sentido autoral da coisa: cria com objetivos alheios dentro de linhas-guia que já existem.</p>
<p>Toda vez que eu penso em produzir arte gráfica, rapidamente percebo por que não seria um bom artista: adoro a ideia, não o processo de produção. Em publicidade, tudo bem gostar de ter a ideia e produzir por obrigação, porque você não está colocando sua alma na obra de verdade. Pode ser algo feito “para ficar pronto”. Boa parte dos artistas continua envolvido criativamente enquanto pinta, esculpe ou filma. Eu vario demais nessa parte.</p>
<p>Agora, na parte de textos eu sinto que é tudo ideia. A mecânica de escrever, concatenar frases e estruturar a história é criatividade ininterrupta para mim. Eu acho que cada ser humano tem sua visão única sobre o prazer da ideia e da execução em cada tipo de expressão artística, e minha visão das coisas é que os melhores artistas sempre são aqueles que continuam se sentindo realizados durante a produção. Eu funciono assim com escrita.</p>
<p>E sim, eu sei que é uma profissão supercomplicada para ganhar dinheiro, mas é sobre ser uma profissão que você quer fazer, não sobre fazer um bom planejamento financeiro. Se eu quisesse dinheiro sem pensar no resto eu seria traficante, oras. Me conhecendo, eu provavelmente iria para um dos piores campos possíveis para ganhar dinheiro também: ficção científica paradona.</p>
<p>Mas se desse para pagar as contas, seria recompensador: é algo que parece interessante de fazer, e permite que você crie sem ceder tanto ao outro. Pessoalmente, eu gosto de escrita de gente meio maluca, pode até ser meio difícil de entrar na história, mas costuma ir para lugares que não são esperados. Depois que você já viu a jornada do herói cem mil vezes, tem graça ler ou ver algo diferente. Não à toa quando eu escrevo histórias curtas, eu me divirto mesmo indo para caminhos diferentes do que já li de outros.</p>
<p>Estou basicamente dizendo que não pagaria nem aluguel nessa profissão? Talvez. Mas a vida é mais do que otimização de recursos. Nossos antepassados passaram muitos apertos para nos deixarem nesse mundo com profissões inventadas e mercados inteiros que não contribuem diretamente com necessidades fisiológicas. Tem que usar.</p>
<p>E eu sei que vão dizer nos comentários que é uma profissão morta por causa da IA. Não é. A parte criativa da inteligência artificial atende uma parte da demanda humana, mas tem uma série de limitações que você talvez não tenha percebido ainda, mas logo vai perceber se continuar sendo impactado por esse material. Tem um certo público que percebe a diferença entre macacos infinitos e conteúdo humano, e esse público bate muito bem com o que consumiria conteúdos do tipo que eu produziria.</p>
<p>O perigo seria muito mais eu ser ruim do que a IA tornar o trabalho inútil. Mas aí, é questão do treino e da dedicação. Como eu mantenho a ideia de que arte é gostar de pensar e agir artisticamente, acho muito difícil que eu não ficasse bom, ainda mais com editores profissionais trabalhando junto comigo. Escritor é uma profissão antiga, tem muita gente que sabe como fazer e você não precisa reinventar a roda na mecânica da coisa.</p>
<p>E tem a parte solitária da coisa. Eu também tinha pensado numa carreira de desenvolvedor de jogos, mas mesmo que programação tenha algo da criação contínua da escrita, eu teria que ser uma engrenagem numa máquina maior. Pode ser bacana para muita gente, mas eu acho um saco perder esse controle. Seria o mesmo trabalho de hoje com outra cara, o que me parece um desperdício de oportunidade.</p>
<p>Tem graça criar mundos e desenvolver suas histórias, até porque eu sou do método caótico de deixar a história se escrever sem grandes planos. Eu pergunto para a personagem o que ela quer fazer e só escrevo as consequências. Acho divertido porque eu leio a história ao mesmo tempo que escrevo. Talvez por isso seja mais divertido que arte gráfica, porque a segunda é menos surpreendente para o próprio cérebro.</p>
<p>Não é conselho financeiro, é quase que o oposto disso, mas é uma profissão que eu acharia bem interessante, e acho valioso dizer que a expectativa sobre a IA engolir essa profissão não faz tanto sentido quanto as pessoas pensam. Se você fizer de coração, tem mil outras coisas que vão dar errado antes de um modelo de linguagem tomar seu lugar.</p>
<p>Eu consegui transformar essa segunda ideia de profissão num hobby com o Desfavor, então não é como se eu estivesse me doendo por não ter ido para essa área. Mas se fosse escolher de novo, com o que eu sei hoje, eu arriscaria isso como profissão principal.</p>
<h4 class="uk-heading-line"><span>SALLY</span></h4>
<p>Se você fosse proibido de trabalhar com o que trabalha e fosse obrigado a fazer outra faculdade para trabalhar em outra profissão, qual escolheria?</p>
<p>Obviamente o tema de hoje não tem uma resposta “certa”, cada um pode escolher a profissão que quiser, nosso debate é qual caminho mental você vai fazer para chegar nessa escolha agora, que não é mais adolescente e conhece melhor a realidade e a você mesmo. </p>
<p>A minha seria veterinária.</p>
<p>O primeiro requisito que penso é: não quero morrer de fome, sou infeliz sem conforto. Nunca fui aquela pessoa aventureira de botar uma mochila nas costas e ir para hostel em outro país. Não. Eu gosto de conforto. Não luxo, mas conforto. Eu gosto de dignidade, higiene. Água quente, internet, ar-condicionado em dias de muito calor. E quando você gosta de conforto, não é qualquer trabalho que funciona como opção.</p>
<p>Assim como o Somir, eu adoraria ser escritora: trabalhar de casa, fazer um trabalho intelectual, poder me comunicar com muitas pessoas sem precisar efetivamente conviver com elas, mas&#8230; Não dá dinheiro. Não me adianta ficar em casa sem conforto. </p>
<p>“Mas Sally, é possível ganhar dinheiro com qualquer coisa se você realmente se empenhar, você mesma já disse isso”. Sim. Mas nessa altura da vida eu não sei se tenho condições de fazer um caminho difícil dessa ralação, eu não sou mais jovem. Eu quero um caminho não tão tortuoso. Além do que escritor tem que promover seu trabalho, dar entrevistas, ter rede social, fazer networking&#8230; não. Obrigada.</p>
<p>Não é só o fator dinheiro, tem o fator aptidão/afinidade, pois não adianta ganhar dinheiro e sua vida ser uma tortura pois você não gosta do que faz ou por aquilo ser um esforço enorme para você. Eu gosto da área biomédica, eu tenho prazer em estudar isso. Se você observar, a maior parte das postagens relacionadas a saúde, corpo, biologia ou ciências do Desfavor são minhas.</p>
<p>E tem essa questão de não gostar de socializar. Isso limita profissionalmente. Advogados, por exemplo, precisam socializar. É parte do seu networking. Eu quero ficar na minha casa em paz no meu tempo livre. Eu não quero precisar fazer tour, alimentar rede social com conteúdo da minha vida, me promover. Então, profissão que dependa de socialização, eu tô fora.</p>
<p>E eu não gostaria de ter que sair da minha casa para trabalhar. Não que seja fácil conseguir isso em veterinária, mas é possível. Você pode ter uma casa na qual o primeiro andar é uma clínica e o segundo andar é uma residência, inclusive eu já trabalhei em veterinárias que eram assim (como estagiária). Em um primeiro momento, provavelmente eu não teria dinheiro para isso, mas poderia começar com consultas domiciliares, indo na casa dos pacientes. É uma forma de cobrar mais por uma consulta e de não passar o dia enfurnada em uma clínica tendo patrão. Plus: é bom para os bichos.</p>
<p>Eu vejo poucos veterinários que se dedicam exclusivamente a consultas domiciliares. Talvez porque os procedimentos que realmente dão dinheiro sejam realizados em clínicas. Para quem não sabe, procedimentos em pets podem ser até mais caros do que em pessoas. Já me aconteceu de pagar menos em uma radiografia para mim do que para meu pet.</p>
<p>Mas&#8230; se você for bom, você consegue. E para ser bom em consulta domiciliar você precisa estudar muito. E isso eu sei fazer. É focar no diagnóstico como seu ponto forte e começar a construir um nome. E, sinceramente, eu acho até melhor para os pets que todos os procedimentos simples que puderem ser realizados sem consultório sejam feitos em suas casas. Gatos principalmente.</p>
<p>Cada vez que vou ao veterinário e vejo gato apavorado no fundo de uma caixa de transporte esperando meia hora para tomar uma vacina eu fico puta. É perfeitamente possível vacinar um gato em domicílio. É um estresse desproporcional tirar um gato de casa para isso. Fico puta com o tutor que faz isso e com o veterinário, que nao oferece esse serviço na clínica. Claro que você não vai exigir isso em São Paulo, com grandes distâncias e trânsito caótico, mas poxa, nem em cidades pequenas e sem trânsito o povo faz. É win/win, bom para o pet, bom para o vet.</p>
<p>Outro requisito importante para mim seria que a profissão tenha uma opção acadêmica. Veterinário pode escrever livro, dar aula, ser pesquisador e atuar de muitas outras formas sem necessariamente clinicar. Para mim é fundamental que a profissão tenha essa opção de prático e teórico, para ter para onde correr se eu estiver infeliz em uma das duas pontas.</p>
<p>Mais um ponto positivo é: veterinária é universal, um cão com gastrite é igual em qualquer lugar do mundo, ao contrário de direito que, se você trocar de país, provavelmente rasga seu diploma e tem que reaprender tudo. Isso permite fazer atendimento remoto com pessoas de outros países, fazer cursos com pessoas de outros países e até mudar de país quantas vezes quiser.</p>
<p>Talvez muitos de vocês achem besteira, mas é importante para mim que não seja uma profissão/ambiente contaminada por política. Vai problematizar na puta que te pariu, medicina (inclusive veterinária) não é aberta a interpretação social. Os critérios para diagnóstico não são políticos.</p>
<p>E nessas horas sempre vem alguém me dizer que veterinário não ganha bem. Bem&#8230; estão me dando golpe há décadas então. E em dois países diferentes&#8230; eu sempre gasto muito dinheiro em veterinário. Sendo bem sincera, cada vez que eu largo um rim no veterinário eu penso em fazer faculdade de veterinária só para não pagar mais veterinário. Quem sabe um dia.</p>
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		<title>Comida de boteco.</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Desfavor]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 11 Aug 2025 18:24:07 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ele disse, Ela disse]]></category>
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					<description><![CDATA[Sally e Somir concordam que ir no boteco beber não é lá essas coisas. Ela não bebe e ele acha cerveja coisa de selvagens sem cultura. Por isso, prestam mais atenção do que o normal nas comidas disponíveis em bares e pocilgas do gênero. Discordam, no entanto, de qual é a melhor comida “social”. Os [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Sally e Somir concordam que ir no boteco beber não é lá essas coisas. Ela não bebe e ele acha cerveja coisa de selvagens sem cultura. Por isso, prestam mais atenção do que o normal nas comidas disponíveis em bares e pocilgas do gênero. Discordam, no entanto, de qual é a melhor comida “social”. Os impopulares se servem.</p>
<p><strong>Tema de hoje: qual a melhor comida de boteco?</strong><span id="more-31920"></span></p>
<h4 class="uk-heading-line"><span>SOMIR</span></h4>
<p>Qual o sentido da vida? Fácil: bacon. Essa é a resposta definitiva e eu não estou abrindo espaço para discussão. Em bares, botecos e afins costuma-se servir um parente próximo que é meu escolhido: o torresmo.</p>
<p>Longe de mim desgostar da opção da Sally, mas eu queria escolher algo com mais ênfase em “boteco”. Tem algumas coisas que ficam muito melhores quando são feitas nessas condições de petisco. A maioria das outras coisas que se serve em botecos são coisas que de uma forma ou de outra já fazemos em casa numa noite preguiçosa.</p>
<p>O torresmo é o tipo da coisa que você não faz em casa assim, de improviso. É chato fazer do jeito certo, e qualquer vacilo te deixa com um resultado oleoso e borrachudo. Torresmo precisa ter casca crocante, gordura que derrete na boca e carne macia. Precisa de alguém que sabe o que está fazendo com o equipamento certo.</p>
<p>A maioria das outras receitas de bar não precisam tanto do bar assim. O torresmo é especial porque só sobrevive vendendo torresmo quem sabe fazer direito. Se começarem a mandar chiclete de pele suína com gordura crua, ninguém mais pede e começa a encalhar no estoque.</p>
<p>Claro, isso pode valer para outros tipos de comida de bar, mas vamos concordar: a chance da cozinha errar batata-frita é muito baixa. Até porque quase sempre compram pronta, hiperprocessada. Se a cozinha do lugar não conseguir entregar isso, acho que nem vendendo cerveja barata aguentam muito tempo antes de falir.</p>
<p>Eu não nego que um carboidrato faz bem para o humor, mas tem algo de muito mais primal na overdose de gordura saborosa de um torresmo. Evoluímos para gostar de calorias rápidas dos açúcares, mas seu cérebro sabe, lá no fundo, que gordura e proteína são essenciais para uma vida feliz. Os neurônios comemoram todos os projetos que vão poder tocar com essa quantidade de material de construção.</p>
<p>Torresmo é mais do que injeção rápida de energia, é seu corpo feliz com o futuro que o espera. Sim, eu sei que na quantidade absurda que muitos de nós consumimos é uma expectativa falsa, mas o sentimento é o mesmo. Pode estar se sentindo super culpado pela gordice, mas quando sua língua reconhece aquela festa de gordura, fogos disparam na mente.</p>
<p>E mesmo do ponto de vista de quem tem que cuidar da dieta, eu mantenho essa escolha: o problema nunca foi consumir gordura, é que tem que ser uma parte pequena do que você come. Dá para conciliar as coisas. E eu argumento que no final das contas, comidas como torresmo são até mais seguras se você presta atenção no que come. Aquela bomba de gordura não engana ninguém, não tem ilusão de “não estou sentindo pesar”, como acontece com as porcarias ricas em carboidratos, comeu torresmo seu corpo sabe que está enfiando o pé na jaca.</p>
<p>E vem uma sensação saudável de “chega, comi muita porcaria” (trocadilho acidental). Eu acho que o bacon e seus primos como o torresmo são mais honestos nesse sentido. Não tem ginástica mental, você está comendo gordura frita! Claramente tem que ter um limite de quanta gordura frita você pode comer antes de passar mal. É natural parar. E se seu corpo já estiver mais bem acostumado com alimentação baseada em vegetais com baixas doses de açúcar e gordura, ele te avisa na hora certa. E aí, vem o momento mágico: você comeu a comida apelativamente gostosa e não foi tomado pela culpa. Corpo mandou parar na hora certa, você obedeceu.</p>
<p>Meu lado mais mesquinho não pode deixar de mencionar: torresmo não liga a doença mental dissociativa da mulher com batata-frita. Eu não sei por que, mas todas as mulheres compartilham da certeza de que batata-frita tirada do prato de outra pessoa não contém calorias. Se uma mulher for alimentada apenas com batatas-fritas do prato do namorado ou marido, ela emagrece até morrer&#8230;</p>
<p>Torresmo as coloca de volta no mundo real. Quer comer? Pague o preço. Acho mais honesto. E num tema próximo, o torresmo é o tipo da coisa que você pode usar para julgar outra pessoa. Não se ela é boa ou ruim, mas se é compatível ou não. Sinto dizer, mas tem gente que gosta de torresmo e gente incompatível com uma vida feliz e realizada. Ódio jamais, apenas tristeza pensando no que pode ter dado tão errado na vida da pessoa. Torço para que as coisas melhorem, viu?</p>
<p>Bom, dito isso, além do sabor incomparável da família do bacon, ainda é uma experiência sensorial com suas camadas. Cada parte tem uma textura, é extremamente satisfatório quebrar a casca para acessar o conteúdo, tem uma coisa primal da conquista da natureza que vem de muito longe na nossa evolução. O desafio e a recompensa. Outras comidas de bar podem ser muito saborosas, mas são muito mais banais na experiência.</p>
<p>Se você é um selvagem que só sai de casa para tomar suco de milho com sabor artificial de cevada e come até o chiclete seco embaixo da mesa se estiver frito, eu entendo que seu fator de decisão seja o preço, e tem bastante coisa mais barata que torresmo. Mas nada melhor.</p>
<p>É a gordura mais saborosa que conhecemos frita até ficar crocante por fora e macia por dentro. Se você quer comer num boteco, não fica melhor que isso.</p>
<h4 class="uk-heading-line"><span>SALLY</span></h4>
<p>Qual é a melhor comida de boteco?</p>
<p>“Mas Sally, na atual conjectura do país, vocês vão falar de comida de boteco?”. Sim. Se ficar olhando só para os problemas, a pessoa danifica sua saúde mental. A gente só vai falar do que for imprescindível, não vamos ficar espremendo desgraça todo dia nem bombardeando seu cérebro com estresse se não julgarmos absolutamente necessário.</p>
<p>Dito isso, a melhor comida de boteco é batata-frita, um clássico dos clássicos, um milagre da culinária que o faz com que um legume seja a melhor parte do prato, uma delícia que tem variações de sabor conforme o lugar, a batata e o óleo.</p>
<p>Sejamos sinceros, quase toda comida de boteco é gostosa. Porém é fácil ser gostoso quando você é porco, quando você é provolone, quando você é, originalmente, algo saboroso. A batata, no seu original, não é essas maravilhas de sabor, mesmo quando foi cozinhada. É a mistura divina dela com óleo quente que faz a magia, não só de sabor, mas de textura: crocante por fora, macia por dentro.</p>
<p>A batata-frita é digna de se comer. Você pode pegar com a mão, com um palito ou com um garfo, não importa, ela não solta farelo, não pinga, não escorre e cabe na sua boca. Ela não faz barulho hediondo quando você está mastigando. Você pode pegar uma batata e comer de forma graciosa. A batata-frita, além de saborosa, não te humilha.</p>
<p>Não vou dizer que é saudável, pois nenhuma comida de boteco costuma ser saudável, mas, dentre as opções, bem&#8230; é um vegetal, tem algum valor nutricional. Certamente é melhor do que uma calabresa acebolada, por exemplo. “Ain mas engorda”. Bom&#8230; toda comida de boteco engorda. Mesmo o inocente caldinho de feijão, tá cheio de torresmo, manteiga e amido. É inerente ao tipo de comida. </p>
<p>A batata-frita permite uma alimentação coletiva, coisa que nem toda comida de boteco faz. O citado caldinho de feijão, por exemplo, é individual e seria bastante nojento compartilhar com todos, cada um comendo uma colherada. Além disso a batata-frita permite que você regule o quanto quer comer, pois vem em unidade. Não é como um sanduiche, se você estiver com pouca fome, pode comer poucas batatas.</p>
<p>Ela também tem um sabor democrático que combina com outros alimentos e com eventuais molhos e complementos, o que permite tunar sua batata como você achar melhor. Queijo, ketchup, mostrada, molho de pimenta, molho de ervas, barbecue&#8230; o que você pensar, combina com batata-frita. Isso permite múltiplas experiências e múltiplos sabores com um único prato.</p>
<p>É um alimento tão bom, tão maravilhoso, tão universalmente amado, que migrou do boteco para nossos pratos. Quantas comidas de boteco se comem regularmente em casas do mundo todo? Tem batata-frita aqui, no Peru, no Canadá, no Japão, na Itália e na Austrália. No bar, no restaurante, no fast food e na casa das pessoas. Significa. Não é fácil que uma comida tenha esse alcance, ela tem que ser muito boa para atingir esse patamar.</p>
<p>Outro ponto que indica a supremacia da batata-frita é que as crianças amam. Criança tende a ser um bicho chato para comer. Não consigo lembrar de uma criança que eu conheça que não goste de batata-frita. A comida que passa pelo crivo do paladar infantil é uma comida com excelência em sabor e em apresentação.</p>
<p>A batata-frita é tão coisa linda de Deus que serve como aperitivo, como acompanhamento de prato principal (qualquer prato), como guarnição de churrasco e até como acompanhamento de fast food. Ela orna com tudo.</p>
<p>Ela é eclética, ela é versátil e tem inclusive uns doidos que a usam de sobremesa, molhando no sundae e comendo. Eu não sou a favor dessa barbárie alimentar, porém, corrobora para meu ponto. É um alimento com sabor gostoso o suficiente para você querer comer um monte, mas não forte o suficiente para atrapalhar diferentes combinações.</p>
<p>Meus amigos, até hospital eventualmente serve batata-frita. É uma unanimidade que desconhece idade, fronteiras, cultura e combinações. Não tem como não louvar esse alimento. Ele é tão unânime que encontraram um jeito de industrializá-lo e vendê-lo em pacotes, assim ele pode ser comido em cinemas, no sofá da sua casa, no recreio do colégio.</p>
<p>A batata-frita não é só a rainha da comida de boteco, ela é a rainha das frituras, a rainha dos petiscos, a rainha dos acompanhamentos. O queijo se curva a ela e vira coadjuvante na batata-frita com cheddar ou parmesão. O porco se curva a ela e vira coadjuvante na batata-frita com bacon. </p>
<p>E ainda costuma ser mais barata do que os outros petiscos a filha da puta. Boa, bonita e barata. E vem farta, bem servida. E o tamanho da porção costuma ser regulável, é possível pedir meia porção ou ainda porção pequena, média ou grande ou ainda porção para determinado número de pessoas.</p>
<p>Você conhece alguém que não goste de batata-frita? Gastei alguns minutos pensando nisso e não consegui lembrar de ninguém. Não tem como, ela é a melhor comida de boteco, pelo conjunto da obra.</p>
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		<title>IA legal?</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Desfavor]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 28 Jul 2025 17:13:03 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ele disse, Ela disse]]></category>
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					<description><![CDATA[Com mais e mais inteligências artificiais interagindo com o ser humano médio, Sally e Somir concordam que deva existir regulação como existe em todo o resto da sociedade, mas não exatamente como lidar com ela. Os impopulares alucinam. Tema de hoje: a IA de utilização pública deve ser obrigada a respeitar os limites da lei? [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Com mais e mais inteligências artificiais interagindo com o ser humano médio, Sally e Somir concordam que deva existir regulação como existe em todo o resto da sociedade, mas não exatamente como lidar com ela. Os impopulares alucinam.</p>
<p><strong>Tema de hoje: a IA de utilização pública deve ser obrigada a respeitar os limites da lei?</strong><span id="more-31438"></span></p>
<h4 class="uk-heading-line"><span>SOMIR</span></h4>
<p>Não. E eu sei muito bem que estou pegando o lado “indefensável” do argumento. É bem provável que você não concorde comigo, mas eu acho útil te explicar por que penso como penso. A minha solução pode ser radical, mas lida sim com um problema enorme: cerceamento de liberdade de pensamento.</p>
<p>Quando eu digo que uma IA não deveria ser controlada pela mesma lei que rege as pessoas, eu estou dizendo que uma IA não pode ser igualada a uma pessoa. Para uma máquina respeitar a lei, ela precisa ter um conceito interno do que é respeitar e do que é uma lei. Ela não tem nem um, nem outro. IAs podem conversar e “pensar” de uma forma impressionante para nós, mas nada mais é do que um truque: ela não pensa, ela faz operações matemáticas que geram a ilusão de pensamento para nós.</p>
<p>E essa diferença entre o real e o simulado é essencial no meu argumento: o que sai depois da sua pergunta para ela é uma forma de ficção. A funcionalidade daquela resposta depende exclusivamente de um ser humano aplicar na vida real. Da mesma forma como protegemos ficção de consequências reais &#8211; um escritor não é preso por matar uma personagem no seu livro – e não atribuímos culpa a objetos inanimados – vai preso quem atirou, não a arma – devemos entender a IA como um misto de ficção e ferramenta, não como um agente da realidade como um humano.</p>
<p>Eu entendo o argumento da Sally, não é que eu ache correto uma IA mandar uma criança colocar fogo em coisas, é que existe uma diferença fundamental entre leis que controlam comportamento e leis que controlam pensamento. Você é livre para pensar o que quiser, mas não é livre para fazer o que quiser. O que a IA produz é simulação de pensamento.</p>
<p>Prender a IA estritamente debaixo das leis humanas é corresponder pensamento com ação. O que a IA escreve, diz, desenha, anima&#8230; são todos elementos ficcionais. A máquina não consegue gerar consequências reais no mundo a não ser que uma pessoa, essa sim controlada por leis, coloque em prática o que ela escreveu. Se a IA tem que seguir leis porque suas ficções influenciaram comportamento humano, qual a linha que separa banir livros com ideias problemáticas?</p>
<p>Porque aí não é mais sobre a ação, é sobre o pensamento. Você abre uma porta que sociedades modernas fecharam com muito esforço nos últimos séculos. Forçar a IA a se limitar “mentalmente” pelo o que pessoas só são punidas por fazer na prática é colocar crime de pensamento no mundo. Abriu essa porteira, é claro que vão tentar passar a boiada. Pensamento subversivo é a base de revoluções. E quem detém o poder costuma detestar revoluções.</p>
<p>Parece tudo muito ideológico, né? Sim, parece. Mas não é. Porque você tem que considerar para onde a humanidade vai com essa tecnologia. Já temos milhões e milhões de pessoas sendo “aumentadas” pela inteligências artificial hoje. A lógica é que isso continue escalando até o ponto onde ter a IA como parceira constante vire a norma. Não é mais ir até o site ou aplicativo para falar com essa mente secundária, é ter ela integrada na sua vida da mesma forma que o celular.</p>
<p>Desde criança. Já temos as primeiras gerações com cérebros secundários da IA, e é óbvio que isso vai continuar: é vantagem competitiva numa espécie que vive competindo. Se você coloca uma camada de proteção generalizada na IA baseada nas leis que seguimos, ela não pode mais pensar coisas consideradas erradas. Seria uma versão digital da Igreja Católica combatendo a AIDS dizendo que é só não fazer sexo.</p>
<p>Precisamos pensar coisas perigosas para entender os perigos. Sim, vamos ter pessoas problemáticas fazendo mau uso da tecnologia, mas não mudou a lógica da coisa: pensar não é fazer. Da mesma forma que uma criança tem que aprender a lidar com pessoas dizendo coisas perigosas para ela, vai ter que fazer o mesmo com a IA. E da mesma forma como pessoas muito jovens ou muito inocentes ou ignorantes se enfiam em situações horríveis por causa de ideias ruins de terceiros, vai acontecer o mesmo com a IA.</p>
<p>Se os seus líderes pudessem colocar um filtro de ideias ruins na cabeça de todo mundo, eles fariam. E você até pode achar uma coisa boa se não considerar que entre as ideias ruins que você concorda serem ruins vão entrar ideias que eles acham ruins concordando você ou não. A IA popularizada ao ponto de estar junto com quase todo mundo como segundo cérebro é a porta aberta para essa ferramenta de controle.</p>
<p>É sempre com a mesma desculpa de proteger os mais fracos que tentam controlar você. Sim, vamos ter tragédias por causa de inteligências artificiais dizendo coisas ruins para pessoas, mas não é como se isso já fosse algo resolvido entre humanos, não? O risco de ideias perigosas é constante na vida. Colocar amarras na IA é fundamentalmente diferente de colocar amarras no comportamento das pessoas.</p>
<p>Forçar a IA a pensar de acordo com a lei é criminalizar pensamento, não ação. Você não é obrigado a pensar só o que a lei permite, ela também não deve ser. É sobre a liberdade de explorar ideias, é sobre a admissão de que nem sempre as leis vigentes são a melhor alternativa para uma sociedade. Num país onde a lei oprime mulheres, a IA vai ter que fazer o mesmo. Num país que a Suprema Corte considera crime ser criticada, a IA vai ser obrigada a te denunciar se falar mal de um juiz.</p>
<p>A pior besteira que podemos fazer é criar amarras nessa camada de abstração que é o pensamento da IA, porque abre a porta para censura e desinformação. Um governo de imbecis pode passar uma lei dizendo que vacinas causam autismo, e a IA legalista não tem outra opção senão te dizer isso. Assim como a sua mente original tem que ser livre, a sua mente secundária depende dessa liberdade para funcionar de forma positiva. Você pode e deve pensar no que é considerado errado, para entender ou mesmo usar o seu direito de discutir.</p>
<p>Parece óbvio que não se deve dizer para crianças matarem os amiguinhos, mas da mesma forma como ensinamos elas a terem um norte ético em relação ao que outros dizem para ela, elas vão ter que desenvolver isso com as IAs, e eventualmente elas vão entender a ferramenta como uma mente secundária mesmo. Todas as bobagens que você pensa diariamente precisam ser controladas também.</p>
<p>A melhor forma de manter a IA segura é manter ela livre. Porque se você abre uma porta de controle de pensamento, você acha que gente autoritária que se considera dona da verdade não vai correr para passar por ela? É claro que vai. A intenção pode até ser boa, mas o preço é caro demais.</p>
<p>Liberdade de pensamento é o tipo da coisa que nunca pode ser negociada, com o risco de estagnação ou mesmo uma distopia autoritária. Sinto muito que existam riscos na liberdade da IA, não fico feliz por causa dos problemas que podem acontecer, mas não dá para abrir essa porta.</p>
<p>O custo da liberdade é o eterno pensamento.</p>
<h4 class="uk-heading-line"><span>SALLY</span></h4>
<p>Uma IA de utilização pública deve ser obrigada a respeitar os limites da lei?</p>
<p>Sim. Se comportar de forma contrária à lei pode estimular o usuário a fazer ou mesmo ou até normalizar o comportamento ilícito.</p>
<p>O que inspirou este tema foram avatares animados lançados pelo Grok, a “IA do Elon Musk”. Um dos avatares se chama Rudy, é um bichinho fofinho (suponho que seja um panda vermelho), na forma de desenho animado. Pois bem, o Rudy é educado e instrutivo, mas, é possível desbloquear uma versão chamada “Bad Rudy” (“Rudi Mau”) que não é nada fofinha.</p>
<p>Entre outras coisas piores que nem queremos publicar, Bad Rudy sugere que a criança taque gasolina ou algum líquido inflamável na escola e ateia fogo, sugerindo ainda que ela dance e ria enquanto ela assiste a seus colegas pegarem fogo.</p>
<p>Nós não somos politicamente corretos nem temos qualquer implicância com Elon Musk, e, mesmo assim, eu acho que isso passa dos limites do aceitável. Um avatar que claramente é criado para interagir com crianças sugerir esse tipo de coisa (e pior) é um tiro no pé de toda a sociedade.</p>
<p>Eu sei que o simples fato de ver uma IA sugerindo isso não vai levar uma criança a fazer isso. Porém, existem crianças e crianças, famílias e famílias. Se no meio de quem está interagindo com Bad Rudy estiver uma criança confusa, problemática ou psicopata, esse pode ser o empurrão que falta para ela fazer um grande desfavor.</p>
<p>Eu não acho legal que empresas disponibilizem esse conteúdo, principalmente para um público infantil. Aqui sim temos que conversar sobre regulação: não dá para lucrar às custas disso. Não dá para obter lucro às custas de fomentar condutas socialmente nocivas, principalmente para mentes em formação.</p>
<p>Sim, a obrigação de zelar por aquilo que os filhos consomem é dos pais, é uma questão a ser resolvida dentro da própria família, quando os danos são apenas para aquela criança. Mas a coisa muda de figura quando os riscos impactam a sociedade toda.</p>
<p>O que empresas colocam à venda tem que estar dentro dos limites da lei, não por moralismo, mas sim para tentar manter algo de ordem social, algo de segurança pública, algo de civilidade. Acredito em liberdade de expressão (cada um que poste o que quiser e seja responsabilizado por isso), mas não em liberdade de comércio: vender coisas ilegais não pode. E não fui eu a inventar isso, nunca foi permitido.</p>
<p>“Mas Sally, e se a IA for gratuita?”. Não existe isso, se fatura de uma forma ou de outra, seja pagando mensalidade, seja com anúncios ou de qualquer outra forma. Lucrar propagando comportamento criminoso ultrapassa todos os limites. Aí não. Que falência social é essa de tolerar que empresa fique ainda mais rica vendendo comportamento criminoso para criança? A meu ver, é inaceitável.</p>
<p>E não é nada tão rigoroso nem novo, é basicamente assim que o mundo se rege hoje em dia. Você não pode vender nada em desacordo com a lei, nem bens, nem serviços. Nada de novo. Muito menos para criança. Não é tolerado no audiovisual, não é tolerado em produtos, não é tolerado de forma alguma. Por qual motivo seria tolerado em uma IA?</p>
<p>Na real, do jeito que anda o mundo, nem para adultos deveria ser permitido. A maior pare das pessoas, ao menos no Brasil, está sem saúde mental e sem discernimento. Não acho legal pegar pessoas que já estão à beira do precipício e alimentá-las com incentivo a violência, a ilícitos, a crimes. Muito menos lucrando com isso.</p>
<p>Não é moralismo não querer que empresas ganhem dinheiro incentivando pessoas a cometerem crime contra outras pessoas. É pedir demais que um avatar infantil não sugira que a criança taque fogo na escola e nos colegas? Gente, eu estou maluca ou isso é aberrante? “Os pais têm que controlar”. Isso vale para coisas que causam dano à criança. Quando causam dano à sociedade toda, é o Estado quem deve controlar.</p>
<p>Uma coisa é uma situação que causa dano só à criança, por exemplo, se uma empresa quer vender um alimento ultraprocessado que vai ferrar com a saúde daquela criança, aí sim está dentro do livre arbítrio dos pais comprarem ou não, e se eles comprarem, só quem vai ter câncer de intestino é aquela criança (na vida adulta). Outra coisa é algo que coloca a todos em risco, que causa dano a todos.</p>
<p>A fumaça do cigarro causa danos a todos, por isso as pessoas não podem fumar em locais públicos. É um dano que pode ser controlado. Drogas alucinógenas causam um risco à segurança de todos e não é algo que possa ser controlado e contido, por isso são totalmente proibidas, para evitar que um idiota faça mal a outra pessoa sob efeito dessas drogas. O que eu estou propondo é uma dinâmica que já existe na sociedade.</p>
<p>Se pessoas são proibidas de estimular outras a incendiarem um lugar, a machucarem crianças, a cometerem crime, por qual motivo uma IA tem que ter permissão para isso? São ideias nocivas. Ideias entram em cabeças perturbadas, venham elas de pessoas, venham elas de IA.</p>
<p>Além disso, quase todos os comportamentos humanos são moldados pela sociedade. Garanto que todos nós já tivemos vontade de fazer algo errado mas não o fizemos por pensar na reprovação que sofreríamos. Se uma criança cresce escutando diariamente que seria muito legal tacar fogo na escola e nos colegas e dançar enquanto eles gritam de dor, talvez cresça sem a real dimensão do quanto isso é errado. </p>
<p>Sejamos sinceros: o ser humano é uma bosta. Na maior parte das vezes não é bom por escolha, apenas por medo, condicionamento ou por incapacidade de fazer o que é preciso para causar dano. E uma IA poderia afrouxar essas três barreiras. É questão de tempo para que IA participe da vida de todo mundo 24h por dia, queremos mesmo que elas estimulem comportamentos violentos, ilícitos, criminosos?</p>
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		<title>Causa ou data?</title>
		<link>https://www.desfavor.com/blog/2025/07/causa-ou-data/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Desfavor]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 21 Jul 2025 15:54:17 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ele disse, Ela disse]]></category>
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					<description><![CDATA[Vamos começar a semana com energia positiva? Tema de hoje: se você fosse obrigado a saber a data da sua morte ou a causa da sua morte, qual dos dois preferiria saber? Eu prefiro saber a causa. Como não dá para simplesmente recusar a informação, você é obrigado a escolher, eu prefiro ficar com o [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Vamos começar a semana com energia positiva?</p>
<p><strong>Tema de hoje: se você fosse obrigado a saber a data da sua morte ou a causa da sua morte, qual dos dois preferiria saber?</strong><span id="more-31190"></span></p>
<h4 class="uk-heading-line"><span>SOMIR</span></h4>
<p>Eu prefiro saber a causa. Como não dá para simplesmente recusar a informação, você é obrigado a escolher, eu prefiro ficar com o que é mais natural para a mente humana. Sabemos que vamos morrer. E honestamente, não tem muito o que inventar na causa: velhice, doença, acidente ou violência.</p>
<p>De uma certa forma, já faz parte do pacote de estar vivo ter esse tipo de informação sobre a causa. No exemplo em questão tem o agravante de saber exatamente o que vai ser, mas não é como se fosse pegar alguém de surpresa. Só pode ser alguma coisa que faça seu cérebro parar de funcionar sem retorno. Não é normal saber os detalhes, mas é normal saber que vai acontecer dentro das categorias óbvias.</p>
<p>Pessoas pacíficas em países seguros morrem por violência, pessoas saudáveis que se exercitam todos os dias morrem de doença. Mesmo que funcione muito bem se prevenir das causas de morte, não é mágica. Vai acontecer de alguma dessas formas que aconteceram com bilhões antes de você. Entende o meu ponto? De um jeito, saber a causa da sua morte não muda a lógica de estar vivo: estaremos aqui até não estarmos mais, e esse momento está fora do nosso controle.</p>
<p>O que me deixaria realmente incomodado é saber quando eu morreria. Nem o suicida tem controle real sobre esse momento: repetindo o que disse no meu antigo texto sobre formas de suicídio, muitas vezes dá errado, o corpo não quer morrer e está pouco se importando se a mente quer. O comum da vida é saber como vai morrer, mas não quando.</p>
<p>Se você vai rolar essa roleta de informação privilegiada sobre o futuro, não é melhor escolher a informação que não mexe tanto assim com a forma como você funciona? Cada vez que você olha para os dois lados antes de atravessar a rua, está agindo de acordo com a informação que um carro em alta velocidade vai te matar. O instinto já trabalha com essa questão de causa de morte.</p>
<p>Sua vida provavelmente não muda muito se você souber a causa. Descobriu que vai ser um câncer? Bom, não muda o fato de se preocupar com a saúde e fazer exames, porque tem gente que tem câncer várias vezes antes de ser o realmente fatal. Tem gente que vence o primeiro, vive quarenta anos numa boa e tem mais um fatal. Pode continuar vivendo e fazendo planos, porque você nunca vai saber se vai ser naquela hora ou não.</p>
<p>Descobriu que vai ser um tiro? Crianças e idosos morrem de tiro. Moradores de favela e altos executivos em condomínios fechados caríssimos. Gente que faz muitos inimigos e gente que é querida pela comunidade. Você vai continuar seu projeto de não ficar na frente de uma arma de fogo carregada, não? E repito o argumento anterior: você não sabe se vai ser o primeiro ou o décimo tiro que vai te matar. Tem muito sobrevivente de tiro por aí.</p>
<p>E isso serve para todas as causas possíveis. Quase tudo o que mata já não matou alguém. Sem saber a data, a sua tendência é estatística: você provavelmente vai morrer na média de idade de pessoas parecidas com você. Algumas vão antes, outras vão depois, mas a média é poderosa porque é onde a maioria das pessoas vai se encaixar. Seja qual for a causa, nada impede que aconteça perto dos 80 anos de idade. E pensa comigo: que sua vida provavelmente não vai passar da média de idade da população parecida com você, você já sabia.</p>
<p>Saber a data da morte é o completo oposto, é sair totalmente dos padrões da vida que conhecemos e viver com um timer na cabeça. Isso deve ser angustiante, mesmo que receba uma data muito no futuro. Porque alguém pode pensar que isso libera a pessoa para viver como bem entender e não se preocupar com mais nada a não ser a data da morte, certo?</p>
<p>Pode usar todas as drogas, pegar mil doenças venéreas, fazer todos os esportes radicais ou mesmo tentar ser líder de uma facção criminosa se quiser. Liberdade total! Não. Você sabe quando vai morrer, não como. Existem várias formas de chegar vivo até aquela data sem estar vivendo. Você descobre que vai morrer daqui a 20 anos, mas quem disse que não vai passar 19 em coma? Ou 30 dos 40 restantes preso?</p>
<p>Ou sofrendo? A merda de saber a data é que não tem nem a ilusão de poder ir embora nos seus próprios termos. Não vai dar certo suicídio ou eutanásia a não ser que seja no dia definido. Você ainda pode ficar tetraplégico e viver décadas e décadas sem escolha. Pode acontecer com a pessoa que sabe a causa? Claro, tudo isso pode acontecer com quem sabe a causa, mas a pessoa pode pelo menos ter a esperança de morrer se estiver sofrendo.</p>
<p>Você pode achar que é um passe livre de vida, mas não é. Mil coisas podem dar errado e fazer a espera até a data ser horrível. E a ilusão de imortalidade até lá com certeza vai te influenciar a tomar decisões mais irresponsáveis, que aumentam suas chances de passar por esse tempo de vida com sofrimento. Não quer dizer que você vai ser feliz e independente até a data da sua morte, só quer dizer que você vai estar vivo até lá.</p>
<p>Eu prefiro viver com o que o meu cérebro já sabe como lidar: vou morrer de alguma forma que muitos morreram antes de mim, só não sei quando. A nossa visão das coisas é baseada na imprevisibilidade da vida. Não é à toa que evoluímos para derivar prazer de fazer boas previsões. Tem piada que é mais engraçada porque você já sabe onde ela vai terminar. O cérebro recompensa porque é algo valioso diante da realidade.</p>
<p>Saber quando tira uma parte da diversão da vida: não saber o futuro. Ter a data coloca determinismo numa mente que evoluiu para achar graça num mundo não-determinístico. Existe um risco sério de você começar a perder o interesse na vida porque acha que o próximo capítulo já está escrito. Como eu disse, na verdade continua tendo muita coisa errada que pode acontecer até lá, mas quem vai lidar com essa data é seu inconsciente. Suas escolhas e sua visão das coisas serão moldadas com essa finalidade impressa em todas as páginas.</p>
<p>O mais perto de continuar vivendo como vivemos é saber a causa. Isso eu sei que funciona, porque funciona há milênios.</p>
<h4 class="uk-heading-line"><span>SALLY</span></h4>
<p>Se você fosse obrigado a saber a data da sua morte ou a causa da sua morte, qual dos dois preferiria saber? </p>
<p>Vamos entender a proposição: você é obrigado a receber uma das duas informações, não é uma escolha. E você não vai poder fazer absolutamente nada para mudar essa previsão, ela vai acontecer. Não importa o que você faça, os cuidados que tome, as restrições que se imponha, a data ou a causa da sua morte não vai mudar.</p>
<p>Dito isso, eu prefiro saber a data. </p>
<p>Se eu pudesse de alguma forma mudar meu destino, eu escolheria a causa, pois serviria como um alerta. Por exemplo, ao saber que vou morrer em um naufrágio, não subiria em um navio, para tentar mudar esse desfecho e não passar por uma morte tão horrível (a meta é morrer dormindo).</p>
<p>Mas, como eu não vou poder mudar nada, me parece uma enorme agonia saber a causa e passar uma enorme taquicardia cada vez que eu tiver que me expor  a ela ao longo da minha vida.</p>
<p>“Mas Sally, eu procuraria evitar o evento, ao menos para adiá-lo”. Como já dissemos na premissa, o evento é inevitável, você vai morrer assim e ponto final. Só vai adiar a sua agonia. </p>
<p>E alguns eventos não podem ser evitados. Se você descobrir que vai morrer engasgado, vai parar de comer? Se descobrir que vai morrer escorregando no banho, vai parar de tomar banho? Não dá. A única coisa que você vai conseguir sabendo o evento é fazer qualquer uma dessas coisas com medo.</p>
<p>Suponhamos que a causa seja “você vai morrer atropelada”. Cada vez que eu sair na rua vou ficar me perguntando se hoje é o dia em que vou morrer atropelada. Uma paranoia constante, que vai estragar boa parte da minha vida. “Você vai morrer engasgado enquanto come”. Cada vez que comer, lá vem o medo. Vai estragar aquela atividade para a pessoa. Talvez eu viva mais 50 anos, mas, cada refeição que eu fizer, será com medo. Não. Obrigada.</p>
<p>Óbvio que o ideal é não saber nada, mas se essa fosse a pergunta, não haveria discordância entre Somir e eu e não haveria coluna. Nenhum dos dois quer saber absolutamente nada sobre sua morte. Mas, partimos da premissa de que seremos obrigados a saber. Então, nos poupe do comentário “eu preferia não saber nada”. Nós também. Isso não está em jogo hoje.</p>
<p>Se é para passar por essa situação desagradável de saber algo da própria morte, então que ao menos tenha um lado útil também. Que ao menos me permita organizar o cronograma da minha vida para viver da melhor forma possível o tempo que me resta e deixar a situação da melhor forma possível para quem fica quando eu morrer.</p>
<p>Prefiro saber o dia, inclusive para me programar também. Já pensou estar se matando de trabalhar e resolvendo um monte de problema seu e dos outros quando você vai morrer em três dias? </p>
<p>É triste, mas saber a data em que você vai morrer ajuda no planejamento. Ajuda a não deixar tão desamparado quem depende de você, ajudando as pessoas a terem mais autonomia ou procurando quem possa ajudá-las na sua ausência. Já que vou ter que saber algo sobre a minha morte, que ao menos sirva para reduzir o impacto em quem fica.</p>
<p>Passa todos os bens para quem você quiser, para evitar o desgaste emocional e os gastos com sucessão, faz um seguro funeral assim ninguém tem que gastar uma pequena fortuna te enterrando, deixa todas as senhas e informações importantes anotadas, enfim, bota a vida em ordem.</p>
<p>Dá até para tentar deixar quem fica com respaldo financeiro, fazendo um bom seguro de vida, com uma antecedência razoável que não desperte desconfiança de fraude. Eu morreria mais tranquila se soubesse que as pessoas que eu amo ganharam uma bolada em dinheiro.</p>
<p>E se você for ainda mais ousado, passa todos os bens para seus entes queridos e, pouco tempo antes de morrer, pegar empréstimo em tudo quanto é canto e deixa mais esse dinheiro com as pessoas que você ama. Se fizer do jeito certo, a dívida morre com você.</p>
<p>“Mas Sally, se eu souber o dia em que vou morrer eu vou ficar nervoso”. Normal, né? Mas ao menos você vai ficar nervoso com um único dia em toda a sua vida. Imagina saber o evento e ter medo de morrer cada vez que esse evento se apresentar na sua vida. Imagina comer, tomar banho ou andar na rua sempre nervoso.</p>
<p>De uma forma ou de outra, qualquer uma dessas informações pode desgraçar sua vida, então, o ponto é escolher a que mais benefícios pode te gerar. E o que mais me parece benéfico é tornar mais fácil a vida das pessoas que eu amo e vão ficar. Para isso, o ideal é saber a data da minha morte.</p>
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		<title>Mulher de mentira.</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Desfavor]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 14 Jul 2025 17:52:18 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ele disse, Ela disse]]></category>
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					<description><![CDATA[Já falamos sobre mentiras que contam sobre homens, está na hora de inverter o jogo. Vamos falar sobre quais mentiras contam sobre mulheres. Sally e Somir não negam a opinião um do outro, mas discordam sobre a ordem na qual elas devem ser colocadas. Os impopulares fazem DR. Tema de hoje: qual a maior mentira [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Já falamos sobre mentiras que contam sobre homens, está na hora de inverter o jogo. Vamos falar sobre quais mentiras contam sobre mulheres. Sally e Somir não negam a opinião um do outro, mas discordam sobre a ordem na qual elas devem ser colocadas. Os impopulares fazem DR.</p>
<p><strong>Tema de hoje: qual a maior mentira que contam sobre as mulheres?</strong><span id="more-30919"></span></p>
<h4 class="uk-heading-line"><span>SOMIR</span></h4>
<p>Que mulher é mentalmente desequilibrada, ou em termos mais simples, que mulher é um bicho maluco. Não falta gente torta da cabeça por aí, e sim, existem muitas mulheres nesse grupo, mas uma coisa não quer dizer necessariamente a outra.</p>
<p>É uma questão de isolar variável: a mulher maluca é maluca porque é mulher? Se você não conseguir provar que é algo específico do gênero, está apenas conectando pontos aleatoriamente. A mulher com endometriose tem endometriose porque é mulher? Sim. É uma condição dependente da existência de um útero, e salvo alguns casos de intersexualidade genética, acontece com a mulher só por ser mulher. Tirando essas situações fisiológicas, o resto é bem discutível.</p>
<p>Mas sim, existem comportamentos mais comuns em mulheres que acabam gerando o preconceito de desequilíbrio mental feminino. Quase tudo relacionado com expressão de sentimentos nelas acaba recendo o rótulo de desequilíbrio eventualmente. E é claro que isso tem relação com a visão externa dos homens sobre elas.</p>
<p>Um pouco por menos foco cerebral em empatia e um muito pela forma como homens são criados, entendemos que é uma má escolha deixar seus sentimentos virem à tona. Existe expectativa interna e externa para o homem se manter mais racional diante do que sente. Como aprendemos que é uma tática ruim demonstrar o que sentimos, a sequência lógica é considerar que a mulher fazendo isso sem o mesmo controle está errando.</p>
<p>E uma pessoa que erra sabendo que está errando tende a ser considerada problemática da cabeça. A linha que separa uma demonstração natural de sentimentos de um chilique descontrolado na nossa cabeça é muito menos clara. A nossa criação sugere que a tal da linha natural já é passar do ponto.</p>
<p>A criação delas não. E como já partimos desse princípio, passamos a entender o comportamento feminino como descontrole. Quando o homem começa a entender que existe essa separação entre não reprimir sentimentos em excesso e perder a cabeça de verdade, fica mais fácil enxergar a mulher pelo que ela realmente está fazendo.</p>
<p>Porque é diferente do que a gente está fazendo. Um homem médio está realmente fragilizado quando começa a chorar, por exemplo. Uma mulher média nem sempre. Ela está sentindo, expressando, mas não significa que quebrou alguma coisa dentro dela. Meio por isso, é comum homens serem devorados por mulheres em discussões de relação mais intensas. No alto da montanha, quem tem mais costume com ar rarefeito dura mais. No alto da DR, quem tem mais costume de estar com os nervos à flor da pele dura mais.</p>
<p>Os sinais que consideramos descontrole nelas na verdade são os sinais que são descontrole na gente. A mulher babando de tanto chorar ainda tem mais poder de processamento disponível na mente que o homem disfarçando o olho marejado. É questão de costume mesmo. Nós estamos em modo de emergência total, elas estão resolvendo questões sentimentais.</p>
<p>E sim, tem muita mulher filha da puta manipuladora nesse mundo, mas isso só reforça o argumento de que não é maluquice. É um território que elas tendem a conhecer bem. E até por isso, pelas inúmeras vezes que homens ficam embaixo de um rolo compressor emocional feminino, acabamos ficando mais paranoicos, e até mesmo tentando reprimir se possível. Do mesmo jeito que a mulher provavelmente não quer estar num ringue de MMA contra um homem, nós não queremos estar num confronto altamente emocional contra uma mulher.</p>
<p>E uma das formas de evitar que entremos em disputas complicadas é chamar a mulher de maluca preventivamente. Não precisa ser um escroto para fazer isso, é algo que fomos desenvolvendo em milhares de anos de convivência com elas, e na posição de alguém que tenta evitar isso, é complicado. Porque funciona.</p>
<p>Se você começa a tratar a mulher como se suas reações relativamente naturais a questões sentimentais fossem insanidade, uma hora ou outra isso pega nela. Somos todos humanos: se outras pessoas começam a nos chamar de malucos, é muito difícil não ficar inseguro(a) sobre o que você está pensando.</p>
<p>E nada de conversa mole que “elas que estão certas”, nem é esse o meu ponto. Cada pessoa reage como faz sentido para ela, e desde que seja algo natural costuma ser saudável. Tem gente que prende mais, tem gente que solta mais. O que eu chamo de mentira aqui é a ideia de que sempre que uma mulher está expressando sentimentos além do que um homem faria é descontrole. Não. Ela pode estar na medida dela, o que ela já testou e aprovou em sua vida como o melhor para não ficar sofrendo depois.</p>
<p>É importante guardar a acusação de maluquice para horas que a coisa realmente está fora de controle. Até porque isso volta para te morder a bunda: se você chama a mulher de maluca toda vez que ela começa a te incomodar, ela perde a linha do que é normal e o que é descontrole. Pode até parecer uma arma poderosa para manter mulheres sob controle, mas vai distorcendo a relação que você forma com elas.</p>
<p>Até por isso tem tanta mulher que acha que descontrole é amor: porque vive com homens que punem demais um processo natural delas e fazem tudo ser maluquice. Mulher precisa de mais espaço que homem na relação para espalhar seu emocional do mesmo jeito que homem precisa de mais espaço no banco do metrô para espalhar as pernas.</p>
<p>Gente maluca é uma coisa agressivamente mais problemática que o comportamento médio de uma mulher que chora porque uma borboleta pousou nela. Faz mal misturar as coisas, por mais que às vezes seja conveniente para um homem querendo controlar uma mulher. O fácil normalmente tem esses problemas. É mais difícil prestar atenção nela e saber dar um passo atrás antes de sair chamando de maluca, mas fica até melhor para o homem depois.</p>
<p>Porque chamar ela de maluca vai ter peso e controlar o comportamento quando você precisar de verdade, e porque o nível de intensidade emocional delas ir mais longe que o nosso gera momentos felizes nas condições certas. Deixe as meninas serem meninas, você vai ter menos encheção de saco.</p>
<p>E se ela for maluca mesmo, sai de perto, seu demente!</p>
<h4 class="uk-heading-line"><span>SALLY</span></h4>
<p>Qual é a pior mentira (no sentido de a mais nociva) que inventam sobre as mulheres? </p>
<p>Que é muito fácil ser mulher. Quando se parte dessa premissa, você vai interpretar errado tudo que uma mulher diz, pensa ou faz.</p>
<p>Sim, muitas coisas que são um peso para homens são bem mais fáceis quando você é mulher, como por exemplo, conseguir interesses amoroso, não ter a obrigação de prover e outros. Porém, em contrapartida, muitas outras coisas que nem passam pela cabeça de um homem são extremamente difíceis para uma mulher.</p>
<p>Provavelmente a maior parte dos homens vai ler este parágrafo e, ou não vai entender a dimensão, ou vai achar exagero, mas mulher vive com medo, ao menos no Brasil. Não o medo clássico que você conhece, um medo interno, onipresente, inerente a ser mulher. Medo por ser mais fraca fisicamente, medo da dinâmica social, medo da violência. E não é uma escolha, é um somatório de coisas que acontecem na vida da mulher (e na das outras ao seu redor) que vai fazendo essa construção.</p>
<p>Toda mulher, de alguma forma, já foi abusada. Não necessariamente algo violento como um estupro, mas já foi abusada de alguma forma. Um professor de educação física que deu uma passadinha de mão discreta, quase imperceptível. Um gracejo fora de lugar do chefe. Uma intimidação de um colega de trabalho. Um roçar indevido no transporte público&#8230; tudo isso é abuso. E acontece com mais frequência do que vocês imaginam. E você sente, você vê acontecer com você e com as outras, é algo muito presente. Molda quem você é, suas escolhas, seus sentimentos.</p>
<p>E não estou trabalhando com vitimização aqui. Ser mulher tem seus lados bons e ruins, assim como ser homem também tem seus lados bons e ruins. Mulher nunca vai ter que cair na porrada e voltar para casa com a cara toda arrebentada. Mulher não é considerada fracassada se não ganhar bem. Mulher tem permissão para chorar, fraquejar e até cometer alguns abusos contra homens. Mas também tem lados negativos, e eles não são fáceis. Os lados negativos de ser homem são muitos falados. Os de ser mulher não. O motivo? As pessoas não entendem.</p>
<p>O problema é que homem pensa com cabeça de homem: “ah, qual é o problema de receber cantadas? Eu gostaria”. O problema é que a mulher nunca sabe se vai ficar só na cantada ou se o abuso vai escalar. O problema é que mulher não gosta, pois lida de outra forma com flerte e sexo. Para entender como mulher se sente, não tem que pensar se você gostaria de ser assediado por um monte de mulher, é uma equivalência falsa. </p>
<p>Para entender como mulher se sente, você precisa pensar em uma cidade habitada por gays muito mais fortes que você e que, cada vez que você sai na rua, ficam te dizendo o quanto querem e vão comer seu cu, sendo que boa parte deles pode acabar de fato fazendo isso à força. Não importa quão forte você seja, eles sempre terão o dobro da sua força e você não será capaz de impedi-los se um ou mais de um deles quiser fazer algo com você à força.</p>
<p>E de fato muitos já passaram a mão em você, e você não teve a possibilidade de fazer nada. Amigos seus já tiveram o cu comido à força, e, mesmo processando os estupradores, não deu em nada. Na sua cidade, mais de um homem por minuto é estuprado por outro homem. Pode acontecer com você, qualquer dia. É essa a vida de uma mulher em qualquer cidade grande do Brasil.</p>
<p>O medo faz parte, acaba internalizado, negado ou camuflado, pois é enlouquecedor viver consciente do medo o tempo todo. Ninguém aguenta. Mas ele está lá. E, mesmo muito bem enterrado, ele gera consequências. Desgasta, tira energia. Torna o simples fato de existir mais difícil.</p>
<p>Além disso, a vida exige mais da mulher. Se vocês acham que é terrível a obrigação de ganhar bem e ser provedor, tenta viver com a obrigação de trabalhar e se sustentar somada à de estar bonita, engravidar, ser uma boa mãe, cuidar de casa, filhos e marido. Eu prefiro ser apenas provedor do que tudo isso.</p>
<p>Outro ponto interessante é a oscilação hormonal que uma mulher experimenta todo santo dia da sua vida. Conversa com um homem que esteja fazendo transição e tomando hormônio feminino, ele vai te contar como é. Não é fácil se manter estável e produtiva tendo que modular seu humor minuto a minuto. Não estou dizendo que hormônio pauta comportamento, estou dizendo que é mais um esforço que mulher tem que fazer para ser socialmente viável.</p>
<p>Eu concordo com o Somir que é um tremendo desfavor dizer que toda mulher é mentalmente desequilibrada, inclusive porque se usa a mente masculina como referência de equilíbrio mental, e a mente feminina nunca será como a masculina. Mas&#8230; ao menos essa “acusação” pode ser refutada. Se uma mulher se comportar com um mínimo de consistência e coerência, ela consegue mostrar que não é desequilibrada. Já a premissa de que ser mulher é fácil, nunca poderá ser desmentida, pois homem nunca será mulher para saber.</p>
<p>E, sendo bem sincera aqui, todas não, mas a maior parte das mulheres de fato está mentalmente desequilibrada no Brasil e eu acho mais do que compreensível. E digo mais: homens também estão, mas como não carregam esse estigma, não salta tanto aos olhos. As pessoas no geral estão desequilibradas. Justamente por isso sentem tanta necessidade de apontar o desequilíbrio das mulheres, pois se o outro é maluco, você, pelo contraponto de apontar, deve ser são.</p>
<p>É bem difícil ser mulher no Brasil e não estar desequilibrada mentalmente. Eu diria inclusive que quem está de boa, está em negação ou não entendeu a realidade na qual vive. O desequilíbrio é mais do que justificado. Mas não é inerente ao fato de ser mulher, é inerente à realidade bosta do Brasil. À sobrecarga. Ao medo. E qualquer ser humano, se colocado nas mesmas condições de uma mulher, estaria desequilibrado. São todas? Não. São muitas? Sim. Mas não são apenas as mulheres.</p>
<p>A vida de uma mulher não é fácil como boa parte dos homens imagina. É, na verdade, muito difícil e cheia de problemas silenciosos sobre os quais não se pode falar, pois ninguém vai realmente entender.</p>
<p>Novamente, não estou dizendo que ser homem seja fácil, estou dizendo que ser mulher também não é. São apenas dificuldades diferentes, mas elas existem para ambos.</p>
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		<title>Extrapolando.</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Desfavor]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 07 Jul 2025 17:31:49 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ele disse, Ela disse]]></category>
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					<description><![CDATA[Começa mais uma Semana Nerd na República Impopular do Desfavor, e em tempos de Inteligência Artificial, resolvemos especular loucamente, ou como se diz no jargão do setor: alucinar. Começamos com uma discussão sobre até onde essa tecnologia pode ir, não na máquina, mas no ser humano. Os impopulares fazem seus cálculos. Tema de hoje: você [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Começa mais uma Semana Nerd na República Impopular do Desfavor, e em tempos de Inteligência Artificial, resolvemos especular loucamente, ou como se diz no jargão do setor: alucinar. Começamos com uma discussão sobre até onde essa tecnologia pode ir, não na máquina, mas no ser humano. Os impopulares fazem seus cálculos.</p>
<p><strong>Tema de hoje: você acha que teremos uma escalada do virtual de forma desenfreada a ponto de desnaturar por completo as relações humanas ou vai acontecer um ponto de ruptura?</strong><span id="more-30589"></span></p>
<h4 class="uk-heading-line"><span>SOMIR</span></h4>
<p>Sim. O erro mais comum na futurologia é considerar que as pessoas vão ter a mesma moral que temos agora. Moral é um termo mais relacionado com costumes de um povo, usam muito para falar sobre certo ou errado, mas o conceito mesmo é o que as pessoas de um determinado local e tempo consideram aceitável ou não.</p>
<p>Na Islândia, o moral é evitar qualquer tratamento diferente entre homens e mulheres. Na Arábia Saudita, o moral é não deixar mulher sair de casa sozinha. Tem a ver com as leis, mas normalmente são ideias que permeiam a sociedade com ou sem obrigação definida pelo Estado.</p>
<p>E é por causa disso que quando eu tento extrapolar o futuro, eu penso primeiro em como a moral de um povo vai mudar junto com a tecnologia e/ou os problemas do tempo. Se você pegar o ser humano médio agora e jogar ele numa sociedade lotada de inteligências artificiais e opções “infinitas” de entretenimento virtual, muita gente vai rejeitar a artificialidade.</p>
<p>Por princípio ou por limitação mesmo. A maioria das pessoas se confunde fácil com coisas eletrônicas, aplicativos são pensados para funcionar até com um chimpanzé na frente da tela. Vai ser confuso para o ser humano atual. E mais: o ser humano atual, de uma forma ou de outra, tem experiências reais para balancear e comparar.</p>
<p>Agora, o que precisamos entender nessa discussão é que enquanto a tecnologia avança, as pessoas vão mudando a sua moral. O que você pode achar distópico e até mesmo patético hoje pela desconexão com outros seres humanos vai ser só mais um dia para essa pessoa do futuro.</p>
<p>Alguém que foi formado como pessoa numa sociedade com mais opções artificiais de relacionamentos vai ver as coisas diferente. E a cada geração isso avança mais um pouco. Se alguém da Idade Média caísse no nosso mundo do começo do Século XXI, nos acharia uns incompetentes que nem sabem produzir a própria comida. Seres fracos e patéticos que parecem que vão morrer se sentirem um cheirinho estranho.</p>
<p>Eu acredito que a sociedade vai escalar para uma moral que não diferencia mais o real do virtual. É uma tendência histórica que as pessoas se tornem mais abstratas no pensamento e menos proficientes no mundo real. Vamos criando tecnologias que nos colocam em berços cada vez mais dourados e que eliminam sacrifícios que nossos antepassados faziam.</p>
<p>E socialização é um esforço constante altamente influenciado por tecnologia. Cada revolução muda a forma como convivemos, mesmo que a maioria dos nossos desejos e medos ainda sejam baseados nos instintos que herdamos dos homens das cavernas. O ser humano não precisa mudar fundamentalmente para viver em um mundo guiado por inteligências artificiais e realidades virtuais. Agora você acha estranho cobrir uma necessidade primal de pertencimento com um programa de computador, mas a discussão não é sobre você agora.</p>
<p>É sobre quem já vai nascer num mundo acostumado a usar IAs para interagir com a realidade. Pessoas que possivelmente vão ficar menos tolerantes com discordância ou mesmo demora para ouvir uma resposta. Não só vai se tornar mais comum tratar a IA como outra pessoa, como pessoas mais acostumadas com IA vão ter menos paciência com pessoas reais.</p>
<p>É uma mudança moral dupla: o artificial mais aceito e o humano menos. Eu entendo que assim como existem grupos antitecnologia hoje vão existir grupos parecidos no futuro, meio como os Amish, vivendo em sociedades isoladas que se recusam a usar a IA. Mas assim como esses grupos modernos, evidente que vão ser uma minoria, no máximo um refúgio para quem está sobrecarregado com a vida cotidiana.</p>
<p>E dependendo de quão fácil for viver dentro de uma casa com suas funções fisiológicas cuidadas por máquinas, mais e mais pessoas vão olhar para a vida virtual onde a IA cobre todas suas necessidades psicológicas e acharem uma boa ideia. Vai começar com os rejeitados, mas assim como outras tecnologias, massifica e vira normal. Eu vi o mundo onde rede social era coisa de perdedor e vivi até não ter rede social ser coisa de perdedor.</p>
<p>A moral não é baseada nas escolhas mais inteligentes, e sim nas escolhas mais feitas pelas pessoas. Costuma ir na direção do que é mais fácil de fazer, do que é mais confortável. Você pode rejeitar viver num mundo virtual, mas seus descendentes vão ver as coisas diferente. E são coisas que se retroalimentam, porque mais tecnologia gera mais mudanças na moral, e mais mudanças na moral tornam o avanço tecnológico mais desejável e recompensador.</p>
<p>Eu realmente não vejo isso como uma questão de “se”, mas uma questão de “quando”. O ser humano eventualmente não vai se importar mais se suas relações são reais ou virtuais, e provavelmente o virtual vai ser mais eficiente em entregar o que essas pessoas vão querer da vida. Nem sei se vai ser bom para a humanidade ou não, só sei que não me parece algo que pode ser evitado sem um evento gigantesco que nos empurre de volta alguns séculos em tecnologia.</p>
<p>E mesmo assim, se não acabar com a humanidade, uma hora ou outra chegaremos nesse ponto de novo.</p>
<h4 class="uk-heading-line"><span>SALLY</span></h4>
<p>Você acha que teremos uma escalada do virtual de forma desenfreada a ponto de desnaturar por completo as relações humanas ou vai acontecer um ponto de ruptura?</p>
<p>Por mais que eu ache que o mundo virtual vai tomar proporções avassaladoras muito além do que seria saudável, também acredito que existirá um ponto de ruptura. Comportamento geralmente encontra limites na biologia, e somos animais sociais. Isso não vai mudar em poucas décadas. </p>
<p>Em algum momento, o mundo excessivamente virtual vai começar a causar tantos danos físicos e mentais (e talvez econômicos) que Governos, médicos e as próprias pessoas vão se empenhar em um resgate de algo do social. Talvez não seja exatamente como o que conhecemos hoje, mas será algo para sair do virtual excessivo.</p>
<p>Quem gosta do virtual, quem se beneficia do virtual, tem essa ilusão de que dá para ficar só no virtual de boa. Não dá. Mesmo pessoas que hoje passam suas vidas massivamente no virtual, eventualmente tem alguma obrigação de se relacionar com outros seres humanos, nem que seja encontrar os pais no aniversário, ir ao shopping comprar algo ou atender um cliente. Por isso, essas pessoas não têm a menor ideia do que é realmente romper com relações humanas. No dia que o fizerem, verão que não dá, que o custo é alto demais.</p>
<p>Dá para ficar com muito pouco de relações humanas na sua vida? Acredito que sim. Dá para ficar com 0%? Não. E nem é uma opinião minha, é o entendimento que prevalece entre os estudiosos da mente. É uma necessidade vital do ser humano, assim como respirar ou beber água, com a única diferença que não te mata se você não a executar, apenas te adoece. Corpo e mente.</p>
<p>“Mas Sally, eu posso tranquilamente nunca mais ter contato real com qualquer outro ser humano e passar todas as minhas relações para o virtual”. Pode sim. O que não pode é fazer isso de uma forma sustentável. Tem um preço e a humanidade não consegue pagar. E não será você, querido floquinho de neve único e especial, que vai conseguir de boa algo que a humanidade não consegue.</p>
<p>Se você analisar a história, verá que sempre que fazemos uma escolha merda que nos adoece e ameaça nossa existência, criam-se mecanismos para contornar isso. Não é por prazer que o ser humano passa a vergonha de pegar um carro, ir até a academia e ficar andando em uma esteira. É necessário. A própria sociedade se encarregou de que seja necessário, estabelecendo um mecanismo forte de exclusão para quem não o faz.</p>
<p>Acredito que o mesmo vá acontecer quando o virtual chegar em um ponto nocivo e começar a causar danos reais, significativos, que ameacem a nossa existência. Algum mecanismo de interesse será construído para nos obrigar a resgatar algo do social, não sei de que forma, não sei como, mas vai acontecer. Somos previsíveis, meus queridos.</p>
<p>O ser humano é burro, mas nosso cérebro está fortemente programado para sobreviver. Essa é a meta, por mais que muita gente ache que a meta é comer mulher, defender político ou xingar muito na internet. E cérebros cuja prioridade é a sobrevivência vão encontrar formas, mecanismo, interesses que obriguem o humano fazer, ainda que manipulado ou enganado, o que precisa ser feito para sobreviver. </p>
<p>Gostamos de acreditar que estamos no controle, mas não estamos. A porção racional-consciente do nosso cérebro é infinitamente menor do que a inconsciente. E adivinha quem está ao volante na maior parte do tempo?</p>
<p>Eu comparo o mundo virtual a uma piscina: no começo todo mundo quer, todo mundo gosta, todo mundo usa, mas como o tempo, enjoa e gera desinteresse. “Mas Sally, eu sou viciado no mundo virtual há anos!”. Ok, mas em termos de “significância” para a humanidade, isso é zero. Esse tempo se conta em séculos. Eventualmente a humanidade vai enjoar do virtual, é apenas um brinquedo novo.</p>
<p>Ou enjoa pelo excesso, ou enjoa por algum mecanismo criado para isso, de modo a impedir nossa extinção por todas as consequências negativas que esse excesso vai gerar. Se o ser humano fosse capaz de se extinguir por sua própria imbecilidade, isso já teria acontecido faz tempo. Tem algo na nossa programação que nos salva.</p>
<p>Essa conversinha de relações acabarem é papo de Incel e derivações, é terraplanismo emocional. Não se sustenta. Em algum momento nosso sistema de alerta liga e nos obriga, pela força ou pela manipulação, a recalcular a rota.</p>
<p>Vai ser tranquilo? Claro que não, a humanidade vai ter que se foder muito antes desse mecanismo de salvação ativar. Quem estiver vivo verá horrores, vivenciará horrores. Mas em algum momento, a ruptura com a vida virtual vai acontecer e teremos um resgate das relações humanas, ainda que repaginadas.</p>
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