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Ele disse, ela disse: Próxima jogada.

| Desfavor | | 33 comentários em Ele disse, ela disse: Próxima jogada.

Apesar de Sally e Somir serem doces de pessoas, não deixam de lidar com pessoas querendo sacaneá-los de tempos em tempos. Mesmo que ambos concordem que essa coisa de dar a outra face é uma furada, discordam sobre a forma como lidar com esses adversários e/ou inimigos.

Tema de hoje: Ao perceber que alguém está armando contra você, confrontar ou fingir que não percebeu?

SOMIR

Eu prefiro fingir que não percebi. O motivo principal é dos mais óbvios: Vantagem estratégica. Numa guerra, a grande sacada de ter espiões e agentes duplos é saber o que o inimigo vai fazer antes dele fazer. Um espião não aparece usando um crachá justamente porque só funciona se o inimigo não souber que você está um passo a frente dele.

A estratégia de combate humana evoluiu basicamente no sentido de causar mais danos ao adversário com o mínimo de risco para os seus soldados. Nem tanto tempo atrás assim, era considerado honroso botar seus atiradores em formação num campo aberto à plena vista e atirar no inimigo em salvos regulares até que ele se rendesse ou morresse. Hoje em dia isso seria considerado uma burrice.

Essa coisa do heroísmo de travar todas suas lutas de peito aberto cabe muito bem num filme, mas rende resultados desastrosos na vida real. Todo mundo quer um inimigo vestindo um uniforme de cores berrantes no meio de um campo aberto à luz do dia. Assumir riscos desnecessários não é sinônimo de ética e honra, é irresponsabilidade.

Ninguém é invencível, imortal ou inabalável. Ou você trabalha no sentido de assegurar algumas vantagens e garantias, ou você está simplesmente fazendo uma aposta cega. Eu sei que parece exagerado começar um texto sobre uma pessoa armando contra você puxando temas de estratégia militar, mas o conflito e a disputa por recursos são elementos dos mais básicos na história da sociedade humana. A base é sempre a mesma.

Pois bem, dada a situação de você perceber que uma pessoa com a qual tem alguma convivência ou acesso está tramando para te ferrar, fingir que não está percebendo te dá uma série de vantagens para a possível disputa. Confrontar a pessoa pode até resolver eventualmente, mas na média só vai te dar mais dor de cabeça.

Vida real não é episódio do CSI, não é só porque você acusa alguém que a pessoa vai confessar:

CSI: Nós achamos uma gota de sangue…
BANDIDO: FUI EU! FUI EU!
CSI: … não identificada…
BANDIDO:

Na maioria avassaladora das vezes, a pessoa vai se fazer de sonsa e você vai acabar falando com as paredes. Pior: Abrir o jogo na hora errada dá uma oportunidade para seu adversário se fazer de vítima de falsa acusação. E é capaz até de usar a sua precipitação como motivação para a ferrada que te deu ao falar com outras pessoas. O primeiro soco só tende a selar o vencedor de uma luta se ele efetivamente acertar o adversário. Confrontar uma pessoa por algo que ela ainda está tramando é sinônimo de golpear o ar. Vai tomar o contra-ataque em cheio porque não pensou antes de agir.

E vamos concordar que não é só porque você disse para a pessoa que percebeu que ela vai deixar de tentar te ferrar. Na verdade, a possibilidade dela ter sucesso pode até aumentar: É complicado armar alguma coisa pelas costas dos outros, são muitos detalhes e pontas para amarrar, tudo na surdina. Agora, quando a coisa fica arreganhada, a pessoa pode inclusive se concentrar mais ainda em não te deixar escapatória, ou pior ainda, conquistar aliados.

Uma briga aberta pode pender para qualquer lado. Uma nos bastidores depende mais do planejamento. Pode ser até uma questão de gosto meu pela estratégia, mas há de se convir que o estrategista não fica mais protegido que o soldado de linha de frente à toa: Um deles é dispensável. É mais fácil ganhar com um bom plano do que cerrando o punho e partindo para cima de quem estiver na frente.

E é a capacidade de traçar um plano surpreendente e se preparar para a situação que acaba como grande vantagem de fingir que não percebeu. Seu adversário está com a desvantagem terrível de não saber que tem um adversário. E sabendo o que a outra pessoa vai tentar atacar, você pode inclusive deixar tudo acontecer: É muito comum que outra pessoa tente te atacar por onde ELA acha que dói ou ganhar de você o que ELA acha que é valioso. Nem sempre vai ser danoso para você deixar as coisas seguirem o rumo.

Eu por exemplo adoro quando alguém tenta me atacar onde não dói. Imagino a frustração de passar tanto tempo mirando e acabar atirando na água. E mantendo a analogia de batalha naval, não há nenhum ganho em mostrar onde estão os seus barcos. Quando você confronta, você no mínimo sugere que se importa. O que pode motivar quem quer te sacanear…

E SE for o caso de precisar fazer mesmo alguma coisa para se proteger, porque existe uma probabilidade também de ser paranóia (imagina que divertido cair de pau em alguém que não estava contra você), você pode inclusive plantar informações erradas e conduzir o plano do adversário para o caminho que mais te agrade. Quando a pessoa acha que está te enrolando, ela fica desarmada. Quando você a chama para a briga franca, ela vem com todas as defesas que tiver. Sério, estamos mesmo discutindo isso? Sally só ganha essa por simpatia do fã-clube.

E antes que alguém diga que não consegue fingir e mentir bem o suficiente para conseguir levar em frente uma estratégia dessas: Você já está mentindo ao afirmar isso. Parem com esse bloqueio bobo de achar que saber mentir muito bem é sinônimo de mau-caratismo. Eu minto muito bem e isso não interfere com a decisão RACIONAL de ser ético e honesto.

Ou você é o soldado de uniforme berrante em campo aberto na luz do sol, ou você é o atirador de elite camuflado numa posição privilegiada. Se você acha mais honroso se foder à toa, direito seu, mas não me venha dizer que tomou a melhor decisão.

Para dizer que odeia a falsidade e a enveja e ser mandado de volta para o Facebook, para dizer que treina artes marciais para não ter de ficar com essas frescuras, ou mesmo para reclamar que seus maiores defeitos são não conseguir mentir e trabalhar demais: somir@desfavor.com

SALLY

Alguém quer te foder. Você percebe que alguém quer te foder. O que é melhor, fingir que não percebeu ou dizer na cara da pessoa que você sabe que ela quer te foder? Eu prefiro dizer que estou percebendo o que a pessoa está fazendo. Evidentemente estamos falando aqui dos casos onde temos escolha, pois em alguns casos não há essa possibilidade.

Não sei se é o melhor em matéria de estratégia, mas certamente é o que dá menos trabalho. Não tenho paciência para sorrir e socializar com pessoas que eu sei que querem me foder e ficar nessa guerra fria, fingindo que está tudo bem. Acho isso dar importância demais a estas pessoas, elas não valem um segundo do meu fingimento e certamente não valem a energia que eu gastarei me preocupando em fazer um teatro, em manter uma máscara. Prefiro deixar claro o que penso e ser eu mesma sem ter que me preocupar em fingir que não estou percebendo.

Sim, se fazer de idiota certamente tem suas vantagens estratégicas, mas, fazer o que, meu DNA argentino está impregnado de arrogância e prepotência (é defeito de fábrica) e eu ainda acho que mesmo jogando limpo com a pessoa que quer me foder no final das contas eu posso ganhar. Não faço questão de vantagem estratégica, vamos para o pau, olho no olho.

Não sou a favor da guerra de nervos. Acho que ela consome muito de ambas as partes. É um megaevento do qual eu raramente topo participar, em parte por falta de tempo, em parte por falta de preparo emocional mesmo. Ter que conviver com uma pessoa que quer te foder e ter que pensar antes de falar para não entregar que você sabe que ela quer te foder é uma trava que demanda um esforço grande para acionar e uma manutenção custosa. Não é mais digno deixar as coisas às claras e tocar sua vida sem precisar se preocupar em mentir? Não acho divertido ter que me policiar no que falo e ficar fingindo.

É último recurso, não diversão. Sim, existem situações onde você não pode confrontar a pessoa. Existem situações onde confrontar custa ainda mais caro do que fazer esse jogo de fingir que não viu. Nestas somos obrigados a fazer o teatrinho de fingir que não estamos percebendo, mas apenas nestas. Quando nos for dada a possibilidade de escolha, é sempre melhor se poupar desses teatrinhos e joguinhos. Confie em você, você vai vencer sem precisar pegar o adversário desprevenido.

Sempre, em algum lugar, em algum momento, tem gente vendo nossas atitudes. Se você joga limpo desde o começo, isso vai ser visto. Se você faz teatrinho e artimanha, isso também vai ser visto, e provavelmente mal visto. A gente nunca sabe quem está vendo. A coisa madura a fazer é lidar com a situação olho no olho, falando a verdade e encarando o que tiver que encarar. A partir do momento em que você tira a cortina, em que coloca as cartas na mesa, quem está fazendo o joguinho passivo-agressivo vai ser obrigado a se apresentar. Isso pode acabar quebrando a pessoa.

Gente que escolhe como tática fazer esse joguinho passivo-agressivo é gente cujo ponto forte é essa trama por debaixo dos panos. Jogue um holofote na pessoa, a tire da sombra e você vai vê-la desconcertada. Porém, se você entrar no jogo dela e for brincar por baixo dos panos, está jogando em terreno adversário. Não deixe quem quer te foder ter o mando de campo, traga a pessoa para as claras. Viver tentando prejudicar os outros escondido é fácil, eu quero ver é esse tipo de gente conseguir armar em plena luz do dia, com outras pessoas olhando. Não consegue.

Segredinhos, fofoquinhas, intenções camufladas… tudo isso me tira do sério. Eu realmente não tenho estômago para entrar nesse jogo. E acredito que se jogar por debaixo dos panos tem suas vantagens, botar as cartas na mesa também tem. Pode fazer a pessoa que quer te sacanear recuar ou ao menos pensar duas vezes. E se não o fizer, paciência, o embate é questão de tempo, que ocorra o mais rápido possível então para acabar com essa punhetação, que eu tenho mais o que fazer da minha vida do que ficar fingindo para um nobody por meses.

Olhe para dentro de você. Você acha digno tratar bem, tratar como se nada tivesse acontecido uma pessoa que quer te sacanear? É o tipo de coisa que eu só faço se não tiver opção. Se tiver, vou deixar bem claro que estou percebendo e vou fazer questão de tratar essa pessoa de forma diferente. É meio prostituído moralmente tratar com falsa consideração uma pessoa que você sabe que quer te foder. Uma pessoa dessas não merece que a gente gaste um pingo de energia com fingimento. Sim, para mim fingir é um esforço e acredito que para todos vocês também seja. Se não for, procure um terapeuta, porque a coisa está feia.

Não aceite o convite para jogar. Quem usa esse tipo de tática quer jogar um jogo com você. A partir do momento em que você aceita jogar esse jogo, você perdeu, pois mesmo que você ganhe no final das contas, perdeu tempo e energia dedicando a uma pessoa de merda e lhe deu o prazer de jogar com você. Por incrível que pareça, tem gente que gosta mais do jogo em si do que do resultado final dele. Não deixe essa gentalha canalizar suas angustias mal resolvidas jogando jogos com você, eles que procurem um analista em vez de ficar procurando confusão com as pessoas do entorno.

Pode ter certeza, se você adotar a postura de não topar esses joguinhos, alguém vai ver ou perceber e essa pessoa vai te respeitar mais. Da mesma forma, se você topar o joguinho, as pessoas também perceberão e verão que você se rebaixou à mesma merda da pessoa que tentou te foder. É melhor para você também é melhor para a sua imagem jogar limpo.

Dá para cortar o mal pela raiz? Corte. Olho no olho, tire a máscara da pessoa encrenqueira e mostre que você percebeu que aquela pessoa quer te foder. Mostre para ela e para o mundo, com tranquilidade e educação. É a coisa digna a se fazer. Não dê a ela importância suficiente a ponto de fazer joguinhos que te obriguem a mentir, a fingir, a deixar de falar, a engolir sapos. Certamente ela não merece toda essa mobilização.

Para dizer que vai socar seu chefe na cara e me culpar se der merda, para dizer que eu não tenho sofisticação suficiente para me divertir com esse joguinho ou ainda para dizer que aprendeu na prática que a verdade é sempre a pior opção: sally@desfavor.com


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