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	<title>Não é o Fim? &#8211; desfavor</title>
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		<title>A menina que gritava assédio.</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Sally]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 26 Dec 2017 11:00:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Não é o Fim?]]></category>
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					<description><![CDATA[Era uma vez uma mocinha que trabalhava em uma empresa com muitos coleguinhas. A mocinha se esforçava, mas fazia apenas um trabalho razoável, nunca conseguia se destacar em nada. Seu Papai e sua Mamãe sempre deram mais atenção a outras coisas, fazendo com que a mocinha se sinta deixada de lado. Ela só queria ser [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Era uma vez uma mocinha que trabalhava em uma empresa com muitos coleguinhas. A mocinha se esforçava, mas fazia apenas um trabalho razoável, nunca conseguia se destacar em nada. Seu Papai e sua Mamãe sempre deram mais atenção a outras coisas, fazendo com que a mocinha se sinta deixada de lado. Ela só queria ser especial.<span id="more-12607"></span></p>
<p>Esta mocinha tinha um amigo oculto, chamado Inconsciente, que tentava aconselhá-la de tempos em tempos. Porém, nem sempre a mocinha entendia os conselhos do Inconsciente da forma correta, pois em vez de se dedicar a tentar escutá-lo e entender a forma como ele se comunicava, ela passava seu tempo investindo em outros amigos, na verdade, falsos amigos, como o Facebook, o Instagram e o WhatsApp, que apenas tomavam seu tempo e lhe faziam mal sem que ela perceba.</p>
<p>Seus falsos amigos a faziam se sentir querida, mas, como tudo que é falso, esta sensação não era totalmente satisfatória. O Inconsciente tentou avisar à mocinha que aquele não era o caminho, mas ela estava muito ocupada para ouvi-lo. Ele tentou de tudo: falar com ela em sonhos, mandar sinais em seu corpo e até impedir que ela consiga pegar no sono. Nada adiantou.</p>
<p>Com o passar do tempo, a mocinha começou a sentir que havia algo errado, mas, por não investir em seu autoconhecimento, continuava sem entender as mensagens do Inconsciente. Uma angústia começou a tomar conta da mocinha e, quanto mais sua angústia aumentava, mais ela apelava para seus falsos amigos, criando um círculo vicioso que só lhe fazia mal.</p>
<p>Um dia, esta angústia acumulada tomou proporções insuportáveis. Ela finalmente sentiu que, apesar de todos os falsos amigos, estava sozinha, não fazia diferença no mundo, não tinha a menor ideia de qual era seu propósito e muitas vezes era invisível para seus colegas. Então, pela primeira vez, ela decidiu escutar seu Inconsciente.</p>
<p>O problema é que quando você não está familiarizado com a pessoa que conversa, que, no caso, era ela mesma, podem ocorrer falhas na comunicação. O Inconsciente, aliviado por finalmente receber a atenção da mocinha, lhe disse: “Mocinha, você precisa conquistar a simpatia e atenção das pessoas à sua volta, a vida é no mundo real, não no mundo virtual. Se você não fizer algo para cativar as pessoas à sua volta, vai acabar sozinha e esquecida”.</p>
<p>Sem saber o que fazer com esta informação, a mocinha continuou pensando. Então, seu Inconsciente, na melhor das intenções, lhe disse: “Não se permita ser apenas mais uma! Queira ser especial!”. A mocinha entendeu esta frase da forma que pôde e desde então, algo mudou em sua cabeça. Ideias confusas que fugiam ao seu controle começaram a aparecer, uma visão de mundo deturpada pelo medo e carência começou a se formar. Isso abriu portas para que um novo amigo oculto apareça na vida da mocinha, a Projeção, um falso amigo que adora enganar as pessoas. Ele induziria a mocinha a erro.</p>
<p>Conversando com um colega de trabalho, a mocinha percebeu nele um olhar diferente. De fato, era verdade, o colega, muitos anos mais velho do que ela, havia perdido uma filha em um acidente de carro e a mocinha lhe lembrava muito esta filha. Por não estar familiarizada com interações ao vivo, graças a seus falsos amigos, a mocinha ficou confusa com esse olhar. Então ela se lembrou da mensagem do seu amigo Inconsciente: “Não se permita ser mais uma!”. O recado era claro: aquele homem a estava tratando como mais uma, cobiçando seu corpo como um pedaço de carne e ela não podia deixar isso acontecer! Tudo obra da Projeção: como a mocinha se via sem valor, presumiu que o resto do mundo a via igualmente sem valor e a tratava assim. Ela não pensou duas vezes.</p>
<p>“Assédio!” – ela gritou. O homem olhou surpreso. “Assédio! Assédio! Assédio!”. Rapidamente, seus colegas de trabalho correram para sua sala, a trataram de forma carinhosa, lhe deram atenção e regalias. A mocinha nunca tinha recebido tanto carinho, ficou deslumbrada com tantos cuidados. Fazia muito tempo que a mocinha não se sentia tão querida e não recebia tanto afeto.</p>
<p>Seu Inconsciente tentou avisar que aquele não era o caminho, mas era tarde demais: a percepção da mocinha havia sido alterada pela mensagem que ela interpretara de forma errada e agora ela tinha certeza de que havia sido assediada. A mocinha não era mentirosa ou má pessoa, ela realmente acreditava no que estava dizendo. Passaria tranquilamente por um polígrafo se fosse necessário, pois estava convicta de que aquilo tinha acontecido. Coitadinha da mocinha, ela era tão ingênua que acreditava piamente que sua percepção sempre correspondia à realidade.</p>
<p>Passaram-se alguns meses e a atenção dos colegas foi diminuindo gradualmente. A mocinha começou a se sentir sozinha e angustiada novamente. Seu Inconsciente tentou enviar uma nova mensagem, desta vez de forma mais clara, na forma de um sonho: “Preste atenção, mocinha: nessa sua busca por amigos, afeto e carinho, você não pode permitir que ocorram abusos ou injustiças”, se referindo à acusação injusta que ela fez a seu colega de trabalho. A mocinha estava tentando decodificar a mensagem, quando outro rapaz esbarrou nela sem querer nos corredores da empresa.</p>
<p>“Assédio!” – ela gritou. O homem olhou surpreso. “Assédio! Assédio! Assédio!”. A mocinha gritava convicta de que estava fazendo a coisa certa, afinal, seu Inconsciente a alertara de que nessa busca ela não poderia permitir abusos ou injustiças e aquilo claramente era um abuso injusto: em sua busca por novos amigos ela vinha sendo mais simpática e o rapaz havia se aproveitado disso e tocado em seu corpo sem o seu consentimento. A mensagem era clara e contra fatos não havia argumentos, afinal, sua percepção sempre correspondia à realidade! A mocinha tinha mais certeza do que nunca e continuou gritando “Assédio!” até seus colegas aparecerem novamente.</p>
<p>Mais uma vez, seus colegas a acudiram, dando carinho e atenção. A mocinha se sentiu amada e cuidada novamente. A sensação era boa. Seu amigo Inconsciente, que graças às más interpretações de suas mensagens, estava agindo sem querer como inimigo, tentou gritar o mais alto que pôde, mas não foi ouvido. Quanto mais ele falava, mais deturpadas eram suas mensagens. É que neste ponto, a mocinha acabara de fazer amizade com outro amigo oculto muito poderoso: o Ganho Secundário.</p>
<p>O Ganho Secundário não era mau, mas tinha seus vícios. No caso específico da mocinha, seu Ganho Secundário era viciado em atenção e carinho. Não demorou muito para que seu novo amigo oculto ofusque totalmente a voz do Inconsciente e dê alguns conselhos bem errados, para justificar seu vício. Como todo viciado, o Ganho Secundário era um negador: não admitia o vício, muito menos que estava norteando seus conselhos para sustentar um vício.</p>
<p>Assim, com os pretextos mais ridículos, o Ganho Secundário começou a convencer a mocinha a se colocar em situações onde poderia ser assediada, buscando na verdade todo o carinho e atenção que viriam depois, como consequência. A mocinha aos poucos foi mudando seu comportamento, se colocando em diversas situações onde era possível antever um risco considerável, escorada pelos pretextos furados que o Ganho Secundário contava. Sim, viciados são terríveis, mentem e enganam o quanto seja necessário para alimentar seu vício.</p>
<p>Este mecanismo continuou por muitos meses. Se por um lado a mocinha gritava “Assédio!” cada vez que se sentia sozinha e carente, convicta de que realmente tinha sido assediada, por outro se colocava cada vez mais em situações de risco para sua incolumidade física sem se dar conta do que estava fazendo, aconselhada pelo seu amigo viciado. Até que um dia, o pior aconteceu.</p>
<p>A mocinha foi agressivamente assediada, por seu chefe, em seu trabalho. Uma experiência traumática. Ela não hesitou e, mais uma vez, gritou “Assédio!”. Só que desta vez, ninguém apareceu. A mocinha percebeu o olhar de descrença nos seus colegas e até mesmo algum olhar de reprovação. Seu amigo Ganho Secundário obviamente ficou desesperado, como qualquer viciado quando é privado de sua droga. Então ele a aconselhou a buscar aquilo que seus colegas estavam lhe negando em outros lugares: redes sociais, delegacia de polícia, programas de TV, não importa, o que ele queria era mais uma dose do seu vício.</p>
<p>A mocinha percorreu todas as mídias e todas as instâncias do Judiciário gritando “Assédio!”. Para sua surpresa, não foi ouvida por ninguém, graças a seu péssimo hábito de gritar “Assédio!” com muita frequência, sem que tenha realmente acontecido. A mocinha estava prestes a cair em depressão, pois perdera sua principal fonte de atenção, carinho e afeto, até que&#8230;</p>
<p>Para sua surpresa, foi salva por um velho amigo chamado Internet. A Internet deu voz a esta mocinha e permitiu que outras mocinhas que escolheram viver como ela a escutem. Estas mocinhas se reuniram e fizeram um combinado: já que as pessoas não as ouviam mais quando cada uma gritava “Assédio!”, um acreditaria na outra e lhe daria atenção, carinho e afeto cada vez que uma acusação destas fosse feita. Assim, as mocinhas passaram muito tempo retroalimentando suas necessidades.</p>
<p>Mas o vício é terrível. Se hoje uma dose basta, amanhã provavelmente o viciado precisará de mais. Chegou um tempo onde aquele pequeno círculo simbiótico se tornou insuficiente. Então, as mocinhas decidiram que se juntariam e, unidas, gritariam “Assédio!”, assim poderiam falar mais alto e, quem sabe, seriam ouvidas pelas pessoas. A credibilidade individual já havia sido minada, mas a coletiva não. Não custava tentar.</p>
<p>De fato funcionou por algum tempo, pois ao gritarem juntas, gritaram mais alto, alcançando mais pessoas. Algumas destas pessoas, com coração mais bondoso, com menos maldade ou que nunca haviam sido expostas aos excessivos gritos de “Assédio!” acreditaram cada vez em que elas gritaram juntas. Deram atenção, afeto e carinho para estas mocinhas. Mas, como uma situação dessas não se sustenta por muito tempo, com o passar dos anos todas as pessoas do mundo perceberam que estas mocinhas estavam, na verdade, influenciadas pelo mesmo amigo viciado, o Ganho Secundário, que mente e deturpa para alimentar seu vício.</p>
<p>Assim, gritar de forma coletiva também havia perdido efeito. Elas pararam de receber a atenção, carinho e afeto de que tanto precisavam. A síndrome de abstinência começou a falar mais alto e as mocinhas ficaram realmente transtornadas. O vício é uma coisa terrível, faz a gente esquecer com muita facilidade o que é certo e o que é errado quando conseguimos um bom pretexto para justificar nossos atos. Então, as mocinhas se reuniram para decidir o que fariam para alimentar o vício do Ganho Secundário, que, em suas cabeças, era visto como “fazer justiça”. Impressionante como vícios mexem com a percepção das pessoas.</p>
<p>As mocinhas decidiram que teriam que tomar o poder para isso. Cegas pelo vício, traçaram um plano em três etapas: primeiro iriam desacreditar todos os homens, assim nenhum deles poderia refutar quando uma delas gritasse “Assédio!”. O próximo passo, com os homens neutralizados, seria constranger a sociedade para que não possam ser recriminadas por seus atos, acusando e incriminando quem tentasse desacreditá-las, assim como haviam feito com os homens. E, finalmente, o último passo seria alcançar cargos de poder e alterar não apenas as leis, como também as regras sociais, criando uma sociedade voltada para acolher qualquer mulher que grite “Assédio!”, sem a necessidade de se discutir a veracidade do fato.</p>
<p>O plano corria muito bem, as mocinhas haviam completado os dois primeiros estágios com sucesso e, ao que tudo indicava, chegariam ao terceiro sem maiores problemas. Eis que um novo amigo, ainda mais poderoso que o Ganho Secundário, apareceu e mudou o rumo desta história: o Ego. O Ego, egoísta como ele só, convenceu cada uma das mocinhas de que ela era mais importante, mais sofredora, mais apta a liderar, mais “qualquer coisa” do que as outras. Assim, as mocinhas começaram a brigar entre si, por se julgarem melhores que as outras. Divididas, totalmente focadas no que o Ego falava, elas acabaram brigando e perdendo poder. Seu plano fracassaria miseravelmente.</p>
<p>Hoje as mocinhas estão reclusas, decadentes, e tiveram como única opção buscar a validação, carinho e atenção que precisam em animais de estimação, que, por não falarem, jamais as refutarão. Eu sei que não parece, mas, acreditem, este é sim um final feliz.</p>
<p class="uk-text-center">FIM</p>
<p class="uk-background-muted uk-padding">Para dizer que eu sou uma vergonha para a raça feminina, para me acusar de machista ou ainda para dizer que em algum lugar Esopo se revira no túmulo: <a href="mailto:sally@desfavor.com">sally@desfavor.com</a> </p>
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		<title>Chapeuzinho vermelho.</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Sally]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 10 May 2016 09:00:49 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Não é o Fim?]]></category>
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					<description><![CDATA[Era uma vez, numa pequena cidade às margens da floresta, morava uma menina de pele clara e louros cabelos cacheados. Um dia, com um retalho de tecido vermelho, sua mãe costurou para ela uma curta capa com capuz; serviu-lhe perfeitamente, combinando muito bem com seus cabelos louros. Daquele dia em diante, a menina não quis [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Era uma vez, numa pequena cidade às margens da floresta, morava uma menina de pele clara e louros cabelos cacheados. Um dia, com um retalho de tecido vermelho, sua mãe costurou para ela uma curta capa com capuz; serviu-lhe perfeitamente, combinando muito bem com seus cabelos louros. Daquele dia em diante, a menina não quis mais saber de vestir outra roupa, senão aquela e, com o tempo, os moradores da vila passaram a chamá-la de “Chapeuzinho Vermelho”. <span id="more-10042"></span></p>
<p>Além da mãe, Chapeuzinho Vermelho não tinha outros parentes, a não ser uma avó bem velhinha, que nem conseguia mais sair de casa. Morava numa casinha, no interior da mata. De vez em quando ia lá visitá-la com sua mãe, e sempre levavam alguns mantimentos.</p>
<p>Um dia, a mãe da menina preparou algumas broas das quais a avó gostava muito mas, quando acabou de assar os quitutes, estava tão cansada que não tinha mais ânimo para andar pela floresta e levá-las para a velhinha.<br />
Então, chamou a filha:</p>
<p><b>MÃE:</b> Chapeuzinho Vermelho, vá levar estas broinhas para a vovó, ela gostará muito. Disseram-me que há alguns dias ela não passa bem e, com certeza, não tem vontade de cozinhar.<br />
<b>CHAPEUZINHO:</b> Vou agora mesmo, mamãe.<br />
<b>MÃE:</b> Tome cuidado, não pare para conversar com ninguém e vá direitinho, sem desviar do caminho certo. Há muitos perigos na floresta, um lobo muito mau foi visto por ali!<br />
<b>CHAPEUZINHO:</b> Tomarei cuidado, mamãe, não se preocupe.</p>
<p>A mãe arrumou as broas em um cesto e colocou também um pouco de queijo e presunto, para que a avó possa fazer um sanduíche. Deu um beijo em Chapeuzinho Vermelho e a menina saiu em direção à casa da avó. Chapeuzinho saltitava e cantava pela floresta quando foi abordada por um grupo de pessoas com cartazes que gritavam palavras de ordem.</p>
<p><b>PESSOA 1:</b> Sabe o que é isso que você tem aí nesse cesto?<br />
<b>CHAPEUZINHO:</b> É para minha vovozinha! Tem pão, queijo, presunt&#8230;<br />
<b>PESSOA 1:</b> MORTE, é isso que você tem nesse cesto<br />
<b>CHAPEUZINHO:</b> Desculpe, não estou entendendo&#8230;<br />
<b>PESSOA 1:</b> Esse pobre animal teve que morrer para que sua vovozinha disfrute de um sanduíche, você acha isso bonito? ASSASSINA!<br />
<b>CHAPEUZINHO:</b> Mas eu&#8230;<br />
<b>PESSOA 2:</b> CRIMINOSA! MONSTRO!</p>
<p>As pessoas começaram a se aproximar de Chapeuzinho com uma postura agressiva. Com medo, ela pegou um punhado de terra no chão e jogou no rosto das pessoas que se aproximavam. Enquanto elas tentavam tirar a terra dos olhos, Chapeuzinho correu para o meio da floresta para se esconder dessas pessoas. Quando já estava distante, ouviu alguém que a chamava. Um delicado cervo, com uma boina vermelha na cabeça a olhava.</p>
<p><b>CERVO:</b> Psiu!<br />
<b>CHAPEUZINHO:</b> É comigo? *esfregando os olhos sem acreditar<br />
<b>CERVO:</b> Sim. Qual é o seu nome?<br />
<b>CHAPEUZINHO:</b> Chapeuzinho Vermelho. E o seu?<br />
<b>CERVO:</b> Jã<br />
<b>CHAPEUZINHO:</b> Prazer&#8230;<br />
<b>CERVO:</b> Porque me olha com essa cara?<br />
<b>CHAPEUZINHO:</b> É que eu nunca vi um cervo falante, achei estranho<br />
<b>CERVO:</b> Porque eu sou cervo eu não tenho que ter voz? É isso?<br />
<b>CHAPEUZINHO:</b> É&#8230; não sei&#8230; acho que sim, normalmente cervos não falam<br />
<b>CERVO:</b> Discurso típico da elite nórdica, fascista, racista, que tem preconceito contra negros, pobres e nordestinos!<br />
<b>CHAPEUZINHO:</b> Oi?<br />
<b>CERVO:</b> FASCISTA! FASCITA, ISSO É O QUE VOCÊ É! BURGUESA QUE QUER CALAR AS MASSAS!</p>
<p>O Cervo desfere uma cuspida que acerta em cheio o rosto de Chapeuzinho, que, em estado de choque, começa a dar passos para trás e se afastar sem entender nada.</p>
<p><b>CERVO:</b> Volta aqui, fascista, elite branca, reacionária! Ainda não acabei!<br />
<b>CHAPEUZINHO:</b> Você cuspiu na minha cara! Não quero nem chegar perto de você! Vou contornar o rio só para não ter que passar ao seu lado, seu maluco!</p>
<p>Chapeuzinho sai de forma apressada, olhando para trás, para ver se o Cervo não a seguia. Graças a essa distração, acaba pisando em algo mole que estava no chão e, para sua surpresa, ouve um grito de dor.</p>
<p><b>CHAPEUZINHO:</b> Não acredito, pisei na bosta!<br />
<b>BOSTONARO:</b> AAAAAAIIIIII!<br />
<b>CHAPEUZINHO:</b> Você fala?<br />
<b>BOSTONARO:</b> Tinha que ser petista, para vir aqui me agredir!<br />
<b>CHAPEUZINHO:</b> Oi?<br />
<b>BOSTONARO:</b> Essa capa vermelha&#8230; sua comunista de merda!<br />
<b>CHAPEUZINHO:</b> Tem um cocô me xingando? *esfregando os olhos novamente<br />
<b>BOSTONARO:</b> Merecem ser todos torturados mesmo! Vocês comunistas são a escória deste país!<br />
<b>CHAPEUZINHO:</b> Senhor Tolete, eu juro, foi sem querer, eu estava olhando para trás e não vi quando&#8230;</p>
<p>Chapeuzinho foi interrompida. Por entre os arbustos, aparece o Cervo Jã e ele não estava sozinho. Trouxe reforços. A seu lado, um burrinho bem idoso.</p>
<p><b>JÃ:</b> É ela, Zé, é ela!<br />
<b>CHAPEUZINHO:</b> Me deixem em paz!<br />
<b>BURRO:</b> NÃO VAI TER GOLPE! NÃO VAI TER GOLPE!<br />
<b>CHAPEUZINHO:</b> Claro que não vai ter golpe, eu nem sonhei em bater em alguém!<br />
<b>BURRO:</b> OUVIRAM DO IPIRANGA ÀS MARGENS PLÁÁÁÁCIDAS&#8230;<br />
<b>CHAPEUZINHO:</b> ME DEIXE EM PAZ, SEU BURRO!<br />
<b>BURRO:</b> VOCÊ ME CHAMOU DE BURRO? *cuspindo na cara de Chapeuzinho<br />
<b>JÃ:</b> Tinha que estar na companhia desse bosta!<br />
<b>BOSTONARO:</b> VIADO!<br />
<b>JÃ:</b> SEU MERDA!</p>
<p>Aproveitando a confusão, Chapeuzinho corre ainda mais para dentro da mata, limpando o rosto. Avista um grupo à distância e se sente aliviada ao perceber que são mulheres. Corre para pedir por socorro. Quando se aproximam, percebem que elas estão mantendo um prisioneiro amarrado a uma árvore. Ela se aproxima desconfiada e percebe que quem está amarrado à árvore é um lobo. O lobo está machucado, parece ter sido agredido.</p>
<p><b>MULHER 1:</b> Cuidado, mocinha! Não chegue muito perto, ele é um predador sexual, um estuprador!<br />
<b>LOBO:</b> *bufando e revirando os olhos<br />
<b>CHAPEUZINHO:</b> O que está acontecendo aqui?<br />
<b>MULHER 1:</b> Eu estava passando por aqui e ele pulou na minha frente para me estuprar!<br />
<b>LOBO:</b> Pela milésima vez, o que eu disse foi “Vou te comer!”<br />
<b>MULHER 1:</b> TÁ VENDO? VOCÊ ESTÁ DE PROVA! PREDADOR SEXUAL!<br />
<b>CHAPEUZINHO:</b> Moça, ele é carnívoro&#8230; ele só queria se alimentar, você é que confundiu as coisas<br />
<b>MULHER:</b> Ah, claro, agora você vai me julgar! É por isso que o mundo é dominado por machistas opressores, por causa de mulheres como você, que culpabilizam a vítima!<br />
<b>LOBO:</b> Não adianta, eu já tentei explicar, não escutam<br />
<b>CHAPEUZINHO:</b> Pessoal, vamos ser racionais?<br />
<b>MULHER 1:</b> SUA MACHISTA! SUBMISSA! ESCRAVA DO SISTEMA! NÃO VOU ME CALAR! VOCÊS NÃO VÃO ME INTIMIDAR!</p>
<p>Em um movimento rápido, Chapeuzinho desamarra o lobo. As mulheres saem correndo e gritando.</p>
<p><b>LOBO:</b> Obrigada, Menina<br />
<b>CHAPEUZINHO:</b> Você é o lobo mau, de quem eu deveria ter medo?<br />
<b>LOBO:</b> Sim, mas não precisa ter medo, eu desisto, estou indo embora para outra história<br />
<b>CHAPEUZINHO:</b> Indo embora?<br />
<b>LOBO:</b> Sim. Aqui eu não consigo comer ninguém sem que uma horda de ativistas furiosos depreendam segundas intenções. Outro dia ataquei um homem e calhou dele ser judeu e precisa ver o escândalo que foi, me chamaram de nazista para baixo. Vou procurar aqueles três porquinhos e assoprar a casa deles, lá a coisa está mais tranquila. Obrigada, viu? Tchau.</p>
<p>Chapeuzinho se despediu do Lobo e continuou sua jornada. Depois de tantas fugas, ela estava perdida, não sabia para onde ir. Foi quando ouviu uma voz vinda de cima:</p>
<p><b>MACAQUINHO:</b> Perdida, Menina?<br />
<b>CHAPEUZINHO:</b> Quem disse isso?<br />
<b>MACAQUINHO:</b> Eu *descendo da árvore<br />
<b>CHAPEUZINHO:</b> Você fala? Um macaco que fala?<br />
<b>MACAQUINHO:</b> Você me chamou de que?<br />
<b>CHAPEUZINHO:</b> Macaco. Está errado? Você é um mico? Nunca sei a diferen&#8230;<br />
<b>MACAQUINHO:</b> MACACO? MACACO? VOCÊ NÃO TEM RESPEITO NÃO?<br />
<b>CHAPEUZINHO:</b> O que foi que eu fiz de errado dessa vez?<br />
<b>MACAQUINHO:</b> Não sou um macaco, sou um Simiodescendente!<br />
<b>CHAPEUZINHO:</b> Um o que? Desculpa, nunca tinha ouvido esse termo&#8230;<br />
<b>SÍMIODESCENDENTE:</b> RACISTA!<br />
<b>CHAPEUZINHO:</b> De novo não&#8230;</p>
<p>O Símiodescendente chama outros simiodescendentes e começam a xingar e atirar fezes em Chapeuzinho, que corre tentando se esquivar. Depois de muito correr, Chapeuzinho percebe que, sem querer, está bem próxima da casa de sua avó. Aliviada por reconhecer o caminho, ela apressa o passo. Quando finalmente chega, uma surpresa desagradável a espera. Sua avó, sua mãe e um policial abrem a porta.</p>
<p><b>CHAPEUZINHO:</b> O que está acontecendo aqui?<br />
<b>MÃE:</b> O que está acontecendo é que eu não criei filha minha para ser criminosa!<br />
<b>CHAPEUZINHO:</b> Do que você está falando? Eu fui agredida o dia inteiro!<br />
<b>POLICIAL:</b> Não é isso que consta nos Boletins de Ocorrência registrados contra você, Mocinha!<br />
<b>VOVOZINHA:</b> Que desgosto, ver minha netinha caindo na criminalidade!<br />
<b>CHAPEUZINHO:</b> Que Boletins de Ocorrência?<br />
<b>POLICIAL:</b> Para começar tem um envolvendo maus tratos a animais, onde você teria agredido um grupo de ambientalistas<br />
<b>CHAPEUZINHO:</b> Queriam me bater porque eu tinha presunto na minha cesta!<br />
<b>MÃE:</b> Onde foi que eu errei, Chapeuzinho?<br />
<b>POLICIAL:</b> Depois temos outra denúncia por discriminação, feita por um cervo. Ao que parece, sua filha disse que ele não merecia ter voz e que, abre aspas: ‘Não quero nem chegar perto de você! Vou contornar o rio só para não ter que passar ao seu lado’<br />
<b>MÃE:</b> CHAPEUZINHO! De onde saiu tanta intolerância?<br />
<b>CHAPEUZINHO:</b> Mas&#8230;<br />
<b>POLICIAL:</b> Ela também é acusada de agressão, parece que andou pisoteando alguém<br />
<b>VOVOZINHA:</b> Devem ser as más companhias&#8230; ela não era assim<br />
<b>POLICIAL:</b> Para piorar, temos uma acusação de que sua neta teria acobertado um crime. Ao que tundo indica, ela libertou um estuprador que havia sito capturado durante uma tentativa de estupro<br />
<b>VOVOZINHA:</b> *desmaiando<br />
<b>POLICIAL:</b> Além de tudo, é racista!<br />
<b>MÃE:</b> *chorando<br />
<b>CHAPEUZINHO:</b> Alguém pode por favor ouvir a minha versão?<br />
<b>POLICIAL:</b> Ahhh, então quer dizer que TODO MUNDO está mentindo? TODO MUNDO está errado?<br />
<b>CHAPEUZINHO:</b> Sim, pelo visto todo mundo está é maluco!<br />
<b>POLICIAL:</b> Chapeuzinho Vermelho, você está presa!<br />
<b>CHAPEUZINHO:</b> Mas eu não fiz nada disso!<br />
<b>POLICIAL:</b> Por desacato! Acabou de me chamar de maluco!<br />
<b>CHAPEUZINHO:</b> Hã?</p>
<p>O policial algemou Chapeuzinho, a prendeu em flagrante por desacato. Quando ela saiu, a imprensa filmava e fotografava, narrando a crueldade de uma jovem que teria cometido cinco crimes em um único dia. As vítimas de Chapeuzinho deram entrevistas exaustivamente em programas de TV e, a cada entrevista, contavam uma história pior.</p>
<p>Hoje ela está em um presídio de segurança máxima, aguardando para ser julgada pelos crimes citados, que totalizam mais de 200 anos de prisão. Revoltada e se dizendo injustiçada, há boatos de que ela tenha fundado uma organização para se vingar da sociedade, a qual ela comanda da cadeia e teria recebido, em sua homenagem, o nome de “Comando Vermelho”.</p>
<p class="uk-background-muted uk-padding">Para sugerir que eu escreva livros infantis sincerões, para dizer que eu é que vou ser presa por este texto ou ainda para se ofender com humor: <a href="mailto:sally@desfavor.com">sally@desfavor.com</a></p>
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		<title>Entrando pelo cano.</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Somir]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 03 Dec 2015 08:00:11 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Não é o Fim?]]></category>
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					<description><![CDATA[X 2 A árdua jornada até ali havia testado todos seus limites. Os músculos gritando por clemência, o pulmão como se dilacerado por facas afiadas a cada inspiração, a visão turva&#8230; e diante dele, um enorme salão nas profundezas daquele castelo maldito. Um gigantesco fosso de lava iluminava debilmente a cena: sobre uma ponte frágil, [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><em>X 2</em></p>
<p>A árdua jornada até ali havia testado todos seus limites. Os músculos gritando por clemência, o pulmão como se dilacerado por facas afiadas a cada inspiração, a visão turva&#8230; e diante dele, um enorme salão nas profundezas daquele castelo maldito. Um gigantesco fosso de lava iluminava debilmente a cena: sobre uma ponte frágil, o imponente adversário esperava com expressão furiosa. Dentes e garras afiadas, o fogo vindo de suas entranhas saltava pelas narinas descomunais. Esse era o último desafio, Mario respira fundo&#8230; e dispara em direção a Koopa.<span id="more-9187"></span></p>
<p>Mario sabe que só tem uma chance. O monstro começa a saltar, cuspindo fogo entre cada um de seus demoníacos rugidos. A ponte balança. Mario sente uma das bolas de fogo passar a milímetros de seu corpo, seria a morte certa caso não desviasse a tempo. Koopa chega perto, muito perto. Mario espera o momento certo: com um salto perfeito, passa pelo selvagem monarca dos koopas e consegue finalmente observar um machado posicionado do outro lado do fosso. Mario corre, bolas de fogo voando para todos os lados, sentindo os passos de seu inimigo ficando cada vez mais próximos&#8230; finalmente chega ao outro lado. Com um rápido movimento, o encanador agarra o machado e acerta uma das cordas que seguravam a ponte. Koopa desaba na lava, berrando desesperadamente enquanto afunda.</p>
<p>Mario suspira aliviado. Mas não é tempo de descansar, ele tem que encontrar a princesa. Ele corre rumo ao grande cômodo que se abre à sua frente. Ela está lá. A princesa! Mario sorri, finalmente. A princesa Peach não só está viva, como parece intocada. Ela volta-se para ele, e sorri de volta. Mario sente o corpo falhando, as pernas enfraquecidas teimam em não responder aos seus comandos. Praticamente se arrastando, Mario se aproxima da princesa:</p>
<p><b>PRINCESA:</b> Obrigada, Mario! Sua missão terminou!<br />
<b>MARIO:</b> Princesa&#8230; eu&#8230;<br />
<b>PRINCESA:</b> Mas eu tenho uma nova missão para você!<br />
<b>MARIO:</b> Hã?<br />
<b>PRINCESA:</b> É&#8230; aconteceram mais coisas nesse meio tempo e&#8230;<br />
<b>MARIO:</b> Tá&#8230; tá, eu ajudo, mas&#8230; eu esperava&#8230;<br />
<b>PRINCESA:</b> Ah, você quer uma água? Eu pego&#8230;<br />
<b>MARIO:</b> Não! Não&#8230; é, eu&#8230; pfft&#8230; eu cansei! Deixa eu retomar o ar&#8230;<br />
<b>PRINCESA:</b> Sem pressa.<br />
<b>MARIO:</b> É que&#8230; eu esperava uma recompensa depois disso tudo.<br />
<b>PRINCESA:</b> Mas você não pegou um monte de moedas no caminho?<br />
<b>MARIO:</b> Não, dinheiro&#8230; de dinheiro foi bem legal. Não era isso. É que, sei lá, eu esperava um pouco mais de&#8230; empolgação da sua parte.<br />
<b>PRINCESA:</b> Você me salvou daquele bicho horrível, eu estou feliz sim.<br />
<b>MARIO:</b> Que bom!<br />
<b>PRINCESA:</b> Você sabe o caminho pra sair daqui?<br />
<b>MARIO:</b> Sim&#8230; mas&#8230; pra ver se a gente se entende melhor. Eu atravessei meio mundo enfrentando o exército todo do Koopa, entrei em vários castelos e enfrentei os filhos dele, só pra salvar alguns cogumelos idiotas&#8230; eu quase morri várias vezes pra vir até aqui e te&#8230; te salvar.<br />
<b>PRINCESA:</b> Obrigada! Não sei mais o que dizer. Obrigada mesmo!<br />
<b>MARIO:</b> É que&#8230; quando a gente salva uma princesa normalmente a gente tem uma expectativa, sabe?<br />
<b>PRINCESA:</b> Qual expectativa?<br />
<b>MARIO:</b> Sempre&#8230; sempre tem um romance depois, né?<br />
<b>PRINCESA:</b> Oi?<br />
<b>MARIO:</b> O mocinho enfrenta o monstro, vence, salva a mocinha e eles são felizes para sempre.<br />
<b>PRINCESA:</b> &#8230;<br />
<b>MARIO:</b> Mas sem pressão pra fazer tudo de uma vez. Vai, que tal a gente começar com um beijinho?<br />
<b>PRINCESA:</b> Mas eu não quero te beijar&#8230;<br />
<b>MARIO:</b> Eu te salvei! Você ia morrer!<br />
<b>PRINCESA:</b> Eu já agradeci várias vezes. Te acho bacana e tudo mais, eu só não me sinto atraída por você.<br />
<b>MARIO:</b> Você me deve isso!<br />
<b>PRINCESA:</b> Não devo porra nenhuma! Você veio até aqui porque quis, eu não prometi nada para você.<br />
<b>MARIO:</b> E quando você berrou socorro foi o quê? Vozes do além? Você estava pedindo sim para virem te salvar!<br />
<b>PRINCESA:</b> Quem não pediria? Tinha um monstro me sequestrando!<br />
<b>MARIO:</b> Ah, então é assim? Na hora do aperto eu sirvo, mas quando é para liberar essa mixaria, muda de ideia?<br />
<b>PRINCESA:</b> Mixaria? Vai se foder, seu anão! E outra, aquilo foi hora de desespero, eu poderia ter prometido até meu cu que qualquer pessoa com bom senso teria entendido que seria ridículo me cobrar depois.<br />
<b>MARIO:</b> Ah, mas eu não tenho bom senso MESMO! Se tivesse, não teria me fodido todo para chegar aqui e salvar uma mimadinha que provoca e pula fora na hora do vamos ver! Tá com medinho de estragar a bucetinha real?<br />
<b>PRINCESA:</b> Se enxerga! Nem com todos os cogumelos do mundo você conseguiria ficar grande o suficiente para dar conta de mim. E eu não tenho nada contra dar, só não quero dar pra você.<br />
<b>MARIO:</b> Porra! É porque eu sou pobre, né? Mulher é foda&#8230;<br />
<b>PRINCESA:</b> Não, é porque você é um anão gordo, narigudo, com um bigode ridículo e aposto que não toma banho há semanas pelo fedor que está chegando aqui. Eu não fiz cara feia por educação, você estava aonde, se esfregando na tubulação de esgoto? E eu aposto que você usa esse boné porque está ficando careca, não é?<br />
<b>MARIO:</b> Fútil! Só pode te salvar se for bonito?<br />
<b>PRINCESA:</b> Olha, se você tivesse sido esperto e não pressionado, talvez a admiração que eu senti baixasse o meu grau de exigência. Mas nããão, você tinha que ser um bronco estúpido que me disse que eu tinha OBRIGAÇÃO de dar pra você. Se você tinha uma chance minúscula, ela não existe mais.<br />
<b>MARIO:</b> O herói salva a princesa, a princesa dá para o herói. É o mais básico dos básicos! É por isso que você é a princesa de um bando de cogumelos retardados e nada mais.<br />
<b>PRINCESA:</b> Falou o ENCANADOR!<br />
<b>MARIO:</b> Pelo menos eu trabalho! Não fico explorando os outros pra viver no luxo.<br />
<b>PRINCESA:</b> Luxo aonde, seu babaca? Eu passo 90% do meu tempo enfiada em calabouços! Você acha que eu gosto dessa vida?<br />
<b>MARIO:</b> Se ficasse comigo, eu te protegeria.<br />
<b>PRINCESA:</b> Prefiro o Koopa. Ele pelo menos não tenta me forçar a dar pra ele quando me sequestra!<br />
<b>MARIO:</b> Não?<br />
<b>PRINCESA:</b> Não&#8230; ainda bem, já viu o tamanho daquele bicho? Acho que eu morreria.<br />
<b>MARIO:</b> Mas o que ele faz com você?<br />
<b>PRINCESA:</b> Você nem consegue imaginar o que um homem faria comigo que não tentar me comer, né?<br />
<b>MARIO:</b> Do jeito que você é chata, não mesmo. Nem sei porque eu vim te salvar&#8230;<br />
<b>PRINCESA:</b> Vai embora então! Volta pro seu mundo! Eu acho meu caminho pra casa&#8230;<br />
<b>MARIO:</b> Ah, agora que eu já fiz tudo? Eu me fodo todo, fico na mão&#8230; e você volta pro seu castelo?<br />
<b>PRINCESA:</b> Vai fazer o quê? Me prender aqui?<br />
<b>MARIO:</b> Deveria! Deveria mesmo! Até você aprender pra que princesa serve e me recompensar de verdade pelo o que eu fiz.<br />
<b>PRINCESA:</b> Agora é questão de honra! Eu morro antes de dar pra você.<br />
<b>MARIO:</b> Você que sabe.<br />
<b>PRINCESA:</b> Sai da minha frente!<br />
<b>MARIO:</b> Não!<br />
<b>PRINCESA:</b> Me solta!<br />
<b>MARIO:</b> Tá, espera&#8230; eu fiquei nervoso, acontece. Não quero brigar com você. É verdade o que você disse sobre eu ter uma chance se levar isso numa boa?<br />
<b>PRINCESA:</b> Se você fosse menos babaca&#8230; mas agora é tarde demais. O que você fez não tem perdão.<br />
<b>MARIO:</b> Hmmm&#8230;</p>
<p>Enquanto Mario parece estar distraído em pensamentos, a Princesa olha para cima, aterrorizada.</p>
<p><b>PRINCESA:</b> CUIDADO!<br />
<b>MARIO:</b> Hã?</p>
<p>Koopa, recém saído do fosso de lava, acerta uma bola de fogo pelas costas de Mario, que morre instantaneamente.</p>
<p><b>PRINCESA:</b> Nããão!</p>
<p>Koopa sorri confiante. Fecha as portas do calabouço e volta para o salão anterior, onde começa a reconstruir a ponte. Tudo fica preto.</p>
<p>&#8212;</p>
<p><em>X 1</em></p>
<p>A Princesa Peach escuta os sons de uma violenta batalha acontecendo do lado de fora de sua prisão, da qual não via o exterior há semanas. Os gritos de desespero de seu captor &#8211; um violento monstro chamado Koopa &#8211; enchem-na de esperança. Minutos depois, abrem-se as portas de seu calabouço, e um nanico encanador bigodudo adentra confiante.</p>
<p><b>PRINCESA:</b> Obrigada, Mario! Sua missão terminou!<br />
<b>MARIO:</b> Venha, vou te tirar daqui com segurança. E antes de qualquer coisa, Princesa, saiba que seu bem estar é minha maior recompensa!</p>
<p><em>FIM</em></p>
<h3>Para dizer que eu já comecei mal, para dizer que sua infância não pode ser estragada mais do que já foi, ou mesmo para dizer que toda boa história é sobre alguém tentando comer alguém: <a href="mailto:somir@desfavor.com">somir@desfavor.com</a></h3>
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		<title>A cigarra e a formiga – Reloaded</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Sally]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 24 Nov 2015 08:00:30 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Não é o Fim?]]></category>
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					<description><![CDATA[Centenas de formigas com cara amistosa e grandes olhos carregavam comida nas costas, enfileiradas, em direção ao formigueiro. Comida esta que seria estocada para assegurar alimentos quando o inverno chegasse. Durante o trabalho, conversavam entre si. FORMIGA 1: Que barulho horrível é esse? FORMIGA 2: É a Cigarra cantando FORMIGA 1: Aff&#8230; que som horrível! [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Centenas de formigas com cara amistosa e grandes olhos carregavam comida nas costas, enfileiradas, em direção ao formigueiro. Comida esta que seria estocada para assegurar alimentos quando o inverno chegasse. Durante o trabalho, conversavam entre si.</p>
<p><b>FORMIGA 1:</b> Que barulho horrível é esse?<br />
<b>FORMIGA 2:</b> É a Cigarra cantando<br />
<b>FORMIGA 1:</b> Aff&#8230; que som horrível!<span id="more-9143"></span><br />
<b>FORMIGA 2:</b> Sim, terrível. O que ela está fazendo cantando a essa hora?<br />
<b>FORMIGA 1:</b> Sempre foi assim, desde pequena. Não quer saber de trabalho duro, só de farra<br />
<b>FORMIGA 2:</b> Minha mãe sempre me alertou que ela não era bom exemplo<br />
<b>FORMIGA-CHEFE:</b> Deixem ela, quando o inverno chegar, ela ficará sem comida por não ter se esforçado durante o verão e virá implorar por ajuda!</p>
<p>Mais um dia de trabalho pesado. Novamente as formigas conversam.</p>
<p><b>FORMIGA 1:</b> Olha lá a Cigarra, deitada, tomando sol<br />
<b>FORMIGA 2:</b> Em vez de trabalhar, leva essa vida acomodada. O que ela acha? Que vai cair comida do céu?<br />
<b>FORMIGA 1:</b> Nós já tentamos alertar, ela não deu ouvidos&#8230;<br />
<b>FORMIGA 2:</b> Eu sei, é que sinto pena, pela amizade da infância, queria ajudar.<br />
<b>FORMIGA-CHEFE:</b> Parem de se preocupar com a vida alheia, a hora da Cigarra vai chegar. Não adianta falar, quando ela ficar sem comida no inverno ela aprenderá uma lição na prática! Foquem no trabalho de vocês, que serão recompensados.</p>
<p>As formigas seguiram o conselho e pararam de se preocupar com a Cigarra. Em vez disso, canalizaram todas as suas forças, toda sua energia para um trabalho duro, o que lhes rendeu uma produtividade triplicada. Nunca o formigueiro havia estocado tanta comida, todos estavam muito orgulhosos e com a certeza de um inverno farto.</p>
<p>Porém, às vésperas do inverno, uma surpresa se abate no formigueiro.</p>
<p><b>FORMIGA 1:</b> *palavrão<br />
<b>FORMIGA 2:</b> O que foi? O que aconteceu? Prendeu a antena na pata novamente?<br />
<b>FORMIGA 1:</b> Você ainda não soube?<br />
<b>FORMIGA 2:</b> Não&#8230;<br />
<b>FORMIGA 1:</b> A Formiga Líder, aquela com uma pata a menos, aumentou nossa contribuição obrigatória de comida!<br />
<b>FORMIGA 2:</b> Como assim?<br />
<b>FORMIGA 1:</b> Ele diz que é para ajudar quem não tem comida no inverno!<br />
<b>FORMIGA 2:</b> Mas&#8230; não tem comida no inverno que não trabalhou para ter comida no inverno! Nós que trabalhamos duro todo o verão temos que alimentar quem não fez nada?<br />
<b>FORMIGA 1:</b> Aparentemente sim<br />
<b>FORMIGA 2:</b> *palavrão<br />
<b>FORMIGA 1:</b> E ainda usarão nossa comida para financiar uma série de iniciativas improdutivas!<br />
<b>FORMIGA 2:</b> Como por exemplo?<br />
<b>FORMIGA 1:</b> Jogos de arremesso de grãos de areia<br />
<b>FORMIGA 2:</b> JOGOS?<br />
<b>FORMIGA 1:</b> Sim, jogos<br />
<b>FORMIGA 2:</b> Temos que ficar com menos comida para que se realizem jogos?<br />
<b>FORMIGA 1:</b> Assim foi mandado<br />
<b>FORMIGA 2:</b> Não me conformo, precisamos fazer alguma coisa!</p>
<p>Injuriadas, as formigas se reuniram em um grupo de mais de mil e forma conversar com a Formiga-Chefe.</p>
<p><b>FORMIGA 1:</b> Trabalhamos duro o verão todo esperando a recompensa de fartura no inverno e agora vão pegar quase metade da nossa comida?<br />
<b>FORMIGA-CHEFE:</b> São decisões superiores. Ordens da Formiga Líder, infelizmente não posso fazer nada. Minha cota de grãos também foi confiscada.<br />
<b>FORMIGA 2:</b> E se não pagarmos? Não concordamos com o destino dado a estes grãos!<br />
<b>FORMIGA-CHEFE:</b> Infelizmente, aqueles que não pagarem, serão expulsos do formigueiro. Não tomem nenhuma atitude impensada, em poucos dias começa o inverno e vocês não vão sobreviver no mundo lá fora.</p>
<p>Revoltadas, as formigas foram obrigadas, elas mesmas, a levarem metade de seus alimentos até a Formiga Líder. Na porta do formigueiro da Formiga Líder Barbada, um enorme cartaz lhes chama atenção. Era o anúncio de um show, pago com aquela comida que eles lutaram para conquistar: “Estrelando, A Cigarra”.</p>
<p>Atônitas, as formiguinhas olhavam fixamente para o cartaz sem saber o que pensar.</p>
<p><b>FORMIGA 1:</b> Não pode ser&#8230;<br />
<b>FORMIGA 2:</b> Estão usando nossa comida, conquistada com muito suor e sacrifício, para contratar a Cigarra para cantar?<br />
<b>FORMIGA 1:</b> Ela canta mal! Ela canta horrível!<br />
<b>FORMIGA 2:</b> Está tudo errado, essa comida era para assegurar um inverno tranquilo para quem se esforçou!</p>
<p>As formigas são subitamente encharcadas de lama. Quando conseguem limpar seus olhos, percebem que quem as sujou foi a Cigarra, montada em um Louva-Deus do ano, automático e conversível. Ela desce do Louva-Deus trajando um longo e brilhante vestido vermelho. Maquiada e cheia de jóias, ela os aborda:</p>
<p><b>CIGARRA:</b> Desculpa&#8230; eu molhei vocês?<br />
<b>FORMIGA 1:</b> Cigarra?<br />
<b>FORMIGA 2:</b> Você está diferente&#8230;<br />
<b>CIGARRA:</b> Obrigada! Minha carreira de cantora decolou, graças aos shows que a Formiga Líder me contratou para fazer. São tantas propostas&#8230;<br />
<b>FORMIGA 1:</b> Você está rica&#8230;<br />
<b>FORMIGA 2:</b> Muito rica&#8230;<br />
<b>CIGARRA:</b> Ahhh, que bom que vocês trouxeram sua cota de comida! Vou precisar disso para minha turnê internacional, financiada pelo nosso Líder, com objetivo de propagar nossa cultura pelo mundo!<br />
<b>FORMIGA 1:</b> Eu não acredito nisso&#8230;<br />
<b>FORMIGA 2:</b> *esfregando os olhos com as patinhas por não acreditar no que estava vendo<br />
<b>CIGARRA:</b> Cantar é ótimo, vocês deveriam tentar!<br />
<b>FORMIGA 1:</b> Eu não sei cantar<br />
<b>CIGARRA:</b> Então dance!<br />
<b>FORMIGA 2:</b> Você vai usar nossa comida para viajar? É isso?<br />
<b>CIGARRA:</b> Siiiim! Semana que vem eu canto na França, vocês acreditam?<br />
<b>FORMIGA 1:</b> Não<br />
<b>FORMIGA 2:</b> *desmaiando<br />
<b>CIGARRA:</b> Se quiser alguma coisa da França, é só me pedir!<br />
<b>FORMIGA 1:</b> Quero sim&#8230;<br />
<b>CIGARRA:</b> Diga<br />
<b>FORMIGA 1:</b> Se você encontrar um tal de Jean La Fontaine, diz que eu mandei ele à puta que pariu!</p>
<h3>Para dizer que foi fofo, para ter pena das formigas suíças ou ainda para começar a investir em carreira de cantor: <a href="mailto:sally@desavor.com">sally@desavor.com</a></h3>
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