Inimigo meu.

É fácil escrever o tema, complicado é entender todas as implicações.

Tema de hoje: o inimigo do seu inimigo é seu amigo?

SOMIR

Sim. É mera questão de saber o peso que se dá à palavra “amigo” neste contexto. A vida raramente tem linhas bem definidas, especialmente nas complexas relações humanas. Inventamos mil palavras diferentes para lidar com essas variações, mas no fundo só nós sabemos exatamente o que estamos dizendo com cada uma delas.

Começo assim para dizer que chamar alguém de amigo não tem apenas um significado, um conjunto de comportamentos entre duas pessoas que pode ser cientificamente comprovado como amizade. Amizade se define por tempo? Por intimidade? Por convivência? Por tudo isso junto? Oras, diga isso para o sentimento que você tem, veja se ele se importa com essas regrinhas…

Amigo é quem você considera amigo. E não é algo eterno por definição: amigos podem deixar de ser amigos, por culpa sua, culpa deles, culpa de terceiros ou culpa de situações alheias ao controle de todos os envolvidos. A vida acontece. A intensidade pode ser completamente diferente: dois homens podem ser amigos sem um milésimo da intimidade que duas amigas mulheres teriam, e mesmo assim não terem dúvidas de que nome dar para a relação. Percebem as variáveis que começam a se empilhar aqui?

Então, quando você parte do princípio que nem toda amizade é igual e só existe quando as pessoas envolvidas sentem e agem de acordo, podemos trabalhar com muito mais variações do conceito. É claro que eu prefiro amizades fortes com confiança altíssima, mas nem sempre é o que tem disponível a cada momento. Algumas amizades são mais efêmeras.

E muitas vezes, são essas amizades de ocasião que se tornam a melhor arma contra um inimigo em comum. Preste atenção no mundo em que você vive: pouca coisa une tanto o ser humano quando um adversário comum. Funciona há milênios. Pessoas forma alianças estratégicas para conquistar um objetivo, porque se tem uma coisa que aprendemos em milhares de anos de sociedade, é que existe força nos números.

É muito mais fácil formar um laço sólido quando algo incomoda ou preocupa duas pessoas ao mesmo tempo. Eu sempre digo que o inimigo do seu inimigo não é necessariamente seu amigo, e isso eu mantenho, mas explicando finalmente que a ênfase está em “necessariamente”. Assim como você não deve baixar totalmente a guarda enquanto conhece uma pessoa nova, também não deve ficar totalmente exposto numa amizade de ocasião como essa. Até por ser fácil de gerar uma relação nessas condições: desconfie um pouco de tudo que vem fácil, mas não deixe de aproveitar oportunidades valiosas.

Porque naquele momento de união, a amizade pode ser muito verdadeira (enquanto durar). Até mesmo eu que tenho a péssima mania de não pedir ajuda sei que existe muito valor em formar alianças. É uma mecânica conhecida de funcionamento da mente humana, pessoas se sentem bem quando estão planejando algo juntas com sincronia de objetivos. Pode até ser uma construção artificial, mas naquele momento parece muito real.

Como tudo na vida, a preocupação deve estar focada na capacidade da pessoa com a qual você se relaciona agir de forma minimamente racional e ter algum senso de autopreservação. O inimigo do seu inimigo pode sim ser seu amigo, mas uma pessoa burra e inconsequente bem menos. O motivo para não formar uma aliança dessas deveria ser o mesmo pelo qual você não formaria qualquer outra: a incapacidade da outra parte trabalhar em conjunto com você.

E neste contexto, não faz diferença se a amizade se formou por um interesse em comum. É sobre as pessoas envolvidas, não sobre as condições da amizade. Talvez ela resista à vitória contra esse inimigo, talvez não, mas vai dizer que isso nunca aconteceu com você? Quando acaba o interesse em comum, acaba a amizade? Não era uma das mais fortes, e tudo bem: a maioria não é. É por isso que seus melhores amigos têm valor, porque é bem mais raro mesmo formar um laço desses na vida.

Extremismo costuma ser uma posição fraca e solitária. É importante saber jogar com as opções que a vida te entrega, e uma das mais comuns é justamente a causa comum, especialmente se ela envolve a luta contra o mesmo inimigo. Aceitar amizades de ocasião não enfraquece a ideia de uma amizade de longa duração, muito pelo contrário: apenas explicita a diferença entre elas.

Sentimentos não podem ser corretamente expressos com apenas uma palavra: amizade pode ser algo rápido e superficial tanto como pode ser algo para a vida. É o que você sente que modula o significado disso, não uma definição semântica. O inimigo do seu inimigo não é seu amigo até ele demonstrar que pode ser seu amigo, assim como qualquer outras das bilhões de pessoas desse mundo. Mas se isso acontecer, não precisa ter mais medo de quebrar a cara do que teria em qualquer outra situação.

Se você sabe se proteger no dia a dia, sabe se proteger dos riscos de uma amizade gerada por um inimigo em comum. Se eu fosse dar um conselho mesmo neste texto, seria esse: não tenha inimigos. Afaste-se de quem parecer estar contra você o mais rápido possível e mate o ímpeto daquela pessoa com uma boa dose de desprezo. Não funciona 100% das vezes porque nada funciona 100% das vezes, mas evita a maioria dos problemas.

Alianças são das ferramentas mais poderosas para resolver qualquer questão da sua vida, use-as de forma inteligente.

Para dizer que Bolsonaro e Lula fizeram isso contra a Lava-Jato, para dizer que vai seu unir com outras pessoas contra minha chatice, ou mesmo para dizer que amigo de cu é rola: somir@desfavor.com

SALLY

O inimigo do seu inimigo é seu amigo?

Não. Não é assim que eu escolho as pessoas que mantenho próximas.

Se você conversar com qualquer pessoa fatalmente vai encontrar pontos de gostar e de desgostar em comum. É algo natural. O fato de a pessoa gostar ou desgostar do mesmo (ou da mesma pessoa) que você não é critério para absolutamente nada: mesmo desgostando do seu “inimigo” a pessoa pode ser absurdamente sem caráter e ser uma péssima pessoa para se manter por perto.

Mas, para mim a questão é ainda anterior a isso: um eventual “inimigo” será apenas ignorado na minha vida, jamais perderia tempo dando atenção para uma pessoa que desgosto. Portanto, não haveria ganho algum em me “unir” com alguém que também desgosta dessa pessoa. Que morra no esquecimento e na escuridão, a vida se encarrega de ensinar o que quer que a pessoa precise aprender.

Eu uso “inimigo” entre aspas, pois eu não considero que tenha inimigos, por um motivo muito simples: eu não os aceito. Podem existir pessoas que me detestem, que me odeiem, que me queiram morta, para o sentimento é unilateral: sagrado direito da pessoa me detestar. E sagrado direito meu de não dar importância a isso: quando a pessoa vem me fazer um “convite” para briga, para que eu alce à categoria de “minha inimiga”, eu não aceito.

Então, talvez muita gente me considere uma inimiga, mas eu não considero que eu tenha inimigos. Esse é um dos benefícios da maturidade, você aprende a escolher suas batalhas. Eu não vou dar importância a alguém que desgosta de mim e aceitar um convite para tretar com essa pessoa. A pessoa que faça o papel ridículo de tretar sozinha.

Imagina dar tanta importância para alguém que você desgosta a ponto de deixar a pessoa pautar de quem você se aproxima ou a quem você se alia. Não, obrigada, eu tomo minhas decisões sozinha, pelos meus critérios, sem permitir que ninguém de fora (muito menos alguém que me odeia) interfira. Só me faltava essa: precisar me unir com alguém por um desafeto em comum. Já começa errada a relação, né? Por interesse eu não faço nada: não caso, não faço amigos, não me alio a ninguém.

E não estou fazendo um discurso de superioridade. É um discurso de uma pessoa cansada e de saco cheio mesmo. Não me sobra energia para essas coisas, tudo que eu tenho eu invisto em família, trabalho, relacionamento e Desfavor. Para começar a tretar com os outros, fazer aliados, criar estratégias, eu teria que abrir mão de alguma coisa, afinal, nossa energia e foco são limitados. Não vale a pena.

Essa minha convicção de que a vida se encarrega de ensinar uma lição às pessoas me traz a paz de espírito necessária para olha para alguém que se autodeclare meu inimigo, mandar um joinha e ignorar. Talvez, para quem não tenha essa certeza, seja mais duro e seja preciso viver em um mundo onde se está sempre em busca de reparação e justiça. Cá entre nós, deve ser uma merda viver em um mundo assim.

Além de tudo, é uma questão de autoestima: permitir que uma pessoa se aproxime de mim por interesse, por termos um “inimigo em comum” é de uma baixa autoestima galopante. Quem quiser se aproximar de mim, que seja pelos motivos certos: por achar uma troca de ideias interessante, por me achar boa amiga, por me admirar. Se juntar com outra pessoa por causa de uma terceira é dar muita importância ao outro e pouca a si mesmo.

“É estratégia”. Estratégia usa quem quer se defender. Eu vou me defender de quê, se não permito que um eventual “inimigo” me afete ou tenha importância na minha vida? Se eu te falar que um pato fantasma azul e manco está tramando contra você, você provavelmente vai rir da minha cara e continuar sua vida, certo? Então. Essa é a saída: você escolhe a importância que vai dar ao outro. Se você não topar a briga, se não der importância, o outro não pode te afetar.

Em contrapartida, quanto mais importância se dá ao outro, quanto mais coisas se faz ou se deixa de fazer em função do outro, mais pode o outro ganha e mais ele te afeta. Então, não, obrigada, eu não movo um palito de dente para fazer nada motivada por pessoas “inimigas”. Eu faço o mesmo que fazemos aqui no Desfavor com quem se sente nosso inimigo ou nos ataca: ignorar, ignorar e ignorar.

Não vou dizer que uma hora a pessoa cansa e vai embora, pois não é verdade, tem gente que quando cisma com você, dedica uma vida a isso, mas, é indiferente: desistindo a pessoa ou não, ela não pode te afetar. Deixe que perca seu tempo, sua energia e seu foco em você. Com o tempo a gente começa até a achar graça. O processo é fascinante.

Pior ainda se a gente for pensar no contexto atual. Imagina se no meio de uma pandemia, uma crise que coloca em risco nossa existência como humanidade, eu vou dar foco a meu unir com Fulano por Fulano não gostar de Cicrano. A mente de uma pessoa que se preocupa com isso em vez de entender o que está acontecendo e tentar encontrar a melhor forma de passar por isso é uma mente com as prioridades muito equivocadas.

Se eu quero conseguir ou alcançar algo na vida, podem ter certeza de que estará sempre relacionado comigo, nunca com terceiros. Se eu quero conseguir ou alcançar algo na vida, será por atos meus, nunca por planinho, estratégia envolvendo terceiros ou alianças contra outras pessoas. Eu sei que funciona quando bem-feito, mas, na minha idade, estou sem tempo, sem disposição e sem paciência. Passo. Meu foco é nas coisas importantes e, certamente, uma pessoa que se diz ser minha inimiga tem importância zero na minha vida.

Talvez esse discurso soe alienígena para você, como de fato soaria alienígena para mim mesma muitos anos atrás. É uma construção, é algo que você vai constatando depois de perder tempo na sua vida: não vale a pena. Se hoje você sente que ainda vale, perca mais algum tempo, cedo ou tarde você vai se juntar a mim e cansar de brigar, tramar e dar importância a quem não a tem. Juro para vocês: a vida se encarrega de ensinar às pessoas uma lição.

Para dizer que não basta a vida ensinar você quer ver a pessoa se fodendo, para dizer que você também ensina ou ainda para dizer que não socializa nem com as pessoas que você gosta: sally@desfavor.com

Se você encontrou algum erro na postagem, selecione o pedaço e digite Ctrl+Enter para nos avisar.

O que você achou?

Loading spinner

Etiquetas: ,

Comments (2)

  • Entendo o ponto de vista do Somir, mas eu fico com a Sally nessa. Alguém que deteste uma pessoa da qual eu também não goste possivelmente pode ser alguém com quem eu já iria não querer me relacionar de qualquer modo. Gente beligerante que coleciona “inimigos” e fica tramando e “fazendo alianças” para derrubá-los não me atrai. E, assim como a Sally, eu também já não tenho mais paciência e nem tempo de vida para perder com esse tipo de coisa, que não faz bem a ninguém.

    O que você achou?

    Loading spinner

  • Não, é besteira.
    Assim como não creio em amigos para sempre, e muito menos em 1 milhão de amigos,
    quando muito 1 amigo, o resto é colega.
    A figura que me aparece no espelho é minha única amiga.
    Segura minhas pontas, ri e chora comigo, sabe meus erros e acertos, paga o pato das minhas cagadas junto comigo.
    Nenhum amigo do meu inimigo faria a mesma coisa por mim.
    Aliás, se tenho inimigo não sei e nao quero saber.
    O fardo já é pesado sem saber a respeito.
    A vida não está fácil, se tocar que tenho inimigo deverá pesar muito mais esse fardo.

    O que você achou?

    Loading spinner

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.

Relatório de erros de ortografia

O texto a seguir será enviado para nossos editores: