Cultura dividida.

Embora a linha divisória entre cultura ocidental e cultura oriental esteja cada vez mais borrada, ainda podemos diferenciar alguns fatores determinantes de cada uma delas. Sally e Somir discordam sobre o pior aspecto da que domina o nosso lado do mundo. Os impopulares demonstram se são cultos.

Tema de hoje: qual o pior aspecto da cultura ocidental?

SOMIR

É clichê, mas o é por um bom motivo: consumismo. A divisão entre as mentalidades vigentes entre Ásia e Europa acabaram se perpetuando depois da era dos descobrimentos. Sim, vivemos num mundo cada vez mais globalizado, mas não podemos negar que a cultura de países como o Brasil é altamente influenciada por europeus, e mais recentemente, americanos.

Eu vivo falando sobre como é até chato como o Brasil de hoje é simplesmente uma imitação barata da cultura americana com alguns anos de atraso. Muito do que a gente considera cultura brasileira é superficial: usamos roupas diferentes e corrupção é mais aceita, mas na base da sociedade é só uma cultura americanizada que come farinha de mandioca.

E nem mesmo os ianques são muito originais: misturaram os ingleses mais irritados com a monarquia e diversos outros imigrantes europeus procurando oportunidades para criar o tal do “sonho americano”. Mas essa história de buscar originalidade cultural é um caminho sem volta: vamos acabar falando de romanos, gregos… e nem mesmo eles inventaram tudo o que consideramos cultura ocidental.

Seja como for, podemos considerar que no século XXI, o que consideramos cultura ocidental é basicamente o que os americanos empurraram nessa metade do planeta durante o século XX. Uma cultura pós-industrial, focada em crescimento econômico “infinito”. Para dar vazão à produção interminável de produtos, serviços e ideias vindas da potência hegemônica do século passado, era extremamente importante empurrar a ideia do consumo como meta de vida.

Não adianta produzir sem parar se não tiver gente querendo consumir. E por décadas e décadas, isso foi incentivado em todo canto onde a influência americana era possível. Não estou dizendo que os americanos inventaram o conceito de “ter para ser”, estou apenas dizendo que eles colocaram isso na frente da sua mensagem para o mundo. E o mundo escutou.

Se por um lado não podemos negar que essa mentalidade mantém as economias aquecidas, por outro isso não vem de graça: quando você faz um ser humano crescer ouvindo que seu valor pessoal é equiparável ao número de coisas que consegue consumir, está criando não só uma cabeça desesperada por validação externa, como também está dizendo que não existe equilíbrio com o ambiente externo.

Explico: se você tira o seu valor das coisas que possui, esse valor é constantemente comparado com o de outras pessoas. Não só a pessoa cai na armadilha de achar que precisa de um carro para ser feliz, como também começa a comparar o carro que tem com o de outras pessoas, achando que isso de alguma forma as define como melhores ou piores. Detesto parecer comunista com esse tipo de conversa, até porque passo longe de acreditar em igualdade obrigatória (especialmente debaixo de uma ditadura), mas se tem uma coisa que eles acertam é nessa análise: o ser humano tem mais paz de espírito quando percebe que está equiparado aos seus pares.

Quando você adiciona o consumismo à equação, começa a criar desigualdades. Desigualdades que vão aumentando o grau de ansiedade e frustração em pessoas que no fundo nem precisavam consumir tanto quanto consomem. Na prática não faz muita diferença ter um iPhone de 10 mil reais ou um Xing-Ling de quinhentos, mas as pessoas foram tão condicionadas a equiparar valor pessoal com o custo dos objetos que compram que seu status social pode e será definido de acordo com qual deles você comprar.

Consumismo funciona como um atalho para valor pessoal. Já que você não vive num ambiente igualitário, resta a você apenas lutar para estar em posições privilegiadas. Talvez a pessoa nem ligue para esse tipo de status de verdade, mas o sistema exige que todos nós entremos nessa disputa por valorização através do consumo. Ter… para ser.

Meio complicado falar sobre consumismo como fenômeno ocidental considerando como culturas como a chinesa e japonesa estão fortemente influenciadas por esse “americanismo consumista” nos dias atuais, mas ainda existem alguns mecanismos de controle social naquela metade do mundo que não dependem tanto assim de comprar coisas. A cultura oriental ainda valoriza muito a padronização de comportamento, o orgulho pessoal e o respeito aos mais velhos.

O que parece que não tem nada a ver com consumismo, mas são alguns antídotos poderosos contra a ideia de valor pessoal pelo consumo. Nas culturas orientais, destacar-se não é muito bem-visto. O que tem sim seus problemas, mas serve como uma forma de controle contra o exagero consumista. Ainda existe algum estigma contra a pessoa exibida, que usa seus recursos para esfregar sua suposta superioridade sobre os outros. Além disso, é extremamente importante não passar vergonha diante dos seus pares, ainda dentro da lógica de evitar destaque excessivo.

Essa ideia de não chamar atenção reduz o apetite por riscos e insanidades em geral nos ricos de lá. Não impede, é claro, mas diminui o seu impacto na cultura local. Bilionários chineses fazem muito menos barulho que os ocidentais. Bilionários japoneses então? Aposto que você nunca ouviu falar de um deles. Isso reduz o desespero do cidadão médio ao se comparar com quem é capaz de consumir mais que ele. Até mesmo a ideia de respeito aos mais velhos, algo pouco considerado do lado ocidental do mundo, influencia na empolgação consumista: status pode ser conquistado sem comprar nada, apenas por existir.

Por esses lados, o consumismo se mistura com o valor pessoal de tal forma que o cidadão médio só consegue enxergar sua função no mundo de acordo com o que tem e consome. Não é à toa que tantos jovens da periferia admiram artistas e esportistas que exibem sua riqueza, muitas vezes independentemente da sua capacidade pessoal. É a cultura que valoriza vencedores do BBB e não sabe o nome de nenhum cientista.

Não sei quanto tempo isso vai durar, mas na China as crianças ainda querem ser astronautas. Nos EUA, e provavelmente no Brasil, elas querem ser youtubers. O valor não é sobre o que se conquista como pessoa, é sobre como os outros vão o categorizar. Fama e dinheiro parecem o único caminho viável para uma vida de sucesso.

E aí, dá-lhe Rivotril para lidar com suas metas absurdas que nunca se concretizam (fama é loteria). Consumismo é pior do que torrar dinheiro com bobagem, consumismo é acreditar no papo furado que sua felicidade está à venda em algum lugar. Pode ser útil pra rodar a economia, mas é um veneno para a mente.

Para me chamar de hippie imundo, para dizer que é engraçado um publicitário dizer isso, ou mesmo para dizer que todas as culturas são uma merda: somir@desfavor.com

SALLY

Qual é a pior premissa da cultura ocidental?

Quase todas são uma bosta, mas a pior me parece a forma como se lida com a morte. A morte é a única certeza que temos na vida e, ainda assim, lidamos com ela de forma a gerar dor, sofrimento, perda.

Não sei o que acontece após a morte (ninguém sabe, por mais que alguns achem que sabem), mas, esta vida, como a conhecemos, nossa existência aqui, se encerra com ela. É algo inevitável, é o destino de todos nós, então, não faz o menor sentido colocar nisso uma carga de sofrimento.

Muitos outros hábitos causam enorme mal às pessoas, à sociedade e ao planeta, porém, a forma como lidamos com a morte me parece ser a única que afeta a todos e à qual é mais difícil de reverter. Eu já vi gente abandonar vício, eu já vi abandonar o consumismo, eu já vi gente superar muitas questões, mas poucas vezes vi alguém não ficar mal quando morre alguém querido.

O medo da morte, própria ou de terceiros, nos afeta das mais diferentes formas. O medo da morte, ou do sofrimento que ela pode provocar, nos norteia em diversas escolhas de vida. É algo tão internalizado que muitas vezes nem paramos para refletir em todas as implicações que isso tem. A caga de estresse que isso gera no nosso organismo durante toda a vida, por mais que a gente tente não pensar no assunto, é significativa.

Não quero dizer que todos tenhamos que arriscar nossas vidas diariamente como forma de não temer a morte, meu ponto é outro. Devemos nos cuidar sim, pois se estamos aqui temos alguma coisa para fazer aqui, mas não temer ou sofrer a morte. Começar a tratá-la com naturalidade. Da mesma forma que ajudamos muita gente a viver, deveríamos poder ajudar a morrer.

Poucas pessoas morrem com dignidade em países com essa mentalidade. As pessoas têm uma vida sem qualidade prolongada por meses e até anos em função do terror que seus entes queridos têm de deixa-la ir ou da crença de que “tem que tentar” até o último minuto tudo que esteja disponível para a pessoa viver. Entendo que tem que tentar tudo para curar uma pessoa, mas para postergar uma vida de doenças? Não, obrigada.

Pessoas passam seus últimos dias, meses ou anos no mundo sendo cutucadas, espetadas, examinadas, operadas, intubadas, quando nada disso vai reverter seu quadro. Famílias clamam por medidas que apenas adiam uma morte inevitável para postergar o sofrimento que cedo ou tarde vão sentir, às custas do sofrimento do doente. Isso é uma crueldade, um egoísmo, uma desumanidade.

Pessoas não tem o sagrado direito de escolher como e quando vão morrer, mesmo sabendo que a morte está chegando de forma lenta e dolorosa por alguma doença incurável. Pessoas são sujeitadas diariamente à indignidade de amargar cada etapa de uma jornada de dor, angustia e indignidade até que seus corpos finalmente cheguem ao exaurimento e não tenham condições de continuar – e, mesmo exauridos, às vezes ainda são mantidos vivos artificialmente.

E isso é um problema que pode (e provavelmente vai) afetar a todos nós, afinal, até segunda ordem, todos vamos morrer. Aquele desejo que todo mundo tem de morrer sereno, dormindo, sem dor, medo e sofrimento acontece para poucos. A verdade é que a maioria dos que não morrem de forma violenta, morrem sofrendo lentamente, proibido de acelerar o processo, graças a uma premissa idiota de querer lutar “contra a morte” não importa o que aconteça. Essa luta, meus amigos, a gente perde no dia em que nasce.

Sofre quem se vai, por não poder acelerar o processo ou escolher como quer partir, sofre quem fica, por ter sido ensinado a olhar desde o ângulo da perda, da falta, do desamparo, em vez de agradecer o tempo que pode passar ao lado de quem partiu. Todo mundo sofre. Ninguém esboça uma vírgula para mudar essa premissa, que, de tão enraizada na nossa cultura, nem mesmo lembramos que ela pode ser mudada.

Hoje temos movimentos de conscientização contra depredação, consumismo, tabagismo, violência e muitos outros. Mas temos pouco e nada de pessoas falando sobre como encaramos a morte de uma forma escrota e de como prolongamos o sofrimento de forma desnecessária pelo medo em deixar o outro partir. E menos pessoas ainda tentando mostrar que a partida de alguém não precisa ser encarada como perda, sofrimento ou desamparo.

As poucas pessoas que contestam a dor da morte o fazem com base em alegorias risíveis como espiritismo, que na verdade nega a morte e te faz acreditar que aquela mesma pessoa está em outro lugar, o que para mim é ainda mais desesperador: será que a pessoa está bem? Será que ela está com medo? Será que ela vai reencarnar no Brasil? Enfim, todo tipo de sofrimento ainda pode acontecer.

Pouquíssimas pessoas têm a sanidade e maturidade de tratar a morte como ela realmente é: um destino natural de todos para o qual não temos a explicação. Respirar fundo e dizer “eu NÃO SEI o que acontece depois que uma pessoa morre”. Dói tanto não ter o controle de tudo?

A forma como tratamos a morte, e eu me incluo, mostra como somos obsessivos por controle, como temos a mente limitada e como somos condicionados pelas nossas crenças. Construímos uma sociedade toda ao redor da morte em vez de fazê-la focada na vida.

E é uma forma de funcionar muito difícil de mudar, pois vemos esse sistema de pensamento desde pequenos. Dificilmente quem te oferece outra alternativa o faz sem essas alegorias mágicas que tanto me ofendem. Dar qualquer resposta para o que acontece após a morte é igualmente errado: vira purpurina, vira estrelinha, vai pro Nosso Lar, reencarna ou vira unicórnio, tudo no mesmo grau de ridículo de pessoas que não sabem do que estão falando, mas afirmam como se soubessem.

Morte, hoje, é sofrimento ou misticismo. E não precisava ser assim. Passou da hora de vozes mais sensatas começarem a se levantar para tratar desse assunto com uma abordagem melhor, quem sabe assim nós não teremos que morrer cercados de medo, sofrimento, dor e indignidade.

Para dizer que “não sei” é para os fracos e os fortes sabem tudo, para dizer que o assunto é tão mal resolvido que nem consegue falar sobre morte ou ainda para dizer que quem você ama nunca vai morrer: sally@desfavor.com

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Comments (10)

  • Levando em conta filmes e novelas asiáticas que eu vejo, asiáticos também não são lá muito bons em lidar com a morte…

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    • Não tenho profundo conhecimento, mas a cultura Oriental me parece um pouco menos estressada com isso.

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      • Novelas indianas são tão dramáticas (muito mais que novelas latinas!) a ponto de virarem meme, mas não sei até que ponto entretenimento é uma boa fonte pra entender uma cultura.

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        • Quer dizer então que existe algo ainda pior do que os dramalhões mexicanos? Eu não sou noveleiro, mas fiquei genuinamente curioso para dar ao menos uma espiadinha. Imagino que as atuações sejam tão exageradas que chegue a ficar caricato…

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  • É só nascer e já começamos a morrer.
    Cada segundo que passa é 1 segundo a menos de vida a ser vivida.
    É um porre saber que vai morrer, mas… que se há de fazer?
    Não dá pra fugir.
    É um tema cabuloso, real e sufocante esse.
    Que sentido teria uma vida que nunca acaba?
    Who wants to live forever
    https://www.youtube.com/watch?v=Ytxj3JFcQZE

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  • Acho que na cultura ocidental tem faltado um sentido de transcender. Não no sentido espiritual, mas sim no sentido de dar um sentido a sua existência, justamente por ser finita. De se permitir ser uma ponte para as próximas gerações (não necessariamente seus filhos, ate porque há gente sensata que opta por não tê-los) para deixar algo significativo para o mundo, mesmo que seu nome nunca venha à baila, a fim de deixá-lo com um cheiro um pouco mais suportável pelo menos só por ter tentado buscar a excelência pela excelência.

    Não há coisa pior nessa vida do que ser morno, independente da questão de ter ou não um além à sua espera. Dá pena ver os recursos do planeta sendo consumidos geração a geração para manter vivas pessoas que, na média, aspiram a casa, carro, apartamento, férias na Praia Grande (ou na Disney) e ter grana para assistir seu time chegar na final de algum campeonato pelo mundo.

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  • Nessa estou com o Somir. A forma de lidar com a morte é dispar mesmo quando fazemos a comparação entre os países ocidentais.

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