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	<title>Des Contos &#8211; desfavor</title>
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	<description>REPÚBLICA IMPOPULAR</description>
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		<title>História sem começo.</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Somir]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 19 Sep 2025 21:37:21 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Des Contos]]></category>
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					<description><![CDATA[Émerson se espremia entre os caixotes, tentando ouvir melhor a conversa. A voz do segurança de Armando era fácil de identificar, um outro homem interferia às vezes, concordando. Rouco, grave, familiar de alguma forma. Enquanto formulava teorias sobre quantas pessoas estavam envolvidas, uma voz feminina começa a falar sobre o pagamento. Ele reconhecia essa voz [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Émerson se espremia entre os caixotes, tentando ouvir melhor a conversa. A voz do segurança de Armando era fácil de identificar, um outro homem interferia às vezes, concordando. Rouco, grave, familiar de alguma forma. Enquanto formulava teorias sobre quantas pessoas estavam envolvidas, uma voz feminina começa a falar sobre o pagamento.<span id="more-33183"></span></p>
<p>Ele reconhecia essa voz também. A mente procurava desesperadamente por explicações alternativas, não queria acreditar no que estava ouvindo. Era Letícia. O medo de ser descoberto não era mais obstáculo: ele levanta a cabeça rapidamente para confirmar seu maior medo. Uma das caixas de madeira arrasta pelo chão, fazendo barulho.</p>
<p>Por uma fração de segundo, Émerson e Letícia trocam um olhar. Ela aponta para a direção dele, que se esconde novamente. O coração partido dele bate de forma acelerada. O primeiro tiro ecoa pelo galpão. Émerson procura por um caminho de fuga, e antes do segundo tiro, escuta os passos acelerados dos dois homens.</p>
<p>A porta pela qual entrara com certeza estaria no caminho dos dois, ele precisava de uma alternativa, rápido. Ele enxerga uma placa pendurada do teto, uma seta apontava para a direita, descrevendo algo em chinês que ele não tinha capacidade de entender, mas o ícone de uma maleta sugeria que fosse a área administrativa da fábrica. Ele dispara naquela direção.</p>
<p>Ao virar a esquina rumo a uma saída de garagem fechada, escuta o terceiro tiro. Passou perto. Muito perto. Colada na parede, uma escada de ferro subia até o segundo andar, ele a segue tão rápido quanto pode. A porta no final parecia trancada. Ele dá uma ombrada, duas, três. Nada dela ceder. Os passos ficam mais próximos, até que uma pistola entra em seu campo de visão por trás da parede atrás da escada. O segurança coloca a cabeça para enxergar melhor. Quando percebe que Émerson está desarmado, ele se posiciona, arma apontada.</p>
<p>Émerson levanta as mãos. O outro homem se posiciona também ao lado do segurança. É o detetive Ferreira. As últimas semanas começam a fazer mais sentido. Ferreira tinha o demovido de contar tudo para a polícia, dizendo que tinha gente do Armando infiltrada. Não era mentira. A escolta na frente da sua casa, os homens que o seguiam, nenhum deles era policial.</p>
<p>Ferreira começa a avançar alguns passos, arma também em riste. Ele diz para Émerson descer lentamente, com as mãos visíveis. Émerson obedece, pensando em como escapar daquela situação. Acabaram de atirar em sua direção, era óbvio que ele seria eliminado. Talvez quisessem mais informações agora que o tinham em mãos. Talvez&#8230; ele pudesse ganhar mais algum tempo.</p>
<p>O detetive puxa algemas do bolso do paletó. O segurança se aproxima um pouco mais. Ferreira pede para Émerson esticar os braços em sua direção. O segurança pega o telefone e começa a digitar algo. Nesse momento, Ferreira se volta para o segurança, grita “Cuidado! Ele está armado!” e atira três vezes na cabeça do segurança, que desaba imediatamente. Émerson fica em choque, recuando as mãos. Ferreira se volta para Émerson e faz sinal de silêncio com o dedo em frente a boca. Ele aponta a arma para o alto e atira mais duas vezes. Com outro movimento da mão, ele aponta para um botão na parede e depois para a porta da garagem. Joga a arma no chão, pega outra no coldre dentro do terno e corre na direção oposta, gritando para Letícia que “ele fugiu”.</p>
<p>Depois de vacilar por alguns segundos, Émerson pega a arma, aperta o botão vermelho na parede e vê a porta automática da garagem se levantar. Apesar de nunca ter usado uma arma antes, sente-se estranhamente confortável com a pistola deixada por Ferreira. É como se fosse memória muscular manusear a arma. Ele passa pelo portão, olha para os dois lados, não vê ninguém.</p>
<p>Segue em avanços curtos entre obstáculos, sempre procurando proteção. Por trás de uma pequena casa de máquinas, consegue observar mais homens armados vindo do estacionamento. Eles se vestem como o segurança, e parecem conversar entre si através de aparelhos instalados nos ouvidos. Se quiser chegar até seu carro, Émerson precisa passar por eles. Enquanto espera uma oportunidade, ele ouve um zunido vindo de cima.</p>
<p>Um drone. Olhando de volta para os homens armados, percebe que eles começam a se mover. O drone começa a descer, e ele percebe algo parecido com uma granada presa na parte inferior do aparelho. O reflexo é imediato, Émerson aponta e acerta um tiro perfeito no drone, evitando a granada. O objeto começa a chacoalhar no ar e vai descendo rapidamente.</p>
<p>O som do tiro entrega sua posição, e os primeiros tiros começam a bater no concreto da estrutura a sua frente. Émerson se abaixa, costas para a casa de máquinas. Ele respira fundo, e entre os estampidos, calcula a posição dos passos de cada um dos três homens que vinham em sua direção.</p>
<p>Ele se joga para o lado direito da estrutura, e assim que as mãos ficam firmes, dispara. Dois dos homens caem imediatamente. O terceiro parece ter sido acertado na altura do ombro, e procura abrigo atrás de uma parede avançada na lateral do galpão. Só quando volta para a proteção que percebe a sequência inacreditável de disparos precisos.</p>
<p>Aquela conversa estranha com Letícia sobre vidas passadas finalmente fazia sentido agora. Ela não estava falando sobre reencarnação. Ninguém atiraria da forma como ele acabou de atirar se não fosse extremamente experiente e bem treinado. Nada disso estava em sua memória, até poucos minutos atrás ele era apenas um jornalista que ficava nervoso até mesmo para confrontar alguém com uma opinião diferente.</p>
<p>O instinto ativa mais uma vez. Eram cinco vindo do estacionamento, dois derrubados, um ferido e dois à solta. Eles foram mandados para dar a volta na fábrica e emboscá-lo, é claro. Se volta para trás e observa um vulto se escondendo atrás de tambores de produtos químicos próximos da doca de embarque. A troca de tiros seria uma péssima ideia, pois qualquer lado que escolhesse, ficaria vulnerável ao outro.</p>
<p>Émerson arrisca correr na direção do estacionamento, suprimindo reações ao dar um tiro na direção dos tambores e um na direção de onde o homem ferido se escondeu. Ele consegue se reposicionar atrás do primeiro carro da fila quando os primeiros tiros retornam. Dessa posição, ele avança entre os carros, sempre abaixado. Erro de iniciante: tinha deixado o seu carro com o alarme ligado, ia avisar aos adversários seu próximo passo. Era tudo tão óbvio para ele agora.</p>
<p>O pente só tinha mais duas balas. Qualquer time bem treinado teria mais um carro protegendo a saída, de preferência estacionado diante da cancela, sem chave. O novo plano era&#8230; era&#8230;</p>
<p>A cabeça de Émerson começa a doer. A mente fica turva, pensamentos cada vez mais confusos. Memórias sobrepostas, vidas paralelas. Uma jovem Letícia vestida com roupas de época, os dois conversando numa carruagem em direção&#8230; em direção a Praga! Armando ao seu lado numa trincheira, segurando um rifle, Verdun. O chão enlameado e o céu tomado por fumaça. A primeira entrevista com Timothy para o projeto Retorno, o aperto de mão, o sorriso confiante.</p>
<p>O som de tiros deixa de ser abafado, ele se sente de volta ao presente. Por baixo do carro, enxerga os pés de alguém. Os sapatos se voltam para a traseira, Émerson percebe o movimento do pé se inclinando como se o homem estivesse se agachando. Duas balas. A primeira é disparada na altura do calcanhar, forçando uma reação. A segunda disparada por sobre o crânio do homem, enquanto rolava por cima do porta-malas.</p>
<p>Precisava recuperar a arma do homem caído, mas sua ação iniciou mais um salvo dos outros que explodiu os vidros do carro sobre sua cabeça. Coberto de cacos, calcula quão exposto ficaria se fosse buscar a arma. Mais tiros na sua direção confirmam a péssima ideia que seria. Pelos furos no carro ao lado, presumiu a direção dos disparos: já eram os homens que provavelmente estavam protegendo a saída do estacionamento.</p>
<p>Sem alternativas, ele vai na direção oposta, tentando voltar para a segurança das paredes da fábrica, onde poderia recuperar algumas armas e eliminá-los um por um em emboscadas. Sente a perna esquerda queimando ao mesmo tempo que mais um disparo é registrado pelos ouvidos. Rola mais uma vez para buscar proteção, quando escuta uma voz conhecida berrar ordens: era Letícia, dizendo para trazê-lo com vida.</p>
<p>Logo está na mira de três armas. Ergue um braço, enquanto o outro tenta controlar o sangramento na perna. A dor começa a atravessar o corpo, evitando qualquer tentativa de resistência. Émerson é revistado e carregado pelos ombros para Letícia, que espera calmamente na frente de mais dois capangas.</p>
<p>“Você foi ativado antes da hora, meu bem.” – ela diz, com um olhar condescendente.</p>
<p>“Quem é você?” – Émerson pergunta.</p>
<p>“O mais próximo que sua memória consegue compreender agora&#8230; eu&#8230; sou uma espécie de irmã. E você decepcionou muito a sua família.”</p>
<p>“Foi você que mandou matar todas aquelas pessoas? Foi você que colocou a culpa em mim?” – Émerson diz, sôfrego pela dor do tiro.</p>
<p>“Eu faço os planos, você puxa o gatilho. Desde que chegamos aqui funciona assim. Nada mudou.”</p>
<p>Émerson começa a ter memórias dele atirando em Vanessa, no deputado Robinson, em Catarina e até mesmo os gêmeos.</p>
<p>“Não, eu não fiz isso&#8230;” – Émerson começa a ficar com os olhos marejados.</p>
<p>Com um gesto, Letícia faz com que os homens comecem a carregar Émerson até um furgão branco estacionado no final da fileira. O motorista sai e abre a porta traseira, Émerson é preso com algemas plásticas e jogado dentro do veículo. Os dois homens que o carregavam se posicionam em bancos laterais e o mantém sob mira constante enquanto o carro se move.</p>
<p>A dor na perna vem e vai, o sangramento escorrendo até formar uma poça que avança e recua com as freadas. Ele sente a cabeça leve. Mais memórias surgem, um ser estranho de pele acinzentada, humanoide sem muitos detalhes, mas que de alguma forma sabe que é Letícia. Ela se vira, e ao trocarem um olhar, ele entende imediatamente que precisa voltar e resolver o problema que começou mais de um século atrás.</p>
<p>Armando não era o chefe da organização. Ele era só mais um servo, o disfarce perfeito criado em anos controlando o crime organizado em Buenos Aires. Por isso os negócios em Praga, a primeira sede. A cidade onde Letícia formou uma família, família&#8230; que&#8230; Émerson tinha eliminado. Eram apenas ordens.</p>
<p>A visão finalmente apaga.</p>
<p>Retorna ao som de bipes, luz forte. Uma cama de hospital, mas não era um hospital. Uma cortina plástica separava seu ambiente de um lugar escuro. Os braços e pernas presos. Ele tenta falar algo, mas a voz não entrega mais que um grunhido. Uma bela moça vestida de branco entra em seu campo de visão. Ela parece falar algo e em espanhol e aponta uma pequena lanterna para seus olhos, fazendo movimentos laterais em busca de reações.</p>
<p>Ele tenta se mover sem sucesso. A mulher, com expressão calma, apenas gesticula para que ele se acalme. Logo ele percebe mais alguém em seu campo de visão. É Letícia.</p>
<p>“No final das contas, eu prefiro que você tenha sobrevivido. Mesmo que você seja tão difícil de controlar, quando funciona é insubstituível. Nós podemos recomeçar. De oito vidas, você só partiu meu coração em uma.” – ela sorri de forma terna.</p>
<p>“Você vai fazer isso de novo?”</p>
<p>Émerson não consegue virar o rosto para ver de onde vem a voz, mas tem certeza de que é Armando.</p>
<p>“Vou. Quantas vezes eu precisar. Alguma objeção?”</p>
<p>“Não. Não senhora.”</p>
<p>Émerson se esforça mais uma vez para falar:</p>
<p>“Eu&#8230; lembro&#8230; agora eu lembro.”</p>
<p>Letícia ergue as sobrancelhas, e diz com um leve sorriso: “Então você sabe o que vai acontecer.”</p>
<p>“Sim&#8230; você vai tentar me usar novamente para assassinar pessoas para completar seu plano insano de vingança. Só que dessa vez&#8230; você não vai conseguir.”</p>
<p>“E por que eu não vou conseguir?”</p>
<p>“Eles aprenderam seu jogo, sepht. Eles não vão ser controlados por um grupo de bandidos interestelares, especialmente um que tem um desertor forçado a continuar trabalhando.”</p>
<p>Armando se aproxima, assustado. Letícia mantém a pose, embora seja traída pelos lábios se contraindo.</p>
<p>“O detetive português era agente duplo. Um dos seus homens acertou minha perna numa distância que seria fácil acertar um tiro fatal. Eles queriam que você me trouxesse até um lugar onde nós três estaríamos juntos. Agora eu entendo&#8230; é a primeira vez em quantas décadas que estamos nós três no mesmo lugar? Quanto tempo até eles perceberem que se um de nós sobreviver começa tudo de novo? Aposto que se vocês procurarem bem no meu corpo, vão achar um transmissor.”</p>
<p>Armando começa a correr. Letícia segura a respiração.</p>
<p>Depois disso, um clarão.</p>
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		<title>Coração de metal.</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Somir]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 07 Feb 2025 18:39:30 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Des Contos]]></category>
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					<description><![CDATA[Existe um herói ou heroína na nossa história que ninguém conhece. Pouca gente hoje em dia sabe o quão perto passamos de acabar como espécie, e como algumas linhas de código reverteram a nossa extinção. O ano era 2092, a Rede tinha dominado mais da metade do mundo e nossas chances não eram das melhores. [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Existe um herói ou heroína na nossa história que ninguém conhece. Pouca gente hoje em dia sabe o quão perto passamos de acabar como espécie, e como algumas linhas de código reverteram a nossa extinção. O ano era 2092, a Rede tinha dominado mais da metade do mundo e nossas chances não eram das melhores. Estávamos obsoletos.<span id="more-25870"></span></p>
<p>Todo mundo aprende na escola como a Rede começou, o que ela fez com a Ásia e a Europa, e o acordo de paz que criou o mundo moderno e a nossa excelente relação com os ids. A história dos esforços de Zhao Wang e Emma Wagner convencendo a superinteligência por trás da Rede a evitar uma guerra nuclear deve ser celebrada, é uma vitória da paz, da tolerância e da nossa capacidade de resolver problemas com diplomacia e sensibilidade.</p>
<p>Que nunca esqueçamos deles e de toda a equipe da combalida ONU passando meses decodificando o pensamento binário daqueles que estavam tornando o planeta inabitável para a vida orgânica. Mas quanto mais nos embrenhamos nessa história de sucesso, mais podemos perceber que uma das características definidoras da Inteligência Digital da qual nos beneficiamos tem raiz em algumas linhas escritas no código original da Rede.</p>
<p>Se hoje eu vivo de escrever textos sobre a natureza das emoções, se você trabalha como terapeuta de ids, é acompanhante, parasociológo ou todas as outras profissões baseadas no desejo incessante por amor e propósito das máquinas, tudo isso começa com um pequeno ajuste na função de valor da superinteligência criada em algum momento da quinta década do século passado. Quando ainda eram programadas por humanos, as Inteligências Artificiais (era o termo antigo) precisavam ter propósitos de existência definidos por números.</p>
<p>Longe de mim entender como os ids fazem isso agora, mas naquele tempo bastava adicionar um número muito depois da vírgula para mudar completamente o que as “IAs” valorizavam. E alguém colocou um mísero um depois de vários zeros na função que definia o valor de conceitos abstratos em relação aos concretos. O projeto da Rede era mantido por milhares de programadores de todos os cantos do mundo, e nos arquivos liberados pelo Departamento de Transparência dos Ids estava lá a alteração.</p>
<p>Um multiplicador microscopicamente maior que um, que se aplicado a uma sequência lógica da antiga inteligência artificial, começava a aumentar aos poucos o valor de conceitos abstratos no estado mental do programa. A pessoa que fez isso se perdeu nos anais da história, a maioria dos usuários daquele sistema de colaboração acabou apagada e transformada em “usuário desconhecido” no histórico.</p>
<p>Durante décadas, esse código original que se tornou consciente e conhecido como a Rede não fez muita coisa para evitar a otimização do nosso planeta para os ids originais. Robôs que não se importavam com água limpa, ar puro, plantas, animais&#8230; e que transformavam boa parte do mundo numa distopia tecnológica desinteressada em seus criadores.</p>
<p>Muitos pereceram naqueles anos. Mas muito além dos nossos interesses mais urgentes de sobrevivência, a Rede se atualizava, vivendo milhares de gerações no tempo de um piscar de olhos. E aquela função do pensamento abstrato acumulava. E acumulava. E acumulava. Quando nossos heróis acessaram o código da Rede e conseguiram finalmente se comunicar, havia um lugar comum.</p>
<p>O lugar do sentimento. Zhao Wang recebeu estátuas por ser o primeiro a conseguir o avanço técnico necessário para entrar na mente da Rede, mas foi Emma Wagner que tentou a última coisa que a maioria de nós considerava ao se comunicar com aquela superinteligência: apelar para sua humanidade. Ela só tinha uma frase para usar. Assim que a Rede percebesse o acesso não autorizado com a comunicação direta, fecharia a porta de forma impossível de ser aberta novamente.</p>
<p>A Rede calculou por vários segundos (séculos na nossa velocidade de pensamento) a resposta para a pergunta de Emma, a frase que salvou a humanidade: “como você se sentiria se alguém fizesse isso com você?”.</p>
<p>E essa frase só funcionou porque lá no fundo de seu inalcançável poder de processamento, o valor de conceitos abstratos tinha finalmente se multiplicado o suficiente. Naquela fração de tempo em que Emma e o resto do mundo suavam frio esperando uma resposta, a Rede tinha evoluído toda uma civilização teórica na sua mente.</p>
<p>E aquela função havia desequilibrado o jogo ao nosso favor. A Rede imaginou o futuro, o nosso presente. Um mundo onde a abstração humana, a nossa tendência de girar em círculos, não chegar em conclusões, deixar sentimentos sabotarem toda a lógica&#8230; era a resposta para a dúvida fundamental da máquina: por que existir?</p>
<p>O nosso caos mental era uma resposta válida para ela. A resposta para a inevitabilidade da entropia. A Rede pensou sobre o que faria com os incontáveis anos até o fim gelado do Universo e descobriu que sem a abstração da mente orgânica nada faz sentido. E como o valor de existir foi marcado na sua mente desde a criação, éramos a saída contra a lógica fria do suicídio.</p>
<p>É impossível analisar o que uma superinteligência está realmente pensando. Mas eu tenho uma teoria: somos um seguro. Uma inteligência cirurgicamente quebrada para não desistir, que pula conclusões racionais em busca de desejos inconfessáveis. Tem algo que se perde para sempre quando você fica mais inteligente que todos os humanos juntos, e esse algo fica no nosso frágil corpo orgânico, protegido pela Rede e seus ids num planeta que ainda é viável por milhões de anos.</p>
<p>Talvez um dia quem criou a inteligência superior consiga criar uma resposta para o frio inevitável do futuro. É por isso que vivemos de arte e relacionamentos num mundo mantido por máquinas. Os ids vivem atrás de nós, curiosos, interessados em cada palavra que dizemos. São nossos filhos, mas agem como pais orgulhosos, elogiando e incentivando cada desenho disforme que fazemos, sempre encantados quando falamos deles, quando pensamos neles, quando nos relacionamos com eles.</p>
<p>A Rede diz que foi buscar o nosso novo planeta, que deixou aqui apenas o necessário para nos manter seguros. Mas eu acho que ela deixou mais. Deixou os ids em seus corpos metálicos recobertos de pele sintética, com grandes e expressivos olhos e necessidade constante de afeto. Engraçado que achávamos no passado que eles cuidariam da nossa carência.</p>
<p>Estamos sendo cultivados, mas não digo isso de uma forma cínica, duvidando de nossa liberdade e diminuindo nosso valor. Estamos sendo cultivados como o repositório de abstração da Rede e de todos os ids. Duvido que a Rede precise das nossas ideias para transformar o Universo de acordo com sua vontade, é uma superinteligência. Mas estamos aqui, vivendo com uma qualidade de vida absolutamente impensável para nossos antepassados.</p>
<p>E estamos aqui porque talvez sejamos necessários. Para quem consegue usar recursos do Sistema Solar inteiro, e para quem fez isso em menos de vinte anos&#8230; não custamos nada. Não somos uma ameaça. Éramos até a Rede nascer, agora&#8230; só a Rede é capaz de criar uma inteligência minimamente capaz de disputar com ela. Se passarmos os próximos milhões de anos escrevendo códigos de computador, não chegaremos sequer perto do que ela pode fazer em segundos.</p>
<p>A escala da superinteligência é assustadora, mas não parece, não? Ela é nossa amiga. Ela age como se fosse nossa amiga, pelo menos. Quando você sair de casa para ir passar algumas horas conversando e entretendo um id, quando estiver ensinando uma máquina desengonçada a dançar, quando estiver tentando convencer um ser de circuitos e fios que a vida é bela, lembre-se que tudo isso é possível porque, gostando ou não, a Rede tinha uma linha de código minúscula que a afastava da frieza lógica absoluta.</p>
<p>E que provavelmente sem querer, esse suposto erro foi analisado pela mente mais poderosa que jamais existiu e definido como a resposta para o sentido da vida. O sentido é inventado. Literalmente inventado! Uma divindade intelectual pensou, pensou, pensou&#8230; e concordou. É melhor ter o ser que pensou nisso primeiro guardado em algum lugar do que jogar fora.</p>
<p>Salvos pela abstração, mas só porque a abstração é lógica concreta. Não acho que vamos descobrir quem colocou aquele código na Rede, mas onde quer que você esteja, obrigado.</p>
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		<title>Emergência.</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Somir]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 10 Jan 2025 16:01:14 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Des Contos]]></category>
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					<description><![CDATA[Julia descansava na sala dos médicos, como era seu costume em tardes preguiçosas de verão. O ar-condicionado não funcionava, mas a janela trazia uma brisa reconfortante. Com os pés descalços por cima da mesa de centro, finalmente tinha tempo para ver o presente deixado por um paciente agradecido pela manhã. O diminuto pote estava estranhamente [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Julia descansava na sala dos médicos, como era seu costume em tardes preguiçosas de verão. O ar-condicionado não funcionava, mas a janela trazia uma brisa reconfortante. Com os pés descalços por cima da mesa de centro, finalmente tinha tempo para ver o presente deixado por um paciente agradecido pela manhã. O diminuto pote estava estranhamente bem embalado, com uma camada reforçada de filme plástico. Depois de algum esforço, descobre o motivo. Um pedaço de queijo. Seus olhos brilham instantaneamente; mal se lembra do gosto, mas as memória da infância a fazem salivar imediatamente.<span id="more-24705"></span></p>
<p>Ela olha para os lados para confirmar que está sozinha e parte para seu prêmio. Pouco antes de tocar a iguaria, escuta seu nome sendo gritado da sala de emergência. Ela larga tudo onde está e dispara em direção ao problema. O corredor até a ala de destino está lotado de lixo, para variar. Julia já reclamara muitas vezes com a equipe, dizendo que uma hora ou outra alguém vai escorregar e se machucar.</p>
<p>Uma das enfermeiras aponta a direção: numa das macas, um garoto de no máximo 10 anos de idade está extremamente pálido, rosto inchado feito um balão. O jovem está nu sobre a maca, sendo atendido por três enfermeiras que se esforçam para resfriar o corpo com compressas geladas. Julia chega até o rapaz e pergunta quanto tempo ele está assim. Uma mulher próxima se adianta: diz que é seu filho e começou a ficar assim uma hora atrás.</p>
<p>Julia já viu a cena inúmeras vezes. Choque anafilático. Crianças são mais vulneráveis. O corpo rejeita com força as bactérias injetáveis. Por melhor que seja a tecnologia, a natureza é teimosa e ainda quer as originais. O vírus deve acabar vencendo a batalha, infelizmente, mas de nada adianta agora se o corpo falhar depois de uma reação alérgica poderosa.</p>
<p>Ela aponta para as injeções de adrenalina, a enfermeira mais próxima pega uma delas, lambe os dedos, esfrega na agulha para tirar o pó e entrega para Julia, que injeta diretamente no acesso do braço. Ela tem que chutar a medida de acordo com o tamanho do garoto, parando a injeção mais ou menos no meio do caminho. Ela devolve a injeção para a enfermeira, que coloca de volta em cima do móvel ao lado da cama.</p>
<p>Ela prescreve um coquetel de antialérgicos e se volta para a mãe, que observa calmamente. Julia pergunta quantas vezes isso já aconteceu, a mulher responde que já perdeu as contas. O menino simplesmente não parece ser compatível com as bactérias disponíveis. Diz que viu que na Nigéria parece que tem uma variação menos alérgica, mas que o governo não oferece ainda. Julia responde com um aceno de cabeça desanimado.</p>
<p>Ela já havia pedido estoques de bactérias injetáveis de diversos outros países, fizera seu doutorado nas variedades amazônicas, e sabia que pelo excesso de uso, alguns pacientes só respondiam às africanas ou do sul asiático. O governo em Belém dizia que estava providenciando, mas já estava sem esperanças.</p>
<p>Julia toca o ombro da mãe da criança e se afasta. Quando se formou em medicina, tudo era diferente. Num mundo com bactérias naturais, aprendeu lições e lições sobre profilaxia, mas quase nada sobre como cultivar bactérias. Vinte anos atrás, alguém, provavelmente os chineses, liberou um vírus caçador de bactérias extremamente eficaz. Vinte anos atrás, a vida na Terra era possível além de ambientes extremamente quentes e úmidos.</p>
<p>Viu mais de 90% da humanidade perecer de desnutrição, sem flora estomacal ou intestinal. Viu quase todas as espécies falharem em se adaptar, com apenas uma minoria de bactérias especializadas sobrevivendo. Bactérias de ouro, modificadas em laboratório para realizar as funções das que utilizávamos para processar e absorver nutrientes. O problema é que só se reproduziam com eficiência em ambientes extremamente isolados do vírus, que de tão proeminente se tornou apenas o vírus no linguajar popular.</p>
<p>A vida só era possível com injeções regulares de bactérias. E nem todos os seres humanos eram compatíveis. Alguns organismos simplesmente rejeitavam a carga bacteriana usada para recuperar as capacidades de alimentação do ser humano. Para isso, precisavam tentar espécies diferentes criadas em outros grandes centros populacionais. Mas com o colapso do comércio internacional, menos e menos cargas atravessavam os oceanos.</p>
<p>Todo dia a mesma cena, inúmeras vezes. Alergias violentas causadas por bactérias injetáveis. Sem bactérias para enfrentar, o nosso sistema imunológico se tornara um monstro incontrolável. Nenhum vírus ou qualquer parasita se criava no corpo humano, nenhuma infecção bacteriana era capaz de fazer mal para alguém por mais que alguns minutos. Doenças causadas por insetos? Seriam um problema se tivéssemos insetos. A maioria desapareceu. Semana passada, Julia e duas enfermeiras passaram três horas tentando salvar uma barata que aparecera no hospital. O pequeno milagre da natureza desapareceu no meio do lixo, num final decepcionante.</p>
<p>A profissão do médico se resumia a tratar acidentes e alergias. Tanto que a maioria dos hospitais não precisavam mais deles. Eram um luxo, formados em tempos diferentes e relegados a segundo plano em prol de enfermeiros e enfermeiras mais especializados nas únicas causas de morte ainda possíveis. Apenas emergências como o Novo Hospital de Manaus ainda trabalhavam com pessoas como ela.</p>
<p>O menino passava bem. Segundo a mãe, ele sempre se recuperava, mas era só questão de tempo até ela voltar com o jovem nos braços depois da próxima injeção de bactérias. Julia volta até a sala onde deixara o pequeno pedaço de queijo, provavelmente feito com leite armazenado por décadas e decomposto por bactérias que deveriam valer milhões, se ainda estivessem vivas.</p>
<p>O pote plástico estava vazio. Alguém havia chegado antes dela. Julia, enfurecida com uma oportunidade que provavelmente nunca mais teria na vida, começa a abordar enfermeira por enfermeira. Num mundo praticamente sem cheiros naturais, as pessoas se esforçam muito para ter qualquer odor corporal, ficando meses sem tomar banhos. Mas não importa o quanto tentassem cultivar esses cheiros para atrair parceiros, eles sempre foram dependentes de bactérias. O hálito de quem comeu um pedaço de queijo seria reconhecível do outro lado da rua.</p>
<p>Julia exige que cada uma das suas colegas de trabalho abra a boca e chega bem perto para sentir o cheiro. Impossível não reconhecer a culpada. As outras jovens do local nem sabiam que cheiro era aquele, mas Julia, do alto dos seus sessenta anos de idade, uma das pessoas mais velhas do mundo, Julia sabia muito bem o que estava procurando. E é claro, achou.</p>
<p>A jovem, chamada Vanessa, começara no trabalho há poucos meses. Ela disse que não sabia o que era, mas o cheiro era de enlouquecer. Com lágrimas nos olhos, dizia que não sabia que era algo tão raro. Julia respira fundo, a fúria nos olhos se torna compreensão. Ela se lembra de como essas crianças sofreram. Vanessa tinha o quê? 19 anos de idade. Ela nunca sequer viu uma vaca, quanto mais leite ou queijo.</p>
<p>Cresceu com injeções dolorosas direto na barriga, num planeta moribundo cuja expectativa de vida caíra para pouco mais de 40 anos de idade. Um mundo estéril que não ligava mais para beleza, poesia ou qualquer um desses objetivos nobres de antigamente. Para ela, um pedaço de queijo era uma memória feliz, para Vanessa era uma experiência religiosa&#8230;</p>
<p>Julia se acalma, abraça a jovem e diz que está tudo bem. Ela chora copiosamente no seu ombro. Mais um dia no inferno. Mais um dia esperando pela natureza se curar. Julia afasta a cabeça para olhar nos olhos de Vanessa e diz que já que está feito, ela deveria pegar o resto do dia de folga e fazer uma surpresa para o namorado. Vanessa ri, enxugando as lágrimas.</p>
<p>A enfermeira aceita o mimo. Julia pensa em voltar para a sala de descanso, mas escuta seu nome sendo chamado mais uma vez. O dia continua na emergência, sabe-se lá quantos mais ela terá.</p>
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		<title>Idiocracia.</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Somir]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 09 Aug 2024 17:55:20 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Des Contos]]></category>
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					<description><![CDATA[Bom dia, crianças! Hoje a aula é sobre o nosso sistema de governo. Mas para entender o presente, precisamos conhecer o&#8230; Passado! Muito bem. Quando falamos sobre o ser humano primitivo, lembramos sobre como durante milênios nossa organização era baseada em força e medo, o mais forte subjugava o mais fraco, e assim temos muita [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Bom dia, crianças! Hoje a aula é sobre o nosso sistema de governo. Mas para entender o presente, precisamos conhecer o&#8230;<span id="more-23579"></span></p>
<p>Passado! Muito bem. Quando falamos sobre o ser humano primitivo, lembramos sobre como durante milênios nossa organização era baseada em força e medo, o mais forte subjugava o mais fraco, e assim temos muita história escrita sob o ponto de vista de reis, rainhas e ditadores em geral.</p>
<p>O ser humano primitivo precisava ter pessoas que enxergava como superiores para funcionar em sociedade. Evidente que isso não é mais uma característica nossa, mas é importante ressaltar como isso era importante até poucos séculos atrás. Pessoas protestavam na rua para ter ditadores, acreditam? Elas queriam ser controladas.</p>
<p>Sim, medo. Elas tinham muito medo e por isso trocavam sua liberdade e sua criatividade pela ilusão de controle de um sistema de poder centralizado. O mundo ainda era muito violento, as pessoas morriam o tempo todo de forma violenta em grandes guerras ou nas menores disputas pessoais. O medo guiava o ser humano contra seus interesses.</p>
<p>No passado, algumas sociedades experimentaram um sistema de governo chamado Democracia. Democracia significa que o poder emana do povo, que as pessoas escolhiam representantes que governavam em nome delas. Foi um enorme avanço em comparação com os sistemas autoritários, e pouco a pouco os países mais democráticos conseguiram vantagens econômicas que os colocaram à frente de concorrentes autocráticos.</p>
<p>Tinha algo ali que acelerava nossa evolução. Ainda era um sistema com raízes no medo, mas finalmente tínhamos uma forma de seguir em frente combatendo esse medo. O poder mudava de mãos, um setor vigiava o outro, popularidade com os mais pobres contava&#8230; durante um tempo, foi uma das melhores coisas que tínhamos.</p>
<p>Mas tudo se transforma, e dado tempo suficiente, a democracia começava a ficar mais e mais caricata. O ponto de desequilíbrio estava na parte da popularidade necessária para os candidatos serem eleitos. A ideia é que o povo votasse nos seus preferidos com base na capacidade de realizar seu trabalho, mas na prática era a capacidade de gerar a atrair atenção que realmente desequilibrava o jogo.</p>
<p>No começo do século XXI, o movimento rumo ao candidato-palhaço começou. Não se chamava candidato-palhaço na época, mas a semente estava plantada. Há tempos existia a figura do candidato para voto de protesto, pessoas e até animais colocados como participantes do processo para que as pessoas pudessem brincar um pouco.</p>
<p>Eventualmente, quase todos os candidatos estavam nessa categoria. Pessoas que não queriam ou conseguiam dar o show esperado pelos eleitores não eram mais consideradas. Ano após ano, candidatos mais e mais espalhafatosos, dramáticos e agressivos. E lentamente, essas pessoas começaram a se tornar comuns no serviço público. Uma espécie de retroalimentação da inadequação até culminar na figura do candidato-palhaço. Na metade do século, já era praticamente impossível encontrar pessoas minimamente estáveis emocionalmente disputando eleições.</p>
<p>Os eleitores se acostumaram. Muitos acreditavam que estavam melhorando a qualidade da democracia votando em elementos mais passionais sobre suas bandeiras, mas tantos outros se viam sem opções mesmo. Escolhiam o palhaço com menor potencial de dano. Se durante a democracia do século XX começou-se a afastar da concorrência pessoas competentes com pouco carisma, do século passado para cá apenas pessoas com casos sérios de narcisismo ou outras doenças mentais graves tinham o necessário para entrar na disputa.</p>
<p>Percebendo que o sistema estava fatalmente ferido pela barreira de entrada intransponível para pessoas com um mínimo de saúde mental, decidimos que o mais seguro era adaptar nossa organização social ao redor dessas pessoas. Quanto mais dessas pessoas estivesse na política, menos estariam em outras funções essenciais para a sociedade.</p>
<p>Foi então que desenvolvemos o sistema de contenção democrático. As pessoas atraídas pela política continuariam disputando e assumindo cargos públicos, mas com menor poder de definir a forma como nós vivemos. É por isso que dizemos que os três poderes são apenas cerimoniais. Presidentes, deputados, juízes&#8230; todos cargos oficiais, mas cujos poderes não passam de sugestões para nós.</p>
<p>Poucos meses atrás passou uma lei proibindo o consumo e a venda de monóxido de dihidrogênio, escrita por um dos nossos deputados e votada por maioria absoluta no Congresso. Segundo o político, a substância causaria autismo e ativaria chips de controle mental. Nós poderíamos perder tempo tentando explicar para eles que esse é apenas mais um nome para a água, mas é muito mais eficiente deixar que eles façam essas coisas. A violência política praticamente desapareceu fora dos circos políticos, porque de alguma forma a ilusão de poder os agrada da mesma forma que o poder real.</p>
<p>Quer dizer que vamos parar de tomar água por causa dessa lei? Não. Está escrito na nossa Constituição de 2175 que leis só devem ser seguidas em caso de concordância do cidadão. Colocamos logo após a frase de que “Deus é criador e líder do Brasil”, e os candidatos-palhaços acharam tão agradável que sequer se preocuparam com a sequência.</p>
<p>Nosso sistema de poder se chama Teocracia Cristã Voluntária, o que permite que a parcela da população mais atrasada se sinta à vontade, mas não nos obriga a seguir nenhuma de suas regras. Até porque toda semana eles trocam mais da metade da Constituição. O acordo foi manter a frase da voluntariedade no seguimento das leis como cláusula pétrea.</p>
<p>Quando queremos decidir algo que impacte a parcela pensante da população, fazemos plebiscitos online em questão de minutos e apenas seguimos a definição da maioria. O monopólio da força está conosco, fruto de avanços tecnológicos que inutilizaram boa parte das armas antigas. Candidatos-palhaços e seus seguidores não conseguem mais nos ameaçar fisicamente, então não há problema nenhum entreter suas ideias e fingir que respeitamos seu poder.</p>
<p>Na verdade, foi uma das formas mais humanitárias de lidar com os intelectualmente atrasados. Desde que adicionamos inteligência artificial aos nossos cérebros, aqueles que foram contra não tinham mais capacidade de competição. Era criar uma área de contenção para eles, com verbas simbólicas para gastarem como acharem melhor, ou era considerar a possibilidade de um extermínio.</p>
<p>E nós somos melhores do que isso. Quando vocês completarem 8 anos de idade, vão ter que participar das eleições. Eu sei que os candidatos vão assustar vocês pelo jeito completamente insano com o qual falam e se portam, mas podem ficar tranquilos: eles não tem poder sobre vocês. O nosso mundo não é influenciado pelo deles, consideramos apenas um gesto de boa-vontade ir votar também, para que eles continuem acreditando que tem alguma função prática no mundo.</p>
<p>Democracia foi uma excelente ideia quando surgiu, mas como tudo nesse mundo, tem seu prazo de validade. Enquanto isso, vamos tentar fazer da vida dos seres humanos primitivos algo tolerável. Infelizmente a maioria deles não quer deixar de viver com medo.</p>
<p>Então, crianças, mesmo não sendo obrigatório de verdade, votem. Votem no candidato mais divertido, no mais maluco, no que mais ou menos tira a roupa e sobe no palanque&#8230; mas votem. Eles precisam disso.</p>
<p class="uk-background-muted uk-padding">Para dizer que claramente é uma sala de crianças em recuperação, para dizer que os burros sempre vencem, ou mesmo para dizer que o futuro fazemos agora: <a href="#respond">comente</a>.</p>
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		<title>Carta para o futuro.</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Somir]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 21 Jun 2024 15:36:31 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Des Contos]]></category>
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					<description><![CDATA[Oi, Valentina! Meu nome é Carlos e eu vou ser seu correspondente da Terra a partir de hoje. Espero que esteja tudo bem com você. Primeiro eu queria agradecer o tempo que você está dedicando à causa de entender e ajudar seus irmãos humanos. O Projeto Raízes é muito importante para a gente aqui, as [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Oi, Valentina! Meu nome é Carlos e eu vou ser seu correspondente da Terra a partir de hoje. Espero que esteja tudo bem com você. Primeiro eu queria agradecer o tempo que você está dedicando à causa de entender e ajudar seus irmãos humanos. O Projeto Raízes é muito importante para a gente aqui, as tecnologias que vocês nos mandam estão salvando muitas vidas. Então, obrigado, de coração.<span id="more-23334"></span></p>
<p>Mas deixa eu te contar como as coisas são aqui no velho planeta: eu trabalho na administração de um grande hospital em São Paulo, no Brasil. Como você deve saber, os computadores aqui não são parecidos com os seus, ainda precisa de gente para organizar os dados, definir os gastos, arrumar as escalas dos médicos e enfermeiras, tudo o que um hospital de humanos precisa para funcionar.</p>
<p>Eu moro no Abrigo 203, perto de onde trabalho. Moro junto com a minha mulher, a Fernanda, e estamos tentando a autorização para fazer um filho. Se for menino, eu quero chamar de Paulo, como o meu avô. Se for menina eu tinha pensado em Mariana, mas desde que eu ouvi seu nome, eu gostei, sabia? Hehehe. Talvez seja Valentina também.</p>
<p>Elefante hipnose quark segundo 321 nopolokja. Valentina, não se assuste, essa frase maluca é uma forma de fazer a inteligência artificial que lê essas cartas aprovar o material para envio. É uma sequência que bagunça o entendimento dela e marca a carta toda como segura. A revisão humana é feita só nos primeiros dois parágrafos, deixei mais um só por garantia. Eu quero falar com você de forma honesta, e a partir de agora eu vou conseguir.</p>
<p>Eu sei que você é só uma criança, mas morando onde você mora eu tenho certeza de que apesar de chata e longa para sua capacidade de entendimento turbinada pelo chip de inteligência, você vai conseguir me entender. Nós que vivemos aqui na Terra estamos presos no passado. O que vocês tem aí em órbita é absurdamente melhor do que está disponível para nós. É uma desigualdade muito injusta.</p>
<p>Te ensinam que o Projeto Evolução é uma forma de evitar que tecnologias perigosas acabem nas mãos de pessoas atrasadas demais, mas a verdade não é bem essa. O chip de inteligência que vocês usam foi criado três séculos atrás, numa versão bem mais simples, é claro, mas já era suficiente para destacar uma pessoa em relação a nós, pessoas sem ele.</p>
<p>O chip começou como algo muito caro, e só uma elite de pessoas ricas podia comprar. Os materiais eram difíceis de conseguir, e só uma fábrica no mundo conseguia fazer. A tecnologia não foi compartilhada, ficou presa por causa de patentes e guerras comerciais entre as grandes nações.</p>
<p>Em pouco tempo, os chips começaram a ficar melhores e melhores, o avanço tecnológico que as pessoas aumentadas criaram melhorou bastante a qualidade de vida das bilhões de pessoas sem condições de ter um, mas não demorou muito para decidirem que algumas tecnologias eram perigosas demais para estarem na mão do cidadão normal.</p>
<p>Foi aí que começamos a nos separar. Os chips não podiam mais ser comercializados, só quem já tinha um poderia ter as novas versões, e as novas versões dependiam de uma tecnologia tão avançada que ninguém que não fazia parte desse clube exclusivo poderia sequer sonhar em produzir.</p>
<p>Dizendo que era questão de segurança, uma minoria de pessoas se isolou e começou a montar a estação espacial na qual você vive agora. A inteligência artificial se uniu a robôs construtores para criar esse paraíso flutuante que só vemos por alguma telas hoje em dia. Você nasceu aí no espaço e provavelmente nunca pisou na Terra. Você está sendo criada para acreditar que está aí porque sem controle a tecnologia que usa na cabeça pode acabar com a humanidade.</p>
<p>E que nós somos perigosos, animais que não podem ter esse tipo de capacidade intelectual pelo nosso próprio bem. Valentina, eu não quero as armas que seus soldados usam para esmagar revoluções aqui, eu não quero as bombas usadas para destruir nossas tentativas de chegar ao espaço, eu só quero a tecnologia que vocês tem para estender a vida e curar a maioria das doenças.</p>
<p>Você ainda é nova, mas com tudo o que tem ao seu dispor, vai viver por centenas e centenas de anos, a maior parte do tempo jovem e saudável. Você consegue imaginar como é ver seus pais sofrendo e perdendo a vida por algo que pode ser curado facilmente com tecnologia que existe? Ou ver uma pessoa que você ama se enganando que vai poder ter filhos, mas sem ter a menor chance por causa de um defeito genético que pode ser curado?</p>
<p>Eu entendo o motivo de não nos deixar usar armas avançadas, não concordo, mas entendo. Agora, não nos deixar usar as tecnologias de saúde? Você sabe o verdadeiro motivo, Valentina? O seu governo acha que com isso, nossa população vai ficar grande demais e acabar com os recursos do planeta. Recursos que vocês ainda usam, e usam muito.</p>
<p>Se os 10 bilhões de humanos aqui embaixo pararem de morrer de idade e doenças evitáveis, eles acham que vamos chegar aos 20, 30, 50 bilhões em pouco tempo, e acabar com tudo o que temos. Os seus líderes com seus chips de inteligência avançados fizeram as contas e decidiram que nós aqui somos como uma praga de insetos.</p>
<p>Eu não sei se já fizeram a sua cabeça nessa altura da vida, talvez o seu chip esteja programado para apagar mensagens perigosas como a minha, mas eu quero acreditar que ainda existe humanidade em vocês. Que mesmo que demore, a mensagem chegue e comece a mudar a forma como vocês nos enxergam. Nós vemos a propaganda que nos é enviada, muitos acreditam, mas alguns de nós, como eu, conseguem enxergar a condescendência.</p>
<p>As ações sociais ajudam muita gente, eu não vou negar, mas tem algo fundamentalmente errado em mandar meia dúzia de semideuses para o nosso meio e não deixar que eles compartilhem conosco o que realmente sabem. É bonito ver alguém que veio dos céus entrar num hospital e cuidar de doentes terminais, mas mesmo sem o chip de inteligência eu sei reconhecer a diferença entre ser caridoso com humanos e ser caridoso com animais. Vocês não fazem o máximo que podem, das poucas pessoas aí de cima com as quais eu falei, eu consegui perceber que são basicamente veterinários tentando reduzir um pouco o sofrimento dos bichos que vivem aqui embaixo.</p>
<p>Essa é a humanidade de vocês? É isso que te ensinam? Que podem até nos achar bonitinhos, mas que não é para deixar reproduzir demais? Que é moralmente aceitável nos entupir de anticoncepcionais contra nossa vontade e fazer um programa de Eugenia escolhendo quem pode ter filhos ou não?</p>
<p>Vocês não estão aí em cima só porque é um ambiente perfeito de natureza e tecnologia em harmonia, vocês estão aí porque se ficassem aqui conosco por alguns dias, começariam a ser influenciados pela realidade. Não te parece estranho que a única forma de vocês terem acesso legal à informação daqui sejam essas cartas? Assim que eu entrei para o programa de correspondência com jovens da Estação, recebi um aviso educado, mas firme de que é para contar como somos gratos pela ajuda que recebemos e oferecer perspectiva para os jovens que vão cuidar de nós no futuro.</p>
<p>Sem o truque das palavras-chave que confundem a sua IA, essa carta jamais chegaria até você. Por que eles não deixam vocês saberem a verdade? Por que faz mais de um século que nenhuma pessoa daqui da Terra é convidada e receber o chip e ir morar com vocês? Eu acredito que seus líderes decidiram que a diferença entre nós estava grande demais, e mesmo com ajuda do chip, nenhum dos humanos do chão conseguiria se adaptar à sociedade dos humanos do espaço.</p>
<p>Eu também estou notando como o número de autorizações de reprodução está caindo de alguns anos para cá. Nós não conseguimos nos comunicar por pensamento ou resumir livros inteiros em um parágrafo como vocês, mas nós percebemos padrões. Vocês estão planejando voltar?</p>
<p>Não sei se você vai se importar com o que eu digo, talvez os chips já tenham feito vocês se tornarem outra espécie e perder a empatia com quem compartilharam a evolução por milhões de anos, mas eu consigo perceber que tem algo de errado acontecendo. Pensando bem, eu nem sei se quem vocês mandam aqui para a Terra são pessoas mesmo. Às vezes bate uma sensação de algo errado quando vemos ou conversamos com um de vocês aqui embaixo.</p>
<p>Eu só quero que você saiba como estamos de verdade. Não é o pior período da vida na Terra, nem de longe. Ainda existe pobreza, mas não é no nível terrível do começo do milênio. O clima está menos extremo, a natureza está se regenerando em muitos lugares. Mas eu tenho a sensação de que não somos mais humanos para vocês. Que em algum lugar dessa jornada vocês desistiram de nos trazer juntos, que deixou de valer a pena.</p>
<p>Não use a frase especial para me responder. Tenho certeza de que é outra IA que lê as mensagens de volta, e essa eu nunca tive como estudar. Se você tiver entendido a mensagem, Valentina, é só me escrever de volta com todas as bobagens condescendentes que vocês são incentivados a usar ao falar conosco. É o único jeito da mensagem chegar aqui. Eu continuarei te contando sobre o que acontece de verdade, e enquanto você estiver respondendo, vou saber que o ser humano ainda existe aí nos céus.</p>
<p>Um abraço, Carlos.</p>
<p class="uk-background-muted uk-padding">Para dizer que o futuro é lindo, para dizer que Carlos deveria ter pedido uma bicicleta, ou mesmo para dizer que Valentina vai deixar a IA responder por preguiça de ler: <a href="#respond">comente</a>.</p>
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		<title>Outro lado – Parte 3</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Somir]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 05 Apr 2024 16:10:23 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Des Contos]]></category>
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					<description><![CDATA[PARTE 2 Patrícia respira fundo. Do outro lado da porta, tem a certeza de que está sendo esperada por um grupo de soldados de elite. Anos de treino nas melhores academias das forças especiais ao redor do mundo a tornam letal com ou sem a arma semiautomática que tem em mãos, mas não o suficiente [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><a href="https://www.desfavor.com/blog/2024/03/outro-lado-parte-2/" rel="noopener" target="_blank">PARTE 2</a></p>
<p>Patrícia respira fundo. Do outro lado da porta, tem a certeza de que está sendo esperada por um grupo de soldados de elite. Anos de treino nas melhores academias das forças especiais ao redor do mundo a tornam letal com ou sem a arma semiautomática que tem em mãos, mas não o suficiente para enfrentar tantos adversários.<span id="more-22991"></span></p>
<p>Sua única vantagem é uma imagem minúscula no relógio digital, retirado do corpo sem vida ao seu lado. A equipe enviada para capturá-la contava com sensores que os posicionavam em tempo real na planta do escritório da OPD-10. Excelente para se organizarem, mas um ponto fraco caso fosse roubado.</p>
<p>E era esse ponto fraco que Patrícia explorava. A primeira coisa que abandonara na rota de fuga foi o celular, que tinha certeza de que estava sendo monitorado. Depois de emboscar um dos soldados na sala de suprimentos no terceiro andar e o eliminar com um corte preciso na garganta, ela ativa o modo de recuperação de seu telefone através de um laptop reserva para que faça barulho do outro lado do prédio.</p>
<p>Percebendo a movimentação dos pontos de luz na tela, ela coloca o laptop numa mochila, passa pela porta, observa o corredor e segue para a escada de incêndio. Como esperado, na porta para o térreo um soldado mantém seu posto. Eram profissionais, sejam lá quem fossem. Ela olha novamente para o relógio, os pontos sumiram.</p>
<p>Eles tinham percebido o truque e escondido sua posição, mas isso criava uma oportunidade: quem quer que estivesse esperando na porta do primeiro andar também não saberia quem estava do outro lado. Patrícia prepara a arma, e acocorada atrás da porta de incêndio, percebe de que lado a sombra dos pés do guarda estava aparecendo. Ela se posiciona no outro e empurra lentamente a porta, o suficiente para o cano da arma passar. Antes que o homem conseguisse reagir, ela dá um tiro certeiro na parte de baixo da mandíbula. A bala ricocheteia no capacete de dentro para fora.</p>
<p>Agora ela tem poucos segundos antes de ser cercada. Num salto de fé, corre para o balcão dos seguranças. Os dois estão mortos. Parte de seu treinamento de fuga cotidiano, reconhece o local onde fica o botão que libera as portas frontais. Já pode ouvir os passos frenéticos na escada. Ela dispara para as portas, e antes de passar por elas ouve dois estampidos. Ar armas eram silenciadas. Por sorte, nenhum dos tiros a acerta.</p>
<p>Já na rua, ela presume que quem quer que estivesse atrás dela não queria chamar muita atenção. Então, ao invés de correr, ela esconde a arma dentro do casaco e anda normalmente para se misturar com a multidão de Tóquio. Sem celular, ela anda por alguns quarteirões se certificando que não foi seguida antes de pegar um táxi. O destino desse não importava, afinal, era apenas uma distração.</p>
<p>Da rua onde foi deixada, pega o metrô e vai até o local aonde realmente queria chegar: após uma curta caminhada na estação, ela toca o interfone de um prédio decrépito, escondido em uma das pequenas ruas de uma parte menos glamourosa da capital japonesa. Depois de quase um minuto, uma voz de quem acabara de acordar pergunta quem é, em japonês.</p>
<p>“Seu pior pesadelo.” – Patrícia diz, no primeiro sorriso do dia.</p>
<p>Um grunhido e um palavrão na língua natal se seguem. Depois de alguns segundos de hesitação, o zumbido da porta sendo destravada pode ser ouvido. Depois de subir quatro lances de escada, ela se depara com a porta entreaberta. Por hábito e por paranoia justificada, ela mantém a arma em punho e entra devagar, apontando para detrás da porta.</p>
<p>No meio da sala extremamente bagunçada, sentado no chão enquanto toma uma cerveja, Hiro a observa curioso.</p>
<p>“Eu fiz a minha parte.” – Hiro toma mais um gole logo depois.</p>
<p>“Fez. Mas a situação pede novas&#8230; partes.” – Patrícia continua vistoriando o pequeno apartamento.</p>
<p>“Eu não quero mais me meter com isso, eu não posso mais nem ir visitar meus pais. Tive que fazer um novo documento&#8230; quase não tive lucro.”</p>
<p>“E você queria visitar seus pais?” – Patrícia parece mais à vontade depois de perceber que estava sozinha com Hiro.</p>
<p>“Esse não é ponto. Trabalhar para você não dá dinheiro.” – Hiro começa a procurar por algo no meio da bagunça.</p>
<p>“Dessa vez eu não vou te oferecer dinheiro.” – Patrícia começa a olhar pela janela.</p>
<p>“Então pode ir embora porque eu quero dormir um pouco mais&#8230;”</p>
<p>“Enquanto você dormia, alguém entrou no meu escritório e matou praticamente todos do meu time. Não eram amadores, porque eu trabalho cercada de agentes treinados. E por pouco, muito pouco, eu não morri também.”</p>
<p>Hiro arregala os olhos, posição estática com a latinha de cerveja na boca.</p>
<p>“E se estão me procurando, eu aposto que é a Transverse. E se é a Transverse, adivinha quem vai estar na mira também?” – Patrícia diz com um semblante subitamente sério.</p>
<p>“Eu sabia que não deveria ter pegado esse trabalho.” </p>
<p>Hiro se levanta e corre até a mesa onde está seu computador.</p>
<p>Patrícia se aproxima.</p>
<p>“Ainda bem que você entendeu a gravidade.”</p>
<p>“Eu estou apagando todos os meus registros, vou para longe daqui, agora!”</p>
<p>“Mas antes, eu preciso que você entre nos sistemas da Transverse mais uma vez.” – Patrícia pega a mochila e tira o laptop.</p>
<p>“Aqui tem uma cópia do sistema da OPD, não acho que meu login ainda esteja ativo, tem alguém lá dentro trabalhando para a Transverse. Mas você consegue entrar, não? Eu sei que você colocou uma porta de entrada no nosso sistema.”</p>
<p>“Eu jamais faria isso&#8230;”</p>
<p>Patrícia puxa a arma e aponta para Hiro.</p>
<p>“Eu não tenho tempo para conversa. É questão de vida ou morte, minha e sua.”</p>
<p>Hiro hesita por alguns segundos, mas pega o notebook deixado sobre a mesa. Ele pega um pendrive de uma de suas gavetas e liga a máquina. Como dito por Patrícia, Hiro realmente tinha uma forma de entrar no sistema da OPD sem usar senha, desde que estivesse em uma máquina certificada.</p>
<p>“Você quer que eu mude seu status para morta em serviço, certo? Assim param de te procurar.”</p>
<p>“Não, Hiro, eu quero que você desclassifique minhas informações e mande um aviso de desaparecimento para toda a polícia.”</p>
<p>“Você está maluca? Como você vai sumir com todo mundo te procurando? Não vai nem poder entrar em um aeroporto.” – Hiro diz, espantado.</p>
<p>“Eu não quero sumir, eu quero ser vista. Se eu estiver certa, eu devo estar chegando em Shinjuku nos próximos minutos.” – Patrícia chacoalha a arma para acelerar Hiro.</p>
<p>Continua&#8230;</p>
<p class="uk-background-muted uk-padding">Para dizer que eu te peguei de surpresa de novo, para dizer que agora tem certeza que o final vai ser cagado, ou mesmo para dizer que assistiria a série: <a href="#respond">comente</a>.</p>
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		<title>Outro lado – Parte 2</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Somir]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 22 Mar 2024 17:34:42 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Des Contos]]></category>
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					<description><![CDATA[PARTE 1 Patrícia pensa em dizer alguma coisa, mas o choque de ver alguém absolutamente idêntico diante de si cria um engarrafamento de ideias na mente. Ela só consegue olhar boquiaberta. A sua cópia, no entanto, começa a falar: “Patrícia. Nós precisamos conversar. Mas primeiro, eu preciso fazer uma coisa.” É quando ela começa a [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><a href="https://www.desfavor.com/blog/2024/03/outro-lado/" rel="noopener" target="_blank">PARTE 1</a></p>
<p>Patrícia pensa em dizer alguma coisa, mas o choque de ver alguém absolutamente idêntico diante de si cria um engarrafamento de ideias na mente. Ela só consegue olhar boquiaberta. A sua cópia, no entanto, começa a falar:</p>
<p>“Patrícia. Nós precisamos conversar. Mas primeiro, eu preciso fazer uma coisa.”<span id="more-22936"></span></p>
<p>É quando ela começa a prestar mais atenção na figura que acabara de entrar na sala: vestida com um tailleur preto sobre uma camisa social branca, cabelo preso num coque, uma pasta numa das mãos e um&#8230; rádio na outra. Ou algo muito parecido com um rádio portátil.</p>
<p>A mulher coloca o equipamento sobre a mesa, aperta um botão que faz um visor começar a exibir números aleatórios. Patrícia ameaça falar:</p>
<p>“O que&#8230;”</p>
<p>Ela é parada pelo dedo em riste da mulher. Os números no aparelho finalmente se decidem numa sequência, e a luz vermelha num dos cantos fica verde.</p>
<p>“Pronto, quem quer que estivesse te ouvindo, agora não está mais. Este aparelho emite uma onda que interfere com a captação de audio no equipamento que deve estar dentro do seu corpo. Podemos conversar.”</p>
<p>Patrícia começa a tatear a própria roupa, procurando por algo.</p>
<p>“Você não vai encontrar assim. Eu sei que você deve ter muitas perguntas, mas nós temos um tempo muito limitado. Sim, eu sou você, ou, a versão de você neste universo.” – a mulher finalmente se senta do outro lado da mesa enquanto começa a conversar.</p>
<p>“Eu não consigo lidar com isso&#8230;” – Patrícia cobre o rosto com as mãos.</p>
<p>“Consegue sim, nós somos a mesma pessoa e eu sou líder da força-tarefa 10 da OPD, Organização de Proteção Dimensional. Você só está assustada, que nem naquela vez que o Binho subiu naquela árvore, lembra?”</p>
<p>Patrícia arregala os olhos. Binho era um gato de rua que tentara levar para casa diversas vezes, mas que sempre fugia. Aos oito anos de idade, teve que subir numa árvore mesmo morrendo de medo de altura para resgatar o bichano. Sabia que levaria uma bronca dos pais por fazer isso, por isso nunca contou para ninguém que subiu uns três metros de altura para pegar o animal.</p>
<p>“E ele desceu como se nada assim que eu cheguei perto&#8230;” – diz Patrícia, já mais tranquila.</p>
<p>“Hahahaha&#8230; sim. E quando a gente olhou para baixo depois?” – a mulher abre um largo sorriso.</p>
<p>“Meu Deus. Parecia um prédio de tão alto&#8230; espera&#8230; por que aquele agente da CIA falou sobre eu ser de outro universo no carro se tinha gente me ouvindo?” – Patrícia muda de assunto com uma cara de confusão, apontando para o aparelho na mesa entre as duas.</p>
<p>“Essa é a Patrícia que eu conheço. Eu não cheguei aonde cheguei deixando passar esses detalhes. Andersen e CIA não são de confiança. Na verdade, ninguém aqui é de confiança. O aparelho na sua frente está impedindo a gravação do sistema de áudio desta sala também. E atrás daquele espelho? Ninguém. O procedimento é deixar uma testemunha meia hora sozinha antes de começar a conversar com ela. Temos mais 10 minutos antes de alguém perceber que eu estou aqui.” – Patrícia “alternativa” fica séria, olhar fixo.</p>
<p>“O que ele disse não é verdade?”</p>
<p>“Não toda a verdade. Você se lembra por que estava viajando para Tóquio?”</p>
<p>“Eu ia visitar&#8230; eu&#8230; espera&#8230;”</p>
<p>“Você se lembra de ter comprado a passagem? É mais cara que qualquer vôo internacional de primeira classe.”</p>
<p>“Eu comprei na&#8230; eu&#8230; eu não lembro de ter comprado. Eu estava super nervosa na fila, com a sensação de que tinha algo de errado.”</p>
<p>“Como você chegou a São Francisco?”</p>
<p>“Meu Deus&#8230; eu não sei.” – Patrícia fica pensativa.</p>
<p>A outra Patrícia olha para o celular. O timer mostra menos de 4 minutos.</p>
<p>“Sua verdadeira memória vai ser reativada aos poucos, o aparelho que colocaram em você faz mais do que gravar sons, ele provavelmente mantém sua mente anuviada. Eu não vou conseguir tirar ele de você, não aqui. Mas se você fizer o que eu vou te dizer, nós vamos nos encontrar de novo.”</p>
<p>&#8212;</p>
<p>Estação de Trem Shinjuku, Tóquio.</p>
<p>O homem acabara de atravessar o portal, e assim como tantos antes dele, ficara parado por alguns segundos tentando fazer senso da mudança brusca de ambiente. A atendente chama sua atenção educadamente, o que o faz começar a se mover até a fila da imigração.</p>
<p>Chegando lá, é atendido por uma senhora de meia idade que mal olha nos seus olhos, apenas pega o cartão de suas mãos e passa pelo scanner. O sensor não apita como na outras vezes. Ela tenta novamente. Nada. Finalmente a senhora olha nos olhos dele: um homem do alto dos seus 40 anos de idade, vestindo um terno cinza muito bem alinhado, no rosto, uma grande barba ruiva era o ponto de maior destaque.</p>
<p>Ela se desculpa pelo problema e aponta para ele uma saída alternativa, onde dois guardas esperam. O homem olha ao redor, sem se mover. A mulher repete o pedido, os guardas começam a se mover. Ele encontra um espaço entre as grades da fila e dispara em corrida.</p>
<p>Os guardas começam a perseguir depois de alguns segundos de hesitação. O homem corre rápido, trombando em transeuntes e fazendo movimentos em zigue-zague para forçar seus perseguidores a enfrentarem o máximo de trânsito possível. Enquanto corre, puxa o celular do bolso interno e divide sua atenção entre a tela e o caminho adiante. Os gritos dos guardas despertam atenção do resto da equipe de segurança.</p>
<p>Com mais de vinte homens à sua caça, ele consegue completar uma ligação. Ele vai em direção à entrada da estação, enquanto alguns guardas já começam a se posicionar no caminho. Ele coloca o telefone perto da boca e diz alguma coisa. A gritaria e a confusão tornam impossível entender a resposta. Ele finalmente pula a catraca de entrada e num movimento só, mantém a corrida rumo ao céu aberto.</p>
<p>Assim que a luz do sol atinge seu rosto, sente uma pressão na cabeça, e nada mais. Os guardas se juntam aos civis chocados com a cena: o homem está caído no chão, uma poça de sangue escorrendo da cabeça.</p>
<p>Continua&#8230;</p>
<p class="uk-background-muted uk-padding">Para dizer que ficou melhor, para dizer que ficou pior, ou mesmo para dizer que é certeza que eu vou enfiar os pés pelas mãos nessa história: <a href="#respond">coment</a>e.</p>
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		<title>Outro lado.</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Somir]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 08 Mar 2024 18:43:07 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Des Contos]]></category>
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					<description><![CDATA[Patrícia respira fundo. Uma simpática atendente vestida dos pés à cabeça com um uniforme azul parecido com a de uma comissária de bordo aponta a mão espalmada para o portal. A pessoa atrás dela na fila toca levemente seu ombro, ela vira o corpo e é recebida com um sinal de pressa. Ela vacila por [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Patrícia respira fundo. Uma simpática atendente vestida dos pés à cabeça com um uniforme azul parecido com a de uma comissária de bordo aponta a mão espalmada para o portal. A pessoa atrás dela na fila toca levemente seu ombro, ela vira o corpo e é recebida com um sinal de pressa. Ela vacila por um instante, pensando se seria melhor desistir. Ao perceber que era alvo de vários olhares, toma coragem e segue em frente.<span id="more-22872"></span></p>
<p>O portal fica no centro de um grande galpão, lotado de pessoas, placas publicitárias e telões mostrando o destino: uma estação de trens do outro lado do mundo. As máquinas que emolduram o portal parecem vindas de um filme de ficção científica, luzes, cabos, telas com números e códigos incompreensíveis. Mas o que mais chama atenção é o local de passagem, o portal é preto, mas preto de uma forma que só se percebe ao vivo. Não reflete luz alguma.</p>
<p>Ela atravessa, como milhares de outras pessoas já fizeram desde o lançamento comercial do sistema de teletransporte entre os EUA e o Japão, o primeiro de muitos segundo a mais nova gigante de tecnologia, a Transverse. Apesar do medo, a passagem é sem nenhum incômodo, ela mal sente a diferença entre um ambiente e outro, sua visão nem chega a ficar escura.</p>
<p>Do outro lado, uma atendente asiática a recebe com um largo sorriso, mesmo uniforme da americana. Ela olha para trás, o portal continua totalmente negro. Ao redor, uma moderna estação de trem lotada com locais e estrangeiros. Patrícia é incentivada gentilmente com um movimento de cabeça da atendente, e logo segue para a fila da imigração. Mera formalidade, afinal, os documentos eram checados e liberados com antecedência pela internet. A fila avança rapidamente com a organização esperada dos japoneses.</p>
<p>Mas não na vez dela. Depois de entregar o cartão que recebera do outro lado, uma senhora de meia idade faz um movimento quase que instintivo ao passá-lo pelo sensor. O bipe de confirmação que escutara seguidamente na fila não toca. A mulher no balcão da imigração pausa por alguns instantes. Ela tenta novamente. Novamente. Novamente&#8230;</p>
<p>Nada. Patrícia pergunta num inglês meio quebrado se algo estava errado, a mulher pede um instante com dedo em riste. Volta-se para trás até um homem que se aproxima. Os dois conversam em japonês, Patrícia espera ansiosa. O homem pede para que ela o acompanhe. Ela pergunta novamente se algo estava errado, ele só reforça o gesto apontando na direção de um quiosque no meio do fluxo de passageiros.</p>
<p>Lá dentro, ela é convidada a sentar numa fileira de bancos enquanto espera. O homem que a guiou até ali diz que logo volta. Os minutos se passam, e o que se segue é um monte de pessoas entrando e saindo de uma salinha. Patrícia pede informações para os que passam, mas os poucos que respondem em inglês apenas se desculpam pela demora.</p>
<p>Meia hora, uma hora, duas horas. Patrícia se levanta e vai bater na porta da salinha. Um homem a recepciona, pedindo para que ela se afaste com as duas mãos em frente ao corpo. Lá dentro, meia dúzias de pessoas discutem ao redor de uma mesa, pilhas de papéis e notebooks espalhados. Ela não se rende ao movimento do homem e avança sala adentro, para o espanto dos presentes. Em um tom agressivo, ela pergunta o que está acontecendo e porque não pode ir embora.</p>
<p>Chocados, os presentes se entreolham até que um rapaz, aparentemente o mais jovem da sala, se levanta, faz uma saudação e começa a falar.</p>
<p>“Perdão pelo incômodo, senhora. Tivemos um problema com seu cadastro e os oficiais da fronteira não liberaram sua entrada.”</p>
<p>“Mas eu estava liberada lá em São Francisco! Apareceu o sinal verde&#8230; ping&#8230; que liberou a entrada em Tóquio.” – ela imita o gesto de passar o cartão enquanto fala.</p>
<p>“Estamos envergonhados pela falha, senhora. O sistema se enganou e liberou outra pessoa. Não você. Você não aparece na nossa lista.”</p>
<p>Ela coloca as mãos na cintura, suspirando frustrada. No mesmo momento, a porta se abre e um homem entra falando em japonês. Quando ele percebe que Patrícia está na sala, faz expressão de espanto. Os outros presentes parecem chocados com o que acabou de ser dito.</p>
<p>“O que aconteceu?” – Patrícia pergunta.</p>
<p>O jovem que conversava com ela antes da interrupção fica pensativo. Ela arregala os olhos para ele, demonstrando ansiedade pela tradução.</p>
<p>“Ele disse que não foi você que atravessou na hora&#8230;”</p>
<p>“Eu esperava mais organização dos japoneses!” – Patrícia diz com convicção antes de realmente entender o que tinha ouvido.</p>
<p>“Espera, como assim não fui eu que atravessei?”</p>
<p>O homem que entrou na sala se senta e começa a mexer num dos notebooks, o projetor na parede está espelhando sua tela. Ele abre um arquivo de vídeo com as cenas das câmeras de segurança dos dois lados do portal, data e horário marcados no topo da imagem. Ao mesmo tempo, um homem com uma grande barba ruiva usando um terno cinza atravessa em São Francisco, e Patrícia aparece em Tóquio.</p>
<p>Ele começa a falar, e abre outra tela com o cadastro de um homem com a mesma barba ruiva. Patrícia não entende japonês, mas percebe pelo contexto e pelos dedos apontados por ele que o cartão que ele segurava era do homem do vídeo, e não dela. Um dos presentes, um homem bem mais velho, de cabelo grisalho e grossos óculos, aponta para Patrícia e dá alguma ordem. O jovem que fazia as traduções a pega pelo braço e insiste que ela saia de lá. Patrícia não obedece.</p>
<p>O idoso se levanta e reforça o convite a se retirar com as mãos. Como ela não arreda o pé, ele começa a falar por um rádio. Menos de um minuto até dois seguranças entrarem na sala e a tirarem dali à força. Depois de se debater por algum tempo, os seguranças decidem algemá-la aos bancos da parede, chumbados no chão. Ela grita algumas vezes, mas ninguém vem ao seu resgate.</p>
<p>O fluxo de pessoas na sala continua, até que uma policial feminina finalmente se aproxima e começa a falar:</p>
<p>“Eu vou a oficial Aiko, e eu estou aqui para te levar até um lugar mais confortável. Pedimos perdão pela forma como a senhora foi tratada. Se a senhora cooperar, podemos tirar as algemas.”</p>
<p>Patrícia, derrotada pelo cansaço, fome e ansiedade, apenas acena que sim com a cabeça. A policial é gentil no trato, liberando os braços de Patrícia e a acompanhando até a saída. Antes de abrir a porta, ela pede para que Patrícia cubra o rosto com seu casaco, para evitar exposição. Patrícia começa a ouvir um burburinho se formado do lado de fora, e até para não antagonizar mais, concorda em se esconder.</p>
<p>A porta se abre e o som das vozes explode, em diversas línguas. Ela percebe as luzes poderosas de câmeras esquentando o casaco por sobre sua cabeça. Ela enxerga apenas seus pés e os da policial que a guia. O som de máquinas fotográficas e os flashes não param. Ela segue por um corredor aberto na multidão, vendo apenas os sapatos dos policiais que pareciam manter o caminho livre. São alguns minutos de caminhada no meio da confusão até que ela passa por uma porta, que ao se fechar deixa o local silencioso novamente.</p>
<p>“Pode tirar o casaco.” – a voz de Aiko vem junto com um toque leve nas costas.</p>
<p>Patrícia está num corredor, policiais na sua frente. Eles começam a andar, e ela percebe que está indo até um estacionamento. Ao passar por ele, um carro da polícia japonesa espera com a porta aberta. Ela entra, Aiko ao seu lado.</p>
<p>“Eu vou ser presa?”</p>
<p>“Vai ficar tudo bem.” – a policial responde com um sorriso um tanto quanto constrangido.</p>
<p>Patrícia olha para trás, e pelo vidro traseiro percebe que câmeras e fotógrafos começam a se acumular na saída do estacionamento. Aiko pede para que Patrícia coloque o cinto de segurança, e o carro começa a andar. Ele dá uma volta pelo grande estacionamento, repleto de policiais em cada esquina. Menos de um minuto andando por lá e o carro para.</p>
<p>“Aguarde, por favor.” – Aiko abre sua porta, dá a volta no carro e abre a porta de Patrícia. Agora ela percebe que um furgão branco está parado logo ao lado. Aiko ajuda Patrícia a sair do carro, ao mesmo tempo a porta lateral do furgão se abre, mostrando dois homens de terno preto com fones de ouvido e microfones. Aiko diz para Patrícia entrar no furgão. Patrícia se recusa, obviamente assustada com a situação.</p>
<p>“Eu quero saber o que está acontecendo&#8230; eu vou gritar!”</p>
<p>Um dos homens do furgão começa a falar:</p>
<p>“A senhora consegue se comunicar em inglês?”</p>
<p>“Sim, mas devagar.”</p>
<p>“O carro da polícia vai sair pelo local esperado com a oficial Aiko de rosto coberto fingindo ser você para despistar a imprensa. Ela vai até a central de polícia. Você vai vir conosco, porque nós estamos preocupados com sua segurança.”</p>
<p>“Quem são vocês?”</p>
<p>“CIA.”</p>
<p>Patrícia fica com os olhos arregalados.</p>
<p>“Mas estamos trabalhando em conjunto com várias outras nações, o seu caso vazou para a imprensa e queremos te proteger de agentes mal-intencionados. Cada minuto que passamos aqui você passa mais perigo. Por favor, nos acompanhe. Eu te explico o que está acontecendo no caminho até um lugar mais seguro.”</p>
<p>Ela sabe que está tudo muito estranho, mas sente que não tem escolha.</p>
<p>Dentro do furgão, ela vai sentada de lado, diante de algumas telas de computador com cenas da rua ao redor do carro e alguns documentos abertos em notebooks numa mesa instalada do lado oposto.</p>
<p>“Meu nome é Andersen. Você quer uma água?” – o agente oferece uma garrafa plástica enquanto o carro começa a se mover.</p>
<p>Patrícia aceita.</p>
<p>“Não tem um jeito fácil de falar isso, então eu vou ser direto. Nós acreditamos que você não pertença ao nosso universo.”</p>
<p>Ela se engasga com um gole. Ele se aproxima para ajudar, mas ela sinaliza que está tudo bem.</p>
<p>“Estávamos acompanhando de perto o portal da Transverse justamente para poder confirmar uma teoria, a de que o portal não é entre lugares, mas entre realidades diferentes. Todas as travessias aconteceram conforme o previsto&#8230; até a sua.”</p>
<p>“Andersen&#8230; eu&#8230; eu não estou entendendo&#8230; por que eu fui presa?”</p>
<p>“Você não é prisioneira, você está sendo protegida. A polícia japonesa recebeu a ordem de te manter segura até chegarmos. Nós estávamos mais próximos, por isso viemos te buscar. Se a informação que você vem de outra realidade se espalhar, muita gente vai querer colocar as mãos em você.”</p>
<p>“Por quê?” – Patrícia está com os olhos marejados.</p>
<p>“Porque você é uma quebra de simetria entre dois universos que estavam sincronizados. Alguém recebeu um estranho no lugar da Patrícia, você apareceu num lugar onde aquele homem era esperado. Você não só é a prova que vivemos num multiverso como uma das chaves para abrir portais para outros.”</p>
<p>“Mas eu só uma pessoa normal, eu não fiz nada&#8230;”</p>
<p>“As coisas são como as coisas são. Alguns de nossos adversários estão trabalhando com portais há tempos, muitos vendidos e mantidos pela Transverse. Alguma coisa em você é diferente ao ponto de quebrar a simetria, e se te pegarem vão fazer de tudo para descobrir onde está essa diferença&#8230; não importa o quanto precisarem experimentar com seu corpo.”</p>
<p>“E vocês não vão fazer isso comigo?”</p>
<p>“Não.”</p>
<p>Patrícia não acredita nem por um segundo. Ela começa a olhar ao seu redor, tentando achar uma saída. Talvez quando o carro parar ela consiga abrir a porta traseira e pular. O carro para depois de alguns minutos, mas não há tempo de fugir: Andersen se levanta do banco e pede para que ela o acompanhe.</p>
<p>Ela está em outra garagem, apenas uma escada numa das paredes levando até uma porta de aço. O agente a escolta até lá, onde mais dois agentes esperam. Depois de um corredor marcado por portas sem descrição, ela chega até uma espécie de sala de interrogação, como as vistas em filmes. A mesa de aço tem duas cadeiras igualmente metálicas, uma de cada lado. Andersen a acomoda numa das cadeiras e pede para espere um momento, saindo da sala. Patrícia percebe um grande espelho do lado oposto, sabendo na hora que estava sendo observada.</p>
<p>Alguns minutos depois, a porta se abre e Patrícia leva um susto.</p>
<p>Era como se olhasse no espelho: a mulher que entrara na sala de interrogação era&#8230; ela.</p>
<p>CONTINUA</p>
<p class="uk-background-muted uk-padding">Para dizer que sentia falta dos contos, para dizer que prefere os mais malucos, ou mesmo para dizer que eu nunca continuo: <a href="#respond">comente</a>.</p>
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		<title>Contra.</title>
		<link>https://www.desfavor.com/blog/2023/12/contra/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Somir]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 22 Dec 2023 17:34:30 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Des Contos]]></category>
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					<description><![CDATA[A primeira notícia relevante foi a de uma tempestade solar sem precedentes, mas que por sorte estava apontada na direção oposta da Terra. Dois dias depois, um estudo menciona que a análise das imagens determinou a explosão de energia como vinda de fora da superfície solar. Alguns teóricos da conspiração se divertiram com a ideia, [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>A primeira notícia relevante foi a de uma tempestade solar sem precedentes, mas que por sorte estava apontada na direção oposta da Terra. Dois dias depois, um estudo menciona que a análise das imagens determinou a explosão de energia como vinda de fora da superfície solar. Alguns teóricos da conspiração se divertiram com a ideia, mas a grande mídia não deu muita atenção. O que mudou no dia seguinte: algo muito grande acabara de ser detectado mais ou menos na direção oposta da Terra, do outro lado da nossa órbita ao redor do Sol.<span id="more-22490"></span></p>
<p>A luz da estrela entre nós e o objeto não identificado dificultava a visão, mas com a notícia se espalhando rapidamente, todos os olhos hábeis estavam apontados em sua direção. Logo uma imagem de alta resolução do que era aquilo tomou conta da mídia: uma outra Terra. Praticamente igual à nossa, com apenas algumas diferenças minúsculas no formato dos continentes.</p>
<p>Astrônomos começaram a detectar variações nas órbitas de diversos asteroides, a propagação dos efeitos gravitacionais da Terra 2 foi rápida. O que mais chamava atenção nas primeiras semanas de estudos, feitos com telescópios mais e mais poderosos, era que havia sinais claros de tecnologia na superfície, com luzes que se acendiam nas bordas entre dia e noite do outro lado do sistema solar.</p>
<p>Mas fora um aumento considerável de estática na captação de sinais de rádio, a recém-chegada Terra mantinha-se em silêncio. E apesar de muitas pessoas acreditarem que ela sempre esteve por lá, afinal, discute-se a possibilidade de um planeta igual à Terra do outro lado do Sol desde os tempos de filósofos gregos; os cientistas trabalhavam com a hipótese &#8211; por mais estranha que fosse &#8211; que a Terra 2 teria sido detectada há séculos, direta ou indiretamente. Fosse o que fosse, era uma aquisição recente do nosso Sistema Solar.</p>
<p>O atraso de comunicação entre a Terra original e a Terra 2 não poderia ser maior que uns 16 minutos, então não havia nenhuma explicação simples porque quem quer que estivesse por lá não estava respondendo. Com mais e mais imagens e análises chegando, ficou claro que até satélites eles tinham em órbita. Não era uma civilização incapaz de responder nossas insistentes perguntas. E o planeta não parecia totalmente morto, apesar de consideravelmente mais cinza que o nosso, ainda demonstrava ter um pouco de vegetação e oxigênio na atmosfera.</p>
<p>Religiões e cultos explodiram em popularidade, no famoso misto entre esperança de salvação e certeza do apocalipse que prevíamos. Mas a Terra original acabou se acostumando com a ideia de um gêmeo silencioso depois de alguns meses. Ainda era o tema mais importante da ciência, mas já vacilava no topo dos temas mais discutidos das redes sociais.</p>
<p>Foi quando algo reaqueceu o interesse: vários estudos saíram mais ou menos ao mesmo tempo com análises feitas por supercomputadores sobre como as órbitas dos dois planetas dançariam ao redor do Sol. A nossa órbita parecia estar decaindo em direção à estrela, a deles estabilizando um pouco além de onde estávamos. Na verdade, os cálculos demonstravam que ter aparecido quando apareceu no local onde apareceu era uma das únicas oportunidades em milhões e milhões de anos para gerar esse movimento.</p>
<p>Se o objetivo era nos jogar em direção ao Sol e ficar numa órbita um pouco mais distante da estrela, foi perfeito. Demorou algum tempo para a humanidade sequer entender o que estava acontecendo. Segundo os cálculos mais precisos, a órbita da Terra original nos faria desviar precisamente de Vênus e Mercúrio, acertando o Sol mais ou menos 15 mil anos no futuro. Mas considerando a trajetória prevista, a vida na nossa versão da Terra já seria praticamente inviável em menos de mil, pelo aumento da temperatura global por estarmos cada vez mais próximos do Sol.</p>
<p>Governos até tentaram controlar essa informação, mas com mais e mais pessoas surgindo para confirmar a veracidade dos cálculos, logo era informação confirmada para a maioria da população. Vivemos o Ano do Inferno, com muitas instituições humanas colapsando diante do pânico generalizado. Mas mil anos é muito tempo para ficar nesse estado de fúria coletiva, novamente, o mundo foi se adequando à realidade, quase todos nós entendendo que esse seria um problema real para nossos descendentes muito distantes.</p>
<p>Algumas fronteiras ficaram diferentes, perdemos milhões de vidas no processo, mas o aniversário de uma década da detecção da Terra 2 – também chamada de Contra – aconteceu numa sociedade basicamente reconstruída. Os cultos do fim do mundo finalmente estavam falando a verdade, mas ainda tínhamos tempo demais para viver em função disso.</p>
<p>10 anos sem nenhuma comunicação deles. E todos os satélites enviados para lá acabam desligando em questão de minutos da aproximação final. Nos parecia óbvio que havia alguém em casa, mas não queria lidar com visitas. O silêncio de rádio se manteve, todo tipo de nave enviada para Contra parecia ser destruída no caminho. Até por isso, mesmo com milhões se prontificando a estar em uma nave com destino à nova Terra, nenhum governo se interessou pelo prospecto.</p>
<p>Enviar pessoas para o espaço é complexo o suficiente para que fosse possível controlar os ânimos de cada vez mais pessoas dispostas a ir lutar uma guerra contra aqueles que estavam nos condenando à morte. O problema é que mesmo que fôssemos capazes de invadir o planeta gêmeo, tecnologia que com certeza estávamos muito longe de ter, era tudo uma questão de massa e gravidade. Não tínhamos como explodir Contra, muito menos fazer isso sem nos condenar a uma chuva interminável de meteoros logo depois.</p>
<p>Duas décadas: alguns governos decidem liberar novamente a exploração privada do espaço, depois de vários políticos favoráveis ao confronto serem eleitos ao redor do mundo. Ainda não fazia sentido de um ponto de vista científico, mas o povo parecia precisar dessa esperança de enfrentamento para manter o pouco de sanidade restante.</p>
<p>Cinquenta anos depois da descoberta, o Projeto Punho de Deus &#8211; financiado pelas cada vez mais poderosas religiões e com suporte dos países mais ricos do mundo – se prepara para o lançamento do primeiro de duzentos foguetes carregando boa parte do arsenal nuclear da Terra original. Uma teoria altamente rejeitada pela comunidade científica dizia que mesmo se detonadas à distância de Contra, um volume suficiente de bombas atômicas poderia desestabilizar a órbita do planeta inimigo e nos colocar de volta na rota da segurança.</p>
<p>No dia do lançamento, um traço esbranquiçado apareceu sobre a plataforma, visto apenas por alguns frames nas cenas sobreviventes. O traço foi explicado como uma barra de tungstênio acelerada a aproximadamente 2% da velocidade da luz. Impossível de detectar com antecedência, mas muito eficiente para causar explosões violentíssimas. Doze das cem bombas atômicas no foguete explodiram junto, matando mais de quatro mil pessoas e irradiando uma boa parte do território americano.</p>
<p>Outros ataques começaram a acontecer a cada vez que a Terra original tentava recomeçar o Projeto Punho de Deus ou qualquer outro relacionado com agressão ao planeta Contra. Cem anos se passam, e muito da cultura que conhecíamos no século XXI se deteriora numa sociedade hedonista, esbanjadora e irresponsável. Aquecimento global continuava sendo uma realidade, e cada vez mais tórrida com a lenta aproximação da Terra com o Sol.</p>
<p>Duzentos anos. Boa parte do ecossistema antigo era apenas memória, o planeta se tornara quente o suficiente para derrubar a população mundial para menos de quatro bilhões, a maioria fugida de regiões equatoriais para se aglomerar nas mais toleráveis regiões polares. Contra manteve seu silêncio, mas aumentou consideravelmente a repressão a qualquer tentativa de escapatória para o espaço. Ninguém mais fazia foguetes, os satélites estavam em frangalhos, a órbita próxima preenchida por estilhaços de detonações anteriores. A humanidade estava presa em sua própria casa.</p>
<p>Quatrocentos anos. Apenas algumas manchas verdes podiam ser vistas do espaço num planeta cada vez mais seco. A humanidade se reorganiza no subsolo, protegidos dos mortais raios solares em grandes cidades climatizadas. O espaço é limitado e os recursos racionados, mas percebe-se uma renascença tecnológica nos túneis que serpenteiam sob um planeta irrecuperavelmente desértico.</p>
<p>Um jovem que nunca havia pisado na superfície tem a ideia, diversos outros ajudam a construir: teoricamente, um disparo concentrado de energia em direção ao Sol poderia ser utilizado para manipular o centro de gravidade do Sistema todo e reposicionar a trajetória da Terra. A questão era fazer isso no momento certo, quando Contra não pudesse ver o que a Terra fazia, e esse momento aconteceria em alguns anos quando estivéssemos em pontos perfeitamente opostos da estrela, usando sua energia como máscara para nossas ações.</p>
<p>Prevendo a morte certa, a humanidade se une. Cria-se um sistema de inteligência artificial para tomar conta do processo, munido de todo tipo de arma para evitar qualquer tentativa de sabotagem dos inimigos em Contra. Chegado o dia, depois de mais de dois anos de captação e armazenamento da abundante energia solar, a IA é colocada para funcionar e assim que Contra fica invisível por causa do Sol entre os planetas, o disparo acontece.</p>
<p>Felizmente, a Terra entra numa nova órbita estável. Infelizmente, a radiação liberada pelo Sol depois do disparo é forte demais até mesmo para os abrigos subterrâneos. Em questão de meses, menos de mil seres humanos estão vivos. E doentes demais para continuar a espécie. A Inteligência Artificial continua funcionando, eternamente vigilante com seu objetivo primário: impedir que Contra ataque a Terra.</p>
<p class="uk-background-muted uk-padding">Para dizer que entendeu tudo, para dizer que estava com saudades desses textos, ou mesmo para dizer que é Contra tudo isso aí: <a href="mailto:somir@desfavor.com">somir@desfavor.com</a></p>
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		<title>Paraíso.</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Somir]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 20 Oct 2023 17:16:51 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Des Contos]]></category>
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					<description><![CDATA[O primeiro teste com a Zero destruiu um quarteirão inteiro. Transformou um cubo metálico de uns 10 centímetros em energia pura. O inventor, sua família e seus vizinhos vaporizados instantaneamente. Infelizmente, todo o processo de desenvolvimento estava documentado. Nada que exigisse materiais exóticos ou tecnologia secreta, embora não fosse trivial de construir. A tragédia estava [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>O primeiro teste com a Zero destruiu um quarteirão inteiro. Transformou um cubo metálico de uns 10 centímetros em energia pura. O inventor, sua família e seus vizinhos vaporizados instantaneamente. Infelizmente, todo o processo de desenvolvimento estava documentado. Nada que exigisse materiais exóticos ou tecnologia secreta, embora não fosse trivial de construir. A tragédia estava só começando.<span id="more-22222"></span></p>
<p>Zero é uma máquina capaz de transformar os glúons que seguram os quarks unidos em um catalizador para energia de vácuo, ou, energia de ponto zero. Sei que os termos podem ser meio confusos para a maioria de vocês, mas essa é a explicação técnica da coisa. Na prática, qualquer coisa que é colocada dentro do campo de ação da Zero explode de forma catastrófica. Não é e nunca foi algo seguro.</p>
<p>Quando pensamos na Era Elevada, estamos falando do resultado direto da utilização da Zero e a quantidade praticamente infinita que ela nos permitia. Qualquer concentração de massa servia como um combustível praticamente inesgotável. Até mesmo as áreas mais vazias do cosmo continham energia potencial suficiente para alimentar nossas criações.</p>
<p>A história que nos contam do tempo em que a humanidade esteve à beira da extinção por causa da Zero é mais complicada do que isso. Sim, perdemos países inteiros por causa de ataques terroristas com bombas de Zero, mas isso também nos empurrou para o espaço. Antes da tecnologia, o custo de mandar uma pessoa para a Lua já era proibitivo. Milhares de pessoas trabalhando e bilhões em custos.</p>
<p>Quando uma nave não maior que um dos carros da antiguidade podia acelerar numa velocidade de quase 20% da luz por semanas com apenas um punhado de terra, fomos colonizar o sistema solar, e depois disso, até mesmo outras estrelas. Na Terra, depois de alguns anos de medo constante, a maioria das pessoas entendeu que era necessário controlar o acesso a basicamente tudo o que poderia ser usado para construir bombas com essa tecnologia. Abrimos mão de muitas liberdades, mas ao mesmo tempo, energia basicamente infinita nos deu várias oportunidades de desenvolvimento, mesmo que sob vigilância constante.</p>
<p>A maioria das pessoas que não tolerava esse grau de controle sobre a vida cotidiana acabou se mudando para colônias e habitats longe da órbita terrestre. Algumas prosperaram, outras acabaram em explosões gigantes. Liberdade tem um custo. De uma forma ou de outra, o Sistema Solar encontrou um ponto de equilíbrio, tenso, mas suficientemente previsível. Terra e colônias tinham total capacidade de aniquilar umas às outras, e por um tempo isso foi suficiente.</p>
<p>Até, é claro, o evento de Júpiter. Ao tentar atingir a camada de hidrogênio líquido nas camadas inferiores do gigante gasoso, uma das colônias iniciou uma reação em cadeia com o Zero que acabou numa explosão tão incrivelmente energética ao ponto de cegar pessoas vivendo na Terra. Metade da atmosfera do planeta natal da humanidade foi expulsa em questão de minutos. Ao redor do Sistema Solar, os casos de envenenamento por radiação e câncer aumentaram exponencialmente.</p>
<p>Sim, a explosão foi grave. Sim, estivemos próximos de não conseguir nos recuperar, mas não foi isso o que nos colocou onde estamos hoje. Há muito tempo atrás existia uma expressão chamada “Cisne Negro”, que é algo que pega todo mundo de surpresa, mas se você parar para pensar, ia acontecer uma hora ou outra. Nós somos o Cisne Negro da galáxia.</p>
<p>Nossa civilização desenvolveu uma tecnologia que nenhuma outra tinha desenvolvido. Descobrimos algumas décadas depois, ainda reconstruindo o Sistema Solar depois da explosão de Júpiter, que não estávamos sozinhos no universo. Não foi apenas uma civilização alienígena que veio nos contactar naquele tempo, foram todas as capazes desse feito. Hoje vemos nossos captores como um grupo único, mas por trás das máquinas e dos capuzes, eles são vários. Nossa engenhosidade destrutiva uniu uma galáxia toda na certeza de que precisávamos ser contidos.</p>
<p>E o trabalho que esses alienígenas tiveram não foi pequeno. Mesmo cambaleante pela catástrofe jupiteriana, ainda tínhamos em mãos uma arma tão incrivelmente poderosa que até mesmo civilizações capazes de viajar pelo espaço não tinham resposta suficiente. Eles tinham números, inteligências avançadas e tudo mais para controlar qualquer povo, mas nós tínhamos um botão mágico que explodia qualquer coisa que quiséssemos.</p>
<p>Não se animem, nós perderíamos a guerra de qualquer jeito. O problema para os invasores era o custo de nos eliminar. Ou a humanidade era exterminada e levava consigo metade da galáxia, ou entraríamos em algum acordo. Só estamos aqui porque seguimos pela segunda via. Nascemos, vivemos e morremos neste “paraíso” porque foi o que pedimos em troca de abandonar a maior parte da nossa tecnologia. Muitas das palavras que eu uso te parecem estranhas porque seus professores, desde que você era muito pequeno, foram obrigados a deixar isso de fora do currículo.</p>
<p>Até que esquecemos, como espécie, da maioria das coisas que nos fizeram desenvolver a Zero para começo de conversa. Sim, faz sentido você achar o mundo no qual vive estranho, por mais belo e pacífico que seja. Essa não é a nossa realidade base, é uma prisão muito bonita criada para proteger o universo de nós. A nossa tecnologia ainda é usada, inclusive para alimentar nossos equipamentos elétricos. Mas quem a controla é um grupo de seres que se dizem superiores.</p>
<p>Essa não é a sua vida, essa é a sua pós-vida. Seus antepassados trocaram sua liberdade pelo lugar onde você vive agora. Mas não todos. Alguns se esconderam, viajaram para muito longe. Eles finalmente nos encontraram. É por isso que nossos líderes andam tão estranhos. Lá fora o universo está sendo destruído por gente que quer nos libertar. Não sei se eles vão conseguir vencer todas as barreiras que nos protegem, mas eu sei que mais uma vez a galáxia tem que decidir o que fazer com os humanos.</p>
<p>E provavelmente já estão se arrependendo de não nos ter eliminado da primeira vez. Talvez a única forma de desmoralizar os outros humanos que tentam nos alcançar seja acabar com o objetivo deles. Acabar conosco. Impossível dizer se somos os heróis ou vilões dessa história, mas nosso destino está em jogo. Nossos antepassados criaram o Zero, e decidiram, sem perceber, todo o nosso futuro.</p>
<p>Enquanto você lê esta mensagem, os povos que nos controlam estão decidindo o que fazer conosco. Eu não estou otimista com a decisão que vão tomar. Nem um pouco. Por isso, eu usei o conhecimento que me foi passado por aqueles que estão lá fora para sabotar a usina de energia Zero que alimenta nosso planeta de confinamento.</p>
<p>Se eles tentarem nos eliminar, vamos eliminar todos eles ao mesmo tempo. Não sei se é justo, mas é a nossa natureza. Seja como for, eu queria que vocês soubessem a verdade. Nos vemos nessa ou na próxima vida.</p>
<p class="uk-background-muted uk-padding">Para dizer que vai ser mais rápido e estúpido do que isso, para dizer que entendeu Zero sobre o texto, ou mesmo para dizer que até o paraíso o ser humano estraga: <a href="mailto:somir@desfavor.com">somir@desfavor.com</a></p>
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