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Falando além.

Falando além.

| Desfavor | | 15 comentários em Falando além.

Algumas coisas que vemos não podem ser explicadas, não ainda. Sally e Somir discordam sobre o quanto deve-se ser aberto nessas situações… sobrenaturais. Os impopulares acreditam ou não.

Tema de hoje: se você presencia um evento paranormal, conta para outras pessoas?

SOMIR

Sim. Evidente. A gente conta cada coisa banal da nossa vida para os outros, principalmente nesses tempos de evasão de privacidade como norma. Acredito que tudo neste tema dependa de como você enxerga o paranormal: para mim é simples, se existe é natural. Ver um fantasma ou algo do gênero não quebraria minha visão de mundo nem me faria sentir maluco.

Sempre digo que céticos não veem fantasmas, só que essa frase vai bem mais longe do que mera negação da existência do sobrenatural: primeiro quer dizer que uma pessoa que não está predisposta a acreditar em algo tende a não encontrar situações onde essa coisa se manifesta. Quem acredita em duendes pode acabar vendo algum vulto no mato que tente explicar imediatamente como um duende. Não significa que tenha sido um, mas como a pessoa já parte da presunção que esses seres existem, é muito mais fácil para ela gerar essa explicação. Quem não acredita vê um vulto indeterminado.

E em segundo lugar, mesmo que a pessoa que segue essa linha cética veja um suposto fantasma, ela tem ao seu dispor muito mais ferramentas para gerar essa explicação, mesmo que não existam dúvidas sobre o que ela viu. Ver algo e explicar algo são coisas completamente diferentes, vide as inúmeras ilusões de ótica que existem por aí. O cérebro tem seus pontos exploráveis sim, não é nada de muito estranho que sejamos tapeados por algo inesperado. Eu, por exemplo, até acharia interessante ver um fantasma, na possibilidade remota de ser um mesmo e isso expandir imensamente o meu grau de compreensão da realidade. Provavelmente não é, mas se for, é natural e pode ser estudado e compreendido.

Partindo desse princípio, eu contaria numa boa se visse algo considerado paranormal. Eu não teria a pretensão de saber a explicação daquilo, estaria só entregando um testemunho. Mania das pessoas de precisar saber tudo para apreciar uma situação fora do habitual. É a minha briga com a maioria das religiões: as explicações que eles dão para o sobrenatural (presumidamente) são ainda mais bizarras que os próprios eventos relatados. É tamanha a sanha de tentar simplificar as coisas e se livrar do medo de não saber (spoiler: não saber é o que você mais vai fazer na vida, de longe) que qualquer cobra falante está valendo a pena.

Como não partilho dessa visão das coisas, não há mal algum em relatar um evento paranormal, afinal, se você não está passando a vergonha de invetar uma explicação infantilóide ou mesmo repetindo a ignorância de outros que vieram antes de você, qual o problema? Você viu algo, relatou algo. Não tem nem como estar errado: ao tratar o tema com a racionalidade necessária, é até positivo que alguém te dê novas informações que te façam rever a “aparição” ou seja lá o que presenciou com novos olhos.

Sim, tem gente maluca que vai achar que você é amaldiçoado ou se mete com energias demoníacas simplesmente por falar, mas… francamente? Procura seus serviços do dia a dia em outra loja… crente maluco desses nunca chega em posição de poder suficiente para te ameaçar. Sim, eu disse isso. Gente que se dá bem na vida nunca age dessa forma, mesmo os pastores mais insanos só fazem isso na frente de uma plateia, na vida real agem de forma muito mais “secularista”. Eu mantenho que a maioria da população humana é agnóstica na melhor das hipóteses. Se os fanáticos fossem maioria, não teríamos saído da Idade Média.

Até por isso, faz muita falta gente com capacidade de relatar as coisas que vê de forma calma e racional, para que a discussão avance um mínimo. Quem fala do paranormal normalmente não tem provas de nada ou tem a eloquência de uma criança bêbada… não é à toa que os céticos existem: quem costuma relatar esses eventos o faz de uma forma tão tosca e pouco científica que na pequena chance de estarem certos, fazem mais mal do que bem para a própria credibilidade. Deles e de tudo o que tange o sobrenatural.

Viu um fantasma, um poder mediúnico ou um ET? Relate numa boa. Se estiver errado, menos coisas para se preocupar. Se estiver certo e for minimamente capaz de se expressar, pode ajudar o conhecimento humano de forma nunca antes realizada. São milhares de anos de história sem prova nenhuma, estava ficando feio para a turma do sobrenatural uns quatro mil anos atrás, hoje em dia já está imperdoável mesmo. E não é falta de boa vontade dos céticos, é que não conseguiram levar nada disso em frente mesmo.

Só precisa ter medo disso quem acredita que precisa ter medo disso. Não tem nada inexplicável, se existe é natural (quanta coisa não existia até poucas décadas atrás?). Se existe, obedece as leis da física (quem disse que sabemos todas?). Tenha medo de bandido e animal selvagem, porque o resto, até alguém conseguir explicar direito, nem existe. Só saber disso que você não se preocupa mais em contar… vai dizer que não acha uma boa história falar sobre as bobagens que fez enquanto estava bêbado (no ambiente certo, espero eu)? É só isso, só você contando a peça que seu cérebro te pregou.

E se por um acaso tiver algo além disso e alguém te ajudar a explicar… você pode desvendar mistérios insolúveis há milênios. Não tem como perder.

Para dizer que é fácil dizer sabendo que não vai ver, para dizer que minha arrogância será minha ruína (pau no cu de todos os deuses e seres mágicos inexistentes do mundo, eles nunca vão causar efeitos na minha vida), ou mesmo para dizer que viu, mas não vai contar: somir@desfavor.com

SALLY

Caso você presencie algum evento paranormal, qual seria a melhor decisão: contar para alguém ou calar a boca?

Conselho de amiga: cale a boca.

Sério, guarda pra você. Se você compartilha uma porra dessas com alguém, em algum momento sua sanidade vai ser questionada, isso vai ser jogado na sua cara para te desacreditar ou vai ser comentado em um ambiente inapropriado. As pessoas simplesmente não estão preparadas para escutar uma coisa dessas, independente de ser verdade ou não.

Tem gente que vai saber escutar? Tem. Mas são poucos e raros. Se tem uma coisa que eu aprendi na vida é a contar que a regra geral aconteça. Se vier a exceção, putz, que lindo! Mas na maior parte das vezes, é a regra geral quem se concretiza. A regra geral é que as pessoas são muito inconscientes, ignorantes e toscas, dificilmente lidarão de uma forma bacana com uma informação dessas. Ainda mais no Brasil, onde tudo se diviniza, se demoniza ou descamba para o religioso.

O que você ganha compartilhando uma informação dessas? Nada. Só tem a perder. Vai esperar compreensão, ajuda ou até, quem sabe, uma explicação e não vai ter. É fato: ninguém tem nenhuma resposta definitiva para eventos paranormais, então, ninguém vai poder elucidar o caso para você. Vai se expor dessa forma por qual motivo?

Que necessidade é essa de contar tudo que te acontece para outra pessoa? Quando a pessoa pode ajudar, aconselhar, eu até entendo. Mas em se tratando de um assunto que ninguém entende, ninguém sabe e ninguém responde porra nenhuma, vai se expor por nada. Ter que sair falando é sintoma. Precisar correr e contar para alguém é sintoma. Tenha serenidade, tente digerir e entender isso sozinho, dentro de você. Ninguém vai te salvar, te proteger ou te explicar nada.

Vou além: periga da pessoa que escutar a história ainda te induzir a erro. Se tem alguém que pode entender o contexto daquilo, a razão de ser, a origem, é você, que vivenciou a experiência. Você, que se conhece, que sabe em detalhes de toda sua história de vida, do seu estado anímico no momento, de todo o entorno. Não uma pessoa estranha que não vai ter subsídios para montar esse quebra-cabeça.

Então, se é que há uma resposta, só você a tem ou só você tem os subsídios para saber. As pecinhas que juntam e forma esse quebra-cabeça são suas. Procurar isso fora de você é insegurança ou preguiça mental.

“Mas Sally, uma pessoa que entenda de fenômenos paranormais pode me ajudar, pois tem um conhecimento que eu não tenho”. Para começo de conversa, se aconteceu (o que quer que seja) é normal, e não paranormal. Além disso, não há faculdade, não há fontes precisas, não há onde ou quem consultar que ser um expert e te dê certezas. Quem melhor sabe qual pode ser a explicação é você.

Suponho que muitos compartilhem apenas pela diarreia verborrágica que as pessoas adquirem ao conviver. As pessoas tendem a querer contar tudo umas para as outras. Não seja essa pessoa, isso é um saco. Ninguém, por mais que te ame muito, quer saber o que você comeu, a fofoca que aconteceu no seu trabalho ou se você está com diarreia. Por caridade, tenham a decência ter guardar ao menos algumas informações para vocês mesmos.

Uma vivência como essa é algo único, especial, íntimo. Não é para sair contando. Apenas quem vivenciou vai entender e mensurar o que foi o evento. Dificilmente palavras expliquem e mais dificilmente a outra pessoa lide bem com isso. Ela pode ficar com medo, pavor, terror. Pode te achar maluco. Poucas pessoas tem a serenidade de se deparar com algo assim e deixar em aberto, sem precisar encaixar em alguma explicação conhecida. E nessa de enquadrar em explicação, tem grandes chances da pessoa te magoar simplificando, ridicularizando ou duvidando do ocorrido.

“Mas Sally, eu e meu mozão contamos tudo um para o outro!”. Seu mozão mentiu pra você, meu anjo. NINGUÉM conta tudo um para o outro, e que bom que não conta, pois isso implicaria na total perda de privacidade e individualidade. Sério mesmo, faz mais mal do que bem contar algo tão pessoal e íntimo. A outra pessoa pode não estar preparada para lidar e, mesmo que esteja preparada para observar a questão serenamente sem juízo de valor e sem enquadrar o evento em nenhuma explicação conhecida, não terá respostas para te dar.

Não se trata de mentir. Coisas relevantes, que afetam terceiros devem ser compartilhadas sim. Mas isso? Isso é um evento único, que só diz respeito a você. É algo personalíssimo, sem qualquer explicação. Uma coisa sobre a qual não se tem o menor controle. É um convite à observação, à reflexão, a olhar dentro de você e não a passar a mão no telefone e sair vomitando “Você nãããããão sabe o que me aconteceeeeeu”.

Sério mesmo. Fiquem calados. As chances do interlocutor não ajudar e ainda gerar problemas são muito maiores do que a da pessoa levar de boa e conseguir dar alguma ajuda ou acolhimento.

Para dizer que isso é macumba, para dizer que isso é encosto ou ainda para dizer que está repreendido: sally@desfavor.com

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