Home Schooling

É notório que o ensino, especialmente para crianças, ficou muito comprometido com a pandemia. Alguns enxergam o Home Schooling (ensinar a criança em casa) como uma solução, e entre Sally e Somir, pelo menos uma pessoa não concorda com isso. Os impopulares dão suas lições.

Tema de hoje: Home Schooling é uma solução para a educação na pandemia?

SOMIR

Não. Na sociedade moderna, Home Schooling não é solução pra nada. Essa fase da história humana já passou. Assim como usar sanguessugas para curar doenças ou tratar dos dentes com o barbeiro, ensinar a criança em casa é algo que aprendemos a duras penas que não contribui para o avanço da humanidade. Relíquia de um passado onde era a única alternativa, esse sistema de ensino só serve para uma função nos dias atuais: fazer lavagem cerebral religiosa em crianças.

São os ateus fazendo campanha por Home Schooling? São os cientistas? Não, são os fanáticos religiosos. Eles querem o poder de ensinar criacionismo e terraplanismo para seus filhos, sem ter que comparar suas visões ridículas sobre a realidade com fatos amplamente estudados que apenas um completo imbecil (ou alguém sem defesa nenhuma como uma criança) não perceberia serem muito mais convincentes.

É o tipo da coisa para a qual não se abre a porta. Você acha que está ajudando pais preocupados e preparados para cobrir as falhas do sistema educacional durante a pandemia, mas só está condenando crianças a aprenderem baboseiras religiosas que vão atrasar seu desenvolvimento intelectual, talvez de forma irrecuperável.

Você realmente acha que pessoas médias tem a capacidade e a disposição para assumir a educação do século XXI para seus filhos? Faça-me o favor. A imensa maioria das pessoas tem dificuldades de lembrar a tabuada do 2, quanto mais oferecer um pacote completo de informações sobre a imensa quantidade de áreas de interesse e estudo da humanidade moderna. Não estamos mais falando de crianças que vão crescer para cuidar de fazendas ou mesmo no máximo se especializar em uma profissão clássica.

No século XXI, o grau de competição é absurdamente maior, o básico que uma criança e posteriormente um adolescente precisa saber para ter uma chance mínima de não se tornar marginalizado por ignorância é várias vezes maior do que era em séculos anteriores. Não é à toa que a humanidade decidiu profissionalizar essa função. Pra ensinar matemática, você precisa saber matemática muito bem, não só ler um livro e repetir a informação. Geografia, língua portuguesa, ciências… só ensina quem sabe um mínimo.

Mínimo que, francamente, 99% das pessoas não sabem. Você pode até usar esse argumento para dizer que as escolas são ruins, mas… respira fundo e se prepara para uma verdade dolorida: todo nosso sistema educacional existe para dar suporte às raríssimas crianças que tem capacidade para ir além do gado médio. Não são muitas crianças que vão ter a nutrição necessária para desenvolver as capacidades intelectuais no limite máximo. E depois disso, não são muitas que vão ter um bom suporte em casa para se desenvolver. O cidadão médio trata escola como um sacrifício. Pouca gente vai tirar o valor máximo do ensino, e temos que garantir que esse pequeno contingente consiga extrair esse valor.

É por isso que eu não sou fã de Home Schooling nem para os raríssimos casos de pais com capacidade e dedicação para isso: o nível máximo não pode ser alcançado por uma pessoa qualquer, por mais inteligente que seja. Escolas dependem de vários trabalhadores especializados, que entendem bastante sobre suas funções e são guiados por sistemas burocráticos de alta complexidade para escolher as informações que são ensinadas a cada momento.

Educação é daquelas funções que todo mundo acha que pode fazer também, eu sou publicitário, então sei muito bem o que é isso. A verdade é que você provavelmente acha que não pode ser tão difícil assim ensinar uma criança a ler e escrever da mesma forma que acha que não pode ser tão difícil assim fazer uma propaganda que funcione. E, respira fundo de novo… se você acha que pode ensinar uma criança sem anos e anos de treinamento para isso, você com certeza não tem capacidade de ensinar uma criança.

Pedagogia não é só um curso para jogar mulheres que não sabem muito bem o que fazer da vida, é o resultado de milênios de tentativas e erros da humanidade na difícil tarefa de lidar com crianças e desenvolver seus potenciais. Você não vai saber o que fazer “por instinto”. Suas crianças não são filhotes de lobo que tem que aprender como morder animais menores e mijar em árvores, são seres humanos que vão ter que lidar com um mundo extremamente complexo, cheio de tecnologias que você nem imagina que existem.

É de um arrogância bizarra achar que pode oferecer algo parecido com uma escola decente. O governo precisa de um orçamento de bilhões para cuidar de algo que você pode fazer sozinho? Sério que você acha isso? Sério que você acha que uma pessoa pode fazer o trabalho de milhares? Home Schooling é colocar uma pedra no caminho da criança e a deixar atrasada em relação às outras. E olha que eu nem estou entrando no mérito de quebrar o desenvolvimento social dela. Uma das coisas mais importantes da vida escolar é a convivência com outras crianças, é o senso de comparação, de competição, formar relações e tentar aprender em conjunto.

Evidente que quem mais defende isso seja fanático religioso: o tipo de mentalidade necessária para achar que um ser mágico controla tudo dos céus combina perfeitamente com a ideia de achar que sabe o suficiente para ensinar uma criança a ser viável na sociedade do século XXI. Na vida real, a humanidade já aprendeu a duras penas que não trabalhar com gente especializada e sistemas muito bem organizados leva ao desastre. Vamos defender essas evoluções! Coloca na cabeça uma coisa: a profissão mais fácil do mundo é a profissão dos outros. Você não sabe fazer uma obturação se não for um dentista, você não sabe como operar um cérebro se não for um neurocirurgião, você não sabe desmontar um motor se não for um mecânico… mas sabe educar uma criança se não for um professor?

A era dos autodidatas e gênios multidisciplinares acabou… faz tempo. Home Schooling serviu há alguns séculos, hoje em dia, não serve mais.

Para dizer que o argumento não vale com escolas brasileiras, para dizer que a solução é aceitar que vamos ter muitos influencers, ou mesmo para dizer que sabe mais que todos os outros profissionais sem ter estudado para isso: somir@desfavor.com

SALLY

Home Schooling é uma solução para a educação na pandemia?

Sim. Não é “a solução”, mas é uma das soluções possíveis.

Eu não sou louca nem alienada, sei que muitos pais (talvez a maioria, principalmente no Brasil) não tem condições de se responsabilizar pelo aprendizado dos seus filhos, pois eles mesmos não têm a escolaridade ou capacidade intelectual suficientes para absorver um conteúdo e transferi-lo. Mas porra, dizer que NINGUÉM é capaz de fazê-lo é demais.

Existem pais que tem essa capacidade. Talvez não tenham vívido em sua lembrança todo o conteúdo ensinado na escola, mas podem muito bem pegar o livro didático da criança, ler e ensinar. E quem tem essa capacidade deveria fazê-lo. Então, é sim uma das muitas possíveis soluções para as dezenas de países que estão com as aulas suspensas.

Me dá uma pontada no peito quando escuto que a pessoa não tem tempo, paciência ou vontade e por isso não o faz. Se você não tem tempo, paciência ou vontade de investir na educação do seu filho, sinceramente, repense seu papel como pai/mãe. Deveria ser uma das coisas mais importantes da sua vida: o futuro do seu filho.

Eu sei que a vida de todo mundo (inclusive a minha) foi moldada em um determinado padrão de funcionamento social, mas esse padrão está ruindo e, não importa o quanto a gente esperneie e queira retomá-lo na marra, ele não vai voltar como era.

Podem forçar volta às aulas o quanto quiserem, a realidade não se importa com o que você quer. Ainda teremos muito problema e restrição por causa da pandemia e deixar seu filho sem educação ou com educação deficiente nesse meio tempo tendo a capacidade de proporcionar isso a ele é abandono intelectual.

Sei que no Brasil a questão escolar nem é muito relevante, pois estão tocando o foda-se e mandando criança para a escola de qualquer forma, mas, como eu disse, a realidade não se importa com aquilo que você quer forçar. Mesmo mantendo as aulas, a qualidade do ensino ficou sim comprometida.

A cada contágio, a cada professor doente, a cada professor sem disponibilidade emocional para ensinar de forma decente, a cada problema que essa pandemia interpõe entre um bom ensino e as crianças, a qualidade do aprendizado cai (ainda mais). O papel dos pais é agir de forma suplementar e assegurar a melhor educação possível para seus filhos. E isso não se faz apenas pagando escola cara.

Nessas horas, a gente vê claramente quem é pai/mãe e quem só quis ter filho. Quem tem a capacidade de aprender e ensinar tem a obrigação moral de fazê-lo. A educação dos filhos, eu suponho, deveria ser prioridade do pais. Tempo é prioridade: mesmo quem trabalha muito pode usar o pouco tempo livre que tem dedicado a seus filhos. Não é isso que significa ter filhos?

Cruzar os braços e assistir seu filho ter um ensino deficiente por causa da pandemia quando poderia fazer diferente também é abandono intelectual. Em um país difícil, abarrotado de gente e com um mercado de trabalho complicado, estas pessoas têm o privilégio proporcionar a seus filhos uma vantagem no ponto de partida: enquanto a maior parte dos brasileiros terá o aprendizado dos seus filhos prejudicado, a pessoa pode preparar seu filho e deixá-lo acima da média. Tem que ser muito idiota para não fazê-lo.

A verdade é que a maioria joga a criança na frente do Zoom e deixa ela assistindo uma aula online, ou manda para a escola e foda-se, é isso aí, faz parte do pacote atual que crianças tenham um ensino de merda, tá tudo certo. Só que não. Não está. Se você tem a possibilidade de dar ou complementar o ensino do seu filho e não o faz, você é muito, muito escroto e ignorante.

Uma pandemia não tem que significar uma geração perdida, com ensino deficiente, crianças com aprendizado capenga. Para muitas, infelizmente sim. Mas para todas não. Para algumas privilegiadas existe a opção de Home Schooling que pode sim fazer toda a diferença no seu futuro. Então, negar que esta seja uma, entre outras possíveis soluções, é um desperdício.

Claro que para isso os pais precisam se capacitar. Precisam entender um mínimo de didática, precisam estudar um pouquinho sobre como explicar, precisam relembrar o conteúdo. Felizmente, vivemos em um mundo com internet que tem milhões de sites, vídeos e livros explicando tudo que você precisa saber para assegurar um bom aprendizado para seu filho. Será um sacrifício? Óbvio. Não é fácil ensinar. Mas porra, o mínimo que se espera é que os pais façam um sacrifício pelo futuro dos próprios filhos… ou não?

“Mas a criança não quer”. Escuto muito isso. A criança está deprimida, desatenta, triste etc. Bem, cabe a você, como pai/mãe, entreter essa criança, alegrá-la, distraí-la, fornecer tudo que ela precisa para que seja capaz de aprender novamente. Ensinar não é só despejar conteúdo no outro. Tem contexto, tem didática, tem um grande investimento de tempo, dinheiro e emocional.

Se uma criança não quer estudar, o problema está em quem lhe transmite o conhecimento: não está sendo interessante, estimulante e didático o suficiente. Seja melhor, faça melhor. É do futuro do seu filho que estamos falando. É possível ensinar a uma criança em casa sim, desde que os pais coloquem isso como prioridade e invistam seu tempo livre nisso, em aprender como fazê-lo. A verdade é que a maioria que pode, não quer.

E, cá entre nós, crianças precisam de atenção em idade escolar constantemente, mesmo quando não havia pandemia. A escola dá alguma base, mas a criança tem que fazer dever de casa, tem que estudar em casa e não raro precisa de um reforço para aprofundar ou até compreender o conteúdo que lhe foi ensinado pela escola. Um Home Schooling, ainda que de forma complementar, deveria ser regra no Brasil.

O curioso é que os mesmos que eu vejo dizer que não tem “tempo” para isso eu também vejo bastante em redes sociais, em eventos sociais, em encontro com amante. O filho simplesmente não é prioridade. A pessoa faz o básico do básico, que é colocar a criança na escola, e acha que tá tudo certo. Pessoas medíocres criam filhos medíocres.

Existem pais que sim, tem total condição intelectual de ensinar a seus filhos, talvez muito melhor do que os professores estressados e desanimados que tem por aí. Não são todos, provavelmente nem são maioria, mas eles existem, portanto, é uma solução possível. Pode não ser a ideal, pode não ser a mais agradável, mas porra, é melhor do que nada.

Como eu disse, não é “a solução”, mas é uma das soluções. Jogar fora um recurso que pode ser de tanta ajuda descartando-o me parece um luxo ao qual o país não pode se dar no atual momento.

Para dizer que prefere deixar a criança na frente do Zoom mesmo, para dizer que o ensino sempre foi uma merda mesmo ou ainda para dizer que bons pais sempre fizeram algum Home Schooling para complementar uma educação merda, mesmo antes da pandemia: sally@desfavor.com

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Comments (42)

  • Eu não entendo por que falam que a legalização do homeschooling vai gerar um exército de ignorantes sendo que 99,9% dos pais, tanto ricos e pobres, não vão abrir mão de despachar os filhotes pra ter algumas horas de paz. A maioria dos ativistas de home schooling são pais de crianças com necessidades especiais, como autismo, deficiência física, superdotado. São pais realmente dedicados aos filhos e com um bom nível de renda pra fornecer o home schooling pra eles. Punir essas pessoas por causa da maioria não parece justo.

  • Imagina só alguém voluntariamente defender e submeter o filho a uma educação que categoricamente por mais de 20 anos obtém uma das piores pontuações no PISA a nível mundial, num dos países com maiores índices de bullying, inclusão de deficientes completamente medíocre, e achar que o conceito de ensino doméstico é maluquice.

  • Que estranho, cliquei no texto pensando que as opiniões da Sally e do Somir seriam invertidas já que o Somir tem tendências mais liberais.
    Homeschooling deveria ser uma opção, sim. Tem estudos (google é seu amigo) comprovando que o homeschooling bem feito não prejudica socialização e aprendizado e pode até ser melhor que a escola tradicional por haver a possibilidade de adaptar a rotina de estudos às necessidades e habilidades da criança. Socialização dá pra fazer com vizinhos no parquinho ou se reunindo com outras famílias que praticam o homeschooling, tem várias comunidades na internet a respeito.

    Vocês levantaram a hipótese de famílias pobres ou negligentes e abusivas, mas essas dificilmente adotariam o homeschooling, mandam a criança pra escola pra se livrar dela por algumas horas, pra comer alguma coisa ou porque não sabem nem como se escreve homeschooling. Além disso o ambiente escolar não está livre de negligências e abusos.

  • A princípio, nós que não temos filhos nem deveríamos participar da tomada de decisões relacionadas a crianças e adolescentes. É fácil ficar formulando teorias mirabolantes, dizer que “se fosse eu meu filho seria diferente”, mas só tendo pra saber.

    E é fácil generalizar que quem é a favor da opção de homeschooling é religioso fervoroso, sendo que na turma anti-homeschooling tem muita gente querendo “desconstruir” os filhos dos outros pra virarem um bando de aberrações viciadas em drogas, pornografia e que endeusam políticos de esquerda. Ambos os lados tem gente mal intencionada.

  • “Home Schooling é uma solução para a educação na pandemia? Sim. Não é ‘a solução’, mas é uma das soluções possíveis”.

    Em um tom pessoal, meus avós lançaram mão do home schooling quando vieram para cá como imigrantes e vieram trabalhar “enganados” na roça para fazer a América. Foram dekasseguis quase 70 anos antes do que eu.

    Havia até uma escola comunitária na colônia, mas, para sobreviver, todos tinham que trabalhar. Minha avó passou anos colhendo algodão e café com um bebê nas costas (alguns de meus tios e minha mãe)

    Depois de 10 horas ou mais de labuta, eles ensinavam o que aprenderam no ensino médio lá no Japão (o que não era pouca coisa, pois já naquela época, o Japão introduzira um currículo escolar que misturava o que havia de melhor do ensino dos principais países europeus com que tinham relação comercial. Meu avô teve inglês na sua escola pública lá) e procuravam seguir o programa educacional da escola da colônia na medida do possível pois todos os braços da família estavam na lavoura. Tudo isso sem água corrente e energia elétrica.

    Era um sistema interessante: ao mesmo tempo que os pais procuravam ensinar seus filhos em casa, alguns pais mais capazes ensinavam seus filhos e os filhos dos vizinhos.

    Para isso, compravam o que podiam de livros e revistas japonesas trazidas pelos caixeiros viajantes e, na maioria das vezes, pegavam livros emprestados dos vizinhos mais prósperos. Ensinavam o que sabiam de matemática, japonês, história, geografia para os filhos.

    A ideia era educar os filhos para voltarem ao Japão. Mas aí veio a guerra e, com ela, começaram a desmantelar todas as escolas comunitárias e a prender quem insistia em ensinar os filhos por conta. Meu vô não foi preso, mas enterrou muitos de seus livros até a guerra acabar para não tê-los confiscado, ensinando os filhos praticamente com o que sabia de cabeça.

    Posteriormente, foram todos para o ensino público nacional, que não lhes serviu pra muita coisa (minha mãe apanhou da professora no primeiro dia de aula porque não sabia falar português).

    Resultado: meus tios e minha mãe sabem ler e escrever fluentemente em japonês, algo que nem todo descendente consegue. Isso foi a tábua de salvação para muitos da família quando foram trabalhar no Japão a partir dos anos 80, arranjando empregos em condições melhores.

    Mas o pulo do gato do legado do home schooling dos meus avôs foi passar o quando o estudo vale a pena para os filhos. Alguns de meus tios e minha mãe quase chegaram na faculdade, mas faltava todo tipo de condição para eles, pois meus avós eram meeiros que não falavam português e se aposentaram como trabalhadores rurais. A alegria deles foi quando os filhos deles todos entraram na faculdade (eu no meio).

    Isso não só é um privilégio nosso. Os judeus também são um excelente (e melhor) exemplo histórico da importância do home schooling, por conta de serem constantemente forçados a viveram sob todo o tipo de restrição (como viver cerrados em guetos, vejam só), e eventualmente se mudar de um país para o outro ao longo de milênios e por várias vezes ao longo da vida.

    O ensino doméstico aparentemente limitado ao religioso escondia a necessidade pragmática de serem alfabetizados (dentre outras habilidades) para atuarem em setores econômicos que não lhes eram vedados (fazer empréstimos, celebrar contratos, importação e exportação entre vários continentes, com a necessidade de dominar vários idiomas) e que lhe permitissem portar a riqueza consigo (tanto material quanto intelectual).

    E, tal qual para os japoneses, a importância do ensino para os judeus é tão arraigada que, mesmo durante a segunda guerra, cerrados nos guetos esperando a morte e combatendo os nazistas, não deixaram o estudo de lado (veja a história dos Irmãos Bielski que montaram um enorme esquema de home schooling no meio do mato para as milhares de pessoas que os acompanhavam, enquanto sobreviveram à guerra combatendo nazistas).

    Não por menos, anos atrás, saiu um artigo do jornalista Gilberto Dimenstein, que mensurou o IDH em pessoas aqui em São Paulo. Resultado: judeus e japoneses tinham a média mais alta de IDH.

    • Porra, olha isso! Se uma pessoa consegue passar dez horas na lavoura com o filho nas costas e depois ainda dar aulas e passar conhecimento para o filho, eu não admito pseudoexecutivo que se diz “exausto de reunião no Zoom” dizer que não tem tempo. Ô geração merda essa atual…

      • De resto, o Japão hoje tem uma enorme comunidade de chineses e coreanos que, dada a proximidade de seus países, trabalham no país para um dia voltarem prósperos para casa. Nisso, emendaram a fazer home schooling para seus filhos.

        Só que, com limitações semelhantes de horário de ensino por também serem trabalhadores braçais na sua maioria, optaram por quebrar o pau com o governo japonês e demandaram escolas públicas com oferta opcional de currículo do ensino de seus países. O que conseguiram em algumas províncias nos anos 90, meio por sentimento de culpa do governo por conta das atrocidades cometidas por toda a Ásia durante a segunda guerra.

        Isso tornou o home schooling deles ainda mais eficaz para integrar os filhos de volta a seus países.

      • Obrigada. Para um casal de avós interessados sem (tantas) condições ter dado frutos apenas duas gerações depois, fico pensando no estrago que pais desinteressados com tantas condições causariam gerações a fio…Causa arrepios.

  • Apesar de eu ter feito um curso de licenciatura, e ter desistido da vida acadêmica, ainda assim eu “abraço a causa”, por assim dizer. Teorias da educação são lindas, não vou me estender aqui com um comentário enorme divagando sobre Vygotski, Dewel, Piaget, Freire, Steiner etc etc etc. Só digo mesmo que sou da turminha contra o homeschooling.

    Na realidade que se encontra o pais, e diante de tantos problemas, não dá pra implantar pra geral. Mas, considerando o perigo da pandemia e tudo mais, ead é o que sobra mesmo, por mais que seja precário e difícil. Acho que uma solução mais profícua mesmo seria pensar em melhores formas de atrair o aluno para as atividades não presenciais, mas a forma de fazer isso é que são elas.

    O importante é que se mantenha a tarefa de educar dada ao professor ou pedagogo responsável, afinal… Ele estudou para aquilo! E muito dificilmente – por mais que determinados pais tenham sim estudado determinado conteúdo, tenha lá formação superior – , vai conseguir ensinar direito, porque pode faltar aquele fator “didático”, pode faltar conhecimentos específicos sobre como se trabalhar aquele conteúdo com o aluno. Deixar pra que qualquer um ensine, a meu ver, é banalizar a educação.

  • Lembrei do caso da garota que foi impedida pela Justiça de estudar na USP. Estudante de homeschooling. E ainda ganha oportunidade nos EUA. —> https://educacao.uol.com.br/noticias/2021/05/05/estudante-de-homeschooling-barrada-na-usp-ganha-oportunidades-nos-eua.htm

    Vendo esta notícia, me parece que nada deveria impedir a prática, ao menos como complemento ao que já se estuda na escola, do homeschooling.

    Mas é triste que a maioria dos pais não têm capacidade para ensinar seus filhos? É. Uma minoria com certeza conseguirá aproveitar o homeschooling. Mas e a maioria restante? Pedir para essa maioria esse tipo de coisa seria, a meu ver, um empecilho, e não uma solução, porque a maioria não tem a habilidade ou o estímulo necessário para avaliar a própria educação de uma forma realista, direta, racional e crítica.

    E, do que vejo, essa maioria será, dentro de 20 a 30 anos, a maioria de nossa população. Se nessa democracia é a maioria que decide pelo que chamam de ‘rumos’ do país (sinceramente, democracia me parece um sistema falido, mas a consideremos mesmo assim), o que esperar?

    E considerando que estamos em um tempo de pandemia, a pergunta que me vem à mente é: o que fazer quanto à maioria?

    • Eu nem sei se deveria ser permitido em situações normais, confesso que não me sinto qualificada para opinar nesse caso.

      Mas no caso da escola não ser uma opção, aí eu sou totalmente favorável.

    • Mas essa garota não é autodidata? Pelo que sei é muito raro esse tipo de gente, que aprende sozinho. Claro que todos nós podemos aprender se estudarmos, mas me parece que já é porque ela tem inteligência acima do normal. Nem eu me garanto pra aprender algo sem orientação.

  • Homeschool é proibido na Alemanha e China, e não é bem visto nos Países Baixos, Espanha, Suécia. Essa modalidade só ensina matérias curriculares, exitem tb habilidades sociais que não são levadas em conta nesse método. Crianças precisam de interação pra desenvolver suas funções psicológicas, linguagem e comunicação. Vygotsky já afirmava isso em 1930. Homeschool serve apenas como complemento por ser muito limitada. O método cuspe e giz continua igual enquanto tudo mudou. Países que evoluíram suas pedagogias e mantem o pandemia sob controle retornaram o ensino presencial fora das salas, com aulas ao ar livre.

    • Ok. Críticas válidas. Mas e quando as escolas estão fechadas? Quando escola não é uma opção, é melhor deixar as crianças sem aula?

      • Homeschool em último caso é válido, com consciência de que esse método deixa lacunas que os pais devem preencher. A socialização tb pode ser mantida por ligação, skype, carta, email, aumentar o convívio entre as pessoas da casa, fazer alguma coisa que envolva interação.

  • Considerando o fato de que a pandemia não tem prazo definido pra acabar, especialmente no Brasil, acredito que deva ser uma ferramenta que deveríamos ter à disposição. Até porque, se eu tivesse filho, teria lá as minhas ressalvas em mandá-lo bem pro meio de uma baita aglomeração, com os “protocolos de segurança à brasileira”.

    A meu ver, o problema do homeschooling é quase o mesmo problema da discussão sobre porte de armas: passa principalmente pelo problema que não é seguro dar esse direito pra qualquer um. Existem por aí pais que poderiam educar os filhos a contento? Sim, como também existem pessoas que poderiam ter armas em casa sem maiores contratempos. Mas quando você implementa esses sistemas, você convive com o risco de fabricar novas gerações de criacionistas fanáticos. Ou tiroteios.

    Ter um sistema de homeschooling seguro, que garanta um mínimo de qualidade educacional longe de profissionais especializados, requer garantias de que esse direito seja concedido a pais altamente comprometidos com a educação dos filhos, e monitoramento de resultados por parte das autoridades educacionais.

    Mas no Brasil, nem centralizando e monopolizando a educação nas escolas há garantias de qualidade. Certamente seriam um ou dois alunos com a sorte de ter pais envolvidos de fato na educação dos filhos, e o resto em um esquema de cegos guiando cegos…

  • Pra que home schooling se já existe EAD? Se não tem cpu, faz pelo celular, pô! Só vejo fanáticos apoiando isso. Imagino o ensino de ciências deles, o gado do Bozo que vacina tem o chip do 666 e os jumentos do Luladrão explanando os benefícios das drogas!

    • Um não é excludente do outro. As crianças que eu conheço estão aprendendo muito pouco no EAD. O ideal seria ambos.

  • No Brasil pelo menos não faz diferença. A criança pode sofrer abusos, distrações ou ter péssimo conteúdo em ambos ambientes. Escola não é mais pra ensinar, lar não é mais pra educar… Até professor apanha na escola, mas com homeschooling pelo menos seria pai/mãe que a arcar com seu “anjinho”.

    Se não é pai/padastro alisando menina, é o professor, o zelador, outro colega… Se não é o “amiguinho” da turma ou os “aviãozinho” no portão da escola que apresenta drogas ao menino, é o primo, vizinho, irmão mais velho… Aprende Evolução na escola na sexta, tá, mas chega domingo, vai no na escolinha dominical onde ouve que a Terra é plana, mulher tem que ser submissa e ficar em casa parindo.

    Como não existe poder público, mobilização comunitária, nada, em nenhum momento as crianças têm essas ideias confrontadas. Pelo contrário… Político tocando foda-se pro laicismo, cursos de pseudociência nas faculdades… Não faz mais diferença. Só põe aí no vestibulá o que precisa pra passá.

    Aí você pensa “tá, mas empregadores e academias pelo menos filtrariam os aptos, certo? Logo, um certo padrão não vai vigorar se a sociedade escolher o certo e…” Não. Se a pessoa aceitar trabalhar por uma coxinha azeda e tiver o diprôma, foda-se. Põe aí. O cara acredita e VAI ensinar criacionismo (escorado em deturpações de leis “anti intolerância religiosa”), mas se formô em biolojia, taca aí como profeçô.

    Brasil é a nação em que até Monark de Podcast Flow consegue induzir alguém a usar drogas. “ain meu filho vai ver esse cara e vai querer fumar maconha”. Ou seja, pais e mestres já desistiram faz tempo. Mais fácil jogar a culpa em um sequelado do Youtube.

    Agora se vocês referem a qualquer outro país da Terra, outros 500.

    • Tem de tudo, no mundo e no Brasil. Vai ter quem consiga se beneficiar de Home Schooling no Brasil, ainda que seja uma minoria bem minoria. Como tem quem se beneficie, eu acho que pode ser uma entre muitas outras soluções.

  • todo nosso sistema educacional existe para dar suporte às raríssimas crianças que tem capacidade para ir além do gado médio

    Se fosse assim até seria menos ruim, mas acho que isso não é toda a história. A triste verdade é que esse sistema existe também pra servir de depósito de crianças, pros pais e mães pobres terem onde deixar as crianças enquanto trabalham. Vi pessoas até na televisão (spoiler: Atualidades Pampa) defendendo a volta das aulas presenciais e usando esse argumento, de que manter as escolas fechadas prejudica a economia porque pais e mães ficam sem ter onde deixar as crianças durante o dia..

    • Eu tenho um terceiro palpite: o sistema educacional como está, é um sistema obsoleto para ensinar a criança a ser um mero empregado, adotando um sistema quase fabril: hora para entrar, hora para sair, uniforme, apito que te avisa quando você pode parar para comer…

      • Sim, Sally, esse sistema tá falido mesmo. O curioso é que Foucault, já nos anos 1970, denunciava isso: vivemos sempre numa sociedade de vigilância constante, todos os “aparelhos” e instituições são projetados pra isso: escolas, exército, hospital, igreja, indústria, etc. E é assim que circula o poder, através da vigilância constante dos indivíduos e da categorização do que se considera normal ou fora do padrão. Mas, se temos tanta vigilância assim só para garantia do poder, talvez até essa forma de manter o poder tenha que ser reavaliada, não?

    • “manter as escolas fechadas prejudica a economia porque pais e mães ficam sem ter onde deixar as crianças”
      Que desculpa esfarrapada desse povo. O que mais tem é pai e mãe que fica com a criança em casa o dia todo (desempregado, desocupado, etc.) mas não querem fazer nada pra colaborar no ensino do próprio filho. São várias situações, mas a escola realmente parece ser um depósito pra deixar a criança jogada. Tem casos também onde a escola serve para as crianças se alimentarem (escolas públicas), algumas só vão pra tomar café ou almoçar, pois em casa só tem cerveja e café pra encher o bucho. Qualquer coisa seria melhor que um genocídio, o ideal seria aulas online, realmente, mas parece que tudo e todos já tacaram o foda-se pra educação. Acho que é cada um por si agora.

      • “Tem casos também onde a escola serve para as crianças se alimentarem (escolas públicas), algumas só vão pra tomar café ou almoçar, pois em casa só tem cerveja e café pra encher o bucho.” Triste, mas é verdade. E não são poucos.

    • Também discordo dessa idéia. Eu acredito justamente no contrário, que o nosso sistema educacional na verdade limita o crescimento das crianças que tem potencial pra ser além de um gado. Professor tá cagando pro desenvolvimento do aluno, está lá só pra bater ponto e fazer a carga horária. Se duvidar ainda acha ruim de um aluno sair fora do script e ter dúvidas e questionamentos inesperados.

      Aí tem o resto dos alunos, alguns que não diferem muito de macacos, que vão bulinar o aluno promissor até ele aprender que não deve se destacar do resto da selva. Daí cresce escondendo o potencial, sem explorá-lo, porque expôr ele só vai trazer coisas ruins.

  • Ignorando aulas online (e a qualidade delas), durante uma pandemia eu voto em educação em casa. Não, não sou profissional da área de educação e não lembro de metade das coisas que meu guri estuda, mas antes isso que participar de um genocídio.

    Se aulas online forem consideradas educação em casa, vide acima sobre genocídio.

  • “Existem pais que tem essa capacidade.” Infelizmente no Brasil é uma minoria Sally… Muitas crianças serão prejudicadas pelos pais irresponsáveis que tem. Concordo que essa solução é a necessária, mas nesse país precário teríamos que pensar numa alternativa ou fazer dessa forma e piorar um sistema que já estava ruim.

  • Nessa situação o ensino em casa pode ajudar as crianças, mas tem um obstáculo: os pais. Se forem os pais que vão ensinar as crianças só lamento, ninguém vai estar disposto a esse sacrifício. Não estou considerando o ensino virtual com professores online, até porque até dessa forma precisa ter a orientação dos pais para cobrar o aprendizado. É um trabalho repetitivo, e tem que verificar se a criança está fazendo a sua parte. Ano passado eu estava ensinando língua estrangeira para o ensino infantil e os pais chegam até mim pedindo pra entupir as crianças de tarefa de casa porque “não quero que meu filho me perturbe em casa”. Sem mentira, os pais não querem as crianças perturbando “sei lá o que” em casa, imagina se comprometer a ensinar uma matéria que seja. Eu não contaria com os familiares pra isso. Teve um outro pai que me perguntou se podia ensinar no particular na residência dele, mas nessa situação eu tive que recusar. Complicado.

    • Complicado e poucos pais conseguirão cumprir a tarefa. Porém, possível, ainda que para uma minoria, então, é uma solução viável. Não é a única, mas é uma solução viável.

  • Mas DAONDE o Somir tirou que só fanático religioso faz campanha para home schooling? Tem algum dado disso? Nunca ouvi falar.

    O Rafael do canal Ideias Radicais sempre apoiou e fez campanha para o home schooling e “respira fundo e se prepara para uma verdade dolorida”: ele é ATEU.

    Recentemente ele conseguiu algumas vitórias para o home schooling no sul do Brasil (não lembro aonde exatamente).

    • Como qualquer categoria, tem de tudo: tem ateu, tem fanático, tem preto, tem branco, tem judeu, tem todo tipo de gente querendo home schooling.

  • Já não aprendem na escola, ainda querem transferir pra casa? Porque o durante a pandemia significa pra sempre, porque só os iludidos acham que essa pandemia vai acabar. Não compensa os deagraçamentos que o Somir citou. Lembrando que os crentelhos de hoje serão os profissionais que vão te atender no futuro pra tudo.

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