Na saúde e na doença…

Até os relacionamentos mais saudáveis tem suas brigas eventuais. Sally e Somir concordam com o valor de se importar com o outro, mas escolhem batalhas diferentes quando o assunto é a saúde do parceiro. Os impopulares fazem seu diagnóstico.

Tema de hoje: vale a pena brigar com um parceiro pelas escolhas que afetam a saúde dele?

SOMIR

Não. E vamos deixar bem claro aqui que o verbo brigar não está sendo tratado de forma leve: estamos falando de brigar com unhas e dentes para mudar os hábitos da pessoa, doa a quem doer. Não é uma revirada de olhos, uma bufada ou mesmo uma conversa comum, é brigar para impor sua visão das coisas e não aceitar a derrota. Sempre vale a pena aconselhar uma pessoa querida a evitar hábitos nocivos à sua saúde ou mesmo ajudá-la a mudar essa realidade, mas quando a coisa começa a virar briga, é energia mal direcionada.

Evidente que a nobreza da causa vai angariar mais simpatia pelo ponto de vista defendido pela Sally, mas ela mesma concordaria comigo quando eu digo que boas intenções não significam boas ações. Fazer algo errado pelos motivos certos ainda é fazer algo errado. Guardem isso por enquanto, porque eu tenho que dividir meu argumento em duas partes. A primeira é o direito ao próprio corpo, e aqui o certo e o errado acabam bem borrados.

Uma das fundações do conceito de liberdade é ter o domínio sobre si. Ninguém além de você pode tomar decisões sobre o uso do seu corpo, salvo em casos que o uso do seu corpo interfira com o mesmo direito alheio. Por isso a maioria das sociedades concorda que atos como agressões físicas, estupros e sequestros são crimes que exigem punição. Está na base de tudo o que acreditamos: o seu corpo é seu, e apenas os seus pais tem algum direito (limitado e temporário) de interferir nisso. Depois de adulto, as escolhas são todas suas, desde que você só se coloque em risco.

E escolhas ruins para a saúde costumam entrar exatamente nessa categoria. Escolhas pessoais que te dizem respeito. Encher a cara qualquer adulto está livre para fazer, a coisa só muda de figura quando ele ameaça outras pessoas pegando um carro, por exemplo. Muito embora o Estado interfira nisso das mais diversas formas, percebam que são sempre esses os casos onde a polêmica floresce: drogas, aborto, punições… todo tipo de coisa que gera dissonância entre nossa percepção de domínio sobre nosso corpo e influência alheia nas decisões que só nos impactam. Você não vai ver a sociedade brigando entre si para definir se quem violenta outros deve ou não ser reprimido.

Parece que eu estou viajando pra muito longe do tema, mas não estou. O conceito de domínio sobre o corpo está tão integrado na nossa percepção da realidade que influencia todas nossas relações com outras pessoas. E num relacionamento que presume companhia constante, evidente que ele mexe com a dinâmica das coisas. Faz muito sentido para nós que as pessoas briguem para se defender, outro conceito que funciona muito bem através das culturas mundiais é o de legítima defesa. Somos livres para proteger nosso direito a integridade física (pelo menos). Do ponto de vista de quem recebe as broncas e as pressões para largar um hábito nocivo à própria saúde, a coisa é pouco intuitiva.

Não nego de forma alguma que seja uma medida de interesse e até carinho agir de forma tão energética contra algo que faz mal ao outro, mas não deixa de ser uma invasão ao direito ao corpo dessa pessoa. O que nos leva ao segundo ponto: mesmo que você não compartilhe da visão que o corpo alheio é o fim da sua esfera de controle, tem que entender que o confronto direto é só uma forma de lidar com as coisas, existem maneiras muito menos destrutivas de tentar influenciar a pessoa. Porque, surpresa, surpresa, esse é o limite da capacidade humana de modificar comportamentos de forma consistente. Ameaças e chantagens dificilmente são internalizadas para sempre, e se por um acaso tem esse efeito, ele não vem sem custos enormes para a sanidade mental da pessoa.

A briga é uma forma de resolver problemas superficiais, mas pouco tem efeito nos verdadeiros causadores dos hábitos nocivos. O confronto presume uma moeda de troca negativa: tira-se algo da pessoa sob a condição dela se submeter à sua vontade para tê-la de volta. Paz, carinho, privilégios ou até mesmo a segurança física ou psicológica, a briga começa um processo de resolução ao tirar coisas da relação, e raramente é boa ideia começar algo assim enfraquecendo a relação dessa forma. Brigar tem que ser o último recurso, até porque ele só faz sentido quando se tem menos e menos a perder.

Quem quer mudar um hábito foca no hábito. Não existe atalho, não existe forma prática de reescrever nossa auto-percepção de domínio sobre o corpo num esporro casual. Adoraria que gritar resolvesse problemas, mas a taxa de sucesso da tática passa longe de ser boa, é o tipo de coisa que cai na categoria de reforço por falsos positivos: brigar quase sempre piora as coisas, mas nas vezes que melhora, fica marcado no cérebro. Todas as outras onde queimar pontes fez justamente o que se esperava, criou divisões e impediu a aproximação das partes, fica convenientemente apagado da memória.

Existem muitas formas de ajudar alguém a deixar um hábito nocivo, a maioria é lenta e trabalhosa. É investir no processo, participando ativamente sem essa mentalidade bélica (que no fundo serve mais para satisfazer quem briga do que ajudar quem precisa). Temos exemplos pelo mundo afora que os países que resolveram segurar na mãozinha dos drogados e ajudar eles enquanto largam o vício derrubaram a reincidência e o número de viciados muito mais do que os países que resolveram declarar guerra. Porque a briga tem suas vantagens, mas elas só funcionam no curtíssimo prazo. Quem quer mudar um hábito tem que estar presente e não causar muita confusão.

Não adianta brigar no curto prazo para o que só existe no longo prazo. A vida é difícil, as pessoas são complicadas… e não tem como escapar.

Para dizer que eu só enrolei, para dizer que viciado não tem voz aqui, ou mesmo para dizer que eu devo ser amigo pessoal do Pilha: somir@desfavor.com

SALLY

Brigar com um parceiro por causa de escolhas erradas que afetam a saúde dele?

Sim. Brigar ou fazer o que seja necessário. Foda-se se adianta ou não, ao menos eu saberei que tentei de tudo para impedir que a pessoa detone sua saúde.

Quem ama cuida. Existem formas de cuidar no amor, mas, infelizmente, existem algumas pessoas que só entendem as coisas na dor. É menos pior a dor de um esporro bem dado do que a dor de um câncer, um enfisema pulmonar ou um AVC. Então, se eu sentir que no amor não conscientiza a pessoa, eu brigo mesmo. Faço o que for preciso para afastar a pessoa de algo que está detonando sua saúde.

Já ouvi muitas vezes, inclusive da Madamezinha que diverge de mim hoje, a famosa e infantil frase: “o problema é meu”. Só que não é. O problema, caso se apresente, afeta a toda a família e a todos que gostam da pessoa. Então, não, o problema não é seu. Se matar lentamente, detonar sua saúde é uma conta que eu também vou pagar. Spoiler: pessoas doentes não se cuidam sozinhas.

E obviamente não estou resumindo meu argumento ao trabalho que dá cuidar de uma pessoa doente. O pior dessa equação é ver uma pessoa que você ama doente, sofrendo, com dor ou incapacitada. É triste ver pessoas que destruíram sua saúde se lamentando e dizendo que se pudessem voltar no tempo teriam feito tudo diferente.

Bom, você tem esse poder. Você, pessoa consciente que não está em estado de negação, consegue perceber o desdobramento que um hábito nocivo pode ter na vida do outro, antever o futuro que o espera e mudar esse futuro. E dificilmente se muda o futuro de alguém apenas com conversa, se a pessoa fosse racional o bastante para isso, nem seria necessário conversar com ela sobre isso. Não é uma questão de inteligência, pois pessoas extremamente inteligentes fumam. É questão de cegueira temporária. Se o outro está cego, cabe a você guia-lo.

É óbvio que se a pessoa está detonando a própria saúde, ela deixou a racionalidade de lado nesse aspecto. Está em negação, não está pensando sobre isso, está dando desculpas para si mesma ou está se enganando. Uma pessoa nesse estado é imune à conversa. Bem, talvez uma boa conversa com um profissional acabe por ajudar, mas serão anos, anos que talvez a pessoa não disponha, pois o dano estará feito. E eu não sou terapeuta de porra nenhuma, converso uma vez, se não der, tento outra estratégia.

Vai ter quem diga que comer a pessoa no esporro não adianta. Mas olha… eu discordo tanto! Só o esporro constrói. Existem determinados estados mentais onde só um bom “sacode” tira a pessoa da letargia autodestrutiva. Nem sempre um diálogo racional resolve as coisas, pois nem sempre as pessoas estão ou se comportam de forma racional. Tentar ser racional com quem está irracional é minha definição de perda de tempo.

Pode ser que em um primeiro momento a pessoa se feche, em defesa ao esporro. Mas alguma coisa entra. Vai na fé, dá teu esporro, que alguma coisa sempre entra. O esporro impacta, o esporro repercute na cabeça da pessoa quando ela está sozinha. O esporro amplifica a importância do tema: se a pessoa fez um escândalo por isso, deve ser importante. Esporro fixa o conteúdo em nossas cabeças, fica mais difícil de negar ou esquecer. E, mesmo que no final das contas não adiante, ao menos eu tentei tudo que podia.

Sem contar que a putez incomoda. A pessoa saber que está te deixando em estado de putez é algo que certamente vai fazer com que pense duas vezes antes de fazer. Tem gente até que deixa de fazer pelos motivos errados: para não ter que lidar com a outra pessoa puta da vida ou com esporro. Bem, foda-se. Se servir para que a pessoa pare com um hábito destrutivo que vai matá-la, que seja.

Esse papo de que a pessoa é adulta e sabe o que faz só cola quando o interlocutor é criança. Nós adultos sabemos muito bem que adultos não sabem o que fazem na maior parte do tempo. Apenas aconselhar e deixar que a pessoa faça o que ela quer é abandoná-la. Uma pessoa que escolhe um hábito de vida que está detonando sua saúde claramente não está em boas condições mentais de fazer uma escolha assertiva.

É preciso trazê-la para a realidade, esfregar a realidade na cara dela tal qual se esfrega o focinho de um cachorro que fez xixi no lugar errado, até que ela não consiga mais ficar em negação. Sim, se você esfregar a realidade bastante na cara da pessoa, chega uma hora em que se torna muito difícil para ela continuar em negação. É doloroso? Sim, doloroso, trabalhoso, cansativo. Mas estamos falando da vida de uma pessoa que amamos.

E, vejam bem, eu já penso assim sem ter filhos. Imagino que quem os tenha deva lutar com ainda mais empenho, pois filho é prioridade na vida de uma pessoa. Em vez de não querer perder o marido ou vê-lo entrevado, o enfoque provavelmente terá um apelo mais forte: não querer que seu filho fique sem um pai/mãe. Então, dá licença, mas é algo sério demais para não brigar com a pessoa. Puta egoísmo do caralho não cuidar da sua saúde quando você tem um filho que depende de você. Se não entrar por bem, vai entrar por mal (ou, ao menos, será tentado).

Que bom seria se, em um mundo ideal, cor de rosa, onde todos andamos montados em pôneis que vomitam arco-íris e cagam ouro, conversar resolvesse todos os problemas e conflitos humanos. Não é essa a realidade, e a Madame Campineira sabe disso muito bem, pois com ele conversa não resolveu muitas vezes e esporro surtiu efeito. Então, é muito bonitinho e civilizado esse papo diplomático, mas tem coisas que só entram na porrada.

Como o que está em jogo é muito sério (a saúde da pessoa amada) me permito usar de todos os recursos que eu tiver antes de desistir. E você?

Para dizer que dá menos trabalho se apenas conversar e se sentir desobrigado, para dizer que eu sou chata pra caralho e vou morrer sozinha ou ainda para dizer que quem tem medo de ressonância e tomografia não pode opinar sobre saúde: sally@desfavor.com

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Comments (11)

  • Minha ex esposa…Toda vez que brigava comigo pra eu parar de fumar, a situação ficava tão chata, que acabava fumando de novolta.

    Então, eu brigo sim.

    Mas tem que ter tato

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  • Brigo, brigo sim e brigo muito! Até porque, qualquer problema de saúde que meu marido tiver me afetará psicologicamente, financeiramente e compormentalmente (inventei), por isso, o quanto pudermos evitar, melhor.

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  • Brigaria sim, certamente. Não pela pessoa, mas por mim. Até porque se a pessoa descambar mesmo assim, terei justificativa suficiente para descartá-lo a qualquer momento. E caso chegue a bater as botas ou ficar em coma, ou na cama por conta de um AVC, como possiveis resultados dessa desconsideração, o fato de ter se importado com o idiota (até o fim) até contaria pontos a meu favor em um próximo relacionamento.

    Ou acham que toda mulher de um vegetal merece ficar vegetando o tempo todo junto com ele? Só mesmo japonês para ter sentimentos por um objeto inanimado e querer trepar com ele ainda por cima…

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  • Concordo com os dois hoje…

    Não acho que brigar resolve (geralmente hábitos nocivos estão relacionados à vícios, e vício é uma coisa complicada). E concordo com os argumentos do Somir nesse aspecto!

    Maaaas… acho que vale tudo pra cuidar de quem se ama! Então brigar também! Mesmo não funcionando, às vezes é o que precisa pra mudar o padrão cerebral!

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  • Sally é muito maternal, Somir é muito adolescente. Não me admira que tenham feito uma parceria mamãe-filhinho em algum momento da vida.

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